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domingo, 28 de janeiro de 2018

Minha mãe sempre falou sobre esse meu estranho hábito de infância de forma intrigada. É provável que eu tivesse cerca de cinco anos e sinceramente não lembro de ter feito isso por tantas vezes quanto ela relata, mas desse dia em específico, recordo-me com certa nitidez. Segundo me disse o ritual era praticamente diário: acordava por volta das três da manhã, ia até a cozinha, pegava um saco com feijões e me despedia dizendo que ia embora para sempre. Para me convencer do contrário, meu pai tinha que dar uma volta comigo na praça escura e deserta que fica próxima a nossa casa.

Certa noite acordei como de costume e cumpri cada uma das etapas. Mas ao que me lembro, naquele dia, meus pais não se levantaram para fazer a parte deles. Como o plano de ir embora não incluía a companhia dos dois de qualquer forma, abri a janela do nosso quarto para fugir. À minha frente o quintal, com o tanque de roupas feito de cimento alguns metros de distância - que eu adorava encher para tomar banho - e uma pilastra. Tal qual um imã que mesmo sem querer suga o metal para perto de si, meu olhar foi atraído para aquela direção.

À frente daquela coluna algo incomum se destacava ao breu naquela noite iluminada apenas pelo clarão da Lua. Um homem de terno e chapéu xadrez estava lá, encostado, com a face sem olhos, nariz ou boca, tão negro quanto o negro do fundo de um poço, tão congelante quanto a sensação de estar indefeso quando se precisa de ajuda. Senti meu coração acelerar, meu corpo paralisar, meus pelos se arrepiarem, sensações estas que se repetiriam anos mais tarde em situações semelhantes outras. Não conseguia gritar ou desviar minha atenção daquela visão. Por quanto tempo fiquei naquele estado, não sei. O vulto nada fez, parecia apenas querer que eu o visse. 

O vi e nunca mais esqueci.

ATRAVÉS DOS PORTAIS DA MORTE é um livro escrito por Dion Fortune, publicado no Brasil pela editora Pensamento no ano de 1993, com 120 páginas, dividas em 15 capítulos.

Morrer é o cessar do viver. Muitas são as implicações filosóficas que podem ser atribuídas a este conceito, assim como muitos são aqueles que, até os dias de hoje, se debruçam fisicamente sobre métodos para tentar protelar a temida morte. E por que a tememos? Temos medo da dor? Mas e todos aqueles casos de pessoas que morrem em paz? E todos aqueles outros casos em que o impacto de algum acidente é tão fulminante que nem mesmo dá a possibilidade para que  a vítima se conscientize do que lhe ocorrera? E se há continuidade na vida depois da morte, então o que há de existir por lá?

Neste título, Dion nos induz a este tipo de reflexão e sugere que não tememos a morte em si, mas o desconhecido e a possibilidade deste encontro. Iniciados de várias épocas e de vários lugares do mundo, ousaram mergulhar neste mar de incertezas e trazer à superfície o conhecimento sobre este estado de mistério. Se a morte é uma etapa da vida, ela não deve ser temida, mas compreendida.

A consciência da continuidade e a crença na reencarnação são então o norte desta obra. Sobre esta continuidade, nos diz a autora, para alguns, há apenas um desligamento da consciência para com o corpo material, como se morrer fosse semelhante ao ato de dormir e acordar num outro local. Já para outros, psiquicamente desenvolvidos, todo este processo se dá de maneira consciente, e esta passagem ocorre sem nenhum tipo de trauma, ou necessidade de adaptação ao chegar lá, uma vez que sempre estiveram em contato com o outro lado. Em ambos os casos, e até mesmo naqueles onde a morte ocorre de forma indesejada, destaca que nossos entes queridos chegam ao nosso encontro, e para aqueles que não os tiveram em vida, são as almas semelhantes que tendem a se aproximar.

Fortune destaca que a relação de vivos e mortos não cessa com a morte, mesmo para aqueles que não creem na vida espiritual, uma vez que ateus também sofram a perda de seus amados. Esse tipo de relação emocional reflete sensações em todos os envolvidos - vivos e mortos - e se faz necessário que ambos os lados se esforcem para a compreensão e função de cada etapa da vida. O luto tem sua função de ser, entretanto, tem de ser sutilizado pela consciência da responsabilidade das energias emanadas.

