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sábado, 22 de maio de 2021

Você sabe o que é Astrologia? É com esta pergunta que Anne inicia seu livro, questionando até que ponto os detratores deste conhecimento antigo de fato dominam suas especificidades para tecerem críticas minimante aceitáveis sobre esta ciência. É fato, nenhuma forma de conhecimento está isenta de críticas ou mesmo erros, e com a Astrologia não haveria de ser diferente, porém, devemos levar em consideração um ponto importante destacado pela autora: a Astrologia faz parte do contexto da humanidade há no mínimo 4.000 anos. Ora, será mesmo que um conhecimento tão antigo, praticado até os dias de hoje, poderia ser mesmo tão inútil, ou reduzido a um simples texto exposto em um jornal qualquer com meia dúzia de sugestões sobre seu signo ?

INTRODUÇÃO À ASTROLOGIA é um livro escrito por Anne Barbault, contém 297 páginas divididas em 13 capítulos e foi publicado no ano de 1987 pela editora Nova Fronteira.


Barbault não foge a luta e após introduzir a obra com uma série explicações sobre signos, planetas e seus significados, as doutrinas astrológicas, divididas aqui em duas basicamente: aquela que considera a influência dos astros sobre os seres, e aquela que apenas marca a sincronicidade de eventos, além de uma rápida - e nem tão entendível assim para leigos -explanação  sobre mapas astrais, destina sua obra a explicar para os críticos no que erram em seus argumentos ao acusarem a Astrologia de ser um mero corpo de conhecimentos supersticiosos e ilógicos.

Ela assim esclarece: a Astrologia não fora praticada apenas por indivíduos considerados ignorantes, que outrora acreditaram na existência de deuses e influências planetárias. Da Babilônia ao Egito, da China a Europa, da Índia até a América, por todos os continentes tal conhecimento fora praticado e estudado, de Tertuliano a Agostinho, Tomás de Aquino a Nostradamus, Dante a Shakespeare, Fernando Pessoa, Copérnico, Kepler, Plotino, Paracelso, Galileu, Newton e Giordano Bruno, nomes célebres, de grande importância e influencia para os diversos campos do conhecimento e da ciência humana, que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos com esta forma do saber. Seriam estes homens tão sábios para desvendar os grandes mistérios da vida e do universo, e ao mesmo tempo tão toscos a ponto de não perceberem a ineficácia da Astrologia? Absurdo nos parece aqueles que creem nisso.

Longe de nós parecer com isto estarmos nos utilizando de qualquer tipo de falácia de apelo a autoridade, porém faz-se necessário expor aqui o conceito, embora os objetivos e forma desta resenha nos impeçam de aprofundar os detalhes apresentados pela autora ao citar tais indivíduos.

São vários os mapas comparativos de personalidades e eventos, de casos específicos de gêmeos que apresentam comportamentos e escolhas iguais mesmo quando separados na infância, de pessoas que tendo nascido com uma conjuntura astral específica tiveram destinos muito semelhantes, e uma série de outros exemplos que de fato nos fazem pensar sobre a real validade da Astrologia.

Você pode pensar que por mais que a autora apresente uma série de exemplos em forma de mapas, este quantitativo jamais abarcará um número realmente grande de análises comparativas para que se classifique a Astrologia como ciência. Caso pense assim, você está certo. Porém, segundo Anne, a Astrologia não pleiteia para si o posto de ciência conforme os 'métodos cartesianos' empregados pelas outras formas de conhecimento humano. Para a autora, tal como a Psicologia, que é aceita como ciência por grande parte daqueles que dela fazem uso, a Astrologia também assim deveria ser vista, pois tal como a Psicologia, também se utiliza de símbolos e métodos comparativos para indicar tendências futuras e comportamentos passados, cada qual, obviamente, a sua maneira.

Sendo, portanto, a Astrologia uma forma de conhecimento simbólico, de caráter associativo e psicológico, que não apregoa necessariamente que Planetas ou Signos influenciem o comportamento de pessoas de um jeito físico, metafísico ou espiritual, mas que pelo contrário, marca tendências que foram comparativamente registradas durante todos estes milhares de anos de existência, não fazendo sentido desta forma acusá-la de algo que esta forma de conhecimento não promete.

Entretanto, Barbault deixa claro que sim, existem astrólogos que creem em fatalismos, em influências planetárias, confecções de talismãs, poder de pedras e plantas, e coisas do tipo, mas segundo sua perspectiva, estes representam um tipo específico de astrólogos, e não podem ser usados como referência para definir o que seja a Astrologia como um todo, que poderia ser vista como uma forma de "psicologia dos astros", por assim dizer.

