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domingo, 1 de agosto de 2021

Embora alguns fundamentalistas torçam o nariz para a associação da palavra Cabala a expressão 'hermética', fato é que esta junção vem sendo praticada há centenas de anos, pelas mais diversas escolas e indivíduos ocultistas, evidenciando assim uma fusão histórica e sincretismo do esoterismo judaico àquele de origem ocidental em suas várias nuances. 

Se para alguns tal mescla representa uma 'corrupção e apropriação dos saberes de um povo', para outros tal fenômeno apresenta-se como uma consequência inevitável do tempo, contato e evolução do conhecimento.

E esta parece ser a linha de pensamento pela qual se baseia Marcelo Del Debbio, que apresenta nesta obra uma evolução progressiva daquilo que é Cabala em seu sentido mais puro e judaico, até sua partícula independente conhecida como Kabbalah Hermética. 

KABBALAH HERMÉTICA é um livro escrito por Marcelo Del Debbio, contém 672 páginas divididas em 10 capítulos e foi publicado no ano de 2016 pela Daemon editora.

Segundo o autor, tudo teria começado no Egito, terra de grandes conhecimentos e sabedorias antigas, que recebia entre suas dunas, pirâmides e oásis a visita de representantes dos mais diversos povos e etnias afim de não apenas aprender, mas intercambiar conhecimento. 

A grande influência do povo de Kemet sobre os demais povos se daria por sua grande preocupação com os aspectos mágicos da vida e da morte, que os tornaram grandes sábios não apenas das ciências físicas, mas igualmente daquelas de caráter espiritual. Gregos, judeus, romanos e até mesmo nigerianos teriam recebido e trocado tais saberes com eles e entre si, cada qual adaptando o desenvolvimento de suas conclusões as suas próprias culturas e simbolismos, fazendo com que, mesmo separados por fronteiras, tempo e línguas, pudessem compreender uns aos outros por arquétipos e conclusões comuns.

A Cabala judaica, referida também como merkabah ou bereshit, representaria então esta herança herdada desde aqueles tempos, atribuída pelos judeus ao próprio Moises, que das terras do faraó teria recebido e compartilhado com seu povo tal conhecimento. 

Os anos passariam e diversas seriam as Escolas de pensamento que dentro da cultura judaica transformariam os conceitos herdados por judeus de gerações e nações posteriores.  Da Espanha a Alemanha, a Europa veria o nascimento de livros conhecidos como Bahir, Zohar, dentre outros além de uma série de cabalistas que por suas ideias diferenciadas, marcariam seus nomes na história.

Com a perseguição perpetrada pelos cristãos contra o povo judaico, a expulsão de suas terras ou ainda a prática de conversões forçadas a Igreja de Roma, o ocidente testemunharia uma progressiva abertura destes conhecimentos cabalísticos, antes restritos aqueles que professavam a fé judaica, que pouco a pouco se mesclariam e sincretizariam a fé cristã, sem entretanto, perderem suas raízes originais. Assim, mesmo que da porta para fora a Cabala ganhasse novos ares, dentro das sinagogas ela ainda manteria suas características próprias. 

Tal abertura faria com que indivíduos de filosofias e religiosidades distintas pudessem perceber novamente aquilo que seus ancestrais faziam e praticavam: a troca de conhecimento. Assim, helenistas, cristãos, judeus, alquimistas, e os mais recentes, rosacrucianistas, veriam nestes conhecimentos comparados a similaridade, até então oculta, existente entre suas diversas concepções de vida e espiritualidade.

O Renascimento sustentaria com força este olhar direcionado para o passado, cativando a mais nova certeza de muitos naquele momento: há mais riqueza em juntar que separar.

A repetição das antigas práticas de intercâmbio cultural e espiritual faria surgir grandes personalidades deste contexto histórico, referidas até os dias de hoje, e que além de outros sistemas e religiões, passariam a citar, direta ou indiretamente, a Cabala em seus escritos. Aquilo que viria a ser conhecido genericamente como Kabbalah Hermética teria como base esoteristas independentes, ou de religiões diversas, tais como: Roger Bacon, Robert Fludd, Agrippa, Paracelso, Eliphas Levi, Isaac Newton, Guaita, Papus, Samuel Mathers, Aleister Crowley, Dion Fortune, dentre outros.

Assim, a Kabbalah Hermética mantém o nome original de sua fonte, a Cabala (judaica), porém  a diferencia de si própria, pois em seu aspecto hermético, mescla uma série de outros sistemas e formas de pensamento, representando assim um agregado sistemático do esoterismo ocidental em suas mais diversas formas.

Neste livro, Del Debbio nos abrilhanta com uma infinidade de associações tendo como base a Árvore da Vida, suas sephiroth e caminhos, correlacionando cada uma destas partes a centenas de imagens, deuses, oráculos, religiões, histórias e tudo mais que for possível para que se entenda esta curiosa conexão entre as coisas.

O livro tem uma estética enciclopédica, o que significa que além de poder ser estudado, ele também pode ser usado como uma espécie de fonte de consultas rápida para tirar dúvidas de correspondências, sincretismos e associações que se queira. Assim, além de informativo, é essencialmente prático, oferecendo texto e imagem em seu conteúdo do começo ao fim.

Mas é fato, destina-se aqueles de mente aberta, que mantém em suas ideias aquele antigo ensinamento semita que nos diz: "Deus nos fez com uma boca e dois ouvidos para que possamos falar menos, escutar e aprender mais."

por Allan Trindade


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domingo, 3 de janeiro de 2021

A magia - enquanto ferramenta da crença humana que pensa ser possível alterar a realidade presente ou futura através do uso de entidades espirituais - possui um interessante desenvolvimento evolutivo quando vista de perto. Se antes poderíamos dizer que esta se limitava a ideia de que desencarnados, fadas, anjos, demônios e divindades ditavam o sucesso ou fracasso das operações ritualísticas, modernamente vimos surgir um novo conceito, uma nova forma de prática, mais crua, direta e independente, distante dos objetivos místicos e teúrgicos tão comumente vistos em suas correntes mais tradicionais, e que normalmente faz uso apenas da intenção e energia mental do praticante. 

Com o advento da Magia do Caos, uma nova classe de magistas faria surgir, em meio aos influxos astrais que nos circundam, sigilos e servidores mágicos criados a partir das próprias energias psíquicas e também não raras as vezes seminais. Moderna e curiosa. Vanguardista com pitadas de tradicionalismo. Excêntrica em suma. Mas será eficaz?

O GRIMÓRIO DOS QUARENTA SERVIDORES é um livro escrito por Tommie Kelly, com 256 páginas divididas em 6 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Penumbra Livros.

Todos aqueles que já ouviram falar ao menos uma vez em magia do caos, muito provavelmente já ouviram dizer que se trata de um sistema mágico que lida com sigilos. Sigilos podem ser basicamente definidos como formas gráficas aleatórias, criadas a partir de textos modificados que contém a intenção mágica do praticante ocultada em suas linhas. Estes sigilos são feitos com uma intenção única, por exemplo, conseguir uma quantia específica de dinheiro, um livro, algum sentimento que o magista não disponha naquele momento, ou quaisquer outras coisas que sua criatividade e intenção mandarem. São feitos para serem absorvidos, destruídos e esquecidos. Funcionam como disparos mágicos do praticante lançados a partir de sua mente consciente contra as barreiras de sua própria mente subconsciente, plantados ali para germinarem em meio às trevas em direção à luz da superfície de sua vida. Se comparados a uma terminologia mais tradicional, são como feitiços, sem utilizar-se, entretanto de todos os elementos naturais, tais como pedras, animais e ervas que estes costumam exigir. Para um praticante de magia do caos, um pedaço de papel, caneta e um orgasmo costumam ser suficientes.

