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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Conheci F. há cerca de 10 anos atrás. Desde o primeiro dia sabia que seríamos grandes amigos. Isto porque ele era até então uma das únicas pessoas que conseguia conversar comigo sobre todos os assuntos que sempre me fascinaram: magia, religião, ocultismo, psicologia, alquimia... Nos encontrávamos sempre que possível e ficávamos por horas a fio falando sobre os mais diversos temas.

Eu sempre soube que ele era gay, mesmo quando ele, por vergonha ou qualquer outro motivo, negava. Seu jeito afeminado fazia com que as pessoas especulassem coisas sobre nossa relação, que sempre foi da mais pura amizade. Eu, que desde a adolescência aprendi a não dar a mínima para a opinião alheia, especialmente a opinião de gente burra e maldosa, ria junto dele da cara destes tipos. Para mim, o cérebro de alguém inteligente sempre valeu muito mais que mil línguas de gente da família dos asininos ou dos muares. Mas nós bem sabemos que a cada dez faladores, sempre existe um que resolve tomar uma atitude.

Era madrugada e voltávamos para casa depois de mais uma dessas agradáveis noites de conversa. Ele, aquariano e um pouco desatento, caminhava pela calçada de forma despreocupada, falando e rindo alto, exibindo seus trejeitos, enquanto eu, leonino nato, compartilhava suas gargalhadas mas permanecia atento a estrada deserta. De repente, algumas quadras a frente, um carro surgiu virando a esquina. Em princípio vinha em velocidade normal mas logo reduziu. Rapidamente direcionei minha atenção para a cena. F. continuava falando como se nada estranho estivesse acontecendo.

Um homem do banco do carona pôs metade de seu corpo para fora da janela com uma coisa preta na mão, em forma de tacape. O carro repentinamente acelerou. F. se assustou com o barulho e logo percebeu que estávamos em perigo. A calçada era curta, não havia muito o que fazer. Ao se aproximarem em alta velocidade, o homem tentou acertá-lo na cara com aquilo que, imagino eu, era o tapete de borracha do carro enrolado como uma arma. F. saltou para o meu lado para se esquivar e fomos os dois direto para uma parede chapiscada, ralando nossos braços e tronco. 

Poucos segundos depois e alguns metros a frente, o homem gritou:
- VIADO, FILHO DA PUTA!

Pegamos um táxi e voltamos para casa ainda assustados com toda a situação. Nada de pior, felizmente, nos aconteceu. Mas infelizmente esta não é a realidade de muitos. 

A homofobia discrimina, machuca, mata. E ela não surge do nada, é teorizada, propagada e fundamentada na maior parte das vezes através de um livro, um livro religioso chamado Bíblia Sagrada. 

Mas afinal de contas, o que a Bíblia ensina sobre a Homossexualidade?

O QUE A BÍBLIA ENSINA SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE é um livro escrito por Kevin Deyoung, com 193 páginas divididas em 12 capítulos e foi publicado no ano de 2015 pela Fiel editora.

Antes de mais nada faz-se necessário criarmos um parenteses aqui: não, a Bíblia não é a única fonte para a homofobia. O ser humano é um animal que naturalmente discrimina seus pares pelos mais diversos motivos, sem com isso necessariamente precisar de qualquer justificativa lógica. Entretanto, a atitude discriminatória, quando surgida naturalmente, costuma procurar algum tipo de referência para justificar sua postura. Assim, por exemplo, se uma criança branca, que vive em meio a crianças brancas, considera estranha a presença de uma criança preta em sua sala de aula, se seus responsáveis não lhe derem a devida orientação sobre o fato da multiplicidade étnica existente no mundo, e ainda apoiar sua estranheza dizendo que crianças pretas não deveriam estar ali, as chances desta criança branca não apenas crescer como uma racista mas ainda incentivar as outras a terem a mesma atitude, é muito grande. 

Perceba então que temos uma fonte espontânea, ou seja, o sentimento de diferença sentido pela criança em sua comparação de cores, justificado e incentivado por seus pais racistas. O mesmo processo pode ser observado na questão homossexual. Vale ressaltar ainda que embora possam surgir em nós reações estranhas frente ao diferente, este sentimento pode ser induzido por outrem. Em outras palavras, uma criança que nunca tenha considerado tratar seu coleguinha de forma diferente por ser afeminado, por exemplo, pode ser incentivada por ser seus pais a discriminá-lo por acreditarem que este é um comportamento errado ou pecaminoso. Enfim, consideramos a multiplicidade de origem para um comportamento discriminatório, mas observamos que de uma forma geral, em nossa sociedade, a homofobia, ou seja, o medo e ódio contra pessoas e  atitudes consideradas homossexuais tem sempre se justificado por argumentos bíblicos.

Em sua introdução, Kevin Deyoung esclarece que embora a Bíblia não seja um livro sobre homossexualidade, a Bíblia fala explicitamente sobre este assunto. Já em seu princípio, destaca que para entender os argumentos daquele livro, faz-se necessário entender seu objetivo e método. Para tal, propõe uma volta as origens, mais especificamente em Gênesis, onde o Deus de Israel criara o homem e o jardim do Éden, e em seguida Eva, para que vivessem em paz. A queda os teria feito então sair de seu estado original e abençoado, e com isso, uma nova perspectiva se criava: o homem precisava retornar a seu estado de santidade e a única maneira para alcançar tal modo, seria mantendo-se casto. Por castidade, termo que poderíamos também definir como sinônimo de puro de objetivo, entende-se que este mesmo Deus criara uma série de regras a serem cumpridas, de modo que só através de sua observância, o homem poderia então retornar a seu estado original. No tocante ao sexo, ele poderia ser feito, desde que com o objetivo principal da procriação.

Sendo assim, o ser humano deve então: cumprir as diretrizes estabelecidas por Deus, fazer sexo para fins reprodutivos, longe das lascívia e orar para que tenha a chance de adentrar no Reino dos Céus.
Anos se passaram porém sem que o homem de fato cumprisse todas as regras estabelecidas pelo Deus, e sua degradação tornara-se cada vez maior. 

Os judeus teriam visto então surgir em seu meio um suposto messias, chamado Jesus, que teria vindo não para negar a antiga Lei, mas para afirmá-la, embora tenha feito pequenas modificações aqui e acolá, incluindo elementos interpretativos da mesma. A partir deste messias, que seria considerado pelos cristãos o próprio Deus encarnado, outros homens viriam para destacar a importância da observância de seus mandamentos. Paulo seria então uma destas figuras de maior proeminência. 

Mas o que teria toda esta história a ver com a homossexualidade? Segundo o autor, a Bíblia é um livro atemporal, cunhado como um manual de regras para que o cristão alcance a pureza estabelecida pelo Deus de Israel, transfigurado agora sob o nome de Jesus. Este livro estabelece que dentre estas regras, existem aquelas que são consideradas mais ou menos importantes, ou ainda pecados menores e maiores segundo as vistas deste Deus. Desvios como o de tocar em mulheres menstruadas diziam respeito as questões de pureza relacionadas especialmente aos sacerdotes, glutonia aos malandros e indivíduos já majoritariamente transviados que porém, ainda podem ser libertos, divórcio, que embora proibido, poderia ser então considerado em casos de adultério. Porém, seja no Antigo ou Novo Testamento, nenhum porém é garantido para a prática da homossexualidade, sendo este um pecado considerado uma abominação sob os olhos daquele Deus, um crime passível de morte dentre os judeus, e considerado um impeditivo para a entrada no Reino dos Céus pelos cristãos. 