Diferentemente da maioria dos livros introdutórios sobre o tema, que mais se ocupam em dar explicações sobre signos, planetas e mapas, em Introdução à Astrologia você conhecerá igualmente a opinião de críticos das mais diversas áreas em contrapartida as opiniões de uma astróloga vivida e experiente com esta forma do saber humano. Bastante interessante.


por Allan Trindade

 



domingo, 28 de março de 2021

Otiot é uma palavra hebraica que significa "letras" (ot, no singular). Nada além disso. De acordo com a tradição cabalística, foi através da permutação das otiot que Hashem criou tudo que existe.

Mesmo a escolha da letra Beit para dar início à Criação foi uma decisão minuciosamente calculada, quando todas
as demais se apresentaram para cumprir esse papel e foram recusadas com argumentos que fundamentavam cada decisão.


OTIOT é um oráculo criado por Marcelo Bueno, contém 22 cartas e foi publicado no ano de 2018 pela Daemon editora.

E é assim que Marcelo Bueno começa descrevendo em seu manual as razões para a criação deste oráculo que se utiliza das 22 letras do alfabeto hebraico. Manual este que, embora não acompanhe o deck, pode ser adquirido através do contato direto com o autor ou seu site.

Bueno deixa claro que o uso de oráculos não é uma prática aprovada pela Lei judaica, conforme expresso em Deuteronômios 18 : 9 -13 mas que entende que homens de grande desenvolvimento espiritual são capazes de ler tais letras em tudo, visto serem elas, segundo a perspectiva judaico-cabalística, as formadoras de todas as coisas que existem e as palavras os códigos da criação. 

Gematria, notariqon, cálculos, transposições, são apenas alguns dos diversos meios utilizados por cabalistas para descobrir a real natureza das coisas e os oráculos são, em sua opinião, meios para se trabalhar tanto aspectos premonitórios (quando usados para prever eventos futuros) ou divinatórios ( destinados ao auto conhecimento e evolução espiritual). Mas destaca que seus usos não devem servir como muletas que tornem seus praticantes dependentes de suas predições, mas que os resultados devem servir como orientadores, conselheiros sobre aquilo que seja mais viável de ser feito, mantendo sempre em mente que o destino não está traçado, que o livre arbítrio é regra, e que as coisas podem sempre mudar. 

Outro elemento presente nos fundamentos cabalísticos e apresentado pelo autor é a Árvore da Vida. Aqui Marcelo diz que a Árvore é usada para representar os fluxos da criação, e que decidiu por usar o diagrama luriânico da Árvore para correlacionar seu oráculo. Para além disso, traz as associações existentes entre o Tarô e as letras hebraicas, as diferenças entre as Escolas ocultistas da Inglaterra e da França nestas correspondências, deixando claro que tais preferências sobre este ou aquele sistema são de cunho pessoal e nada interferem no uso deste deck. 

Cada carta possui letra, nome, seu valor numérico, posição na Árvore da Vida,  e correlações outras como dias da semana e datas, signos e planetas astrológicos, significado oracular e correspondência com as partes do corpo. Elementos próprios para serem usados e interpretados durante a leitura de acordo com a natureza das perguntas.

Segundo Bueno, qualquer método de disposição das cartas usado no Tarô ou mesmo em outros tipos de oráculo podem ser adaptados para o uso deste baralho, mas traz como exemplo o método de cruz, na qual cinco cartas são dispostas neste formato onde cada casa representa uma sephirah da Árvore da Vida.

Otiot tem cartas de ótima qualidade para o jogo, que podem ser embaralhadas sem dificuldades e possuem tamanho padrão de cartas de tarô. Tem uma aparência com cores agradáveis que transitam do amarelo claro a vários tons de azul e verde dando uma ótima impressão gráfica no resultado. Serve tanto para aqueles que queiram usar o deck como método oracular ou ainda para aqueles que queiram memorizar o significado de cada uma das letras do alfabeto hebraico e meditar sobre suas diversas associações cabalísticas. 

por Allan Trindade


Gostou? Para adquirir OTIOT, acesse:
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domingo, 21 de junho de 2020

Os tempos modernos e a facilidade de acesso ao conhecimento parecem ter dado ao estudo do ocultismo um desenvolvimento nunca antes visto em sua história. Se imaginarmos as dificuldades que aqueles que vieram antes de nós provavelmente tiveram para fazerem suas investigações, sem acesso a internet ou mesmo bibliotecas físicas e virtuais, poderemos ter uma noção do esforço que fizeram para chegar aonde chegaram. E talvez isso também explique o porque de muitos destes terem se destacado não apenas neste campo do conhecimento mas em muitos outros, igualmente, ou quem sabe, ainda mais importantes para o desenvolvimento da humanidade. 