A autora apresenta a crença num período purgatório para a alma, definido como um estado mental de reflexão sobre sua existência material, para só então, evoluída, estar apta para o  restabelecimento de contatos. Sendo a lamúria permanente dos vivos, e o chamamento dos falecidos, desencorajada, pois podem levar o desencarnado a ideia de que o plano terrestre é melhor que o local em que se encontram, gerando desta forma bloqueio do desenvolvimento ou incentivando o mesmo a se tornar algum tipo de obsessor.

Em seu aspecto esotérico, alega ser possível avaliar através de cálculos astrológicos, os momentos mais propícios para nossa morte, mas que esta não deveria ser a preocupação de ninguém, uma vez que até os setenta anos todos deveriam lutar e se esforçar apenas para viver. Para além disto, diz que no momento da passagem o duplo etérico ainda está em fase de transição, privado do suprimento de prana que absorve do Sol através do corpo físico, podendo vir a absorver esta energia dos presentes que tenham com ele algum tipo de laço, ou ainda dos elementos funerários do local, tais como velas e flores, traduz os benefícios de rituais para a decomposição de corpos sutis, assim como razões para a cremação.

Este é um livro curto, que traz consigo reflexões sobre a função do desencarne e é baseado na forte e comum crença que permeia os meios ocultistas e espiritualistas: a morte é apenas mais uma etapa da vida.

Sua leitura é simples e fácil, com ideias corriqueiras a qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento sobre o campo espiritual. Traz algumas referências religiosas de inclinação pessoal da autora. É introdutório sem ser leviano.

por Allan Trindade




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


" Na manhã de 14 de janeiro de 1907, um homem vestindo um manto vermelho, considerado um irresponsável, apareceu em Kingston alertando as pessoas sobre o fato de que antes do anoitecer a cidade seria destruída. Às três horas da tarde, Kingston, e na verdade toda a ilha, foi atingida por um terremoto de grande magnitude, que não apenas deixou uma vasta área da capital em ruínas, mas matou pelo menos 2.000 pessoas. "

VODU é um livro escrito por Joseph Williams, publicado pela Madras editora no ano de 2004, com 163 páginas divididas em 7 capítulos.

É comum ouvir as pessoas falarem que não se deve comprar um livro pela capa. E as razões para isso possuem lógica tanto para o aspecto positivo quanto para o negativo. Encantar-se por uma bela estampa pode levá-lo a se decepcionar com um péssimo conteúdo. Assim como uma arte não tão atraente pode fazê-lo perder a oportunidade de ler um ótimo texto. Se podemos dizer que contra estes fatos não há argumentos, deveríamos estender o mesmo conceito para os títulos. 

Já fazia algum tempo, estávamos a procura de um exemplar que pudesse servir como uma introdução a este tema tão popularmente conhecido, e lotado de histórias (ou estórias) acerca das práticas e poderes do Vodu. Ora referido como religião, e outras tantas como ofício de feitiçaria, não deve haver uma só pessoa vivendo nas grandes cidades que nunca tenha ouvido falar nesta palavra.

O subtítulo nos tentou de forma igual: Fenômenos Psíquicos da Jamaica. Aparentemente uma combinação consistente o suficiente para suprir a nossa necessidade, e por que não dizer, também a nossa curiosidade. Mas infelizmente erramos. Isso porque apesar do título em português sugerir que este livro trata do assunto que gostaríamos que ele tratasse, seu título em inglês é muito mais justo, e provavelmente não nos conduziria de forma tão tentadora ao erro. Seu nome original, que aqui fora transformado em subtítulo, expressa bem a proposta dessa publicação. Ele não se propõe a tratar do tipo de religiosidade ou magia conhecida como vodu, mas trás a investigação do autor, que vivera por cerca de 6 anos na Jamaica, acerca dos possíveis fenômenos espirituais existentes por lá, e apresenta este trabalho como uma investigação das experiências que tivera e dos relatos daquilo que ouvira.

Em sua primeira parte, e a única que nos parece realmente interessante, elenca uma série de casos de poltergeists, ataques a jovens, batidas em cômodos de casas, apedrejamento de pessoas com pedras que surgem do meio do mato mas que não causam danos físicos as vítimas, possessões, exorcismos, etc... e demonstra que apesar do tempo em que fora escrito, no início do século XX, Williams não se deixara levar pelo apelo popular e sempre mantivera uma postura cética para todos os casos, procurando investigá-los ou se abstendo de tomar conclusões definitivas quando as provas não eram suficientes. 