Porém, se podemos dizer que sigilos não possuem nada além de uma função específica, limitada e que estão destinados ao esquecimento literalmente, o mesmo não pode se dizer de uma outra ferramenta mágica igualmente característica deste segmento moderno de magia: os servidores. Servidores são iguais a sigilos do caos por sua artificialidade. Não são entendidos como sendo fadas, espíritos ou mesmo divindades advindas dos processos universais da criação, mas ao contrário, são frutos da mente do próprio magista, que os produz intencionalmente com forma, nomes, selos, comportamento, áreas de atuação e meios de subsistência pré-programados, tal como robôs, porém, astrais. Agem em função de sua programação e o principal: são feitos com personalidade e para durar.

Tudo bem, talvez você esteja pensando que este conceito não é tão novo assim e já vem sendo ensinado pela Tradição há muito tempo, visto que alguns os chamariam simplesmente de elementares, mas há uma pequena diferença entre estes conceitos que preferimos não entrar em detalhes aqui para não tornar o texto desnecessariamente extenso. Neste ponto pensamos ser suficiente dizer que embora ambos os conceitos sejam conhecidos pela tradição mágica, sigilos e servidores foram adaptados e modernizados de acordo com as diretrizes da magia do caos que por sua vez, bebe fortemente de fontes advindas do Zos Kia Cultus.

Tudo isso para falarmos deste interessante livro de Tommie Kelly chamado O Grimório dos Quarenta Servidores. Por não terem uma existência prévia, servidores dependem apenas da criatividade e habilidade mágica daquele que os criou para tornarem-se vivos. E foi lançando mão de suas competências artísticas alinhadas a sua experiência com o oculto, que este magista decidiu gerar quatro dezenas de seres, cada um alinhado com um objetivo específico que lhes dá nome, desenhados com sigilos próprios e formas características que ilustram toda a obra. E que bela obra: capa dura, ótima diagramação com conteúdo em cores, e para aqueles que apoiaram a produção do projeto (pois este livro fora produzido incialmente a partir de metas de crowdfunding), ainda alguns brindes como moeda, marcadores de páginas, adesivos dentre outros.

O livro é chamado de grimório pois traz em seu conteúdo os conceitos do autor sobre o que seja magia e como a mesma funciona, suas opiniões sobre o que sejam sigilos, servidores e egrégoras, divinação, feitiços e o principal: como ativá-los através de um extenso ritual sugerido, a ser praticado diariamente durante mais de quarenta dias (um para cada servidor), para que eles estejam sempre a sua disposição no momento em que você precisar. O livro ainda foi ampliado, em função do alcance das metas estendidas, com uma série de apêndices contendo entrevistas e tabelas adicionais que visam melhorar o entendimento sobre a função de cada um dos quarenta. Tudo muito bem explicado e organizado, apesar do aparente estranhamento que a palavra caos possa causar na mente de alguns...

E para aqueles que adquirem o conjunto, o grimório vem acompanhado de um deck contendo cada um dos quarentas servidores de modo que estes possam também ser usados na forma de cartas como oráculo para divinação, ou qualquer outro uso que você resolva dar, o autor faz questão de salientar. Além dos quatro diabos, quatro servidores extras incluídos no final da publicação. 

No começo desta resenha questionamos a eficácia destes métodos modernos, muito mais como uma provocação, coisa bem característica deste segmento que é essencialmente empírico. Aqui não há nenhum apelo à tradição, a antiguidade, ou sucessão de linhagens mágicas. Tudo é feito a panos claros com um objetivo preciso de resultados, sem entretanto se emocionar com a eventual falta deles. O grimório dos quarentas servidores oferece uma experiência moderna de interação com entidades artificiais que podem ter muito a lhe oferecer. Ou não, afinal de contas, isso só você, e quem sabe eles, poderão de fato dizer... 

por Allan Trindade



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sexta-feira, 13 de novembro de 2020


Ideias sobre demônios permeiam e sempre permearam o imaginário humano. E engana-se quem acha que tal pensamento - ou percepção - é exclusividade de uma única religião ou segmento espiritualista
. Muitas são as doutrinas que descrevem a existência de tais seres, muitas vezes nem tão maléficos como costumam ser imaginados, mas inegavelmente e comumente potencialmente nocivos a existência humana. Nossa herança cristã nos legou tal conceito e temor, mas as fontes judaicas podem explicar mais especificamente certos detalhes oriundos destas crenças.

DIALOGOS SOBRE DEMÔNIOS é um livro escrito por Rav Zadok Hakohen e Rafael Resende Daher, contém 211 páginas divididas em 8 capítulos, e foi publicado no ano de 2020 pela Mubarak editorial.

A vida de sucesso do rabino Zadok, coautor desta publicação, começou cedo. Por volta de seus 12 anos de idade já se destacava em sua comunidade através de seus escritos responsivos aos textos judaicos. Progressivamente aumentou sua dedicação, seu envolvimento e religiosidade, casando-se jovem, ainda com seus 15 anos, provando sua maturidade precoce, embora este mesmo fator possa ter sido fonte para seu pronto declínio. Divorciou-se graças as fofocas alheias que punham em pauta a fidelidade de sua esposa, e buscou em outros ares o apoio de rabinos que apoiassem sua decisão. Casou-se ainda por mais duas vezes, sem entretanto nunca gerar filhos, o que considerou como um provável castigo pela forma como tratara sua primeira mulher. 

E é assim que Rafael Daher nos introduz esta publicação bilíngue que trata das especificidades literárias da tradição hebraica voltadas para a tratativa e relação com demônios dos mais diversos tipos. Destaca que neste estudo, serão apontados as relações existentes no ideário dos grimórios componentes da Tradição Salomônica de magia, e suas origens bíblicas, cruzando conexões percebidas entre as tradições cristãs, islâmicas e judaicas, entretanto sem fazê-lo de forma diretamente comparativa. 

Daher salienta que, apesar do destaque para este ponto, este livro não se propõe a analisar de forma pormenorizada e lateral os textos encontrados em todas estas tradições, mas de outra forma, busca nas fontes hebraicas passagens e versículos que indiquem para o leitor a provável origem deste ou daquele conceito Salomônico, ou mágico, de modo que, em tendo conhecimento de ambas as tradições, o próprio legente estará habilitado para perceber suas origens e influências. Assim, ao encontrar em um grimório, por exemplo, que Salomão construíra seu templo com ajuda de demônios, apresenta quais textos originais tratam dos detalhes desta história e desenvolve seus argumentos sobre estas fontes. 

Como destaques adicionais, acrescenta histórias sobre Adão e sua relação (inclusive sexual) com demônios. Lilith e sua fama distorcida no ocidente, visto que segundo a literatura, nunca fora ela símbolo de independência feminina, mas que toda esta ideia de rejeição a Adão fora criada a partir de um texto denominado Alfabeto de Ben Sirach, obra de conteúdo antissemita que traz uma série de histórias bizarras sobre sexo e flatulências, que ganhou destaque através de discursos feministas do século XX. A influência que os egípcios teriam exercido sobre os israelitas e sua adoração pagã a animais e o sacrifício dos mesmos para aqueles demônios de lá. A Torre de Babel e a transformação de alguns de seus habitantes em diabos por seu desejo de praticar idolatria. Necromantes e a enganação que praticam ou sofrem, visto serem os demônios os agentes de suas predições sobre o futuro, demônios estes que atuam sob a supervisão do Deus de modo a testar a observância de suas regras. As disputas destacadas no Sepher ha-Zohar entre a Luz e as Trevas e a punição das almas no Gehenom. As tigelas babilônicas e seus feitiços, dentre outros.

O livro se encerra com um capítulo escrito pelo próprio rabino Zadok Hakohen e suas explicações sobre Cabala, a Árvore da Vida, as sephiroth e qliphot, sendo estas últimas, segundo o autor, as cascas de proteção criadas para que a pureza e potência do poder divino emanado não destruam a criação. A existência das qliphot e sua força negativa, entretanto, seriam o motivo para a confusão exercida sobre muitos daqueles que delas se aproximam e que se sujeitam as suas más influências, tornando-os tão impuros em alguns casos, que nada mais lhes resta, nesta ou em outra vida, se não o inevitável destino de tornaram-se eles próprios demônios em si.

