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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Entenda: nenhuma religião estruturada com rituais, dogmas, deuses, entidades ou santos, surge do nada. Todas as religiões são consequência de uma ou mais fontes que influenciam aquela nova percepção sobre a vida material e espiritual. E com o Cristianismo não é diferente.

Se você já viu a Bíblia ao menos uma vez na vida sabe que o Antigo Testamento é um livro judaico, e que é, portanto, oriundo do Judaísmo, tendo sido o próprio Jesus um judeu. Isso já seria suficiente para dizer que o Cristianismo não é uma religião totalmente original assim, correto? Mas se baseado nisso você acha que o Judaísmo é a única religião que ajudou a formar o Cristianismo tal como o conhecemos hoje, este livro vem para lhe mostrar que você está redondamente enganado.

A ORIGEM EGÍPCIA DO CRISTIANISMO é um livro escrito por Lisa Ann Bargeman contém 158 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Pensamento.

Se você é o tipo de pessoa que adora estudar história ou religião e realmente se dedica a esses assuntos, cedo ou tarde notará algo interessante: você sempre será levado para o Antigo Egito. E isso não se dá por nenhum tipo de conspiração Illuminati ou por chips implantados em nossas cabeças pelos aliens, mas por um fator histórico incontestável: o Egito foi uma das mais poderosas e importantes nações do mundo antigo, perdurando por mais de 4.000 anos como uma terra próspera que exportava conhecimento científico e religioso para grande parte do mundo. 

Localizado em uma área privilegiada do norte da África, esta terra de grandes faraós sempre atraiu o fascínio dos mais diferentes povos, e sua abundância, em todos os sentidos, fez escola entre cientistas, magistas e religiosos de todos os tempos. 

Para entender a lógica do argumento de Lisa Bargeman neste livro é antes de mais nada necessário entender o contexto e manter a cronologia em mente. Sendo assim, lembre-se que o Cristianismo, se calculado a partir do suposto nascimento de Jesus, possui pouco mais de 2.000 anos. Judeus, gregos, romanos, egípcios e uma série de outros povos viviam em constante contato muito antes deste tempo, chamado de "antes de cristo", tendo sido o Egito em seu período faraônico uma das maiores potências daquele período. 

Era coisa comum que nações menores, como da Grécia por exemplo, enviassem cidadãos gregos até aquelas terras para aprender ciência, magia e aquilo que chamamos de religião, mas que também poderia ser entendida por mitologia ou mesmo filosofia. Sem haver uma distinção clara entre tais conhecimentos naqueles tempos, também era relativamente comum que tais saberes fossem absorvidos e adaptados as novas culturas, ganhando roupagens novas de acordo com o local para onde se ia e levava tais conhecimentos. Por isso, Het-Heru poderia ser chamada de Hathor e ser sincretizada com Vênus ou mesmo Afrodite, sem que isso ofendesse a quem quer que seja. 

E por que isso funcionava? Pois em se tratando de politeísmo, o fenômeno da crença se manifesta naturalmente de forma inclusiva e não exclusiva. Se Deus é um, mas se manifesta através de diversas formas – e esta é a maneira a qual a visão religiosa egípcia interpretava tal conceito -, a forma que o outro cultua a Deus, chamando-o por outros nomes, ou considerando outras formas de Sua manifestação, não pode mesmo ser ofensiva, visto que todas são partes d’Ele mesmo.
 
Mas o que acontece quando alguém diz que só há uma forma de enxergar e cultuar a Deus?

No começo deste texto falamos sobre nenhuma religião ser totalmente original, absorvendo elementos ritualísticos e ideológicos de religiões contemporâneas ou predecessoras. Sendo o Cristianismo, herdeiro do conceito monoteísta de visão espiritual oriunda do Judaísmo, não poderia jamais admitir que sua religiosidade também fora fruto da inegável influência egípcia que possui, sendo a religião egípcia considerada pagã e, portanto, incorreta e até demoníaca para alguns. Logo, se para os politeístas antigos admitir que sua religião absorveu elementos de outras religiões politeístas era algo natural, para monoteístas como os cristãos, esse tipo de admissão pode ser uma ofensa para seu próprio conjunto de crenças, que é sempre pregado como original, oriundo e ou inspirado por seu próprio Deus único, e de nenhum outro. Mas os elementos históricos são muito mais certeiros que as crendices alheias e são incisivos para provar a realidade: o Cristianismo é inegavelmente uma religião construída a partir de uma grandessíssima influência pagã, e segundo a autora, indiscutivelmente egípcia!

Maria seria nada menos que uma versão cristã de Ísis, que também gerou seu filho, Hórus, de maneira independente. Osíris também fora assassinado e traído num banquete, ressuscitou, e se tornou o salvador e pastor que conduzia seu rebanho de seguidores no pós vida, tal como se diz sobre Jesus. A morte, segundo os papiros egípcios, é seguida por um Julgamento onde o indivíduo deve declarar-se inocente frente as possíveis acusações de ter roubado, matado, etc. sob risco de ser condenado, tal como na perspectiva cristã de julgamento. Múmias eram produzidas baseadas na crença da ressurreição da carne tal como dito na Bíblia. As imagens dos deuses egípcios ficavam guardadas das vistas do público dentro dos templos, saindo apenas em datas especiais quando eram carregadas e acompanhadas por uma caravana de seguidores que ali faziam suas promessas e orações e aguardavam por bênçãos, tal como católicos fazem hoje em dia em suas procissões. O faraó era um líder de Estado mas também o sumo sacerdote, tal como o Papa nos dias de hoje. 