Para o autor, este é um fato inconteste: embora possam haver crimes de igual nível abominável, nenhum pecado é maior que um homem se deitar com outro homem. E destaca ainda que se a Bíblia quase não fala sobre a questão homossexual, isso se dá pelo simples fato de que todos daquela época estavam plenamente cientes que esta prática não era aceitável.

 Segundo ele, este livro fora escrito então para um destes três tipos de pessoas:

convictos: que sabem que a homossexualidade é um pecado;
contenciosos: que espera que se os elementos textuais, exegéticos e lógicos expostos aqui não forem suficientes, que saibam que estão recorrendo a argumentos não bíblicos;
confusos: para os quais espera poder elucidar todas as questões sob a luz das Escrituras.

O Que a Bíblia Ensina Sobre a Homossexualidade é um livro bastante completo a sua maneira. Responde de forma lógica as principais questões levantadas por liberais cristãos ou defensores da causa gay, sempre fundamentando seus argumentos com versículos daquele livro sagrado. Sua exposição faz uma viagem desde a criação em Gênesis, passando por Sodoma e Gomorra, Romanos e Coríntios, incluindo uma observação sobre a suposta natureza amorosa daquela Deus. Traz ainda três apêndices que tratam sobre o casamento homossexual dentro da sociedade contemporânea, a atração homossexual, e a igreja: seus compromissos e a homossexualidade.

Kevin Deyoung é acima de tudo respeitoso em sua exposição, deixando claro que a declaração de sua fé, e seus dogmas, visto que é um cristão, de modo algum justificam qualquer tipo de agressão ou violência contra quem quer que seja. Embora seja opinativo em seus apêndices, e até levemente tendencioso neste ponto, é majoritariamente teológico em seu conteúdo. Não deixa dúvidas de que a Bíblia de fato condena enfaticamente, e sobre a maioria dos outros pecados, a prática da homossexualidade, e qualquer indivíduo coerente se sentirá impelido a concordar com suas conclusões.

Entretanto, concordar que um determinado texto afirme tal coisa, não significa considerar que tais afirmações devam ser aplicadas e praticadas por não cristãos, que sejam legalmente cabíveis para uma sociedade laica, ou mesmo que sejam lógicas para os nossos tempos.

"Dai a César o que é de César." Mt 22:21


por Allan Trindade


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sábado, 4 de abril de 2020


" Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações. " 
Isaías 14:12


" Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e o resplandecente Lúcifer. " Apocalipse 22:16

ANJOS CAÍDOS é um livro escrito por Harold Bloom, com 83 páginas e foi publicado no ano de 2008 pela editora Objetiva.

Sim, talvez você tenha se impressionado com as passagens acima, especialmente no ponto onde Jesus afirma ser Lúcifer. A bem da verdade eu manipulei o texto. A fonte original se refere em Isaías a Lúcifer, mas em Apocalipse como estrela da manhã. O que eu fiz não é novidade e em outros lugares você poderá encontrar o termo lúcifer também sendo substituído por sua forma traduzida mais adequada, ou seja, estrela da manhã. E se procurar além das traduções verá que existem diversas teorias que especulam sobre lúcifer ter sido um rei déspota daqui, um príncipe de acolá, ou um planeta de outrora.  E por que tantas fontes usam tantas traduções diferentes, ou dão sentidos diversos para uma mesma sentença? Teologia!

 A  interferência teológica dentro das traduções causa este tipo de fenômeno e confunde as mentes daqueles menos entendidos do assunto. Estrela da manhã é apenas a tradução para a palavra lúcifer. Uma expressão filosófica para alguns. Um nome próprio para outros. Para aqueles que consideram lúcifer como estrela da manhã, em outras palavras, como sendo apenas uma alegoria poética para aquele que traz a luz, na maior parte do tempo serão justos em considerar que todas as vezes que esta palavra aparecer na Bíblia, deverá ser traduzida como tal. 

Porém, para aqueles tantos outros que creem que lúcifer seja na verdade um nome próprio, uma pessoa em si, ou ainda o próprio anjo caído, bem...estes provavelmente considerarão Lúcifer em Isaías mas certamente não considerarão Lúcifer como sendo Jesus no Apocalipse. Dois pesos e duas medidas? Provável que sim...

...

Harold Bloom abre sua obra destacando um fato: há no mínimo três mil anos somos apresentados a imagens e conceitos de anjos, oriundos das três principais religiões abraâmicas dominantes do mundo ocidental, e em tempos modernos, pela grande explosão do tema através de místicas alternativas que desde a década de 90 preenchem as estantes de livrarias e locadoras (quando estas ainda existiam) com os mais variados tipos de livros, kits e filmes sobre o tema. Cremos não ser exagero afirmar que não há pessoa viva nestas terras que não tenha ouvido falar nestes divinos seres alados. 

Diferentemente de seus parentes menores, os demônios, que possuem um caráter mais universal, sendo encontrados em praticamente todas as culturas ao redor do mundo, segundo o autor, os anjos parecem ter uma relação específica com aquelas origens zoroatristas, judaicas e consequentemente cristãs e islâmicas. Sempre dotados de funções divinas e por vezes rebeldes, estes seres são únicos por terem uma relação estranhamente próxima a nossa, não apenas em seu sentido pseudo histórico - vide os diversos relatos de contatos e relações encontráveis nestes textos sagrados-, mas também comportamental, sendo dotados de paixões e vontades, embora na maior parte do tempo exerçam a função de servir. 

Seria a atração dos anjos por nós e nossa por eles mero acaso?

Bloom destaca o fato de seres humanos não terem o mesmo apreço pelos demônios que possuem pelos anjos, sendo estes vistos com certo glamour mesmo quando são diabólicos. O que dizer de frases como " ...você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu, com olhos de cristal, me enfeitiçou eu nunca vi nada igual...",  apenas para citar um dentre vários casos de poemas e canções que tornam a queda destes seres interessantes ou atraentes para nós. A razão para isso? 

Segundo Harold, anjos caídos foram portadores de algo que tem o potencial de ser reavido, pois este algo é parte intrínseca de sua própria natureza. Sendo assim, toda esta atração por anjos, sendo eles caídos ou não, talvez represente um apelo íntimo e desconhecido residente dentro de cada um de nós. Uma verdade oculta em nossa próprio ser, que se manifesta através deste estranho interesse, ansiando por manifestar-se. Algo que também temos mas não sabemos. Um segredo sobre aquilo que nós somos.  A possibilidade de nós sermos anjos caídos buscando reconciliação com nossos iguais. 

Para justificar toda esta senda por comunicação ou reconciliação, que destaca, existe desde o paganismo,  como visto nos textos de Apuleio e sua fala sobre o daemon de Sócrates, passando por Santo Agostinho e seu entendimento de como seria a vida dos anjos antes do Éden, segundo o autor, são estes os seres, e não os diabos,  que independentemente do nome ou forma que lhes sejam atribuídas, sempre estiveram no imaginário e ânsias humanas em busca do Divino. E se levarmos em consideração a etimologia da palavra, angelus, mensageiros, e portanto, intermediários, talvez essa teoria nem parece tão absurda. 

O autor disserta sobre outros temas correlacionados, como do conceito judaico sobre satã e seu entendimento amorfo, muito mais ligado a qualquer ideia ou elemento de oposição, que propriamente tratando de um ser como um diabo espiritual ou demônio sedento por maldade, considerando que esta percepção deturpada fora propagada principalmente pelo já mencionado Santo Agostinho em sua obra A Cidade de Deus. A ideia por trás do conceito reside sobre o argumento de que mesmo que os demônios tenham sua função no imaginário humano, são os anjos que desempenham os papéis mais importantes.

