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domingo, 19 de abril de 2020


Carma. Reencarnação. Vida. Morte. Pós vida. Temas recorrentes dos meandros da espiritualidade. Motivo de crença e esperança para uns e descrença e indiferença para outros, há milênios os registros humanos apontam para esta estranha relação que o homem sempre estabelecera com o além. Interessantemente, os métodos de comunicação com os espíritos parecem terem se desenvolvido junto a própria evolução tecnológica material, e a psicografia, um de seus métodos mais conhecidos, tem atraído a curiosidade de muitos daqueles que esperam por uma mensagem de conforto vinda de seus entes queridos que já partiram. Entretanto, tal prática não tem se limitado apenas a cartas específicas para pessoas específicas, e são muitas as obras psicografadas que dissertam sobre os mais variados temas. E esta, que é uma obra psicografada, trata de um romance. Da história de um homem que viveu há cerca de trezentos anos atrás...



O GUARDIÃO DA MEIA-NOITE é um livro escrito por Rubens Saraceni, com 197 páginas, divididas em 14 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Madras editora.

Este homem, doravante o Barão, fora muito rico e já estava com seus 40 anos de idade quando começara a pensar em se casar. Ao expor publicamente suas intenções, passara a ser assediado publicamente por mulheres dos mais variados tipos as quais sempre desconfiava, pois supunha, estavam apenas interessadas em seu dinheiro. Sendo um homem de seu tempo, carregava em si as características machistas que comandavam aquela sociedade e se aproveitava da situação também como um teste: se qualquer pretendente fosse para cama com ele antes do casamento, então, não lhe serviria como esposa. E assim fizera até finalmente desistir das suas opções neste país e resolver buscar sua noiva em Portugal. Uma mulher bem mais jovem, que ainda desfrutava de sua inocência aos 15 anos, casara-se então com aquele senhor a contragosto. Em sua fixação por seus próprios conceitos de pureza, o Barão manteve-se atento ao ato na noite de núpcias, e por não perceber nenhuma gota de sangue após a consumação, concluíra que mais uma vez fora enganado e que sua jovem esposa não podia mesmo ser virgem. Decidido a vingar-se pela traição imaginada, armou uma cilada contra a própria esposa: mandara um de seus escravos para seu quarto enquanto a jovem dormia, chamou uns amigos como testemunhas e fingiu um flagrante, afinal de contas, se uma mulher estivesse a sós com um escravo em seu quarto, não importava o que estivessem fazendo naquele momento, aquilo só podia significar traição. O escravo que nada tinha feito de errado fora assassinado, e a esposa, assustada com toda a situação, fugira. 

Decidido a devolvê-la pessoalmente para seus pais de modo a limpar sua honra, saiu em campanha pela selva, junto a capitães do mato, disposto a tê-la de volta, custe o que custasse. Ouvindo rumores de que estava morando em alguma aldeia, o Barão passou a matar e torturar todas os índios que encontrara em seu caminho, até finalmente encontrá-la grávida e assustada numa destas tribos. Tomou-a e partiram de volta para Portugal, levando consigo o remorso pelo assassinato de tantas almas inocentes, ceifadas em nome de seu próprio preconceito. Decidido a não mais lidar com o peso de toda aquela situação sem revelá-la, contou toda a verdade para sua mulher, que não o perdoara. Anos se passaram e a Lei da vida cobrou seu preço...

Esta é uma obra inspirada pelo espírito do Pai Benedito de Aruanda. Um livro psicografado que lida com conceitos umbandistas sobre a espiritualidade. A trama se passa no período do século XVIII no eixo Brasil-Portugal, e no campo espiritual, expõe os reinos dos exus, suas leis, conceitos e classes. Um romance simples sem muitas reviravoltas e previsível na maior parte do tempo, mas nem por isso enfadonho ou ruim. Foca sua moral sobre o conceito de que nossas ações e vícios podem nos gerar consequências terríveis no post mortem, muitas vezes reversíveis apenas através de serviço espiritual e reencarnação.


por Allan Trindade


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domingo, 28 de janeiro de 2018

Minha mãe sempre falou sobre esse meu estranho hábito de infância de forma intrigada. É provável que eu tivesse cerca de cinco anos e sinceramente não lembro de ter feito isso por tantas vezes quanto ela relata, mas desse dia em específico, recordo-me com certa nitidez. Segundo me disse o ritual era praticamente diário: acordava por volta das três da manhã, ia até a cozinha, pegava um saco com feijões e me despedia dizendo que ia embora para sempre. Para me convencer do contrário, meu pai tinha que dar uma volta comigo na praça escura e deserta que fica próxima a nossa casa.