Todos estes elementos e muitos outros são apontados durante toda esta obra que, embora curta e pouco aprofundada, é rica em conteúdo comparativo para que todos aqueles que tem o interesse pela pesquisa e que assim o façam, se sintam inegavelmente compelidos a admitir aquilo que muitos adoram negar: que não há religião superior a verdade.

por Allan Trindade

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sábado, 22 de agosto de 2020


- VADE RETRO SATANA! Me diga seu nome! - ordenou o padre à jovem que, possuída e fragilizada pelas forças demoníacas que ocupavam seu corpo, naquele instante se debatia e mostrava os dentes como uma fera aprisionada e raivosa.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis! - disse enquanto tentava arrancar com as unhas a pele do sacerdote da Igreja de Roma.

- Demônio! Liberte esta serva de Cristo e me diga seu nome! 

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis!

- Satã, inimigo da fé! Me diga seu nome, serpente das trevas!

- NOMES! NOOOOOMES! Nosso nome é Legião, pois nós somos muitos!

RITUAL ROMANO: EXORCISMO é um livro em quadrinhos criado por El Torres com 119 páginas, divididas em 4 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Darkside Books.

Possessão: o domínio de um corpo humano praticado contra um alguém que ainda esteja vivo, por alguma força de origem espiritual de um ser desencarnado ou ainda por alguma entidade præter-humana. Sem dúvidas um dos assuntos mais intrigantes pertencentes ao mundo da religião, especialmente explorado pela literatura e cinema através do viés cristão católico, e deveras banalizado pelas denominações pentecostais e neo pentecostais do protestantismo moderno. Quem nunca assistiu O Exorcista ou O Exorcismo de Emily Rose   está perdendo a oportunidade de conhecer dois grandes clássicos sobre o tema. Embora muitos desses filmes possam parecer pura ficção, eles sempre contém algo de realidade que fora usada para o desenvolvimento do roteiro. Não raras as vezes, esta parte de realidade costuma ser justamente aquilo que muitos gostariam que não fosse real...

Foi todo esse ar sinistro que permeia muito destas histórias que atraiu, desde a infância, a atenção de Paco Plaza, roteirista e diretor da série [REC] e Jogo Sobrenatural, que escreve no prólogo desta edição. Plaza considera carregar uma maldição: a maldição de sentir um forte desejo pelo sobrenatural, pelo monstruoso, pelo aterrorizante. É fato, como ele, existem muitos. E foi assim, e com essa sensação de que temos o mesmo gosto, que um dia encontrou os quadrinhos de El Torres, responsável pela produção da presente obra, junto de Jaime Martinez e Sandra Molina. E que bela obra esses três produziram! E que ótima edição essa da Darkside, não? Capa dura, diagramação impecável e ainda alguns mimos para envolver ainda mais o leitor com o clima da história: um marcador de páginas grande com o desenho de uma caveira, símbolo da editora feito para encaixar bem nesse livrão, uma base para apoiar copos inspirada nas hóstias católicas e uma cruz de madeira para você se proteger e não ficar com medo de dormir sozinho a noite.

Agora que já falamos sobre o que trata este livro e sobre a qualidade de seu conteúdo e forma, faz-se necessário deixarmos algo claro antes que você continue esta leitura. A partir daqui falaremos sobre a história em si - que sim, como o título sugere, trata de possessão e exorcismo -, e portanto teremos que dar um pequeno spoiler sobre qual o enredo se desenvolve. Nada que vá estregar a experiência da leitura, mas vale a pena te avisar. Portanto, se você é do tipo que não gosta de saber absolutamente nada sobre algo que está prestes a ler, melhor parar por aqui.

Tudo começa com um padre tendo sua cabeça decepada em meio aos corredores da Basílica de Pedro, no Vaticano. O sacerdote implorara por sua vida clamando a Deus que tivesse misericórdia, mas seu algoz não se importara com seu desespero, alegando que Deus simplesmente não está naquele lugar. 
Em outra parte do mundo, padre John, um jovem e problemático exorcista atende um caso de possessão: uma jovem que vivia amarrada a uma cama por ter seu corpo dominado por demônios. John, um dos melhores em seu cargo, cumpre a contento sua função. A jovem fora salva, mas ao retomar sua consciência, lhe diz: - Eles te enganaram, padre! Minha possessão fora apenas um plano para te despistar para que eles ganhassem tempo para seu plano maior!

Imediatamente um enviado da Santa Sé chega ao local com uma carta e uma convocação para que John voltasse imediatamente para lá. Ao chegar, em meio a aprovação de alguns e reprovação de muitos outros por sua escolha e histórico, um grande segredo lhe é confiado: o mais alto sacerdote da Igreja, o Papa, está possuído pelo demônio, e sua função é resolver esse problema!

Para todos aqueles interessados em uma história em quadrinhos de qualidade em todos os sentidos, Ritual Romano: Exorcismo, será um ótimo investimento.

por Allan Trindade


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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Conheci F. há cerca de 10 anos atrás. Desde o primeiro dia sabia que seríamos grandes amigos. Isto porque ele era até então uma das únicas pessoas que conseguia conversar comigo sobre todos os assuntos que sempre me fascinaram: magia, religião, ocultismo, psicologia, alquimia... Nos encontrávamos sempre que possível e ficávamos por horas a fio falando sobre os mais diversos temas.