Os capítulos que se seguem procuram apresentar ao leitor a relação conturbada das tribos africanas existentes naquele país, em especial a dos Ashanti, algumas definições etmológicas, ritos funerários,  suas práticas religio-mágicas conhecidas como Obeah e Mialismo, a forte crença que os pretos mantinham com estes elementos e ainda a relação destes para com os brancos e sua religião, o Cristianismo.

Este é um livro de interesse acadêmico que se ocupa em trazer descrições sobre os povos e crenças da Jamaica do início do século XX. Seu autor faz constantes referências a seu título anterior - Voodos and Obeahs - e aparentemente complementar a esta leitura (na verdade, nossa impressão é que aquele livro precisa ser lido antes deste). Os casos apresentados aqui são repetitivos e se limitam a falar de enterros e pseudo fantasmas que atiram pedras. É um livro para quem tem interesse na história da Jamaica e já detenha algum conhecimento prévio sobre aquele país e seu período como colônia do Reino Unido.

E se você está procurando por instruções sobre como costurar e alfinetar o boneco de vodu do seu inimigo, uma loja de corte e costura pode vir a lhe dar muito mais informações que esse livro, já que afinal de contas, esse tipo de instrução simplesmente não existe aqui.


por Allan Trindade

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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Idade Média nos deixou como legado uma série de pergaminhos e grimórios mágicos que até hoje fundamentam ou influenciam a atuação dos magistas modernos.

Como beneficiários desta herança, quase sempre nos é possível traçar uma linha ascendente em busca das origens de algum sistema que se pratique nos dias atuais, e perceber que muito do dogmatismo encontrado em determinado contexto, é em si, uma adaptação contemporânea de algum herdeiro mais antigo.

Por mais incrível que possa parecer, esta característica não é uma exclusividade do conjunto esotérico, e é largamente encontrada no campo da religião. De uma maneira geral, o surgimento de religiões se dá de forma sucessória, onde a mais atual "nega" a mais antiga, onde o profeta daquele tempo ab-roga seu predecessor,  e se coloca como uma resposta atualizada para as questões e os problemas de sua própria era. Os Deuses do passado tornam-se então os Demônios dos dias de hoje, assim como os Deuses de hoje, podemos supor, tornar-se-ão os Demônios do futuro.

São raros os casos onde as mudanças de paradigmas se dão de maneira radical e absoluta; em geral, todas essas vicissitudes ocorrem de maneira gradativa, e em não raras as vezes, se mesclam a tal ponto de não serem mais aquilo que foram, e nem mesmo se tornam aquilo que se esperava: geram então um terceiro objeto, fruto da junção do velho e do novo.

O período medieval, marcado pela violência das colonizações e histeria cristã, agregou em si mesmo ciência, magia e religião, num amálgama tão porcamente fundido, que nada menos que o radicalismo foi necessário para que a separação se desse. Hoje, apesar de alguns espíritos retrógrados ainda se debaterem na tentativa de nos lançarem de volta ao limbo deste passado negro, podemos respirar aliviados ao dizer que estes três pilares do conhecimento encontram-se adequadamente separados...


Magus é escrito por Francis Barrett, no ano de 1801, com 370 páginas e publicado no Brasil pela editora Mercuryo. Dividido em três partes, o livro se pretende como um tratado geral e completo, que disserta sobre as três principais Ciências Arcanas do mundo ocidental: a Magia, a Alquimia e a Astrologia.


Contextualização é a palavra chave para a leitura deste título. Primeiro para que se possa entender
que há certa injustiça praticada contra Barrett ao acusá-lo de plágio, mesmo quando está claro que seu título é de fato um apanhado de toda uma série de escritos anteriores que vieram a influenciar seu livro, e que este tipo de prática literária era relativamente comum em tempos outros. Além disso, Francis fora fruto de seu tempo, e portanto, não diferente de diversos outros ocultistas contemporâneos e futuros - tais como Levy, Papus, Mathers, Fortune, etc -  mesclava em si mesmo as características ambiciosas de um mago junto as aspirações místicas - e certos devaneios - de um religioso.