Anjos caídos é um livro interessante a sua maneira. Divaga, vai e volta nos temas sem muito compromisso com uma formalidade textual. Lança assuntos e ideias e deste modo exige um certo nível de conhecimento geral sobre o que trata. É curto mas levemente profundo, cheio de referências a textos e autores clássicos da literatura, como Shakespeare, John Milton, Mary Shelley, dentre outros. Tem uma proposta interessante sobre qual seja a real identidade humana e é preenchido com belas ilustrações de Liberati.

Não crie grandes expectativas. Não é indispensável. Mas até vale um tanto.


por Allan Trindade

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quarta-feira, 12 de junho de 2019


Há alguns anos atrás me tornei hindu, devoto de sri Ganesha. Dentro desse período não era incomum que pessoas, especialmente cristãos, ao saberem disso, me confrontassem de forma debochada.

 - Quer dizer que você acredita num deus gordo com cabeça de elefante?
 - Sim, pratico meus pujas diariamente. Algum problema?
 - Não, só acho engraçado você acreditar nisso.
 - Pois é, também acho engraçado você acreditar que cobras um dia falaram, tal qual em Gênesis. Ou que um ser humano pode viver dentro de uma baleia, tal como o relato de Jonas. Ah, a Bíblia não fala de baleia mas peixe gigante? Como queira. Ou que teu deus precisa falar através de jumentas como no caso de Balaão, ou plantas como no caso de Moisés. Ou que esse mesmo deus seja capaz de mandar duas ursas arrancarem pernas, braços e cabeças de 42 crianças simplesmente porque chamaram Eliseu de careca. Ou ainda que é normal destruir duas cidades 'por pederastia', como Sodoma e Gomorra, mas deixar que os sobreviventes, Ló e suas filhas, transem a vontade, regados a muito vinho, mesmo depois de sua esposa/mãe ter morrido, num caso no mínimo bizarro de incesto. E isso porque eu nem citei os anjos do Apocalipse e suas formas bem mais exóticas que aquela do deus que eu sigo...

Mas o melhor mesmo deve ser rir também dos ribeirinhos que dizem que o boto sai do rio para engravidar meninas, mas achar absolutamente normal que Jesus tenha nascido de uma virgem, não é mesmo?

Vamos continuar essa conversa e rir mais um pouco?

O LIVRO DOS SANTOS é um livro em capa dura, escrito por Rogério de Campos, com 366 páginas, divididas em 16 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Veneta.

Este livro chega assim: sem introduções ou explicações sobre sua estrutura, metendo o pé na porta da Igreja para, tal qual no dia do Apocalipse, reerguer os corpos empoeirados de santos e santas chamados a darem suas opiniões, ou relatar um pouco de suas vivências para nós. De tom cômico, irônico ou mesmo tenso em alguns momentos, cada uma de suas páginas contém um quadro onde a história é apresentada, tudo organizado por temas que vão desde o machismo característico de muitos santos conhecidos do grande público - conhecidos por sua imagem mas dificilmente por suas ideias -, perpassando pelo estranho hábito que outros tantos tinham de ficar andando por aí sem cabeça, até sua estranha adoração pelo sofrimento e pela morte. Os capítulos aqui são:


Da Perversidade Natural das Mulheres
Onde são apresentadas histórias ou falas de santos misóginos

Dos Milagres Milagrosos
Milagres diversos do tipo histórias que o povo conta e a igreja assina embaixo


Donde se Constata que Existem Algumas Mulheres que, de Tão Virtuosas, São Quase Homens
Que lista mulheres santas que em geral não queriam contatos com homens


Donde se Aprende Que, Para um Bom Cristão, a Cabeça é Algo Dispensável
Onde apresenta alguns santos cefalóforos, ou seja, que andavam por aí literalmente sem cabeça e até falavam


Da Vontade Própria: a Semente do Mal
Sobre o quanto a vontade própria é perniciosa para um cristão


Do Porque Só os Virgens Agradarem ao Senhor
Onde os santos evitam ou condenam o sexo e exaltam a virgindade como caminho para o Céu

Do Casamento: um Pecado Menor
Que trata de casamentos diversos e o quão condenável isso é para alguns santos

Do Amor Puro
Sobre os "vários tipos de amor cristão"

Da Justiça Cristã
Onde apresenta casos de amor e justiça praticados pela cristandade católica

Da Ciência Cristã
Onde apresenta o quão científica a Igreja é...só que não

Da Virtude, Conduta e Afins
Histórias diversas sobre hábitos, atos e consequências

Das Delícias da Dor
Sobre o prazer que os santos têm em praticar BDSM

Do Cemitério como Jardim Cristão
Sobre morrer quando bem entender e relíquias da morte

Da Utilidade dos Santos
Onde são indicados os santos padroeiros e do que.


Os capítulos seguintes trazem uma Nota Semibibliográfica e um Índice Onosmático.

O Livro dos Santos é leve e descontraído, mas acima de tudo divertido, embora possa ser considerado pesado ou herético por aqueles menos espirituosos. Carrega a virtude da honestidade em seu interior, porém, peca pela falta de beleza exterior: sua capa embora dura, é feia. Indicado para todos aqueles que, em sendo capazes de rir da fé dos outros, sejam igualmente capazes de rirem de suas próprias. Afinal de contas, água benta na cara dos outros é refresco.

por Allan Trindade.



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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Filho da Puta! Sem dúvidas um dos palavrões mais conhecidos por toda a cultura ocidental e que, de tão difundido, costuma ser facilmente compreendido até mesmo por aqueles que não dominam o idioma de quem o verbaliza. Não é preciso falar espanhol para entender um hijo de puta, italiano para figlio di puttana ou mesmo um fils de pute em francês. Os ingleses, embora fortemente influenciados pelo Latim, porém de linguagem de cognição não tão simples para os falantes das línguas previamente citadas, amenizaram um pouco para as putas e atribuíram as cadelas o mesmo sentido com seu son of a bitch.

Embora não se saiba com precisão as origens para este tipo de xingamento, as elucubrações parecem óbvias: ser filho da puta é ser primariamente um bastardo, filho de um pai desconhecido ou ausente e de uma mãe profissional do sexo, ou ainda que tivera relações antes do casamento. Estas raízes, se analisadas sob a perspectiva religiosa, encontram muito de seus fundamentos no Judaísmo e Cristianismo, religiões de forte inclinação moral que tendem a demonizar qualquer tipo de exceção a sua forma tradicional de enxergar o sexo e seus relacionados, sendo a prostituição um dos maiores pecados considerados nestas doutrinas. Ser filho da puta para eles é então sempre o outro. Aquele que está fora. Que por si ou através de sua progenitora não cumprira suas convenções sociais ou religiosas. 

Mas quão irônico seria se aquela velha história sobre Natal, manjedouras, Belém e magos. Herodes, perseguição e Egito. Anjo, virgindade, Maria e José escondessem uma verdade surpreendente nas entrelinhas da Bíblia Sagrada sobre o judeu que é o principal ícone da fé cristã:

de que Jesus é, literalmente, o filho de uma puta?!

MARIA CHOROU AOS PÉS DE JESUS é um livro feito por Chester Brown, com 283 páginas, divididas em duas partes e publicado no ano de 2017 pela editora WMF Martins Fontes.

Se você é cristão ou tem simpatia por esta religião, por favor, pare por um segundo e se pergunte quão sensível é sua fé. Quais atitudes, elementos ou ideias são capazes de te ofender quando o assunto é a sua crença? Ter isso em mente pode ser determinante para definir se você deve adquirir este livro ou mesmo continuar lendo esta resenha. O assunto aqui é prostituição. Mas não apenas aquele conceito bíblico de que prostituição pode se referir a qualquer atitude que desagrade ao Deus de Israel e suas diretrizes, mas especificamente aquela prostituição que nós conhecemos bem, direta ou indiretamente: a prostituição do corpo em função do sexo.