Eu sempre soube que ele era gay, mesmo quando ele, por vergonha ou qualquer outro motivo, negava. Seu jeito afeminado fazia com que as pessoas especulassem coisas sobre nossa relação, que sempre foi da mais pura amizade. Eu, que desde a adolescência aprendi a não dar a mínima para a opinião alheia, especialmente a opinião de gente burra e maldosa, ria junto dele da cara destes tipos. Para mim, o cérebro de alguém inteligente sempre valeu muito mais que mil línguas de gente da família dos asininos ou dos muares. Mas nós bem sabemos que a cada dez faladores, sempre existe um que resolve tomar uma atitude.

Era madrugada e voltávamos para casa depois de mais uma dessas agradáveis noites de conversa. Ele, aquariano e um pouco desatento, caminhava pela calçada de forma despreocupada, falando e rindo alto, exibindo seus trejeitos, enquanto eu, leonino nato, compartilhava suas gargalhadas mas permanecia atento a estrada deserta. De repente, algumas quadras a frente, um carro surgiu virando a esquina. Em princípio vinha em velocidade normal mas logo reduziu. Rapidamente direcionei minha atenção para a cena. F. continuava falando como se nada estranho estivesse acontecendo.

Um homem do banco do carona pôs metade de seu corpo para fora da janela com uma coisa preta na mão, em forma de tacape. O carro repentinamente acelerou. F. se assustou com o barulho e logo percebeu que estávamos em perigo. A calçada era curta, não havia muito o que fazer. Ao se aproximarem em alta velocidade, o homem tentou acertá-lo na cara com aquilo que, imagino eu, era o tapete de borracha do carro enrolado como uma arma. F. saltou para o meu lado para se esquivar e fomos os dois direto para uma parede chapiscada, ralando nossos braços e tronco. 

Poucos segundos depois e alguns metros a frente, o homem gritou:
- VIADO, FILHO DA PUTA!

Pegamos um táxi e voltamos para casa ainda assustados com toda a situação. Nada de pior, felizmente, nos aconteceu. Mas infelizmente esta não é a realidade de muitos. 

A homofobia discrimina, machuca, mata. E ela não surge do nada, é teorizada, propagada e fundamentada na maior parte das vezes através de um livro, um livro religioso chamado Bíblia Sagrada. 

Mas afinal de contas, o que a Bíblia ensina sobre a Homossexualidade?

O QUE A BÍBLIA ENSINA SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE é um livro escrito por Kevin Deyoung, com 193 páginas divididas em 12 capítulos e foi publicado no ano de 2015 pela Fiel editora.

Antes de mais nada faz-se necessário criarmos um parenteses aqui: não, a Bíblia não é a única fonte para a homofobia. O ser humano é um animal que naturalmente discrimina seus pares pelos mais diversos motivos, sem com isso necessariamente precisar de qualquer justificativa lógica. Entretanto, a atitude discriminatória, quando surgida naturalmente, costuma procurar algum tipo de referência para justificar sua postura. Assim, por exemplo, se uma criança branca, que vive em meio a crianças brancas, considera estranha a presença de uma criança preta em sua sala de aula, se seus responsáveis não lhe derem a devida orientação sobre o fato da multiplicidade étnica existente no mundo, e ainda apoiar sua estranheza dizendo que crianças pretas não deveriam estar ali, as chances desta criança branca não apenas crescer como uma racista mas ainda incentivar as outras a terem a mesma atitude, é muito grande. 

Perceba então que temos uma fonte espontânea, ou seja, o sentimento de diferença sentido pela criança em sua comparação de cores, justificado e incentivado por seus pais racistas. O mesmo processo pode ser observado na questão homossexual. Vale ressaltar ainda que embora possam surgir em nós reações estranhas frente ao diferente, este sentimento pode ser induzido por outrem. Em outras palavras, uma criança que nunca tenha considerado tratar seu coleguinha de forma diferente por ser afeminado, por exemplo, pode ser incentivada por ser seus pais a discriminá-lo por acreditarem que este é um comportamento errado ou pecaminoso. Enfim, consideramos a multiplicidade de origem para um comportamento discriminatório, mas observamos que de uma forma geral, em nossa sociedade, a homofobia, ou seja, o medo e ódio contra pessoas e  atitudes consideradas homossexuais tem sempre se justificado por argumentos bíblicos.

Em sua introdução, Kevin Deyoung esclarece que embora a Bíblia não seja um livro sobre homossexualidade, a Bíblia fala explicitamente sobre este assunto. Já em seu princípio, destaca que para entender os argumentos daquele livro, faz-se necessário entender seu objetivo e método. Para tal, propõe uma volta as origens, mais especificamente em Gênesis, onde o Deus de Israel criara o homem e o jardim do Éden, e em seguida Eva, para que vivessem em paz. A queda os teria feito então sair de seu estado original e abençoado, e com isso, uma nova perspectiva se criava: o homem precisava retornar a seu estado de santidade e a única maneira para alcançar tal modo, seria mantendo-se casto. Por castidade, termo que poderíamos também definir como sinônimo de puro de objetivo, entende-se que este mesmo Deus criara uma série de regras a serem cumpridas, de modo que só através de sua observância, o homem poderia então retornar a seu estado original. No tocante ao sexo, ele poderia ser feito, desde que com o objetivo principal da procriação.