Todos aqueles que conheçam minimamente personagens como Moises, Salomão, Ashmodeus, Azazel,  ou mesmo itens específicos como Urim e Tumim, dentre outros elementos da tradição judaica, entenderão a proposta desta publicação. Um livro de referências que indica certas fontes da magia, religião e crenças populares que pode ser aproveitado de forma igualmente proveitosa por curiosos, pesquisadores ou esoteristas que se apoiem sobre as bases tradicionais da magia ocidental.

por Allan Trindade



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sábado, 26 de setembro de 2020

 


O Livro das Mentiras, que é também falsamente chamado QUEBRA, os devaneios ou falsificações do pensamento único de Frater Perdurabo, cujo pensamento é, em si mesmo, falso.

Quebra, quebra, quebra ao pé de tuas pedras, Ó Mar! e se pudesse eu pronunciaria os pensamentos que surgem em mim!

O LIVRO DAS MENTIRAS é um livro em capa dura, escrito por Aleister Crowley, contém 224 páginas divididas em 93 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Daemon editora.

Eis uma das principais obras de Aleister Crowley, famosa por sua excentricidade e estranheza. O Livro das Mentiras, ou Liber 333 (e ser a metade de 666 aqui também não é feito por mero acaso), é constituído de 93 capítulos encabeçados por numeração, a qual, baseada em conceitos cabalísticos, direciona o sentido dos textos, que são sempre compostos por títulos exóticos, versos, rituais, expressões filosóficas ou mesmo de amor, e suas explicações na página seguinte.

"... [nele] Existem 93 capítulos: nós contamos como capítulos as duas páginas preenchidas respectivamente com um ponto de interrogação e exclamação. Os outros capítulos contém as vezes uma única palavra, frequentemente de meia dúzia a vinte frases, ocasionalmente algo em torno de doze a vinte parágrafos. O assunto de cada capítulo é determinado mais ou menos em função da importância cabalística de seu número. Assim o capítulo 25 fornece uma versão revisada do Ritual Menor do Pentagrama; 72 é um rondel com o refrão "Shemamphorash" , o Divino nome de 72 letras; 77 Laylah, cujo nome acrescenta aquele número, e 80, o número da letra Pé, referenciado a Marte, um panegírico sobre Guerra. Algumas vezes o texto é sério e vai direto ao ponto, outras  seus oráculos obscuros demandam conhecimento profundo da Cabala para sua interpretação, outros contém alusões obscuras, jogo de palavras, segredos expressos em criptogramas, duplos ou triplos sentidos que podem ser combinados com o objetivo de apreciar seu sabor total; outros novamente são sutilmente irônicos ou cínicos. A primeira vista o livro é um poço de falta de noção criado para ofender o leitor. Ele exige estudo infinito, simpatia, intuição e iniciação. Dado estes fatos eu não hesitaria em dizer que nenhum dos meus outros escritos eu ofereci tão profunda e compreensiva exposição da minha filosofia em todos os sentidos..."
Confessions

Ter um conhecimento mínimo sobre Cabala e o diagrama da Árvore da Vida faz-se mister aqui, vide a constante referência a este sistema esotérico. O livro começa com um poema onde Frater Perdurado - um dos nomes iniciáticos de Crowley - traça o plano de existência e manifestação do Universo: Ain, Ain Soph, Ain Soph Aur, que classifica como " A Tríade Anterior Primordial Que é NÃO-DEUS "; Kether, Chokmah e Binah como " A Primeira Tríade Que é DEUS EU SOU "; Daath como " O Abismo ", e assim sucessivamente até a conclusão de todas as esferas. Sobre este capítulo diz que "...pode, então, ser considerado como o mais completo tratado sobre a existência já escrito. " 

Exagero? Talvez. Errado? Está. Correto? Também!

Tudo isso pois o livro fora escrito sob a perspectiva de um alguém que, segundo a estrutura de seu próprio sistema mágico, religioso e filosófico - mas não apenas -, transcendeu o plano intelectual da dualidade, e alcançou uma visão e perspectiva sobre cada elemento da existência como conectado a fatores transcendentais à dicotomia vista a partir das perspectivas daquelas que não alcançaram tal posto. Logo, todo e qualquer binarismo é unido, afirmado, separado, negado, em um intercruzamento não linear de ideias e transcendido pela perspectiva da não divisão. Em outras palavras, o livro é assim chamado por conter em si ideias que são tão verdadeiras, e, ou, falsas, como tudo aquilo que é pertencente e percebido através da visão de quem ainda enxerga a vida a partir da perspectiva da Terra. 

O Livro das Mentiras é também o Livro das Verdades.

" O número do livro, 333, implica dispersão, de modo a corresponder ao título 'Quebra' e 'Mentiras'. Entretanto,  'o pensamento único é, em si mesmo, falso' e, portanto, suas falsificações são relativamente verdadeiras. Logo, este livro consiste em declarações tão verdadeiras quanto possível para a linguagem humana. "
Comentário

Mas não pense que toda esta aparente complexidade torna sua leitura impossível de ser compreendida por leigos. Alguns textos são absolutamente simples e não carregam nada além de uma mensagem direta para o leitor, como a indicação para não negligenciar as meditações diárias e matinais, por exemplo. Assim como alguns rituais, como a Missa da Fênix, que é exposta em sua completude nesta publicação, sem qualquer elemento misterioso sobre sua execução. Para além disto, dispormos desta edição em língua portuguesa e traduzida por thelemitas torna tudo ainda mais interessante, vide o cuidado e atenção para com o uso das palavras - que sabemos que os mesmos tiveram inclusive pela adição das notas de rodapé - , de modo que a essência de texto tão complexo não seja totalmente perdida. 

Liber 333 é essencial para todo thelemita e todo aquele interessado na obra de Crowley. Fora a partir da publicação deste livro que, segundo assim nos conta seu autor, o Outer Head of the Order da Ordo Templi Orientis teria entrado em contato com Aleister, alegando que o mesmo havia publicado os segredos de sua Ordem para-maçônica, tendo conferido a ele assim, o Grau IX da referida Sociedade. 

A partir desta publicação muitas coisas mudariam especialmente no contexto mágico e religioso de Thelema, mas isso já é assunto para uma outra história...

por Allan Trindade


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sábado, 8 de agosto de 2020

O começo de século XX viu surgir um curioso título que prometia trazer um resumo das ideias basilares, supostamente constituintes da sabedoria espiritual e teoria mental do antigo Egito e da Grécia. Assinado por Três Iniciados da tradição esotérica ocidental, seria este o livro que a partir de então influenciaria uma série de argumentos e pensamentos espiritualistas, mágicos e esotéricos, dando margem inclusive para os recém auto anunciados, e bem mais modernos, lunáticos quânticos e suas teorias espúrias.

Sendo assim, e para que não haja confusão: não, o Caibalion não fala sobre física quântica ou mesmo sobre o que alguns dizem (ou pensem) que tal ciência é. O Caibalion é acima de tudo um livro que surge como um amalgamador dos fundamentos do pensamento esotérico ocidental que tem por base a seguinte ideia: O Todo é mente. O Todo é a Realidade substancial oculta em toda manifestação do Universo. Tudo que é existe é uma manifestação do Todo. O Todo existe em tudo e tudo existe no Todo.

O CAIBALION é um livro escrito por Três Iniciados com 126 páginas divididas em 15 capítulos e foi publicado no ano de 2008 pela editora Pensamento.

Tal conceito, se posto de forma solta e abstrata pode ser usado como elemento para uma série de teorias alucinadas que em muitos casos nada tem a ver com os elementos filosóficos ou espiritualistas que estão por trás deste parecer. Ao afirmar que o Todo é mental, os Três Iniciados nos apresentam uma ideia simples, porém, complexa, que pressupõe a existência de um criador que através de sua própria imaginação, por assim dizer, criou todo o universo em que vivemos. Sendo assim, tal como nós fazemos num sonho, ele participa como substanciador da própria "criação onírica", está na criação, sem entretanto ser a própria criação, pois é aquilo que está além. 