Chester Brown é um desenhista, do tipo que faz quadrinhos, e já tratou deste assunto antes em sua outra publicação de nome Pagando Por Sexo, recomendada para aqueles que tenham interesse em saber mais sobre o assunto, incluindo questões legais e ideológicas, tais como o posicionamento de feministas em relação a este tema, e as divergências que envolvem todo este universo a nível secular. Este livro em específico não será resenhado por nós por não tratar do tema religião ou ocultismo, mas nós o recomendamos. Caso tenha interesse em adquirir, você pode fazê-lo através deste link: https://amzn.to/2ShII0R

Aqui o método se repete: o autor introduz o leitor através de diversas histórias em quadrinhos e em seguida, explica cada um dos elementos apresentados, as razões para suas conclusões, referências bibliográficas e todos os elementos que compõem a defesa de uma tese. Tudo começa em Gênesis e a história das oferendas dos irmãos para Javé, encerrada pelo fratricídio de Caim contra Abel. Seguida de Tamar e suas artimanhas para engravidar de Judá. Raabe e a salvação de Naate e Abade. Noêmi, Rute e a sedução de Boaz para desposá-lo. A traição de Davi contra um de seus soldados mais fieis, Urias, apenas para transar com sua mulher, Betsabá. Além da parábola dos Talentos, do Filho Pródigo,  do descontentamento de Simão e Judas sobre a ação de Jesus em relação a Maria de Betânia, e o dilema de Mateus em relação a Maria, mãe do nazareno. Assim se encerram as histórias. E que o legente tenha em mente que Chester não tem a intenção de reproduzi-las sempre de forma literal conforme contadas na Bíblia, mas, em alguns casos, dar uma outra interpretação sobre o que as entrelinhas talvez queiram dizer.

Numa primeira impressão alguns podem considerar exagero de nossa parte termos salientado a necessidade de certa maturidade emocional e de fé para ler este livro, vide que se baseado nas histórias apresentadas no parágrafo anterior, não há nada assim de tão grave. Aqueles que já leram a Bíblia inteira hão de perceber que lá existem relatos outros muito mais escandalizantes que estes. Entretanto, a polêmica se resume a uma personagem específica e todas as histórias selecionadas por ele tem por objetivo embasar a seguinte teoria: Maria era prostituta, uma meretriz que mesmo estando prometida para José,  ia para cama com outros homens por dinheiro e nem mesmo sabia quem era o pai de seu filho, aquele que viria ser chamado Jesus, um bastardo, por assim dizer.

Segundo o autor, toda esta ideia surgiu a partir da leitura do livro The Illegitimacy of Jesus, e que decidiu expor através de sua arte o provável dilema que Mateus encontrara para escrever seu evangelho e indicar de forma indireta o ofício de Maria. O apóstolo teria criado uma falsa genealogia da pseudo virgem de modo a indicar que se suas ancestrais eram prostitutas,  os leitores mais atentos perceberiam que ela assim também o era. E foi por isso que incluiu duas famosas meretrizes, Tamar e Raabe, na ancestralidade de Maria, assim coma aquelas que embora não o fossem de forma declarada, tiveram atitudes comparáveis a, tais como Rute e Betsebá. Assim, contrariando o padrão de não citar mulheres em genealogias, pela análise do conjunto das quatro, no futuro, as pessoas concluiriam que Maria também era uma prostituta, e não dizê-lo de forma direta evitaria a censura dos cristãos de sua época.

Como complemento, esclarece que a  própria Bíblia atesta que vizinhos não acreditavam na virgindade de Maria, tal como em Marcos 6:3 e João 8:41. À sequência de sua defesa, Brown argumenta que tal qual os exemplos das histórias destacadas por ele, o Deus da Bíblia admira os ousados que desafiam suas ordens, sempre os gratificando de alguma forma e que nunca pediu para que sigamos lei alguma, além de dizer que o próprio Jesus não condena a prostituição. Afirmações que parecem pouco razoáveis se confrontadas com passagens como aquela de João 8:11 -  " vá e não peques mais ". Não obstante, estabelece uma série de pontos indicativos que tratam de como a prostituição está sempre presente no contexto bíblico - objetiva ou subjetivamente - sendo este um tema que sem dúvidas merece ser revisto por historiadores e teólogos cristãos.

Em função do tipo de resenha que desenvolvemos aqui, esclarecemos ao leitor que qualquer impressão que o resumo de nossas palavras possa indicar, este deve ser entendido como aquém da ideia exposta por Chester Brown nesta obra. Sua defesa é clara: Maria era prostituta. Porém, a pesquisa apresentada pelo autor dá mesmo sinais interessantes que nos fazem refletir ao menos sobre essa possibilidade, especialmente se não encararmos a prostituição como algo negativo, mas apenas como mais um ofício, nem melhor nem pior que qualquer outro, nem satânico nem santo, apenas e geralmente, injustamente discriminado.

por Allan Trindade


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quarta-feira, 25 de julho de 2018

A teoria do Big Bang, que afirma que o Universo explodiu do nada, é um reflexo exato do ensinamento cabalístico de que Deus precisava criar um espaço vazio em Seu Ser Absoluto para iniciar o processo da criação. Esse recuo para criar espaço é conhecido como tzimtzum. O ensinamento diz que a Luz foi derramada no espaço, ou no Ventre Cósmico, num padrão de expansão e contração, criando a matriz original da Árvore da Vida. Era necessário haver dualidade para que a Luz fosse contida, do contrário teria fluído eternamente sem forma. pg 40


CABALA PRÁTICA SEM MISTÉRIOS é um livro escrito por Maggy Whitehouse, com 103 páginas, dividas em 15 capítulos e publicado no ano de 2013 pela editora Pensamento.

Já fazem alguns anos que a cabala ganhou notoriedade pública, especialmente depois que alguns artistas, tais como Madonna, assumiram sua relação com seus ensinamentos. De origem judaica e entendida por uns como indissociável desta religião, fato que é que há séculos este sistema esotérico vem sendo usado por diferentes segmentos, místicos ou seculares, para os mais diversos fins. Seja para compreender a complexidade do Torá ou para amarrar uma pulseira de lã vermelha em seu pulso contra o mal olhado, para aqueles que nada entendem deste contexto, eis uma obra que talvez possa lhes ajudar a dar os primeiros passos.

Em sua introdução, Maggy nos conta que sua mãe ao saber que ela estava se envolvendo com Cabala, ficou preocupada e foi consultar a opinião do vigário sobre o assunto. Resultado: foi acusada de estar envolvida com algum tipo de culto satânico ou bruxaria. Nada que em termos de ignorância nos impressione realmente. Por isso é importante que você entenda: Cabala não é religião. Repita mentalmente esta frase para jamais esquecer disso. Sendo assim, ela não foi feita para ser adorada, mas para ser estudada, compreendida e, por assim dizer, praticada e ainda segundo a autora, pode ser aplicada a qualquer segmento religioso. A Cabala tem por finalidade dar explicações sobre a criação do universo tal qual o conhecemos e os elementos nele contidos. Cabala significa 'receber' em hebraico, e é comumente conhecida por um dos símbolos mais famosos associados a sua estrutura, a Etz Hayim, ou simplesmente, Árvore da Vida, um diagrama de dez esferas e vinte e dois caminhos que as interligam.