Sendo assim, o ser humano deve então: cumprir as diretrizes estabelecidas por Deus, fazer sexo para fins reprodutivos, longe das lascívia e orar para que tenha a chance de adentrar no Reino dos Céus.
Anos se passaram porém sem que o homem de fato cumprisse todas as regras estabelecidas pelo Deus, e sua degradação tornara-se cada vez maior. 

Os judeus teriam visto então surgir em seu meio um suposto messias, chamado Jesus, que teria vindo não para negar a antiga Lei, mas para afirmá-la, embora tenha feito pequenas modificações aqui e acolá, incluindo elementos interpretativos da mesma. A partir deste messias, que seria considerado pelos cristãos o próprio Deus encarnado, outros homens viriam para destacar a importância da observância de seus mandamentos. Paulo seria então uma destas figuras de maior proeminência. 

Mas o que teria toda esta história a ver com a homossexualidade? Segundo o autor, a Bíblia é um livro atemporal, cunhado como um manual de regras para que o cristão alcance a pureza estabelecida pelo Deus de Israel, transfigurado agora sob o nome de Jesus. Este livro estabelece que dentre estas regras, existem aquelas que são consideradas mais ou menos importantes, ou ainda pecados menores e maiores segundo as vistas deste Deus. Desvios como o de tocar em mulheres menstruadas diziam respeito as questões de pureza relacionadas especialmente aos sacerdotes, glutonia aos malandros e indivíduos já majoritariamente transviados que porém, ainda podem ser libertos, divórcio, que embora proibido, poderia ser então considerado em casos de adultério. Porém, seja no Antigo ou Novo Testamento, nenhum porém é garantido para a prática da homossexualidade, sendo este um pecado considerado uma abominação sob os olhos daquele Deus, um crime passível de morte dentre os judeus, e considerado um impeditivo para a entrada no Reino dos Céus pelos cristãos. 

Para o autor, este é um fato inconteste: embora possam haver crimes de igual nível abominável, nenhum pecado é maior que um homem se deitar com outro homem. E destaca ainda que se a Bíblia quase não fala sobre a questão homossexual, isso se dá pelo simples fato de que todos daquela época estavam plenamente cientes que esta prática não era aceitável.

 Segundo ele, este livro fora escrito então para um destes três tipos de pessoas:

convictos: que sabem que a homossexualidade é um pecado;
contenciosos: que espera que se os elementos textuais, exegéticos e lógicos expostos aqui não forem suficientes, que saibam que estão recorrendo a argumentos não bíblicos;
confusos: para os quais espera poder elucidar todas as questões sob a luz das Escrituras.

O Que a Bíblia Ensina Sobre a Homossexualidade é um livro bastante completo a sua maneira. Responde de forma lógica as principais questões levantadas por liberais cristãos ou defensores da causa gay, sempre fundamentando seus argumentos com versículos daquele livro sagrado. Sua exposição faz uma viagem desde a criação em Gênesis, passando por Sodoma e Gomorra, Romanos e Coríntios, incluindo uma observação sobre a suposta natureza amorosa daquela Deus. Traz ainda três apêndices que tratam sobre o casamento homossexual dentro da sociedade contemporânea, a atração homossexual, e a igreja: seus compromissos e a homossexualidade.

Kevin Deyoung é acima de tudo respeitoso em sua exposição, deixando claro que a declaração de sua fé, e seus dogmas, visto que é um cristão, de modo algum justificam qualquer tipo de agressão ou violência contra quem quer que seja. Embora seja opinativo em seus apêndices, e até levemente tendencioso neste ponto, é majoritariamente teológico em seu conteúdo. Não deixa dúvidas de que a Bíblia de fato condena enfaticamente, e sobre a maioria dos outros pecados, a prática da homossexualidade, e qualquer indivíduo coerente se sentirá impelido a concordar com suas conclusões.

Entretanto, concordar que um determinado texto afirme tal coisa, não significa considerar que tais afirmações devam ser aplicadas e praticadas por não cristãos, que sejam legalmente cabíveis para uma sociedade laica, ou mesmo que sejam lógicas para os nossos tempos.

"Dai a César o que é de César." Mt 22:21


por Allan Trindade


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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Filho da Puta! Sem dúvidas um dos palavrões mais conhecidos por toda a cultura ocidental e que, de tão difundido, costuma ser facilmente compreendido até mesmo por aqueles que não dominam o idioma de quem o verbaliza. Não é preciso falar espanhol para entender um hijo de puta, italiano para figlio di puttana ou mesmo um fils de pute em francês. Os ingleses, embora fortemente influenciados pelo Latim, porém de linguagem de cognição não tão simples para os falantes das línguas previamente citadas, amenizaram um pouco para as putas e atribuíram as cadelas o mesmo sentido com seu son of a bitch.