 Pense em si como um exemplo, caro leitor. Sua mente cria seu sonho, você participa, mas você não é seu sonho, certo? A mente é então o grande agente da criação do sonho. E se nós, seres humanos, somos capazes de imaginar e usar a mente para criar, logo, possuímos em nós um diminuto, porém, não desprezível, exemplo de como tudo possa ter se dado neste universo.

Somos um exemplo limitado do Ilimitado. E isto porque, diferentemente do Todo, que é aquele cria, para criar precisamos desprender partes de nós, tal como na reprodução biológica comparável a de outros animais, onde sêmen e óvulo se juntam para formar um descendente. E por isso não podemos ser comparados ao Todo a ponto de dizermos que somos iguais a. Porém, e também, nos distanciamos dos animais quando através de nossa mente somos capazes de imaginar e criar sem diminuição de nossa própria substância existencial, embora para que tais criações mentais se materializem no plano terreno, precisemos sempre de materiais para produzi-los. Por exemplo, você pode imaginar a sua futura casa, mas para criá-la, precisará de materiais e uma série de outros elementos para torná-la física. O Todo não despende substância de si pois isso implicaria diminuição de si mesmo, o que não pode ser. O Todo não necessita de ferramentas para criar, pois cria através de sua mente. O Todo é mente.

Sendo assim, embora tenhamos características que possam nos dar um sempre ignorante vislumbre sobre nossa própria natureza, o que nos capacita a controlar determinados aspectos de nossa vida agindo para além de nossos próprios instintos, não somos capazes de romper com determinadas leis universais que nos afetam a todos, e portanto, precisamos aprender quais elas são, visto que sim, apesar do pressuposto poder mental, elas existem. Assim, o Caibalion nos apresenta uma teoria sobre a qual toda a manifestação desta existência estaria sujeita: as sete leis herméticas.

  • I - O Princípio do Mentalismo: o Todo é mente e se manifesta através dela.
  • II - O Princípio da Correspondência: todas as coisas possuem conexões.
  • III - O Princípio da Vibração: nada está parado, a variante reside na intensidade do movimento.
  • IV - O Princípio da Polaridade: tudo possui dois lados.
  • V - O Princípio do Ritmo: tal como um pêndulo, tudo oscila.
  • VI - O Princípio da Causa e Efeito: tudo é consequência de algo.
  • VII - O Princípio do Gênero: tudo possui dois gêneros, a variante reside no grau. 


Assim, conclui-se que para um adepto conseguir alcançar certo controle sobre sua própria existência, faz-se necessário desenvolver a própria mente de modo que ela seja um agente de sua própria realidade, sem com isso iludir-se com a ideia de que seja ele próprio o Todo em si. O adepto hermético seria então aquele que tendo alcançado a plenitude do conhecimento e aplicação de tais leis, seria capaz de utilizar-se de seu conhecimento para em cada um destes sete princípios aplicá-los sob vontade, tornando-se causa e não mais efeito ou mesmo neutralizando conscientemente os efeitos de determinadas causas, ao invés de simplesmente sofre-las.

O Caibalion é um clássico moderno do esoterismo ocidental. Conhecê-lo e tê-lo em sua biblioteca é uma obrigação para todo ocultista sério, não apenas para seu próprio enriquecimento intelectual, como também para se prevenir da influência de muitos destes aluados que andam ganhando fôlego por aí.

por Allan Trindade


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domingo, 21 de junho de 2020

Os tempos modernos e a facilidade de acesso ao conhecimento parecem ter dado ao estudo do ocultismo um desenvolvimento nunca antes visto em sua história. Se imaginarmos as dificuldades que aqueles que vieram antes de nós provavelmente tiveram para fazerem suas investigações, sem acesso a internet ou mesmo bibliotecas físicas e virtuais, poderemos ter uma noção do esforço que fizeram para chegar aonde chegaram. E talvez isso também explique o porque de muitos destes terem se destacado não apenas neste campo do conhecimento mas em muitos outros, igualmente, ou quem sabe, ainda mais importantes para o desenvolvimento da humanidade. 

Nos dias de hoje declarar-se ocultista costuma gerar dois tipos de reações que em muitos casos estão relacionadas as próprias posturas e convicções dos indivíduos que assim o ouvem. Para alguns, tal enunciação gera um certo espanto, pois creem que aquele que assim se intitula seja alguma espécie de ser das trevas que faz pactos com demônios, assassina crianças nas horas vagas, veste um avental e conspira para, através de algum plano mirabolante, dominar o mundo. Para outros, tudo isso não passa de uma tolice e perda de tempo, e são estes também que costumeiramente nos comparam aos tipos bizarros que se apresentam em redes sociais ou programas televisivos, prometendo trazer o ser amado em 24 horas por uma boa quantia em reais, que dizem que podem provar a existência de Deus através da "física quântica", ou que falam por aí que bolores oriundos de infiltração são na verdade almas grudadas em seu banheiro. 

É mesmo uma pena que a ignorância e a falta de divulgação e pesquisa tenham criado esses tipos de conceitos sobre este caminho que sempre buscou entender o espiritual de forma racional e as razões para a nossa existência neste planeta. Quem sabe se um dia nas escolas tivessem nos ensinado que Isaac Newton fora um físico mas também um ocultista, as pessoas levassem tudo isso mais a sério. Que Platão fora um filósofo mas também um ocultista de seu tempo, as pessoas levassem tudo isso mais a sério. Que Pitágoras fora um matemático mas que provavelmente adquiriu seu conhecimento através do templo do deus Ptah, no Egito, e por isso seu nome, "Ptahgoras", as pessoas levassem tudo isso mais a sério. As personalidades históricas são várias. Os feitos, grandiosos. As conexões, inegáveis. 

Mas tudo bem que alguns não levem o ocultismo a sério. Pois ainda existem aqueles que assim o fazem.

MAGIA TRADICIONAL é um livro escrito por Kayque Girão, com 128 páginas, divididas em 3 três partes e foi publicado no ano de 2019 pela Daemon editora.

O imaginário humano. Assim nos introduz nesta obra Rafael Resende Daher, levando-nos a refletir sobre como nossa mente fora capaz de pensar os mais diversos tipos de seres fantásticos, tais como espíritos e deuses sob as mais diversas formas e personalidades, para explicar este estranho sentimento do além. Não, o editor não sugere que a imaginação seja um elemento isolado e destacado da realidade, como se tivesse a única função de preencher uma lacuna neurótica presente em nossa mentalidade, pintando em nosso imaginário o absurdo. Nem tampouco nos parece esta uma premissa ateística. Mas sugere que a imaginação seja também uma ferramenta usada por nosso cérebro para nos conectar aquela estranha sensação da existência do espiritual, que por não podermos provar, ou perfeitamente explicar, nos força a comparar e imaginar.

A partir desta premissa, o próprio avanço científico e desenvolvimento do homem em busca da verdade fora capaz de alterar a maneira como a imaginação sobre o divino deu-se no decorrer de milhares de anos, para alguns, sempre baseada sobre esta mesma certeza do além. Deus poderia até mudar de forma, ou mesmo posição, as  vezes visto de maneira verticalizada, as vezes horizontalizada, ou até mesmo negado, mas sempre presente. Da sua imaginação e função, toda uma miríade de seres, conceitos e sistemas surgiriam com a genuína intenção de compreender. Daí nasceria então a filosofia oculta.

Daher introduz a obra destacando o trabalho de pesquisa de Kayque Girão, os temas abordados pelo autor, tais como o da Astrologia, dos sonhos e das drogas, sua lucidez e fundamentos para tratar do ocultismo sem com isso ignorar sua evolução de prática e desenvolvimento de seu conhecimento. 