Paciência é o segundo ingrediente que você terá de ter em mãos ao virar de cada página. Apesar de sua publicação ser relativamente recente - se comparada a grimórios muitos mais antigos existentes até os dias de hoje que possuem mais de 500 anos de idade - o autor não economiza palavras ao deixar clara sua fé, não só nos efeitos produzíveis pelas fórmulas apresentadas, como é repetitivo e taxativo em alertar que o temor e a gratidão ao Deus de Israel e seu Filho são essenciais para a eficácia de sua didática. De um proselitismo entendiante e cansativo, Magus fará você se questionar se a intenção de Francis era instruir indivíduos para se tornarem magistas, ou catequizar noviços para se tornarem padres.

Seus capítulos são introduzidas por títulos pomposos que ocupam páginas inteiras, e prometem coisas maravilhosas para todos aqueles que ousarem se enveredar pelos meandros destes conhecimentos. Longe desta ser uma divisão "justa", sua introdução ao estudo e prática, chamada de Magia Natural, ocupa a maior parte de suas 370 páginas. E é justamente nesta etapa que o autor investe fundo em teoria e doutrinação, a tal ponto que, é melhor que você tenha um mínimo de conhecimento bíblico para não se perder em meio a tantos nomes e referências judaico-cristãs.

Como destaque para um de seus discursos religiosos, atribui a Satanás o surgimento do ateísmo e do paganismo:

"Para que o mal existisse ininterruptamente, [satã] incitou não apenas os fratricidas e as pessoas muito más, mas cuidou para que surgisse o ateísmo e o paganismo, fazendo-os crescer a cada dia." p.46

E é no embalo da ideia pagã, que Francis tece seus comentários sobre bruxaria e ensina feitiços e poções de tipos exóticos para seus leitores, tal qual o uso de sapos como panaceia:

"O sapo pode ser usado no preparo de um remédio simpático contra a praga e distúrbios tais como a malária, epilepsia e vários outros. Para que o medo que o sapo tem de nós e o ódio natural inato possam ser aumentados e marcados, devemos pendurá-lo pelas pernas no alto de uma chaminé, colocando uma vasilha de cera amarela embaixo para recolher tudo o que possa descer ou cair de sua boca. Deixa-o pendurado nesta posição por três ou quatro dias, até morrer. Não devemos deixar de estar freqüentemente ao alcance de sua visão, para que seu medo e o terror inato de nós, com a ideia de intenso ódio, possam aumentar até ele morrer.
Assim terás um remédio muitíssimo poderoso neste sapo para a cura de quarenta mil pessoas infectadas de peste ou praga." p.49

Não nos parece demais alertar aqui que tal experimento é extremamente perigoso e não deve jamais ser reproduzido. A exposição desta receita é compartilhada apenas para fins ilustrativos.

Em sua dissertação sobre Alquimia, é tradicional ao mencionar os perigos da ganância que o estudo desta Ciência pode despertar no Buscador. Trata das propriedades do Pó da Transmutação, acumula mais instruções morais na mente do leitor na preparação para o Trabalho, dá quatro lições para a "obtenção da Pedra Filosofal", e finalmente alega que a chave para a consecução da Grande Obra não está no processo em si, mas na descoberta da Matéria Prima, que ele mesmo não revela qual é.

Outra característica marcante em seu conteúdo é o forte uso da Astrologia como fundamento para praticamente tudo que se pretenda fazer com este grimório: estudar esta matéria antes de consultar este livro será essencial para o uso do mesmo; sem este conhecimento é bem provável que você fique totalmente perdido em seu aspecto prático.

Teologia, astrologia, cabala, alquimia, bruxaria, magnetismo, unguentos, incensos, sacrifícios animais, mineralogia, superstição, numerologia, sigilos, alfabetos antigos, necromancia  etc, são todos temas encontráveis neste título como introdução até finalmente chegar no ponto à qual Magus angariou sua fama: seu sistema de evocação de espíritos de mortos, anjos e  seres planetários. O método é comum a todos os outros tipos contemporâneos: círculos mágicos, varinhas, mantos, espadas e todo arsenal encontrado dentro do contexto da Magia Cerimonial. O diferencial reside no fato de que toda esta ritualística tem por fim o fabrico de talismãs.