Certa noite acordei como de costume e cumpri cada uma das etapas. Mas ao que me lembro, naquele dia, meus pais não se levantaram para fazer a parte deles. Como o plano de ir embora não incluía a companhia dos dois de qualquer forma, abri a janela do nosso quarto para fugir. À minha frente o quintal, com o tanque de roupas feito de cimento alguns metros de distância - que eu adorava encher para tomar banho - e uma pilastra. Tal qual um imã que mesmo sem querer suga o metal para perto de si, meu olhar foi atraído para aquela direção.

À frente daquela coluna algo incomum se destacava ao breu naquela noite iluminada apenas pelo clarão da Lua. Um homem de terno e chapéu xadrez estava lá, encostado, com a face sem olhos, nariz ou boca, tão negro quanto o negro do fundo de um poço, tão congelante quanto a sensação de estar indefeso quando se precisa de ajuda. Senti meu coração acelerar, meu corpo paralisar, meus pelos se arrepiarem, sensações estas que se repetiriam anos mais tarde em situações semelhantes outras. Não conseguia gritar ou desviar minha atenção daquela visão. Por quanto tempo fiquei naquele estado, não sei. O vulto nada fez, parecia apenas querer que eu o visse. 

O vi e nunca mais esqueci.

ATRAVÉS DOS PORTAIS DA MORTE é um livro escrito por Dion Fortune, publicado no Brasil pela editora Pensamento no ano de 1993, com 120 páginas, dividas em 15 capítulos.

Morrer é o cessar do viver. Muitas são as implicações filosóficas que podem ser atribuídas a este conceito, assim como muitos são aqueles que, até os dias de hoje, se debruçam fisicamente sobre métodos para tentar protelar a temida morte. E por que a tememos? Temos medo da dor? Mas e todos aqueles casos de pessoas que morrem em paz? E todos aqueles outros casos em que o impacto de algum acidente é tão fulminante que nem mesmo dá a possibilidade para que  a vítima se conscientize do que lhe ocorrera? E se há continuidade na vida depois da morte, então o que há de existir por lá?

Neste título, Dion nos induz a este tipo de reflexão e sugere que não tememos a morte em si, mas o desconhecido e a possibilidade deste encontro. Iniciados de várias épocas e de vários lugares do mundo, ousaram mergulhar neste mar de incertezas e trazer à superfície o conhecimento sobre este estado de mistério. Se a morte é uma etapa da vida, ela não deve ser temida, mas compreendida.

A consciência da continuidade e a crença na reencarnação são então o norte desta obra. Sobre esta continuidade, nos diz a autora, para alguns, há apenas um desligamento da consciência para com o corpo material, como se morrer fosse semelhante ao ato de dormir e acordar num outro local. Já para outros, psiquicamente desenvolvidos, todo este processo se dá de maneira consciente, e esta passagem ocorre sem nenhum tipo de trauma, ou necessidade de adaptação ao chegar lá, uma vez que sempre estiveram em contato com o outro lado. Em ambos os casos, e até mesmo naqueles onde a morte ocorre de forma indesejada, destaca que nossos entes queridos chegam ao nosso encontro, e para aqueles que não os tiveram em vida, são as almas semelhantes que tendem a se aproximar.

Fortune destaca que a relação de vivos e mortos não cessa com a morte, mesmo para aqueles que não creem na vida espiritual, uma vez que ateus também sofram a perda de seus amados. Esse tipo de relação emocional reflete sensações em todos os envolvidos - vivos e mortos - e se faz necessário que ambos os lados se esforcem para a compreensão e função de cada etapa da vida. O luto tem sua função de ser, entretanto, tem de ser sutilizado pela consciência da responsabilidade das energias emanadas.

A autora apresenta a crença num período purgatório para a alma, definido como um estado mental de reflexão sobre sua existência material, para só então, evoluída, estar apta para o  restabelecimento de contatos. Sendo a lamúria permanente dos vivos, e o chamamento dos falecidos, desencorajada, pois podem levar o desencarnado a ideia de que o plano terrestre é melhor que o local em que se encontram, gerando desta forma bloqueio do desenvolvimento ou incentivando o mesmo a se tornar algum tipo de obsessor.