Embora não se saiba com precisão as origens para este tipo de xingamento, as elucubrações parecem óbvias: ser filho da puta é ser primariamente um bastardo, filho de um pai desconhecido ou ausente e de uma mãe profissional do sexo, ou ainda que tivera relações antes do casamento. Estas raízes, se analisadas sob a perspectiva religiosa, encontram muito de seus fundamentos no Judaísmo e Cristianismo, religiões de forte inclinação moral que tendem a demonizar qualquer tipo de exceção a sua forma tradicional de enxergar o sexo e seus relacionados, sendo a prostituição um dos maiores pecados considerados nestas doutrinas. Ser filho da puta para eles é então sempre o outro. Aquele que está fora. Que por si ou através de sua progenitora não cumprira suas convenções sociais ou religiosas. 

Mas quão irônico seria se aquela velha história sobre Natal, manjedouras, Belém e magos. Herodes, perseguição e Egito. Anjo, virgindade, Maria e José escondessem uma verdade surpreendente nas entrelinhas da Bíblia Sagrada sobre o judeu que é o principal ícone da fé cristã:

de que Jesus é, literalmente, o filho de uma puta?!

MARIA CHOROU AOS PÉS DE JESUS é um livro feito por Chester Brown, com 283 páginas, divididas em duas partes e publicado no ano de 2017 pela editora WMF Martins Fontes.

Se você é cristão ou tem simpatia por esta religião, por favor, pare por um segundo e se pergunte quão sensível é sua fé. Quais atitudes, elementos ou ideias são capazes de te ofender quando o assunto é a sua crença? Ter isso em mente pode ser determinante para definir se você deve adquirir este livro ou mesmo continuar lendo esta resenha. O assunto aqui é prostituição. Mas não apenas aquele conceito bíblico de que prostituição pode se referir a qualquer atitude que desagrade ao Deus de Israel e suas diretrizes, mas especificamente aquela prostituição que nós conhecemos bem, direta ou indiretamente: a prostituição do corpo em função do sexo.

Chester Brown é um desenhista, do tipo que faz quadrinhos, e já tratou deste assunto antes em sua outra publicação de nome Pagando Por Sexo, recomendada para aqueles que tenham interesse em saber mais sobre o assunto, incluindo questões legais e ideológicas, tais como o posicionamento de feministas em relação a este tema, e as divergências que envolvem todo este universo a nível secular. Este livro em específico não será resenhado por nós por não tratar do tema religião ou ocultismo, mas nós o recomendamos. Caso tenha interesse em adquirir, você pode fazê-lo através deste link: https://amzn.to/2ShII0R

Aqui o método se repete: o autor introduz o leitor através de diversas histórias em quadrinhos e em seguida, explica cada um dos elementos apresentados, as razões para suas conclusões, referências bibliográficas e todos os elementos que compõem a defesa de uma tese. Tudo começa em Gênesis e a história das oferendas dos irmãos para Javé, encerrada pelo fratricídio de Caim contra Abel. Seguida de Tamar e suas artimanhas para engravidar de Judá. Raabe e a salvação de Naate e Abade. Noêmi, Rute e a sedução de Boaz para desposá-lo. A traição de Davi contra um de seus soldados mais fieis, Urias, apenas para transar com sua mulher, Betsabá. Além da parábola dos Talentos, do Filho Pródigo,  do descontentamento de Simão e Judas sobre a ação de Jesus em relação a Maria de Betânia, e o dilema de Mateus em relação a Maria, mãe do nazareno. Assim se encerram as histórias. E que o legente tenha em mente que Chester não tem a intenção de reproduzi-las sempre de forma literal conforme contadas na Bíblia, mas, em alguns casos, dar uma outra interpretação sobre o que as entrelinhas talvez queiram dizer.

Numa primeira impressão alguns podem considerar exagero de nossa parte termos salientado a necessidade de certa maturidade emocional e de fé para ler este livro, vide que se baseado nas histórias apresentadas no parágrafo anterior, não há nada assim de tão grave. Aqueles que já leram a Bíblia inteira hão de perceber que lá existem relatos outros muito mais escandalizantes que estes. Entretanto, a polêmica se resume a uma personagem específica e todas as histórias selecionadas por ele tem por objetivo embasar a seguinte teoria: Maria era prostituta, uma meretriz que mesmo estando prometida para José,  ia para cama com outros homens por dinheiro e nem mesmo sabia quem era o pai de seu filho, aquele que viria ser chamado Jesus, um bastardo, por assim dizer.

Segundo o autor, toda esta ideia surgiu a partir da leitura do livro The Illegitimacy of Jesus, e que decidiu expor através de sua arte o provável dilema que Mateus encontrara para escrever seu evangelho e indicar de forma indireta o ofício de Maria. O apóstolo teria criado uma falsa genealogia da pseudo virgem de modo a indicar que se suas ancestrais eram prostitutas,  os leitores mais atentos perceberiam que ela assim também o era. E foi por isso que incluiu duas famosas meretrizes, Tamar e Raabe, na ancestralidade de Maria, assim coma aquelas que embora não o fossem de forma declarada, tiveram atitudes comparáveis a, tais como Rute e Betsebá. Assim, contrariando o padrão de não citar mulheres em genealogias, pela análise do conjunto das quatro, no futuro, as pessoas concluiriam que Maria também era uma prostituta, e não dizê-lo de forma direta evitaria a censura dos cristãos de sua época.