A Magia Talismânica - como também é conhecida - encontra grande fundamento em escritos deste período, com seus astrólogos que produziam pingentes específicos para pessoas com mapas natais e objetivos pré-determinados, de modo a atrair a energia natural e a força de seres espirituais para a concretização de seus intentos. Era por muitas vezes um trabalho terceirizado, onde o cliente solicitava a seu magista, que o mesmo produzisse tal item - fosse este um colar, um anel, patuá, etc - que passaria então a ser usado por esta pessoa em locais apropriados por tempos determinados.

Fato é que, de uma maneira geral, ainda não nos desprendemos desta prática ao observar que até hoje fazemos uso de cordões, brincos, anéis e tatuagens com intenções e símbolos religiosos, mas perdemos o hábito de verdadeiramente tornar estes itens mágicos, consagrando-os seja pessoalmente, ou contratando os serviços de um outro alguém para que assim o faça...mas Barrett nos traz as instruções de como fazê-lo.

Para isso a familiarização com a Cabala, quadrados mágicos e sigilação será fundamental, mas caso não domine tais técnicas, neste sentido, o livro lhe dará uma noção de como tudo isso se dá. A ritualística mágica, à maneira Tradicional, é essencial, e Francis não deixa dúvidas que, em se
cumprindo o passo a passo descrito em seu conteúdo, manifestações e visibilidade destes seres serão reais e tangíveis. Por fim, o conhecimento da Astrologia será obrigatório. Todos os talismãs são feitos observando-se as conjunções planetárias favoráveis para cada intento.

O livro finalmente termina com curtas biografias de personalidades importantes para o cenário mágico, químico e alquímico, que, como já dito em outro momento, devem ser sempre lidas com olhares críticos, uma vez que foram escritas a no mínimo duas centenas de anos atrás, e que portanto, podem estar desatualizadas.

Magus é uma exata reprodução de seu período e é um dos últimos grimórios que ainda trazem em seu conteúdo esta estranha mescla de dependência entre ciência, magia e religião. Exerceu influência sobre grandes nomes do cenário ocultista que lhe sucederam, e dentro de seu contexto, cumpre bem aquilo que se pretende. Apesar de seu excesso de proselitismo, que se lapidado, teria o livro conteúdo bem menor com que se apresenta, deve ser lido com um olhar histórico contra sua abordagem religiosa, e prático em seu aspecto mágico. É sem dúvidas um exemplar obrigatório para todos os Tradicionalistas.

À saber: a resenha a seguir tem íntima relação com este título, onde abordaremos de forma mais específica o capítulo especial atribuído a Trithemius de Spanheim, e seu sistema de evocação de espíritos para dentro de cristais. Fique atento.

Agradecimento especial ao Frater C.B. que carinhosamente me presenteou com este livro. Obrigado meu caro!

por Allan Trindade




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O mundo. É curioso notar a distinção existente entre nós, seres humanos e o resto da natureza. Se parar para pensar, a natureza com seus animais e plantas, parece seguir uma linha uniforme de vida, que nos dá a impressão de ser hoje exatamente aquilo que foi ontem. Não que esta ideia seja verdadeira, que de fato o mundo natural, distinto do hominal, seja comparável a um filme em eterno replay, repetindo nascimento, vida e morte de suas criaturas, sem qualquer pausa ou revolução. Se levarmos em consideração o argumento de alguns cientistas, é evidente que somos nós que não enxergamos as vicissitudes que nos cercam. Talvez o motivo para isto se dê pelo fato de que precisamos de impacto para perceber e recordar acontecimentos. Precisamos de mais do que aquela pseudo tranquilidade e certeza que a natureza pode nos dar. Precisamos de mais que a mera ideia de que a vida é feita de momentos pacatos e seguros...para muitos, uma vida assim, nem mesmo é vida. Precisamos de experiências fortes o suficiente que nos façam sentir que estamos vivos; precisamos de medo, prazer, cansaço, descanso, luta, revolução, vida e morte...do outro!