Girão abre o livro nos falando sobre as conexões existentes entre a Magia e a Astrologia, da importância que a última tivera para agricultores a partir da observação de correlações entre o movimento dos astros, os plantios e colheitas, estações e demais conhecimentos adquiridos e associados, fazendo com que o astrólogo, que predizia, se tornasse também o mago, que controlava, conectando ambas as funções em um só ofício. O desenvolvimento do próprio conhecimento fez com que tal ciência se tornasse cada vez mais complexa, e aparentemente inacessível para aqueles que não lhe fossem totalmente dedicados. Para além disso, elementos religiosos acabaram por mesclar-se as próprias ideias astrológicas fazendo com que tal ciência se dividisse em vários segmentos, ora alinhados com elementos mágicos e magia talismânica, ora separados e voltados para uma relação especulativa com o divino e o destino do homem. Expoentes renomados destas ideias são apresentados  de forma mais ou menos cronológica, além de elementos religio-sócio-políticos de cada local e época, que neste ensaio, visam, conforme afirmação do autor, demonstrar que a Astrologia não é tão complexa como parece, especialmente em tempos de facilidade tecnológica.

Na segunda parte do livro, Kayque nos fala sobre drogas, o uso de tais substâncias no decorrer do tempo pelas mais diversas culturas, tais como: os hindus e gregos com o vinho, os judeus e a maconha, thelemitas, tal como Crowley, e a cocaína, além de citar Abramelin e o uso de seu óleo sagrado, provavelmente adicionado a canábis, e sua experiência com uma feiticeira que dizia poder comunicar-se com outras pessoas a quilômetros de distância quando besuntada por seu unguento.
Aqui o autor expõe ainda sua experiência pessoal com o fumo, lá pelos idos de 2014/2015, quando trabalhava como médium de Umbanda, percebendo então a conexão que o mesmo estabelecia com os espíritos, alterando o espaço e as consciências com sua fumaça, além de relatar suas vivências com o chá conhecido popularmente como Ayahuasca, ou Santo Daime.

Na terceira e última parte,  Girão nos fala sobre o ato de sonhar ser intrínseco a humanidade, e portanto, pretende traçar um caminho intermediário entre os extremos do academicismo e do misticismo, de modo a auxiliar o buscador em sua senda onírica. Ressaltando que o trabalho psicológico se faz tão importante quanto o mágico neste quesito, vide que em muitos casos os sonhos tratam simplesmente de nossas vivências ordinárias, a Arte Onírica encerra a obra.

Kayque Girão nos introduz a cada um dos temas com a qualidade que há anos vem apresentando em seus textos publicados nas redes sociais. A exposição de suas ideias nestes ensaios, com seu pensamento crítico, experiência pessoal, citações de autores clássicos e modernamente já consagrados, além de bibliografia, deixam claro que o ocultismo nacional tem, sem dúvidas nenhuma, um ótimo futuro pela frente se orientado por autores e trabalhos que compartilhem deste nível de qualidade. 

por Allan Trindade


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sábado, 13 de junho de 2020

Em um tempo onde pessoas clamam pelo retorno de sistemas 
políticos e ideológicos dignos das mentes
mais atrasadas e boçais, nunca se fez tão necessário o estudo da história. Divulgar elementos do nosso passado enquanto sociedade e seres que tendem a repetir biológica e ideologicamente ações herdadas de nossos genitores, torna-se elemento fundamental  para tentar  evitar que aqueles mais suscetíveis aos discursos inflamados dos fanáticos e idólatras, não sejam infectados por suas falácias de "nos dias de hoje" ou "na minha época não era assim", induzindo-os a falsa ideia de que somos, enquanto seres humanos, absolutamente diferentes de nossos antepassados. 

Não há dúvidas, as coisas mudam. Porém, mudanças tecnológicas tendem a ser muito mais rápidas e eficientes que mudanças fisiológicas. Se podemos dizer que nos últimos 100 anos a humanidade alcançou avanços científicos nunca antes vistos em nossa história, biologicamente mudamos pouco ou quase nada em relação a nossos ancestrais de 4.000 anos atrás. 

Se podemos afirmar que o apaixonado grego ao trovar seus versos expunha e imortalizava seu amor através de suas palavras, atravessando as barreiras do tempo e encontrando correspondência no coração dos amantes dos dias de hoje, o mesmo pode se dizer daquelas também palavras milenares que propagavam o ódio contra o diferente, continuamente sendo reproduzidas através da boca de alguns cristãos, ideólogos políticos e relacionados até a presente data. 

Tal como o amor, o ódio não é uma exclusividade dos nossos tempos. Mas o despertar de flagrantes manifestações de burrice e ignorância frente a facilidade de acesso ao conhecimento tal como nunca antes vista, parece ser mesmo um fenômeno inédito e característico desta era.

Se antes poderíamos dizer que as pessoas tomavam determinadas atitudes por serem analfabetas ou não terem acesso ao conhecimento, qual será a desculpa para, nos dias de hoje, ainda existirem indivíduos que pensam e agem como neandertais, sedentos por discriminar, agredir ou matar o outro apenas por ser diferente?

LIBER QUEER é um livro escrito pelos membros do Círculo da Viada Chama Púrpura, com 213 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2019 de maneira independente.

Acredite, a homossexualidade sempre existiu em meio a humanidade. É um fenômeno tão comum quanto qualquer outro, encontrado inclusive em meio ao comportamento de animais não humanos. Você provavelmente já deve ter visto dois cachorros machos tentando fazer sexo entre si. Ou mesmo duas cadelas. Assim como os golfinhos que em sua adolescência ensaiam o sexo antes de reproduzirem com as fêmeas. Ter consciência disto não implica que você precisa fazer o mesmo. Nem tampouco que você tem o direito de impedir o outro. É simples, não?

Nada incomum. Nada anormal. Tudo devidamente evidenciado pela ciência e registrado  na história. E se por um lado temos algumas religiões que tentaram e tentam criminalizar tal comportamento, toda uma série de outros sistemas místicos sempre trataram tal fenômeno tal como ele é: uma parte intrínseca da existência humana. E para apontar tais fatos que o Círculo da Viada Chama Púrpura reuniu uma série de indivíduos LGBTQI+, para falar não apenas como membros desta comunidade, mas como graduados academicamente, e portanto, qualificados cientificamente para participarem da produção desta obra.

O objetivo aqui pode ser dividido em três aspectos:

Primeiramente objetiva apropriar-se do termo e ideal queer, traduzir e correspondê-lo a palavra que mais se aproxime do mesmo sentido em seu original. Queer em inglês representa tudo aquilo que é excêntrico, marginal, exótico, bizarro e sexualmente reprovável. Perceba que aqui dizemos que não se trata de ser excêntrico OU marginal, exótico OU bizarro, mas tudo isso amalgamado num só conceito. Isto é o queer. Refletindo sobre qual palavra em nossa língua mais se aproximaria daquela, concluíram então que 'viado' seria o mais adequada para tal, visto que tal como seus co-semelhantes estrangeiros, a apropriação do xingamento representa também uma atitude política de empoderamento frente ao constante processo de naturalização da discriminação e assassinato de homossexuais e relacionados. Tal atitude poderia ser traduzida como: " Sou viado mesmo, e daí?! ";

Em segundo lugar o livro visa elencar os elementos históricos que apresentam indivíduos LGBTQI+ sob as mais diferentes funções religiosas e correlações divinas, apresentando uma série de estudos onde tais pessoas eram não apenas conhecidas e aceitas dentro das sociedades antigas, como também e em muitos casos, adoradas como divindades encarnadas vide sua excentricidade frente a dicotomia do gênero estabelecido, a saber homem e mulher, transcendendo tal dualidade. Ou mesmo no campo da sexualidade onde homens poderiam ser adorados por outros homens com intenções místicas e sexuais, de tal modo que cidades e religiões inteiras foram criadas para este propósito. Aqui tratam ainda daqueles seres espirituais, deuses e deusas que foram capazes de mudar suas formas e sexualidade apenas pela possibilidade de contato com outros seres divinos ou mesmo seres humanos;

Como um terceiro e último elemento, a edição nos apresenta uma série de rituais, listas de correspondências, instruções para altares e até mesmo sigilos e pantáculos voltados para o fortalecimento e proteção do público LGBTQI+.