Como complemento, esclarece que a  própria Bíblia atesta que vizinhos não acreditavam na virgindade de Maria, tal como em Marcos 6:3 e João 8:41. À sequência de sua defesa, Brown argumenta que tal qual os exemplos das histórias destacadas por ele, o Deus da Bíblia admira os ousados que desafiam suas ordens, sempre os gratificando de alguma forma e que nunca pediu para que sigamos lei alguma, além de dizer que o próprio Jesus não condena a prostituição. Afirmações que parecem pouco razoáveis se confrontadas com passagens como aquela de João 8:11 -  " vá e não peques mais ". Não obstante, estabelece uma série de pontos indicativos que tratam de como a prostituição está sempre presente no contexto bíblico - objetiva ou subjetivamente - sendo este um tema que sem dúvidas merece ser revisto por historiadores e teólogos cristãos.

Em função do tipo de resenha que desenvolvemos aqui, esclarecemos ao leitor que qualquer impressão que o resumo de nossas palavras possa indicar, este deve ser entendido como aquém da ideia exposta por Chester Brown nesta obra. Sua defesa é clara: Maria era prostituta. Porém, a pesquisa apresentada pelo autor dá mesmo sinais interessantes que nos fazem refletir ao menos sobre essa possibilidade, especialmente se não encararmos a prostituição como algo negativo, mas apenas como mais um ofício, nem melhor nem pior que qualquer outro, nem satânico nem santo, apenas e geralmente, injustamente discriminado.

por Allan Trindade


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sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Cristianismo é uma religião no mínimo controversa: carrega consigo o título do Deus que diz crer e seguir, se baseia num livro onde ele possui uma participação biográfica ínfima, apesar do dito amor ao próximo tem um histórico corrupto e sanguinário, possui uma mitologia oriunda de uma religião no qual os cristãos dizem pouco concordar - desde que isso lhes seja conveniente -, e que segue muito das diretrizes e dogmática de um apóstolo - aquele que chamam de Paulo -, que nunca vivera com Jesus, mas que parece representar bem para muitos cristãos o papel no qual seu Cristo deveria ser o protagonista.

É uma estranha característica desta religião que seus adeptos baseiem muitos de seus discursos em tudo aquilo que dizem não seguir, praticar ou acreditar, e isso tem por consequência comum fazer com que o Cristianismo transmitido pela boca de todo este povo se pareça com tudo, menos com os ensinamentos de seu próprio Deus.

Tão curiosa quanto toda esta percepção tem sido a impressão de que muitos ateus conhecem mais sobre o Cristianismo do que muitos dos alegados cristãos. Também pudera, para um contexto que sempre prezara pela quantidade, qualidade tem sido a menor de suas características.


CRER OU NÃO CRER é um livro escrito por Pe. Fábio de Melo e Leandro Karnal, com 191 páginas, divididas em 7 capítulos e publicado no ano de 2017 pela editora Planeta.

Religião não se discute. Esta tem sido uma máxima propagada largamente pelos mais variados contextos sociais como uma verdade inconteste. Mas por que um assunto tão importante para a sociedade não deveria ser discutido? Se este dogma social tem sido aceito pela maioria das pessoas comuns, aqui a história pretende ser diferente. Um historiador e um padre debatem as características e conclusões de seus posicionamentos de fé, em forma de um diálogo saudável e respeitoso, no qual também  usam de suas biografias para expor suas condutas e filosofia de vida.

Em seu prefácio, Mario Sergio Cortella cita comentários de ambos os autores para ponderar que apesar de estarem em posições opostas, são, antes de mais nada, seja no teísmo de Fábio ou no ateísmo de Leandro, indivíduos qualificados, que assumem suas posições com racionalidade e maturidade. Aqui, segundo o professor, crença ou descrença devem ser entendidos como frutos da sabedoria adquirida através do estudo e não como consequências incólumes da ignorância.

Karnal inicia o primeiro capítulo perguntando a Fabio o que o levara a se tornar padre, que qualifica como uma forma radical de fé, uma vez que esta exija entrega de vida ao sacerdócio. Fabio, por sua vez, esclarece que teve poucas experiências sobrenaturais, mas que a crença no humano e a relação com sua mãe e com a Igreja o levaram o abraçar o sacerdócio. Leandro, de sua parte, diz que sempre fora um ótimo católico, mas um péssimo cristão, e que após confessar um pecado, viu-se sem fé.  A partir deste ponto, aprofundam o diálogo sobre os mais diversos temas tendo como base a crença de um e a descrença do outro.

Os capítulos apresentados são: Crer ou Não Crer; Fé Versus Ciência; Qual a Importância da Fé? E de Deus?; A Religião Ajuda ou Atrapalha? E a Igreja?; Se Deus Não Existe, Tudo é Permitido?; Ter Fé Faz Falta?; A Morte: Esperanças e Medos no Horizonte do Ateu e de Pessoas de Fé.

Karnal é acima de tudo incisivo em suas colocações e passa a maior parte do diálogo tentando trazer Fabio para discussões sobre pontos específicos. Apresenta uma interpretação histórica sobre os elementos religiosos, alegando que muitos deles são frutos de percepções e necessidades humanas temporais, e que a falta de objetos futuros na literatura religiosa atestam isto, em detrimento a visão comum que se tem sobre a religião ser oriunda do sobrenatural.