A morte do outro nos dá certo conforto, nos faz sentir vivos, nos causa o impacto que tanto necessitamos e nos faz aprender sobre métodos que nos distanciem cada vez mais da morte. A morte do outro tem então uma dupla função: nos ensina a viver e nos conforta. Os noticiários que mais dão audiência são aqueles das desgraças alheias. Os horários são então estratégicos: almoço e janta, para garantir que grande parte da família esteja reunida. Enquanto comemos a morte daquela natureza tão distinta de nós, nos tranquilizamos com a morte alheia tão aparentemente distante de nós. Aqui, neste mundo, é muito importante que não se tenha dúvidas: a morte deve pertencer ao outro, tão e somente! Nossa indiferença dá-se apenas àqueles que não são capazes de nos dar nada além da visão da morte e a ideia da continuidade desta vida. Se alguém que nos é caro morre, se alguém a quem estimamos nos deixa sem todos os outros tantos sentimentos que necessitamos, que apenas nós seres humanos carentes e famintos julgamo-nos merecedores de receber, isso não pode ser justo...e a única solução para esta injustiça é que a vida continue após a morte...e que além de tudo, nós possamos nos comunicar com ela!

Talking to the Dead é um livro escrito por Barbara Weisberg, dividido em cinco partes, com 19 capítulos e 324 páginas, publicado pela editora Harper One. Este é um título biográfico que nos conta sobre a vida das irmãs Fox e o nascimento do espiritualismo, conforme movimento religioso, dentro dos Estados Unidos. Advindas de uma família pobre, e de pais com problemas de relacionamento, as três irmãs: Maggie, Kate e Leah , viveram uma vida repleta de fama, problemas e controversas depois de seu primeiro contato com o "mundo espiritual".

Tudo começou em 1848, em Nova York, num período onde o rigor moral imperava num país ainda em processo de formação, e o dogmatismo cristão vigorava como único método de conduta e fé religiosa. Um escândalo para os fundamentalistas e uma piada de mau gosto para os céticos, as irmãs alegavam serem capazes de se comunicar com os espíritos e que estes podiam responder perguntas sobre o passado, o presente e o futuro e haviam lhes dado a incumbência de trazer a verdade de um mundo espiritual atuante, para o mundo material. A ideia era simples: os espíritos das pessoas não adormeciam junto de seus corpos mortos conforme era então ensinado por algumas linhas cristãs, continuavam vivos e conscientes em uma realidade paralela a nossa, e portanto passível de comunicação. Essa comunicação, no entanto, era um tanto deficiente, limitando-se a batidas que se ouviam por móveis e paredes, e sugeriam certa falha de contato dos então ditos espíritos para conosco e vice versa. Para a solução desta problemática, vivos e mortos estabeleceram um código baseado na quantidade de batidas, o que fazia com que, estas perguntas devessem ser feitas de forma clara, onde suas respostas se limitassem a um objetivo "sim" ou "não".

Décadas se passaram desde o primeiro contato e as irmãs conquistaram o amor, a indiferença e o ódio de muitos. Muitos daqueles que lhes eram simpáticos, e crentes nas manifestações que presenciavam, inclusive de forma pública e coletiva, não apenas lhes seguiam, como partiram, eles próprios, na tentativa deste contato com o outro mundo. A partir daí surgiriam médiuns por todo o país e continentes, alegando contatos cada vez mais íntimos e pirotécnicos com os espíritos; mesas que giravam, levitavam e batiam, espíritos que se materializavam e traziam mensagens de consolo para parentes e amigos, e outros tantos que exibiam luzes e fogos que flutuavam no ar.

Daqueles que duvidavam de seus feitos, e tantos outros que viam em toda esta histeria um perigo para sua própria fé, não mediram esforços para tentar desmascarar todas estas manifestações, que segundo eles, não passavam de charlatanismo e truques de prestidigitação. Dentro de seu principal argumento, diziam que as batidas ouvidas deviam-se a uma incrível e incomum capacidade, desenvolvida a partir de muito treino, de estalar as juntas dos ossos produzindo assim os sons ouvidos. Curioso é pensar sobre como, como quando nas exibições públicas em teatros, por exemplo, poderiam dezenas de pessoas ouvir o estalido da fricção de juntas ósseas de uma única pessoa...quem sabe a acústica explique...