Nos dias de hoje declarar-se ocultista costuma gerar dois tipos de reações que em muitos casos estão relacionadas as próprias posturas e convicções dos indivíduos que assim o ouvem. Para alguns, tal enunciação gera um certo espanto, pois creem que aquele que assim se intitula seja alguma espécie de ser das trevas que faz pactos com demônios, assassina crianças nas horas vagas, veste um avental e conspira para, através de algum plano mirabolante, dominar o mundo. Para outros, tudo isso não passa de uma tolice e perda de tempo, e são estes também que costumeiramente nos comparam aos tipos bizarros que se apresentam em redes sociais ou programas televisivos, prometendo trazer o ser amado em 24 horas por uma boa quantia em reais, que dizem que podem provar a existência de Deus através da "física quântica", ou que falam por aí que bolores oriundos de infiltração são na verdade almas grudadas em seu banheiro. 

É mesmo uma pena que a ignorância e a falta de divulgação e pesquisa tenham criado esses tipos de conceitos sobre este caminho que sempre buscou entender o espiritual de forma racional e as razões para a nossa existência neste planeta. Quem sabe se um dia nas escolas tivessem nos ensinado que Isaac Newton fora um físico mas também um ocultista, as pessoas levassem tudo isso mais a sério. Que Platão fora um filósofo mas também um ocultista de seu tempo, as pessoas levassem tudo isso mais a sério. Que Pitágoras fora um matemático mas que provavelmente adquiriu seu conhecimento através do templo do deus Ptah, no Egito, e por isso seu nome, "Ptahgoras", as pessoas levassem tudo isso mais a sério. As personalidades históricas são várias. Os feitos, grandiosos. As conexões, inegáveis. 

Mas tudo bem que alguns não levem o ocultismo a sério. Pois ainda existem aqueles que assim o fazem.

MAGIA TRADICIONAL é um livro escrito por Kayque Girão, com 128 páginas, divididas em 3 três partes e foi publicado no ano de 2019 pela Daemon editora.

O imaginário humano. Assim nos introduz nesta obra Rafael Resende Daher, levando-nos a refletir sobre como nossa mente fora capaz de pensar os mais diversos tipos de seres fantásticos, tais como espíritos e deuses sob as mais diversas formas e personalidades, para explicar este estranho sentimento do além. Não, o editor não sugere que a imaginação seja um elemento isolado e destacado da realidade, como se tivesse a única função de preencher uma lacuna neurótica presente em nossa mentalidade, pintando em nosso imaginário o absurdo. Nem tampouco nos parece esta uma premissa ateística. Mas sugere que a imaginação seja também uma ferramenta usada por nosso cérebro para nos conectar aquela estranha sensação da existência do espiritual, que por não podermos provar, ou perfeitamente explicar, nos força a comparar e imaginar.

A partir desta premissa, o próprio avanço científico e desenvolvimento do homem em busca da verdade fora capaz de alterar a maneira como a imaginação sobre o divino deu-se no decorrer de milhares de anos, para alguns, sempre baseada sobre esta mesma certeza do além. Deus poderia até mudar de forma, ou mesmo posição, as  vezes visto de maneira verticalizada, as vezes horizontalizada, ou até mesmo negado, mas sempre presente. Da sua imaginação e função, toda uma miríade de seres, conceitos e sistemas surgiriam com a genuína intenção de compreender. Daí nasceria então a filosofia oculta.

Daher introduz a obra destacando o trabalho de pesquisa de Kayque Girão, os temas abordados pelo autor, tais como o da Astrologia, dos sonhos e das drogas, sua lucidez e fundamentos para tratar do ocultismo sem com isso ignorar sua evolução de prática e desenvolvimento de seu conhecimento. 