Em seu aspecto esotérico, alega ser possível avaliar através de cálculos astrológicos, os momentos mais propícios para nossa morte, mas que esta não deveria ser a preocupação de ninguém, uma vez que até os setenta anos todos deveriam lutar e se esforçar apenas para viver. Para além disto, diz que no momento da passagem o duplo etérico ainda está em fase de transição, privado do suprimento de prana que absorve do Sol através do corpo físico, podendo vir a absorver esta energia dos presentes que tenham com ele algum tipo de laço, ou ainda dos elementos funerários do local, tais como velas e flores, traduz os benefícios de rituais para a decomposição de corpos sutis, assim como razões para a cremação.

Este é um livro curto, que traz consigo reflexões sobre a função do desencarne e é baseado na forte e comum crença que permeia os meios ocultistas e espiritualistas: a morte é apenas mais uma etapa da vida.

Sua leitura é simples e fácil, com ideias corriqueiras a qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento sobre o campo espiritual. Traz algumas referências religiosas de inclinação pessoal da autora. É introdutório sem ser leviano.

por Allan Trindade




quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ao observarmos a evolução das religiões no mundo, percebemos uma grande divisão histórica nos registros modernos: saímos do plural para o singular. No período anterior ao advento do Cristianismo, há cerca de 2016 anos atrás, o mundo religioso, em sua grande maioria, era povoado por uma infinidade tão grande de Deuses e divindades menores, que seria impossível classificar a todos, fosse qual fosse nosso esforço. Panteísmo, animismo, politeísmo, monolatria, são termos recentes, desconhecidos para povos que estavam conectados as suas crenças, não por uma questão de escolha, mas por uma ligação étnica. Nascer sob a égide de uma determinada religião, receber de seus pais e sociedade os ensinamentos daquela crença, era automaticamente ser e considerar-se pertencente a ela.

Tal visualização pode parecer difícil num primeiro momento, num contexto onde a mística exerce um papel social secundário, neste mundo atual onde as pessoas trocam de religião com a mesma facilidade com que bebem um copo d'água. Mas basta pensar que ainda confundimos árabes com muçulmanos, que ignorantemente chamamos de racista todo aquele que diz não gostar do Judaísmo, para perceber que ainda temos muito que aprender sobre esta matéria.

Estas três religiões são então nossa principal referência para o assunto que se segue. É o Judaísmo o precursor do pensamento moderno, disseminado pelo Cristianismo, e tão ferrenhamente defendido pelo Islamismo de que "Deus é um só!". Todo este reducionismo, obviamente, encontra seus fundamentos numa colcha de retalhos histórica tão distante dos métodos modernos de classificação e verificação científica, que somos obrigados a usar deste argumento, de que são eles os "inventores" desta ideia, de modo a não cairmos num relativismo sem fim, que nos distancia da pluralidade de Deus(es) mas nos lança no "polihistoricismo" teórico. Deixemos que os cientistas da religião e exegetas nos digam se o monoteísmo existe de fato ou se toda esta ideia não passa de puro marketing espiritual.


E por qual razão consideramos essa possibilidade? Pois basta que você recorra ao principal elemento de perpetuação, usado principalmente pelas religiões monoteístas - seus livros sagrados -, para que sem esforço se depare com uma infinidade de seres espirituais imbuídos de funções sob o comando do tal "Deus Único", que em muitos casos, são tão poderosas, e descritas como tão mais próximas de nós, e tantas outras tão próximas d'Ele, que mais justo seria também considerá-las divindades dignas dos mesmos preletores. E não era esse o argumento daqueles antigos religiosos a que modernamente nos referimos como pagãos? Não é recorrente no paganismo, o conceito de que, apesar da pluralidade, apesar de um panteão com diferentes Deuses, todos eles, e as criaturas sob seus comandos, eram advindos de uma fonte única?


 Em todo mundo moderno, o esforço exercido pelas religiões monoteístas para desvincular o povo de seus mitos e crenças, foi em certo nível falho e vão. Pessoas e religiões se viram na obrigação de adaptar sua magia, fé e seres espirituais a nova linguagem imposta, daqueles que teimavam em lhes dizer que "basta pedir para Deus". Não bastou! Deuses viraram santos, semi-deuses foram travestidos como super heróis, rituais transmutaram-se em festas, espíritos reinterpretados como assombrações ou guias, elementais como folclore, anjos e demônios como serviçais de Deus para a manutenção da vida do homem... todos, tão antigos quanto o antigo, mais fortes que o tempo, venceram a força da abstração ignorante e minimalista, e superaram, mesmo que reconfigurados, as invasões, fogueiras e bombas do tempo que tanto insistiram e insistem, na tentativa de lhes expulsar do contato para com cada um de nós, e lhes apagar dos registros da nossa história e memória.