A autora nos leva a vivenciar cada detalhe da vida das meninas e esta é, sem dúvida, uma biografia imparcial com uma impressionante pesquisa bibliográfica, digna de servir como exemplo para todos aqueles que se pretendem escrever um dia. Porém, toda este detalhismo é também seu ponto negativo, pois o livro é bastante extenso e muitas vezes lê-lo se torna um pouco cansativo.  Barbara Weisberg é sem dúvidas uma perfeccionista, e vai tão a fundo em sua pesquisa, que não se limita a tratar apenas de espiritualismo ou da vida desta controversa família. Nos traz dados históricos que nos projetam para um Estados Unidos do século XIX e não deixa brechas para que seus leitores se percam na ambientação de sua narrativa.

Envolvidas em toda esta trama estavam três irmãs que, no decorrer de todo este tempo e repletas de amores, fama, tristeza, dinheiro, drogas, elogios e acusações, viram no mundo espiritual uma chance de tornar as suas vidas, e a de tantos outros, muito mais vivas, mesmo que seja falando com os mortos.

por Allan Trindade



[ ATENÇÃO: este livro possui uma versão em português publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira sob o título de " Falando com os Mortos ".  Infelizmente não tomei conhecimento desta informação a tempo e por este motivo esta resenha é baseada em sua versão estrangeira. Levando em consideração a possibilidade da qualidade idêntica a esta versão, e pela valorização de editoras que se dedicam ao trabalho de tradução de livros espiritualistas e ocultistas no Brasil, recomendo a compra de sua versão nacional.]

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Uma das palavras que mais despertam a curiosidade das pessoas é sem dúvidas Ouija! Seja por conhecer seu significado, ou não, após uma pequena explicação, qualquer um terá algo para dizer sobre a brincadeira do copo, do compasso, ou o jogo dos espíritos...

Desde que me interessei mais pelo tema, percebi a carência de material escrito sobre tal item em língua portuguesa...que certamente não padece do mesmo problema em inglês. E foi nesta busca que sem muito esforço encontrei Ouija: The Most Dangerous Game de Stoker Hunt. Eu estava procurando por um livro introdutório sobre o assunto, que me desse uma noção didática tanto da história, quanto dos aspectos práticos para a utilização do tabuleiro. De fato, o título parece ter se encaixado bem em minhas expectativas iniciais...


Com um total de 156 páginas, Ouija é escrito em estilo jornalístico; investigativo e imparcial. 
Dividido em 5 capítulos, o autor cita casos históricos e famosos e ainda vai em busca de adeptos de diversas religiões, e de não religiosos, para saber o que praticantes e estudiosos de diferentes vertentes tem a dizer sobre " o jogo mais perigoso ". Cristãos, wiccas, espiritualistas, ateus, parapsicólogos... cada um em seu tempo, dissertam sobre as vantagens, desvantagens, ambas, ou nenhuma das duas, de "brincar" com este famoso e curioso tabuleiro.

É um livro introdutório, que desperta sua curiosidade em saber o que as pessoas que se dedicam, ou se dedicaram a testar tais evocações, tem a dizer de acordo com suas próprias experiências. É muito mais informativo que prático, porém, com isso não quero dizer que não há instruções sobre como iniciar uma sessão. Tais instruções são deixadas para o final, e se resumem a basicamente aquilo que todos nós já sabemos: bastam alguns pedaços de papel com letras escritas, uma mesa,  um copo e uma pequena prece...sem muito mistério ou complicação.

Contudo, talvez haja uma razão para o subtítulo do livro ser "The Most Dangerous Game"...é fato que, de acordo com os relatos, sejam eles de cunho espiritualista ou psicológico, iniciar uma sessão de Ouija sempre resultará algum efeito. Dois casos merecem destaque e valem a pena serem citados aqui para justificar tais argumentos. O primeiro surgiu a partir de um teste científico da Toronto Society of Psychical Research intitulado “The Philip Experiment”. A ideia era simples: Philip era um personagem criado a partir da mente dos cientistas que supostamente vivera em algum ponto do passado. Toda a história (inventada) de Philip foi decorada pelos voluntários na tentativa de que, mesmos conscientes de que tudo não passava de fantasia, pudessem produzir algo de real... curiosamente, resultados e efeitos dos mais diversos foram alcançados através deste experimento.


Já o segundo, conta a história de Pearl Curran, uma mulher que através de sua curiosidade, entrou em contato com um espírito de nome Patience Worth, e através dela, recebeu diversos prêmios de poesia e escrevera o equivalente a 29 livros, que segundo a análise de técnicos literários, não podiam mesmo terem sido escritos pela simples dona de casa.