Liber Queer pode ser visto como uma espécie de manifesto. Tal publicação não tem uma intenção puramente literária, mas social e política. Tal como o queer, agrega tudo, discrimina nada. Visa preencher a lacuna sentida por muitos membros de tal comunidade que nunca puderem se ver representados nas modernas publicações religiosas ou ocultistas, sendo também e sempre relegados ao campo da indiferença, negação ou rejeição. Aqui, gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e todo o conjunto de indivíduos pertencentes a este universo contribuem, cada um a sua maneira, com um pouco de sua vivência e sugestão para que todos possam encontrar também na magia um pouco de amor e muito mais de paz.

" tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes!" - AL I:51

por Allan Trindade


sábado, 25 de abril de 2020

Se você alguma vez já se deparou com algum texto relacionado a Thelema, você também provavelmente já encontrou por aí alguns livros desta religião escritos por Aleister Crowley. E se procurou um pouco mais, deve ter percebido também que há anos estes livros encontram-se disponíveis gratuitamente na internet, tanto em sua versão original em inglês, quanto em traduções brasileiras. Mas eis que de uns anos pra cá, começaram a surgir diferentes edições impressas destes mesmos livros a venda por diversas editoras. Uma questão então deve surgir a mente de muitos neste momento: por que pagar por um livro que reúna livros que já tenho ou posso ter de graça? Para responder a esta pergunta é preciso entender um pouco do contexto nacional de Thelema.

OS LIVROS SAGRADOS DE THELEMA é um livro escrito por Aleister Crowley, com 256 páginas, divididas em 17 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Madras editora.

Foi no início do século XX quando Crowley começou a receber os primeiros livros daquela religião, que doravante seria conhecida como Thelema, através de um mensageiro dos deuses que o elegeram o profeta desta nova doutrina. Embora tenha resistido a ideia e até mesmo rejeitado por um momento o mais importante destes recebimentos, o Livro da Lei, o passar dos anos o convenceram de que esta era inegavelmente sua função, e assim, dedicou toda sua vida e fortuna para esta grande obra. Os 14 livros sagrados então se desdobrariam em outras dezenas, que tratariam de rituais, teorias, organização da Ordem que fundara, e tudo o mais relacionado aquele contexto. Em 1° de dezembro de 1947, Crowley partiu para ter sua Grande Festa.

A partir daquela data a propriedade intelectual da Besta - como o mesmo também se autodenominava - passaria então para uma organização que fora inteiramente reformulada por ele, a Ordo Templi Orientis, ou simplesmente OTO. Para os falantes de língua inglesa, e neste contexto, a questão dos direitos autorais tem menor importância se levarmos em consideração que a única coisa que terão de diferente entre uma edição e outra será a capa e, quem sabe, algumas notas de rodapé. Porém esta questão torna-se de suma importância quando tratamos de traduções.

Para todos os países signatários da Convenção de Berna, há de se esperar 70 anos a partir da morte do autor de uma obra para que a mesma caia em domínio público. Se até 2017 qualquer tradução brasileira necessitava da autorização da Ordem citada, a partir de 2018 todos poderiam então trabalhar nestas publicações de modo a traduzi-las conforme seus próprios entendimentos e gostos. E foi assim que vimos o lançamento quase simultâneo de algumas obras onde o interesse do público passava a ser não apenas o texto em si e seu "autor", mas quem o publicava e principalmente, quem o traduzira.

Vitor Cei é o presente tradutor desta publicação que reúne os 14 libri sagrados de Thelema. Em seu prefácio nos apresenta uma pequena biografia sobre a vida de Aleister Crowley, sua relação com Thelema e a visão de mundo presente nesta doutrina, além dos desafios de ter abraçado esta tarefa de tradução. Cei introduz cada uma das obras com um pequeno resumo de seu conteúdo e data de recebimento pelo profeta. Inicia todo o conjunto a partir do Liber LXI Vel Causae, um livro de Classe D, usado para fundamentar a origem da Ordem da A.' .A.'., para em seguida nos apresentar enfim os textos de Classe A. E são eles:

  • Liber B vel Magi sub figura I
  • Liber Liberi vel Lapidis Lazuli, Adumbratio Kaballae Aegyptiorum sub figura VII
  • Liber Porta Lucis sub figura X
  • Liber Trigrammaton sub figura XXVII
  • Liber Cordis Cincti Serpente sub figura LXV
  • Liber Estellae Rubeaesub figura LXVI
  • Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus sub figura XC
  • Liber Cheth vel Vallum Abiegni sub figura CLVI
  • Liber AL vel Legis sub figura CCXX 
  • Liber AL  sub figura XXXI
  • Liber Arcanorum sub figura CCXXXI
  • Liber A'Ash vel Capricorni sub figura CCCLXX
  • Liber Tau vel Kaballae sub figura CD
  • Liber vel Ararita sub figura DLXX


Finalizando então esta edição com uma tradução do Liber LXXVII, ou Liber Oz, um livro não classificado, lançado como um manifesto para a garantia da liberdade e Direitos Humanos na presente era de Heru-Paar-Kraat.

Victor Cei executou um trabalho excepcional nesta obra, não apenas pelo respeito e proximidade com o texto fonte, mas também pela escolha minuciosa das palavras de modo que sua tradução pode soar quase tão poética e sensível quanto os originais. O trabalho é ainda enriquecido por seus comentários, que sem dúvidas tornam esta edição uma das mais primorosas desta nova leva de traduções destes textos sagrados. Se sucesso é tua prova, caro escriba, ele sem dúvidas também se confirma aqui.

por Allan Trindade

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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Em pleno século XXI, homens e mulheres renascem sedentos pelos poderes obscuros. Por mais que
os profetas de diversas crenças ‘tocassem suas trombetas’ anunciando o retorno desses espíritos inconformados e rebeldes, não conseguiram findar a sede de vingança da matilha renascida. Se assassinaram nossos antepassados das formas mais cruéis e irracionais, hoje devem nos respeitar e até nos temer, por nada mais funciona segundo as leis hipócritas dos velhos códigos da ‘Santa Inquisição’. Somos o povo da noite, escolhidos pela vitória e portamos as fagulhas dos Deuses ‘esquecidos’. Quem escolhe esse caminho sabe que em sua cabeça pode brilhar uma coroa, com a mesma luz emitida pela maravilhosa ‘Estrela Matutina’. ...

Sejam bem vindos a um dos afluentes de Hades, as velas do santuário de Ahndrus, aos cumes dos vulcões adormecidos e aos tornados em formação. Apreciem as melodias de cura e doença, de vida e morte, de amor e ódio e de deuses e demônios. pg 11/13

TEMPLO DE AHNDRUS é um livro escrito por Danilo Coppini, com 167 páginas divididas em 6 capítulos e foi publicado no ano de 2010 pela Madras editora.

Magia. Esta palavra conhecida por todos que costuma gerar reações no mínimo ambíguas quando proferida. Sinônimo de prestidigitação, truque e enganação para alguns, e de poder e fascínio  para tantos outros, são estes últimos aqueles que costumam tomá-la com o devido respeito que a mesma merece. Respeito esse que nada tem a ver com uma visão supersticiosa - quando devidamente compreendida –, mas que se relaciona a certeza de que através dela, o bruxo ou magista tem a capacidade de alterar, modificar e transformar aquilo que deseja.