Segundo Whitehouse, a Cabala tem sido transmitida de forma oral de geração em geração, e mesmo que seja atualizada sob determinados aspectos, não tem sofrido alterações em sua estrutura fundamental. Este sistema - quando usado em conjunto ao hebraico mas não apenas - traz consigo uma característica comum a alguns dos idiomas antigos mais conhecidos: o uso de letras também como números. Assim, um elemento de igual importância para os cabalistas será não apenas a análise dos números per se, mas o valor numérico que as palavras podem conter, uma vez que a cada uma das letras seja dada um valor, e a esta prática dá-se o nome de gematria. Dados os elementos básicos que compõem esta conjuntura, a autora nos apresenta as diferentes escolas de pensamento que carregam o nome, ou fazem uso, da Cabala, que são: luriânica, toledana, ortodoxa, cristã, alquímica, além de tratar das diversas correlações esotéricas que ocultistas fazem com a mesma, tais como com a Magia, o Tarô, a Maçonaria, a Golden Dawn, dentre outras.

À continuidade, Maggy nos fala sobre o entendimento que os cabalistas dão para a Bíblia e Deus, que em muitos casos divergem daquele dos cristãos, uma vez que entendam que é dado a todos o direito de se tornarem uno com Deus, e que isso não fora e não é uma exclusividade de Jesus. Sobre a dificuldade de traçar uma historicidade para o sistema, uma vez que tenha sido praticado de forma exclusivamente oral durante muito tempo. Como interpretar a Árvore, as Sephiroth, as relações com a Astrologia, os Anjos e Arcanjos, e conclui o livro com exercícios denominados: Fazendo do Seu Corpo a Árvore da Vida, Desenhando Sua Própria Árvore da Vida, Criando um Ambiente de Cura Cabalística, Entoando o Nome Sagrado, Meditação Contemplativa Cabalística e A Celebração de Um Ritual Simples.

O livro começa de uma maneira bem descomplicada, com capítulos tão curtos que dão a impressão que não acrescentarão em muita coisa. Porém, o desenvolvimento é satisfatório e parece mesmo que foi escrito de modo a não assustar o recém chegado com um mundo de informações. Tudo se desenvolve de forma medida, com explicações suficientes para que o iniciante possa não apenas dar passos maiores na pesquisa a partir daqui, mas para a partir dele próprio por em prática exercícios a serem experimentados sob a luz da Cabala. Como introdução, certamente recomendado.

por Allan Trindade
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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Quero dizer que o que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios e não a Deus, e não quero que vocês tenham comunhão com os demônios. Vocês não podem beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; não podem participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.

I Coríntios 10:20-21


THE DAEMON TAROT é um livro escrito por Ariana Osborne, com 143 páginas, 69 cartas e publicado no ano de 2013 pela Sterling Ethos.

A passagem destacada acima certamente não é a única encontrada na Bíblia que faz referência a demônios. Antigo e Novo Testamento dão indicativos diretos e indiretos sobre a existência destes seres, variando, porém, na descrição e forma como são entendidos. Se a partir de Jesus tais criaturas são descritas de maneira quase sempre genérica, agrupados sob uma mesma categoria, é nos tempos da vigência da lei de Moisés que eles costumam ter nomes mais específicos.

E talvez tenha sido sob esta perspectiva que Jacques Auguste Simon Collin de Plancy tenha se inspirado para escrever sua obra mais conhecida, Le Dictionnaire Infernal, lançada em 1818, ainda mais cristianizada em 1830 quando se convertera ao Catolicismo, e famosa por classificar uma série de demônios e atribuir-lhes diversos títulos nobilitários. Entretanto, embora tenha sido Collin o autor do Dicionário, seu grande sucesso só seria alcançado em 1863, já em sua 6° edição, através da arte de Louis Breton, o artista que imortalizaria a forma como enxergamos cada um dos seres apresentados naquela obra, que é copiada até os dias de hoje.

E foi assim que inspirada pelo Dictionnaire e as belas imagens de Breton, que Ariana nos apresenta seu título, que embora carregue o nome de tarô, em nada se relaciona com aquele livro, sendo este melhor definido como um oráculo. The Daemon Tarot vem em uma caixa resistente de papelão, com um livro e 69 cartas. Cada demônio, um para cada carta, fora explicado sob três perspectivas pela autora: annotation, inspiration e divination.


  • Em Annotation estão reunidas as informações históricas oriundas de suas pesquisas de diversas fontes - não apenas do Dicionário - que estão indicadas na bibliografia do livro.



  • Em Inspiration encontram-se suas interpretações e insights sobre cada carta, mas deixa claro que, cada um é livre para reinterpretá-las a sua própria maneira.



  • Em Divination traz o significado oracular da carta e diz que este, ao menos em sua experiência, melhor funciona com tiragens de 1 ou 6. No método de 1 carta, basta que pense em uma pergunta e consulte a resposta no livro. No método de 6, cinco cartas são dispostas em forma de cruz, uma para cada braço e uma no centro +, além de mais uma a ser posta do lado direito. Este método é destinado para questões mais complexas.


Os 69 arcanos trazem o nome no topo, a imagem no centro e a descrição do demônio em sua base. São eles: Abigor, Abraxas, Adramelech, Agares, Alastor, Alocer, Amduscias, Amon, Andras, Asmodeus, Astaroth, Azazel, Bael, Balan, Barbatos, Beelzebub, Behemoth, Belphegor, Berith, Beyrevra, Brooms, Buer, Bufonite, Caacrinolaas, Cali, Cerberus,Deumus, Eurynome, Flaga, Flavros, Forcas, Furfur, Ganga-Gramma, Garuda, Gomory, Haborym, Ipes, Lamia, Lechies, Leonard, Lucifer, Malphas, Mammon, Marchochias, Melchom, Moloch, Mycale, Nickar, Nybbas, Orobas, Paimon, Picollus, Pruflas, Rahovart, Ribesal, Ronove, Sabbat, Scox, Stolas, Tap, Torngarsuk, Ukobach, Volac, Vuall, Witch's Round, Xaphan, Yan-Gant-Y-Tan, Zaebos.


The Daemon Tarot é sem dúvidas um título primoroso, que reúne qualidade, pesquisa, divinação e história em um só conjunto. Observar cada uma das ilustrações de forma tranquila e despretensiosa é um prazer a parte, e dá mesmo a impressão de estar imerso em um museu antigo admirando as telas de um criativo artista que com sua mente inventiva, tem a capacidade de encantar pelas estranhezas de suas composições que misturam homens, bestas e objetos diversos, além de, com a devida concentração, nos dar a capacidade de nos conectar a tais seres para que possam nos auxiliar a sanar nossas dúvidas. Mas para isso, quem sabe o ideal seja que tu estejas sentado a mesa, com os 69 demônios dispostos a sua frente, degustando um ótimo cálice de vinho... e então, aceitas?



por Allan Trindade




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Em meados do século XX, um músico e  ex artista circense daria início a uma nova religião após o lançamento de um livro que atrairia a simpatia de muitos, e a antipatia de tantos outros. Seu autor? Anton Lavey. Seu título? A Bíblia Satânica. Genial, devemos por princípio considerar. Isso porque seu nome reúne em si duas palavras de impacto tão forte sobre o imaginário e religiosidade popular, que sua simples menção causa desconforto na maior parte da população, e tem um poder intrínseco de atrair a atenção e curiosidade de todos, sejam eles crentes ou ateus. 


E quanto a isso não há com que se estranhar. Pois para a maioria das pessoas, o vocábulo bíblia não é um simples substantivo, usado para definir qualquer conjunto de livros reunidos num único tomo. Mas tem uma relevância espiritual, consideram-no sagrado, e por isso mesmo, usam o termo de forma quase sempre generalista para se referirem aquela bíblia específica, a dos cristãos, a Bíblia Sagrada. E se para muitos a palavra bíblia é sagrada por si, quão herético seria vê-la junto da palavra satânica?