Alguns dirão que tudo não passa de automatismo, ou autossugestão, outros dirão ser a Ouija um instrumento de evocação de espíritos, ou como diríamos em termos mágicos, uma verdadeira Arma necromântica. O trabalho de pesquisa executado pelo autor realmente nos deixa no meio do caminho sobre qual dos lados acreditar, mas isso é um questionamento que virá apenas após você ter a plena certeza de que se tentar, a Ouija vai funcionar!

por Allan Trindade

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segunda-feira, 23 de março de 2015

“Aleister Crowley e o Tabuleiro Ouija” é um livro curioso por vários fatores, que incluem desde o seu título, até seu conteúdo. Publicado no Brasil pela Madras editora, com um total de 158 páginas, é escrito por Jerry Edward Cornelius, ex-membro da OTO e thelemita há décadas. Porém, pouquíssima referência a estes temas serão encontradas no interior deste título...

Como era de se esperar, o autor inaugura o livro relatando uma parte da história e desenvolvimento do tabuleiro Ouija. Sem citar casos famosos como os das Irmãs Fox, foca sua descrição em grande parte sobre aspectos judiciais e disputas de patentes do tabuleiro...o que é certamente interessante notar, vide o quanto de materialidade está por trás de algo tão comumente relacionado à espiritualidade.

Cornelius intitula o livro com o nome de Crowley, pois baseia parte de seus argumentos em uma nota escrita pela Besta para um jornal, sobre a utilização do jogo dos espíritos. Entretanto, vai além, e possui uma intenção clara de tentar elevar o tabuleiro - que segundo o autor possui sua má fama em função da indústria de cinema e sua má utilização pelo vulgo - a uma Arma mágica que deveria fazer parte do Arsenal de todos os magistas. Para isso, ao invés de criar um sistema novo que pudesse então ser utilizado como uma contribuição extra aos sistemas já existentes, prefere, através de um discurso profundamente proselitista, relacionar a Ouija ao Sistema Enochiano...e é sobre esta base que grande parte do livro é desenvolvida.

Se você é uma pessoa que espera uma visão imparcial ou mais “científica” sobre os “por quês” do tabuleiro, terá que se acostumar com as afirmações constantes e incisivas de que, por exemplo, os seres evocados através da Ouija são elementais que se utilizam das Cascas astrais para enganar os participantes de uma sessão, fingindo desta forma serem entes queridos ou personalidades famosas. Segundo o autor, seja para seu bel prazer, ou ainda para o ganho de algum tipo de recompensa, tais entidades - se não evocadas através de um sistema mágico Tradicional - tal qual o é o Enochiano, só trarão aos partícipes problemas de menor ou maior intensidade. 

Acredito, que ao ter escrito tal livro, o autor tenha posto seus argumentos a prova e, portanto, tenha praticado o que indica ser eficiente antes de todas suas afirmações. Baseado nisso acho válida a ideia de experimentar unir estes dois métodos tão aparentemente distintos. Entretanto, não me parece que tal junção seja realmente necessária, visto que ambos os sistemas possuem cada um a sua maneira, seus próprios procedimentos, objetivos e são completos per si...portanto, e como sempre, a escolha é sua!

Considerações à parte sobre seu conteúdo didático cabem ainda alguns comentários sobre a péssima tradução e revisão feita para este livro no Brasil. A seguir relaciono alguns dos pontos aos quais em princípio pensara serem apenas exceções, mas que logo em seguida, por sua constância, notei serem infelizes erros grosseiros, inadmissíveis em alguns pontos, que infelizmente me fazem desconfiar da obra traduzida como um todo:

pg 83:     Livro da Revelação ao invés de Apocalipse
pg 95:     “é imaterial” ao invés de “é irrelevante
pg 142:   “The Temple of the Holy Ghost” como “O Templo do Espectro Sagrado” ao invés de “O Templo do Espírito Santo”.

Aleister Crowley e o Tabuleiro Ouija não é um livro para inexperientes no campo do psiquismo, do espiritualismo ou da magia. Sua versão brasileira, vide os problemas citados acima, que podem ser ainda maiores em número, não é recomendada para qualquer um!


por Allan Trindade