De Melo é na maior parte do tempo evasivo e apela constantemente para argumentos pessoais para justificar sua fé. Diz ser consciente dos riscos que assume ao falar publicamente de suas ideias, já que muitas delas podem parecer não estar absolutamente de acordo com as verdades que prega a doutrina Católica. Leandro, aparentemente incomodado com esta postura, parece mesmo concordar com sua preocupação e define o padre como um sofista, alegando que seu catolicismo melhor seria taxado como 'Fabismo', uma vez que pouca relação parece ter com a dogmática da Igreja.


O tom, por vezes irônico de Karnal, é praticamente ouvido através de sua escrita, enquanto que o jeito acanhado de Fabio é igualmente sentido em suas falas. Esta é a característica marcante deste livro: enquanto um avança o outro recua, dando-nos mesmo a impressão de que quando um não quer, dois não brigam.


O livro é fluido e interessante a sua maneira, mas deixa a desejar no aprofundamento do debate. Não apela para um linguagem excessivamente rebuscada e muitas das especificidades são explicadas no seu final. Portanto, na falta de um conhecimento técnico sobre as personalidades e elementos apresentados pelos dois, que o leitor tenha em mente que o capítulo Nomes Citados e Glossário serão melhor aproveitados se forem consultados no decorrer da leitura.

Diferentemente do título que o inspirara, Em que Creem os Que não Creem?, produzido a partir das correspondências trocadas pelo cardeal de Roma Carlo Martini e o escritor Umberto Eco, esta publicação não possui um peso acadêmico, e passa mesmo a impressão de se estar junto a dois amigos, em um momento informal, conversando sobre um assunto que apesar de dito como 'proibido', sempre é discutido após umas boas doses de álcool em uma mesa de bar.

por Allan Trindade


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domingo, 2 de julho de 2017

Pouco tempo após o nascimento, batismo. Alguns anos depois, catecismo. Aos domingos, missa. Na fase adulta, terno, véu e grinalda; casamento. Esta foi a rotina vivida por milhões de pessoas ao redor de todo mundo durante algumas centenas de anos. Entretanto, todos estes rituais estão se tornando cada vez mais opacos e algumas mudanças vem sendo sentidas.

Pelas ruas de muitos países europeus a ocorrência é rotineira: mulheres trajando hijabs, olhando para o chão, sempre muito apressadas para fugir o mais rápido possível dos olhares dos outros, aparentemente vivendo sob uma aura de constante ameaça e medo. Pelas televisões brasileiras outro fenômeno é facilmente percebido: a qualquer momento em que se zapeie pelos canais, homens de paletó em cima de púlpitos e timbre falseado exorcizam demônios, denigrem as religiões alheias e pedem contribuições em dinheiro em troca de promessas de recompensas materiais para os muitos desesperados que preenchem as fileiras de suas igrejas imponentes. O crescimento do Islã está para o mundo assim como do evangelismo está para o Brasil. Os tempos estão mudando. E com ele os hábitos e tradições.

 Ao observar tais mudanças muitos são aqueles que se estremecem de medo frente a possibilidade de terem seus mundos de vãs certezas - frequentemente fundamentadas sobre aquilo que se ouve, e não sobre aquilo que se estuda - abalado. Mas se é através do presente que podemos especular sobre o futuro, é no passado que encontramos os fundamentos sólidos para rascunhar algum tipo de argumento que tente explicar aquilo que se tem. 

Jesus, o deus moldado e explorado pelos cristãos mais tradicionais, redentor e inspirador das falas e rituais de nossos pais e avós, vem sendo pouco a pouco substituído por dois novos deuses: um de fala árabe sedento por saciar-se com todas as formas de moralidade, que vez por outra considera justo que monumentos históricos e pessoas sejam reduzidas a pó, e um outro que, não raras as vezes, fala em línguas estranhas, tem certa ojeriza por homossexuais e vive com fome de grana.

Em meio a toda esta mixórdia de novidades teológicas, indagações diversas pululam em nossa mente, mas um pensamento em específico se destaca e nos leva a questionar, se afinal de contas, você sabe...

O Que Jesus Disse? O Que Jesus não disse? é um livro escrito por Bart D. Ehrman, publicado no ano de 2006, pela Prestígio Editorial, com 245 páginas, divididas 7 em capítulos.

Antes de darmos continuação a esta resenha, devemos nos desculpar com nossos leitores. Sim, pois não resistimos ao impulso de jogar com as palavras e ideias nesta introdução. Isto porque todo o desenvolvimento do texto até aqui pode lhe dar uma falsa impressão sobre o conteúdo apresentado neste livro, impressão esta que nós mesmos tivemos. Este título não tem como foco as falas de Jesus dentro dos evangelhos, comparando-as com as ideias populares que os laicos tem sobre esta figura divinizada. A verdade é que o livro não trata exclusivamente disto, mas é muito mais amplo em sua abordagem.

O Que Jesus Disse... faz parte de um conjunto de outros títulos do mesmo autor, que tem por objetivo desmitificar uma série de questões relativas ao contexto cristão, que rondam o imaginário dos fieis desta crença. Porém aqui, Ehrman foca sua abordagem em um ponto específico da história e talvez o subtítulo  Quem Mudou a Bíblia e Por Quê  explique melhor os objetivos desta obra.