A magia, quando vista sob este viés, nem mesmo precisa ser acreditada como uma manifestação espiritual, visto que em tempos modernos muitos são aqueles que atribuem à mesma um caráter puramente psicológico, embora isso também não signifique que através de seu toque indivíduos possam alcançar as escadas da autoconsciência, e consequentemente do sucesso, ou da completa loucura, e a derrota absoluta. Um caminho de mão dupla? No mínimo.

Já em sua introdução, o autor salienta que embora sejam muitos aqueles que se erguem em pleno século XXI demonstrando interesse por estes conhecimentos malditos, coragem, responsabilidade e autocontrole são essenciais para descer as escadas da escuridão.

Muitos são os livros que tratam o tema sob seu aspecto filosófico e teórico. Mas este não é o caso aqui. Em Templo de Ahndrus, Coppini nos apresenta um livro introdutório, pensado para os iniciantes que não apenas tem interesse pela parte prática da magia, mas especificamente por seu lado esquerdo, o lado obscuro desta Arte, o caminho da Magia Negra. 

Renascer é o objetivo de qualquer prática magística, quebrar os grilhões, rasgar véus de séculos de imposições religiosas e proporcionar 'vida' aos desejos. O homem é o dono do seu destino, guardião da sua eternidade e manipulador das Leis da Natureza (visto que são imutáveis). A Arte Negra é a liberdade de manipular, jogar, prorrogar e vencer todos os obstáculos cotidianos. Somos, antes de tudo, buscadores da liberdade na dança das reencarnações.  pg.11

Dividido em três partes, Templo de Ahndrus começa tratando das Armas e materiais a serem usados dentro das cerimônias mágicas. As condições ideais para as consagrações e o modus operandi são apresentados antes de cada um dos elementos. Tabelas de correspondências, listas de ervas, e o uso do athame, bastão, espada, espelho, taça, sino, óleos e pantáculo, dentre diversos outros itens e elementos tradicionais da Magia Cerimonial.

Em sua segunda parte, destinada aos feitiços, o autor salienta que feitiços são ações mágicas direcionadas a objetivos específicos, frutos de desejos pessoais e praticados para o cumprimento dos mesmos. Aqui não existe certo ou errado, e pecado, sem dúvidas, são os outros. Ideias como "Lei do Retorno", "Tríplice" ou similares são conceitos vulgares, e segundo sua concepção, as Artes Negras estão acima disso. A regra é a própria consciência individual. Se você está em paz com seu intento, não há o que temer. A união do seu desejo ao feitiço são provas da sua pureza de intenção, sendo assim, o resultado esperado é simplesmente justo. Com o auxílio da Lua, e suas posições no céu, o momento mais propício para esta ou aquela forma de magia é indicado. Os tipos dividem-se em feitiços para atração, dinheiro, sedução, dominação, amarração, poder, dentre outros.

Por fim, Danilo nos apresenta capítulos destinados a tratar da importância dos números dentro da tradição mágica, e a necessidade de conhecer bem seus significados. Ensina a maneira de produzir círculos mágicos, destacando sua importante função de proteção e projeção das energias que se opera, circundando o magista com os nomes de Lúcifer, Satã, Leviatã e Belial. E finaliza tratando dos Reis e Rainhas da Mão Esquerda, sua descrição, refeições e bebidas preferidas de Abadoon, Beelzebuth, Hecate, Leviatã, Lilith, Mammon, dentre outros.

Este livro cumpre aquilo que promete: é introdutório e essencialmente prático. Possui uma linha de pensamento própria, embora todos os elementos tradicionais sejam encontrados em sua estrutura. Destina-se aqueles que buscam o caminho da magia negra, embora isso não necessariamente represente sempre fazer o mal para outrem. Especialmente se levarmos em consideração que aquilo que é mal para uns, pode ser bem para outros...

por Allan Trindade


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segunda-feira, 9 de março de 2020


Asa de morcego. Olho de boi. Pelo de búfalo. Uma pitada de veneno de escorpião. E uma criança que seja filha de um anão. 

Misturar todos os ingredientes em um caldeirão fervente. Sob a luz da lua cheia numa noite quente. Evocar os diabos de chifre de corte e beijar a bunda preta de um bode.

THE SATANIC RITUALS é um livro escrito por Anton Szandor LaVey, com 220 páginas, divididas em 11 capítulos e foi publicado no ano de 1972 pela Avon Books.

Não, este ritual não existe. Eu acabei de inventá-lo. E apesar de tê-lo criado neste momento, rituais como este preenchem os livros de contos infantis e testemunhos de vítimas da santa inquisição católica, que sob as mais diversas formas de tortura, inventavam coisas deste tipo para se livrarem o mais rápido possível da dor e tormento extremo a que eram expostos sob a acusação de bruxaria e satanismo. Se podemos afirmar que a humanidade possui facilidade para a criatividade, o que dizer sobre nossa disposição para a insanidade?

Insanidade esta que pouco ou nenhuma relação tem com a realidade. Insanidade esta que sob a justificativa de vingar o sacrifício fictício de fetos em rituais sabáticos, matou mais pessoas inocentes que nenhum satanista jamais foi capaz. Ao menos não os satanistas de Lavey, seguidores deste homem que deixa claro nas linhas de seu livro sagrado, chamado de A Bíblia Satânica, que o sacrifício de animais e crianças não faz parte das práticas satanistas vide a pureza contida nestes seres. E se podemos garantir que a Bíblia Satânica não autoriza o assassinato de crianças, fato é que não podemos dizer o mesmo da Bíblia Sagrada, aquela dos cristãos, onde o deus de israel não apenas sacrifica seu próprio filho, como autoriza o extermínio dos pequenos como visto nas passagens que contam as histórias de Eliseu, Êxodo, dentre outras. Ao que parece o infanticídio suja mais o dedo histórico daqueles que acusam, do que daqueles que são acusados. Que mundo irônico este em que vivemos, não?!

Mas tudo bem, comparar as Bíblias deve ser uma artimanha de satanás que está me fazendo pecar e desviar do caminho que é falar sobre um outro livro, aquele que foi escrito como um complemento para a Bíblia Satânica, o livro chamado Os Rituais Satânicos.

Sim, este livro é um complemento, logo, caso você não tenha lido a Bíblia Satânica, é melhor que o faça antes. Embora Lavey comece este título de uma forma bem semelhante a sua primeira publicação, mais uma vez ressaltando que o Diabo vem sendo usado de forma irrestrita pelos mais diversos tipos de abraâmicos, sempre com o intuito de acusar seus opositores ideológicos de serem seus seguidores, ou ainda sobre a passividade das modernas escolas de bruxaria que se esquivam a todo custo de qualquer acusação de que seus rituais, ou mesmo seu deus cornudo, tenham qualquer relação com satanismo, as semelhanças se encerram aí, visto que esta publicação não é filosófica ou ideológica, mas essencialmente prática. 

Lavey considera que a fantasia desempenha um papel importante em qualquer religião e que os rituais satânicos são usados não para escravizar o praticante com fantasias sobre espiritualidade, mas para que o adepto entre num estado alterado de consciência, de maneira que possa manipular de forma livre suas crenças e emoções, e assim alcançar seus próprios objetivos. Partindo do princípio de que é através da tensão que as mudanças são produzidas, concebe que a magia reproduz o movimento de retração e expansão do universo. Portanto, o praticante puxa para si aquilo que deseja e empurra de si aquilo que não quer mais, sempre motivado pela intensidade das situações. A ação mágica aqui leva em consideração o magista em si, sua energia e da vítima, e que os efeitos, em geral, afetam muito mais a psique e vontade, que um dano físico direto. É importante notar que não há a crença da interferência de espíritos ou deuses e que a energia dos envolvidos é direcionada para alterar o estado mental da vítima, de modo que ela produza as alterações físicas desejadas sobre si mesma. Se for para o bem, que ela tenha forças para conquistar, se for o mal, que ela se boicote e se destrua.