Os Espíritos da Natureza é um livro publicado pela editora ISIS, no ano de 2004, com 94 páginas, 16 capítulos, e foi escrito por Charles Webster Leadbeater, famoso teosofista e clarividente do século XIX.


Entendendo-se que Leadbeater chama de fadas, todos os espíritos da natureza ligados ao plano telúrico, de forma etérica ou astral, o autor reuniu através de capítulos uma coletânea de descrições sobre o mundo dos elementais, com foco em seu comportamento e forma.


A ideia básica por trás de seu conteúdo reside no conceito de que estes seres são formas sutis de energia, nascidas através de anjos e devas, com sua própria trajetória evolutiva no mundo espiritual. Sua proximidade conosco então se dá, pois são os elementais os responsáveis pela criação e manutenção de grande parte de todo o ciclo de vida da natureza, em seu sentido mais natural, sendo eles os administradores de flores e suas colorações, plantas e suas formas, insetos e toda a infinidade de coisas que se possa imaginar.

Sendo o homem um ser dotado de inteligência e individualização, e tendo em si caracteres revolucionários e ignorantes que o distanciam deste contato, está, por conseguinte, em grande parte, se afastando da relação com estes seres, todas as vezes que substitui florestas por cidades, rios por esgotos, despertando assim a ojeriza das fadas. Isso explicaria então o por que de no passado termos tido tantos relatos de seres fantásticos, e nos dias de hoje, tudo soar para nós como lendas de contos de fadas, aos quais, apesar de nosso anseio, só temos conhecimento através de reproduções cinematográficas.

Ainda segundo o autor, quanto mais distante do contato com a civilização humana, mais simpáticos eles são para conosco, traçando assim uma distinção entre os elementais que residem em rios e florestas, que por exemplo, são mais avessos e arredios a nossa presença já que conhecem e veem com frequência nossos atos destrutivos em seus reinos, e sendo aqueles residentes das superfícies do alto mar muito mais simpáticos a nós, uma vez que nossa aparição por lá seja muito mais rara.

As descrições de Leabeater são sempre generalistas e nada tem de realmente profundas: cada capítulo, quando muito, não chega ao número de quatro páginas. Entretanto, o título também não nos
traz promessa alguma: não há nele qualquer indicação sobre como o autor chegou aquelas verificações e nem tampouco, como elas poderiam então ser reproduzidas por outrem. Obviamente que aqui não estamos ignorando a fama do referido ser um clarividente, apenas consideramos que o livro carece de uma introdução explicativa neste sentido, para aqueles que não conhecem sua história. Se você está procurando um livro prático de magia elemental este título certamente não é para você.

Os Espíritos da Natureza ainda exige um certo conhecimento prévio, por incrível que pareça, para entender algumas ideias apresentadas pelo autor. Talvez seja interessante que você esteja familiarizado com tipos de pensamento relacionados a metempsicose, hierarquia celeste, hinduísmo e teosofia. Nada que você realmente precise, mas que pode evitar, principalmente em seus primeiros capítulos, questionamentos sobre "O quê ele quer dizer com isso?!".

Além disso, a editora incluiu nesta edição tantas imagens de fadas, que acredite, caso não fossem elas, o livro teria ainda bem menos páginas. Não obstante, não consta em sua ficha técnica seu nome original. Como seus leitores saberão de onde vocês tiraram estes escritos, Editora ISIS? Isso nos leva a pensar sobre a possibilidade desta publicação ser uma antologia destacada de algum outro contexto, onde originalmente os pontos falhos citados acima - como uma introdução para o assunto e explicações sobre métodos - talvez estivessem incluídos. Deixamos aqui o espaço aberto para uma possível explicação.

Este título dificilmente lhe trará algo de realmente significativo, seja a nível intelectual ou prático. Não espere por grandes revelações, métodos ou exercícios: nada disso você encontrará lá. Mas, com um certo esforço, tal qual o que eu fiz aqui, você poderá usá-lo como um gatilho para reflexões sobre o porquê da nossa relação de tanta dependência com o mundo moderno e o nosso distanciamento, cada vez mais intenso, para com os aspectos mais básicos da natureza.

por Allan Trindade


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