Satã, o rival, opositor, o inimigo daquele 'Deus Sem Nome' dos judeus que também transforma um substantivo comum em nome próprio. Apontado como fonte de todo mal, personificado por uns como tendo a forma de um bode - por vezes um tanto quanto indecente -, e por outros tantos como sendo um anjo andrógeno de feições virginais. Sentenciado como indutor de estupros de crianças até batidas acidentais com o dedo mínimo do pé na quina do sofá. 


Se injustiçado ou justamente condenado, não sabemos. Mas nos parece digno que  após tantos anos de acusações, e a falta de consenso sobre quem, ou o quê, ele seja, que um de seus representantes tenha se erguido para finalmente falar em seu nome.

A BÍBLIA SATÂNICA é um livro escrito por Anton Szandor LaVey, publicado no ano de 2010 pela editora Saída de Emergência, com 191 páginas, divididas em 4 livros internos.

Esta é uma edição portuguesa, e portanto, algumas das palavras e expressões usadas podem causar certa estranheza aos leitores brasileiros. Não apenas pelas diferenças ortográficas que compartilhamos mas também pelo uso e escolha dos tradutores sobre alguns termos específicos, geralmente traduzidos por nós de forma literal do inglês, e não interpretados, como assim o fizeram. Para exemplificar; Left Hand Path, costumeiramente transposto em terras tupinikins como Caminho da Mão Esquerda, fora definido como Via Antinomiana por nossos irmãos lusitanos; Lesser Magic (Baixa Magia) como Magia Mundana; Black Magic (Magia Negra) como Caminho Relativo, além de outros, todos devidamente explicados num glossário nas páginas 190 e 191 desta edição.

Ainda dentro do contexto além mar, em sua introdução, Lurker nos fala sobre sua experiência e encontro junto ao caminho satânico, o entendimento do povo português sobre o assunto, e a criação da Associação Portuguesa de Satanismo, fundada com o objetivo de divulgar e esclarecer a verdade sobre esta nova religião. Em seguida, Peter Gilmore nos conta sobre sua entrada na Church of Satan, traz uma pequena biografia de seu fundador, além de citar filmes, documentários e os livros que vieram em seguida a este, celebridades que passaram pela igreja e as razões para ter se tornado seu sumo sacerdote. Estas introduções, explicativas e bem desenvolvidas, contribuem muito positivamente para o entendimento de todo este contexto.

O prefácio assinado pela Church of Satan fala como que em forma de manifesto sobre quais são os objetivos deste livro: ser uma resposta aos grimórios, tratados e documentos antigos de magia que, segundo eles, com raras exceções, "...não passam de divagações santimoniais fraudulentas - devaneios dominados pela culpa, e de uma algaraviada esotérica levados a cabo por cronistas do saber mágico, incapazes ou relutantes em apresentar uma perspectiva objectiva sobre o assunto. " pg.34. No prólogo, expõe sua visão sobre os deuses da Via Nomiana (Mão Direita) e de suas brigas para perpetuarem suas mentiras e de seus sacerdotes. Saúda Satã e a carne, alegando que sua era finalmente chegara, e que uma grande igreja será erguida e consagrada em seu nome. Tudo isso de uma maneira um tanto poética, porém, sem muita elegância. 

Por fim das introduções nos traz uma lista chamada "As Nove Declarações Satânicas", com uma sequência explicativa sobre aquilo que Satã representa; ideias, sentimentos, ações e reações. Nada de descrições sobre uma figura personificada com chifres ou qualquer outra forma por aqui. E é a partir deste ponto que o livro se subdivide em quatro, o que justifica seu título de bíblia, cada qual associado a um ser demonizado, a saber: O livro de Satã, O livro de Lúcifer, O livro de Belial e O livro de Leviathan.

No Livro de Satã, relacionado ao elemento Fogo, LaVey esclarece que os difamadores deste ser sempre tiveram voz, foram ouvidos, pregaram a caridade, mas nunca deram a chance para o representante do mal se defender de seus ataques. O que - segundo o autor - é uma atitude ingrata, uma vez que não fosse por Satã, suas igrejas não teriam o sucesso que tem, afinal de contas para dizer-se bom é preciso definir e apontar quem é mal. O livro não nos fornece informações sobre como estas quatro divisões foram escritas, se por inspiração diabólica, conclusões racionais ou incorporação de algum ser espiritual. Entretanto, aqui LaVey mais uma vez encarna uma fala poética e assume a voz do próprio Satã. É inteiramente escrito em versículos, divididos em cinco capítulos, com parte de seu discurso voltado contra o contexto judaico-cristão. Fala sobre diretrizes ideológicas, atitudes esperadas para um satanista, mas acima de tudo: exalta o forte e despreza o fraco.

#8 Eu levanto bem alto o estandarte dos fortes! pg.44

#1 "Amai-vos uns aos outros" foi dito ser a lei suprema, mas que poder é que a tornou assim? Sobre que autoridade racional assenta o evangelho do amor? Por que razão não deverei eu odiar os meus inimigos - se os "amar", isso não irá me colocar à sua mercê? pg.46

#7 Odeia os teus inimigos com todo o coração e, se um homem te bater numa face, ESMAGA-O na outra! Liquida-o sem piedade, pois a auto-preservação é a lei mais elevada! pg.47


No Livro de Lúcifer, associado ao elemento Ar, abandona a forma de versículos - e assim o faz com todos os livros sequentes - e traz interessantes reflexões sobre a liberdade, alegando ser esta fruto da dúvida e não da verdade. Neste ponto é preciso que se tenha compreendido que a base argumentativa do autor é que a verdade não está engessada no tempo ou no espaço, é dinâmica e relativa, e portanto, uma religião, ou um livro,  que se pretenda ser a resposta ultimal e atemporal para todas as questões humanas, só pode ser falso. Sendo assim, se o Diabo é o pai da mentira, só pode ser ele o autor da Bíblia Sagrada. 

Neste livro, de natureza mais filosófica e questionadora, o autor nos fala sobre a inutilidade de rezas, sobre a hipocrisia do ódio disfarçado de amor praticado por muitos indivíduos que se escondem através de certas crenças, afirma que satanistas acreditam em Deus ao mesmo tempo que alega que as religiões, e seus deuses, são invenções humanas, e portanto, melhor fariam as pessoas se investissem seu tempo e energia em lutar pelos seus quereres, ao invés de implorar por eles. 

Aqui ainda confronta especificamente uma série de crenças e práticas cristãs, aponta a dissimulação de algumas religiões neo-pagãs, de tradição no caminho bruxaria, que apesar do discurso de emancipadas, mantém a crença de que seus feitiços não podem ser praticados por vontade pura e simples do feiticeiro, acreditando estarem subordinados a uma lei de tríplice retorno que por fim os tornam nada menos que cristãos compassivos disfarçados, e portanto, segundo ele, menos respeitáveis que os verdadeiros cristãos.

Lúcifer é certamente o mais significativo de todos os livros, não apenas pela maior substância de páginas, mas também por sua variedade de elementos contidos. Aqui se encontram muitas das explicações sobre o que é ser satanista, o por que do uso do termo e a diferença de suas ideias para ideias previamente existentes, das razões para o Satanismo ser uma religião, sobre a etimologia dos deuses e sua demonização pelos cristãos, lista uma série de demônios, fala sobre pactos, amor , temor, sexo, fetichismo, sadismo, masturbação, vampiros, prazer, sangue, sacrifícios, missas negras,  dentre outros. Se tivéssemos que dar uma referência direta para sanar suas dúvidas sobre o que é e o que pensa o Satanismo, seria este o livro a ser primeiramente lido.