Bart nos leva a uma viagem ao passado, há cerca de 2000 anos atrás, período em que a Europa mudaria radicalmente sua maneira de lidar e enxergar a vida. As boas novas vinham sendo espalhadas rapidamente por todo o continente e davam início a um abalo nas estruturas pagãs do Velho Mundo. Motivados pela crença de um salvador, escravos e miseráveis deixavam-se levar pela ideia de que todo seu sofrimento em vida, seria finalmente compensando em algum momento da volta de um ser que não sabiam bem se era meio homem meio divino, totalmente humano ou absolutamente Deus. Seu nome era Jesus, que segundo a tradição, escolheu doze seguidores, algumas poucas mulheres, falou em parábolas, morreu, ressuscitou, e voltaria algum dia para julgar os ímpios e salvar os justos. Esta parte da  história, bem sabemos,  não é novidade para ninguém. Entretanto , existem alguns aspectos não ditos, alguns elementos intencionalmente deixados de lado, e um roteiro escrito e reescrito de modo a fazer com que toda esta narrativa ganhe ares próximos de um perfeccionismo digno das telas cinematográficas.

Os quatro primeiros séculos do Cristianismo seriam marcados por uma grande confusão de grupos e ideias descentralizadas, onde cada um tinha sua própria interpretação para o significado do messias. A não existência de um líder e um certo nível de despreocupação com as coisas deste mundo, eram senso comum dentre os adeptos primitivos...e isso era, em muitos casos, um problema. Tal qual as muitas religiões pagãs dos tempos antigos, a religião cristã dava seus primeiros passos através da tradição oral, e quando muito, fazia uso dos livros daqueles a quem pegaram emprestado a ideia de um deus único: os judeus. Popularmente conhecidos como o povo do livro, seriam eles também a inspiração para esta nova ideia, e é sobre ela que Bart desenvolve seus argumentos.

O estudioso e crítico textual traz uma análise histórica sobre os primeiros textos cristãos e a forma de seu surgimento. O contexto era de um analfabetismo quase absoluto para a população pobre e desvalida - grupo social onde o Cristianismo conquistou seus primeiros adeptos - e os minimamente capacitados na técnica da escrita ou da leitura, ganhavam destaque. A tradição oral começava a ser transcrita e líderes relevantes, como Paulo, teriam importância fundamental neste período uma vez que suas cartas seriam usadas como base doutrinária para as diversas igrejas que se formavam. Aqui uma divisão temporal se evidencia dentre os primeiros copistas, ou seja, aquelas pessoas imbuídas da função de grafar os relatos, que em muitos casos eram analfabetas, e os copistas posteriores, monges ou cidadãos letrados que tinham a escrita como ofício.

Esta transição, entretanto, teria uma consequência dúbia: daria fundamento tangível para a doutrina ao mesmo tempo que realça as diferenças de pensamentos teológicos concernentes a cada grupo em cada tempo. E Bart nos traz comparativos não apenas de diversas passagens diferentes em estilo e relato, que como no caso dos evangelhos de Marcos e Lucas, se lidos de forma separada, demonstram um Jesus por vezes irado e no segundo caso, um Nazareno por vezes compassivo e muito mais sereno. Mas também dos nichos que compunham toda aquela conjuntura, como judeus, pagãos e os diversos tipos cristãos como adocionistas, docetas e separacionistas.

O fundamento argumentativo de Bart está na concepção de que a disputa entre estes diferentes grupos - cristãos e não cristãos - interferia intimamente nas alterações textuais de modo a justificar uma linha de pensamento teológica. Veja que com isso não queremos dizer que os não adeptos da fé cristã alteravam os textos como em um boicote, mas que os próprios cristãos moldavam sua literatura para usá-la como prova para suas ideias, que além de não serem unificadas, tinham pouca resistência para a mudança e adaptação que lhes favorecesse. Para além disso, nos traz exemplos de acidentes e danificações nos escritos originais que interferiram em sua reprodução posterior.


Muitos são aqueles que, ainda atualmente, pensam que a Bíblia foi um livro escrito em um momento único, quiçá por um único autor. Este talvez seja um dos maiores erros que se possa cometer quando o assunto é Cristianismo. Ehrman nos fala não apenas da história das mãos que cunharam os primeiros textos que dariam origem a este livro sagrado, mas também nos dá os fundamentos e comparativos de diversas passagens de pergaminhos antigos que evidenciam perdas, alterações, má interpretações e traduções dos textos do Novo Testamento. Dizer que "A Bíblia foi escrita por homens!" no plural e para justificar seus absurdos, contradições e erros nunca fez tanto sentido.

O andamento d'O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? é em alguns momentos repetitivo mas essencialmente argumentativo. Os capítulos começam de forma marcada por introdução, desenvolvimento e conclusão.  É acessível, mas como é de se esperar, vide a formação de seu autor, beira o estilo acadêmico. Não fala sobre a estruturação da Bíblia Sagrada em si, mas foca na influência que os copistas exerceram na formação dos livros que viriam a compô-la posteriormente.

E para um melhor aproveitamento, consideramos indicado que os leitores tenham lido-a inteira, ou ao menos, os Quatro Evangelhos.

Quando olhamos para o passado e nos deparamos com tantas questões ocultas que fundamentam a nossa história, percebemos o quanto certas mentiras, contadas por mil vezes, mil anos, ou mais, de fato, se tornam verdade...mas a história se reescreve, e nós, no presente, somos o passado do futuro, que como dizem os populares: a Deus pertence! Só nos resta saber que Deus será esse...

por Allan Trindade



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