Os rituais apresentados são classificados em dois tipos: ritos para fins específicos ou cerimônias e celebrações festivas. O livro apresenta o contexto histórico do rito e em seguida, a forma de realizá-lo. Homens e mulheres podem desempenhar as mesmas funções, desde que as polaridades sejam analisadas e combinadas de modo prévio, e destaca o mesmo para grupos homossexuais.
Todos os rituais são pensados como peças de um teatro, onde atores e plateia participam ativamente, com roteiro e emoção, de modo que o grand finale seja proveitoso para todos. Portanto é importante estar conscientemente ali, querer estar ali e saber por que está ali: qualidade é mais importante que quantidade! E que o oficiante saiba distinguir os mais adequados. 

Sobre suas origens, alega que são de influência esotérica advindas predominantemente da Alemanha e França, vide a riqueza do drama satânico produzido por esses países. Lembremo-nos que muitas dos contos infantis ou mesmo infanto-juvenis da Europa tinham contextos e finais dignos de filmes de terror, mas que muitos foram alterados ao caírem nas mãos de Walt Disney. As versões que conhecemos sempre tem um final feliz, mas a realidade dos livros é bem outra...

A sequência de rituais são:

THE ORIGINAL PSYCHODRAMA 
Le Messe Noir

L'AIR EPAIS
The Cerimony of the Stifling Air

THE SEVENTH SATANIC STATEMENT 
Das Tierdrama

THE LAW OF THE TRAPEZOID 
Die Elektrischen Vorspiele

NIGHT ON BALD MOUNTAIN 
Homage to Tchort

PILGRIMS OF THE AGE OF FIRE 
The Statement of Shaitan

THE METAPHYSICS OF LOVECRAFT 
The Cerimony of the Nine Angles and The Call to Cthulhu

THE SATANIC BAPTISMS 
Adult Rite and Children's Cerimony

THE UNKNOWN KNOWN


Sentimos decepcionar o leitor que tivesse a esperança de encontrar neste livro fórmulas contendo sacrifícios de animais ou crianças. Não, eles não fazem parte desta obra. Todos estes rituais transcendem a prática e são interessantes não apenas pela contextualização histórica, mas também pela ideia que apresentam, sempre focados num fundamento subversivo. Neste complemento à Bíblia Satânica, Lavey nos convida a não mais pensar Satã como o outro, como aquele que não gostamos, como símbolo de nossas desavenças, mas a incorporarmos Satã em nós mesmos visto que para nossos opositores nós já somos ele. A proposta de antes era ideológica, a proposta aqui é prática, o objetivo da literatura de Lavey é fazer de todas esses ingredientes a receita para a sua vida, com boas pitadas daqueles temperos especiais que sempre dão gosto as suas obras: a ironia e o deboche.


por Allan Trindade


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quinta-feira, 20 de junho de 2019


Embora a popularidade de Aleister pareça indicar o contrário, Crowley era essencialmente um intelectual. Educado em teologia cristã e profundo conhecedor da Bíblia, além de diversos outros assuntos, sendo também um qualificado alpinista e exímio jogador de xadrez, aproveitou-se de sua criação e herança milionária para dedicar toda sua vida ao desenvolvimento de seu intelecto, sua arte e principalmente, sua espiritualidade. Mesmo que muitos possam contestar isso, fato é que a obra e vida de Crowley, quando observadas de perto e sob uma perspectiva desprovida de preconceitos, parecem mesmo serem únicas para os padrões que até então se tinham dentro do universo do ocultismo do século XIX. 

Entretanto, o caráter deste livro não é aquele de mais uma vez tentar explorar as vivências e peripécias praticadas por este inglês tão costumeiramente difamado, mas de apresentar e buscar entender o resultado mágico delas.

A MAGIA DE ALEISTER CROWLEY é um livro escrito por Lon Milo Duquette, com 255 páginas, divididas em 13 capítulos e publicado no ano de 2007 pela editora Madras.

Crowley nos legou um conjunto que contém em si um sistema de práticas mágicas herdadas da Ordem Hermética da Aurora Dourada, adaptadas e aprimoradas a sua maneira de acordo com suas perspectivas, baseadas em sua crença da chegada de uma nova era e uma nova religião para a humanidade, conhecida como Thelema. A partir disso, criou uma série de outros rituais próprios para serem praticados por seus adeptos de modo que pudessem cumprir suas próprias vontades mágicas e espirituais, de maneira alinhada com as influências destes novos tempos, em uma nova Ordem a qual denominaria A.’. A.’. . 

Porém, o que parece muito atraente num primeiro momento, pode ser um tanto decepcionante num segundo. Isso porque, tal como destacado por nós em parágrafo anterior, toda a erudição de Crowley talvez tenha o feito esquecer-se que 'pessoas comuns' podem não possuir tempo, dinheiro, ou mesmo condições intelectuais de entender toda a gama de referências, relações e correlações a sistemas, mitologias, artes e religiões contidas em seus escritos. O mesmo pode se dizer especificamente sobre muitos de seus rituais. E a falta de textos próprios e introdutórios podem fazer o interessado pensar que Thelema é complexa demais para a vida cotidiana. Sendo assim, nada mais justo que um livro para tentar sanar este problema.

Em seu prefácio, Hymeneaus Beta fala sobre esta obra de Duquette servir como uma introdução para aqueles que podem não ter o conhecimento necessário para entender as especificidades  da obra de Crowley, não sem antes salientar que parte do que é apresentado aqui encontra-se também no campo da interpretação pessoal do autor, e que portanto, não deve ser encarado de forma dogmática. Em seguida, Lon nos fala sobre esta ser uma edição revisada e ampliada da primeira edição de 1993 e até se propõe a tocar no assunto sobre as calúnias e difamações propagadas contra Crowley, até os dias de hoje, antes de introduzir seus comentários sobre seus rituais. Aqui ele trata sobre o conceito da vontade entendido através da perspectiva thelêmica, como aquela vontade divina distinta da vontade comum. Sobre as diferentes eras astrológicas e os aeons de Ísis, Osíris e o atual, de Hórus. Do recebimento do Livro da Lei como uma confirmação de Crowley como o profeta da nova era. Para finalmente apresentar os libri de classe D, que contém os rituais e instruções oficiais da A.’. A.’. .

Duquette então nos apresenta os Rituais do Pentagrama, como por exemplo, mas não apenas, o Ritual Menor de Banimento do Pentagrama; os Rituais do Hexagrama, como o Ritual Menor do Hexagrama; os rituais de Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, como em Liber Samekh; os Ritos Solares, como a Missa da Fênix; do misticismo thelêmico, como em Liber Nu e ainda sobre os Ritos Elêusis, tal como praticados por membros da OTO desde a década de 70. Todos esses capítulos são organizados conforme comentários pessoais do autor seguidos pela apresentação do próprio liber em si. A conclusão do livro trata sobre Ordens thelêmicas e tece comentários específicos sobre esta religião, finalizando com o Liber XV, a Missa Gnóstica, rito central da Ordo Templi Orientis.

Uma breve busca por vídeos sobre rituais da Aurora Dourada ou mesmo da A.’. A.’. na internet sempre nos impressiona pela quantidade e, não raro,  pelos absurdos. A abertura de todos os documentos da Santa Ordem parece ter tido um efeito duplo: facilitou o acesso de novos aspirantes, porém, deu a oportunidade para que indivíduos nem sempre comprometidos com a honestidade, se aproveitassem da fama de muitos rituais para adaptá-los a suas próprias maneiras, e propagá-los como sendo genuínos. Perceba que não queremos dizer com isso que há qualquer tipo de proibição para adaptações pessoais, mas, que adaptações pessoais devem ser frisadas como adaptações pessoais.

Embora muitos thelemitas torçam o nariz para explicações públicas sobre os rituais da A.’. A.’., e o próprio Crowley tenha demostrado não gostar da ideia como exposto, por exemplo, em The Book of Lies, pensamos que livros como A Magia de Aleister Crowley, organizado e apresentado de forma honesta, distinguindo de forma clara opinião de escrito original, tem uma legítima função de existir.

por Allan Trindade

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