O Livro de Belial, relacionado ao elemento Terra, é destinado as explicações sobre qual é o entendimento da magia dentro da doutrina satânica. Considerada neutra e isenta de qualquer conceito moral ou ético, é dividida em duas classes: magia ritual/cerimonial ou não ritual/manipulativa. Aqui, Anton reside suas ideias sobre a base de que a magia ocorre graças a manipulação e direcionamento de energias induzidas - ou auto induzidas - e direcionadas com o fim de causar determinados efeitos que de outro modo não ocorreriam. Sendo assim, magia é: " A alteração de situações ou acontecimentos de acordo com a vontade do indivíduo, os quais, usando-se de métodos normalmente aceites, seriam inalteráveis." pg.127

Veja que o conceito é comum e familiar para todos aqueles minimamente estudados nas ciências esotéricas. Para além disso e de forma mais específica, aparentemente, a premissa de seu trabalho mágico é sempre individual, mesmo quando feita em grupo, e a energia do indivíduo é acreditada como sendo a única responsável pela produção de todos os efeitos conquistados. Mas ainda sim, você encontrará evocações e listas de entidades demoníacas em várias partes do livro. 

Note que aqui usamos o termo "aparentemente" pois este não é o único livro escrito por este autor para explicar sua doutrina. Além disso, as práticas de sua igreja, ou até mesmo de seus adeptos, podem diferir das ideias que apresentamos através desta leitura. Portanto, que fique claro que as conclusões que assumimos aqui, são baseadas única e exclusivamente sobre as impressões que tivemos apenas ao ler esta obra em específico. 

Além das classes apresentadas acima, LaVey nos fala sobre os três tipos de ritual na magia satânica: O Ritual Sexual; O Ritual da Compaixão e O Ritual da Maldição. Seus ingredientes, onde cita uma séria de posturas mentais e condições temporais ideais para a realização destes ritos; uma sequência preparativa base para o cumprimento dos rituais, onde cita todo o passo a passo a ser produzido; além dos itens e paramentos para o rito, tais como: mantos, altar, o selo de Baphomet, velas, sino, cálice, elixir, espada, pênis, gongo e pergaminho. 

Por fim, chegamos ao Livro de Leviatã, associado ao elemento Água e que nos explana a importância da ênfase na fala durante o ritual, traz uma invocação a Satã e uma invocação para cada um dos três tipos de rituais satânicos. Conclui todo seu conjunto com as Chaves Enoquianas, expõe seu uso dentro do Satanismo e ressalta o poder contido nesta língua.

Este é um livro religioso, e tal qual a maioria deles, possui um discurso de natureza dúbia e em muitos momentos, contraditória. A argumentação de LaVey durante grande parte de sua fala leva o leitor a acreditar que a essência do Satanismo é ateística; que nega a existência de seres espirituais e até mesmo poderes ocultos passíveis de serem controlados e direcionados por seres humanos. Mas seu fim certamente não é este. Os últimos capítulos de sua bíblia apresentam uma série de conceitos e rituais que nos fazem questionar grande parte das afirmações enfatizadas em seu princípio.

Anton, aparentemente um ateu que acredita nos poderes invisíveis e projetáveis da mente humana, destila uma significativa parte de sua revolta contra as religiões judaico-cristãs, mas certamente peca ao cometer um erro corriqueiro, característico de pessoas que se deixarem levar pelo abalo de experiências traumáticas: o generalismo. Seu discurso é comum a muitos ateus: a frustração que o Cristianismo lhes causara, em muitos casos, faz com que se revoltem contra todas as religiões. 

Em muitos momentos de sua fala, ao se referir a outras formas de crença, ignora qualquer premissa metafísica e filosófica que elas apresentem, demonstrando uma certa incapacidade - ou falta de boa vontade - em considerar que sua verdade talvez não seja tão absoluta assim, julgando os outros como supersticiosos ou escravos de suas próprias ilusões. Aponta o dedo para aqueles de outras religiões que rezam pelos seus doentes, por exemplo, dizendo que esta é uma atitude inútil, mas traz instruções para um Ritual de Compaixão satânica, objetivando o mesmo fim. 

É certamente proselitista e ingênuo, ignorante ou talvez seja mesmo falso, ao dizer que o Satanismo é a única religião que permite e encoraja a liberdade sexual com honestidade, ignorando religiões pagãs, ou mesmo neo pagãs como Thelema, detratando Crowley, alegando que seus escritos fazem sentido apenas para thelemitas, porém esquecendo-se - convenientemente - que Thelema antecede em muitas décadas a criação de sua religião satânica, e que traz em si muitas das ideias vendidas por ele como sendo suas.

O Satanismo de LaVey é uma exaltação a carne e a materialidade. Prega a satisfação dos prazeres e a não preocupação com julgamentos divinos ou pós vida. Baseia-se na ideia de ação e reação, tanto a nível físico, quanto a nível psíquico, além de pregar a liberdade absoluta de todo ser humano. É essencialmente anti-cristão e fundamenta grande parte de sua ideologia contra a teologia e aos ditos seguidores de Jesus. É por vezes ateu, por outras é teísta, e em outras ainda deísta: encontramos certa dificuldade na hora de definir se de fato esta é uma religião que nega a existência espiritual de deuses - uma vez que tenha sido dito que eles são criações humanas - ou se apesar da crença de que estes deuses/demônios sejam criações humanas, eles existam em algum nível metafísico, e não apenas mental. Sua lógica é bastante confusa e dispersa, deixando o leitor sem ter certeza sobre no que, afinal de contas, o Satanismo acredita em termos espirituais. Em função de muitos destes elementos não podemos negar nossa decepção.

Para todos os ocultistas: o título traz uma série de questionamentos e apontamentos bastante pertinentes ainda nos dias de hoje. É um livro clássico, obrigatório, porém religioso, sendo assim, com as devidas ressalvas, recomendamos a leitura.

Para Satã: torcemos para que da próxima vez encontre um representante que escreva uma bíblia que não tenha a mesma característica da bíblia dos cristãos: a contradição.

Para o senhor Anton LaVey, pedimos desculpas pela sinceridade mas achamos importante lhe dizer: existem mais mistérios entre o Céu e o Inferno que supõe sua vã satania!


por Allan Trindade


domingo, 2 de julho de 2017

Pouco tempo após o nascimento, batismo. Alguns anos depois, catecismo. Aos domingos, missa. Na fase adulta, terno, véu e grinalda; casamento. Esta foi a rotina vivida por milhões de pessoas ao redor de todo mundo durante algumas centenas de anos. Entretanto, todos estes rituais estão se tornando cada vez mais opacos e algumas mudanças vem sendo sentidas.

Pelas ruas de muitos países europeus a ocorrência é rotineira: mulheres trajando hijabs, olhando para o chão, sempre muito apressadas para fugir o mais rápido possível dos olhares dos outros, aparentemente vivendo sob uma aura de constante ameaça e medo. Pelas televisões brasileiras outro fenômeno é facilmente percebido: a qualquer momento em que se zapeie pelos canais, homens de paletó em cima de púlpitos e timbre falseado exorcizam demônios, denigrem as religiões alheias e pedem contribuições em dinheiro em troca de promessas de recompensas materiais para os muitos desesperados que preenchem as fileiras de suas igrejas imponentes. O crescimento do Islã está para o mundo assim como do evangelismo está para o Brasil. Os tempos estão mudando. E com ele os hábitos e tradições.

 Ao observar tais mudanças muitos são aqueles que se estremecem de medo frente a possibilidade de terem seus mundos de vãs certezas - frequentemente fundamentadas sobre aquilo que se ouve, e não sobre aquilo que se estuda - abalado. Mas se é através do presente que podemos especular sobre o futuro, é no passado que encontramos os fundamentos sólidos para rascunhar algum tipo de argumento que tente explicar aquilo que se tem. 

Jesus, o deus moldado e explorado pelos cristãos mais tradicionais, redentor e inspirador das falas e rituais de nossos pais e avós, vem sendo pouco a pouco substituído por dois novos deuses: um de fala árabe sedento por saciar-se com todas as formas de moralidade, que vez por outra considera justo que monumentos históricos e pessoas sejam reduzidas a pó, e um outro que, não raras as vezes, fala em línguas estranhas, tem certa ojeriza por homossexuais e vive com fome de grana.

Em meio a toda esta mixórdia de novidades teológicas, indagações diversas pululam em nossa mente, mas um pensamento em específico se destaca e nos leva a questionar, se afinal de contas, você sabe...

O Que Jesus Disse? O Que Jesus não disse? é um livro escrito por Bart D. Ehrman, publicado no ano de 2006, pela Prestígio Editorial, com 245 páginas, divididas 7 em capítulos.

Antes de darmos continuação a esta resenha, devemos nos desculpar com nossos leitores. Sim, pois não resistimos ao impulso de jogar com as palavras e ideias nesta introdução. Isto porque todo o desenvolvimento do texto até aqui pode lhe dar uma falsa impressão sobre o conteúdo apresentado neste livro, impressão esta que nós mesmos tivemos. Este título não tem como foco as falas de Jesus dentro dos evangelhos, comparando-as com as ideias populares que os laicos tem sobre esta figura divinizada. A verdade é que o livro não trata exclusivamente disto, mas é muito mais amplo em sua abordagem.

O Que Jesus Disse... faz parte de um conjunto de outros títulos do mesmo autor, que tem por objetivo desmitificar uma série de questões relativas ao contexto cristão, que rondam o imaginário dos fieis desta crença. Porém aqui, Ehrman foca sua abordagem em um ponto específico da história e talvez o subtítulo  Quem Mudou a Bíblia e Por Quê  explique melhor os objetivos desta obra.

Bart nos leva a uma viagem ao passado, há cerca de 2000 anos atrás, período em que a Europa mudaria radicalmente sua maneira de lidar e enxergar a vida. As boas novas vinham sendo espalhadas rapidamente por todo o continente e davam início a um abalo nas estruturas pagãs do Velho Mundo. Motivados pela crença de um salvador, escravos e miseráveis deixavam-se levar pela ideia de que todo seu sofrimento em vida, seria finalmente compensando em algum momento da volta de um ser que não sabiam bem se era meio homem meio divino, totalmente humano ou absolutamente Deus. Seu nome era Jesus, que segundo a tradição, escolheu doze seguidores, algumas poucas mulheres, falou em parábolas, morreu, ressuscitou, e voltaria algum dia para julgar os ímpios e salvar os justos. Esta parte da  história, bem sabemos,  não é novidade para ninguém. Entretanto , existem alguns aspectos não ditos, alguns elementos intencionalmente deixados de lado, e um roteiro escrito e reescrito de modo a fazer com que toda esta narrativa ganhe ares próximos de um perfeccionismo digno das telas cinematográficas.

Os quatro primeiros séculos do Cristianismo seriam marcados por uma grande confusão de grupos e ideias descentralizadas, onde cada um tinha sua própria interpretação para o significado do messias. A não existência de um líder e um certo nível de despreocupação com as coisas deste mundo, eram senso comum dentre os adeptos primitivos...e isso era, em muitos casos, um problema. Tal qual as muitas religiões pagãs dos tempos antigos, a religião cristã dava seus primeiros passos através da tradição oral, e quando muito, fazia uso dos livros daqueles a quem pegaram emprestado a ideia de um deus único: os judeus. Popularmente conhecidos como o povo do livro, seriam eles também a inspiração para esta nova ideia, e é sobre ela que Bart desenvolve seus argumentos.

O estudioso e crítico textual traz uma análise histórica sobre os primeiros textos cristãos e a forma de seu surgimento. O contexto era de um analfabetismo quase absoluto para a população pobre e desvalida - grupo social onde o Cristianismo conquistou seus primeiros adeptos - e os minimamente capacitados na técnica da escrita ou da leitura, ganhavam destaque. A tradição oral começava a ser transcrita e líderes relevantes, como Paulo, teriam importância fundamental neste período uma vez que suas cartas seriam usadas como base doutrinária para as diversas igrejas que se formavam. Aqui uma divisão temporal se evidencia dentre os primeiros copistas, ou seja, aquelas pessoas imbuídas da função de grafar os relatos, que em muitos casos eram analfabetas, e os copistas posteriores, monges ou cidadãos letrados que tinham a escrita como ofício.

Esta transição, entretanto, teria uma consequência dúbia: daria fundamento tangível para a doutrina ao mesmo tempo que realça as diferenças de pensamentos teológicos concernentes a cada grupo em cada tempo. E Bart nos traz comparativos não apenas de diversas passagens diferentes em estilo e relato, que como no caso dos evangelhos de Marcos e Lucas, se lidos de forma separada, demonstram um Jesus por vezes irado e no segundo caso, um Nazareno por vezes compassivo e muito mais sereno. Mas também dos nichos que compunham toda aquela conjuntura, como judeus, pagãos e os diversos tipos cristãos como adocionistas, docetas e separacionistas.

O fundamento argumentativo de Bart está na concepção de que a disputa entre estes diferentes grupos - cristãos e não cristãos - interferia intimamente nas alterações textuais de modo a justificar uma linha de pensamento teológica. Veja que com isso não queremos dizer que os não adeptos da fé cristã alteravam os textos como em um boicote, mas que os próprios cristãos moldavam sua literatura para usá-la como prova para suas ideias, que além de não serem unificadas, tinham pouca resistência para a mudança e adaptação que lhes favorecesse. Para além disso, nos traz exemplos de acidentes e danificações nos escritos originais que interferiram em sua reprodução posterior.


Muitos são aqueles que, ainda atualmente, pensam que a Bíblia foi um livro escrito em um momento único, quiçá por um único autor. Este talvez seja um dos maiores erros que se possa cometer quando o assunto é Cristianismo. Ehrman nos fala não apenas da história das mãos que cunharam os primeiros textos que dariam origem a este livro sagrado, mas também nos dá os fundamentos e comparativos de diversas passagens de pergaminhos antigos que evidenciam perdas, alterações, má interpretações e traduções dos textos do Novo Testamento. Dizer que "A Bíblia foi escrita por homens!" no plural e para justificar seus absurdos, contradições e erros nunca fez tanto sentido.

O andamento d'O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? é em alguns momentos repetitivo mas essencialmente argumentativo. Os capítulos começam de forma marcada por introdução, desenvolvimento e conclusão.  É acessível, mas como é de se esperar, vide a formação de seu autor, beira o estilo acadêmico. Não fala sobre a estruturação da Bíblia Sagrada em si, mas foca na influência que os copistas exerceram na formação dos livros que viriam a compô-la posteriormente.

E para um melhor aproveitamento, consideramos indicado que os leitores tenham lido-a inteira, ou ao menos, os Quatro Evangelhos.

Quando olhamos para o passado e nos deparamos com tantas questões ocultas que fundamentam a nossa história, percebemos o quanto certas mentiras, contadas por mil vezes, mil anos, ou mais, de fato, se tornam verdade...mas a história se reescreve, e nós, no presente, somos o passado do futuro, que como dizem os populares: a Deus pertence! Só nos resta saber que Deus será esse...

por Allan Trindade



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