Girão abre o livro nos falando sobre as conexões existentes entre a Magia e a Astrologia, da importância que a última tivera para agricultores a partir da observação de correlações entre o movimento dos astros, os plantios e colheitas, estações e demais conhecimentos adquiridos e associados, fazendo com que o astrólogo, que predizia, se tornasse também o mago, que controlava, conectando ambas as funções em um só ofício. O desenvolvimento do próprio conhecimento fez com que tal ciência se tornasse cada vez mais complexa, e aparentemente inacessível para aqueles que não lhe fossem totalmente dedicados. Para além disso, elementos religiosos acabaram por mesclar-se as próprias ideias astrológicas fazendo com que tal ciência se dividisse em vários segmentos, ora alinhados com elementos mágicos e magia talismânica, ora separados e voltados para uma relação especulativa com o divino e o destino do homem. Expoentes renomados destas ideias são apresentados  de forma mais ou menos cronológica, além de elementos religio-sócio-políticos de cada local e época, que neste ensaio, visam, conforme afirmação do autor, demonstrar que a Astrologia não é tão complexa como parece, especialmente em tempos de facilidade tecnológica.

Na segunda parte do livro, Kayque nos fala sobre drogas, o uso de tais substâncias no decorrer do tempo pelas mais diversas culturas, tais como: os hindus e gregos com o vinho, os judeus e a maconha, thelemitas, tal como Crowley, e a cocaína, além de citar Abramelin e o uso de seu óleo sagrado, provavelmente adicionado a canábis, e sua experiência com uma feiticeira que dizia poder comunicar-se com outras pessoas a quilômetros de distância quando besuntada por seu unguento.
Aqui o autor expõe ainda sua experiência pessoal com o fumo, lá pelos idos de 2014/2015, quando trabalhava como médium de Umbanda, percebendo então a conexão que o mesmo estabelecia com os espíritos, alterando o espaço e as consciências com sua fumaça, além de relatar suas vivências com o chá conhecido popularmente como Ayahuasca, ou Santo Daime.

Na terceira e última parte,  Girão nos fala sobre o ato de sonhar ser intrínseco a humanidade, e portanto, pretende traçar um caminho intermediário entre os extremos do academicismo e do misticismo, de modo a auxiliar o buscador em sua senda onírica. Ressaltando que o trabalho psicológico se faz tão importante quanto o mágico neste quesito, vide que em muitos casos os sonhos tratam simplesmente de nossas vivências ordinárias, a Arte Onírica encerra a obra.

Kayque Girão nos introduz a cada um dos temas com a qualidade que há anos vem apresentando em seus textos publicados nas redes sociais. A exposição de suas ideias nestes ensaios, com seu pensamento crítico, experiência pessoal, citações de autores clássicos e modernamente já consagrados, além de bibliografia, deixam claro que o ocultismo nacional tem, sem dúvidas nenhuma, um ótimo futuro pela frente se orientado por autores e trabalhos que compartilhem deste nível de qualidade. 

por Allan Trindade


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domingo, 13 de novembro de 2016

Se raros são os indivíduos nos dias atuais que possuem conhecimento sobre a existência de grimórios medievais, mais raros ainda são aqueles que cumprem o ofício de encará-los de forma crua e literal, dedicando-se na dura labuta de construir suas Armas Mágicas, investir em itens e ingredientes raros, e sacrificar sua comodidade em nome da Obra. 



Se o discurso modernista aponta para as subtrações da ritualística, com seus psicologismos e ‘positivismos’ baratos, tornando-a, em muitos casos, seca e relapsa, atraindo com sua luz artificial os olhos dos impressionáveis e efêmeros magos e bruxos de internet, são os Tradicionalistas que mantém a observância da santidade dos atos, estudos e rituais, e em Silêncio, perpetuam a Magia Cerimonial que nos é dada e herdada. 


E é neste sentimento que somos gratos àqueles que descobrem suas Coroas encapuzadas e nos presenteiam com sua experiência, através do uso consciente das tecnologias que a atualidade nos oferece, com seus livros, blogs e demais difusores de conhecimento, compartilhando instrução e inspiração para as novas gerações de magistas verdadeiramente interessadas, provando que modernização não é sinônimo de ignorância ou omissão.



[O livro a seguir é baseado no título Magus, de Francis Barrett, apresentado aqui no número anterior. Caso não tenha lido ainda esta resenha, recomendamos então que faça sua leitura antes desta.] 



GATEWAYS THROUGH STONE AND CIRCLE é um livro escrito por Ashen Chassan, no ano de 2013, com 170 páginas e publicado pela editora Nephilim Press. Com cerca de 8 capítulos, o título trata da experiência e prática do autor, a partir das instruções contidas no livro de Barrett, sobre como atrair espíritos para dentro de cristais e estabelecer comunicação com eles.



Chassan é vanguardista e nadando contra a corrente dos movimentos atuais, assumiu para si a labuta
de trabalhar não apenas de forma Tradicionalista, mas, resolveu, junto a um grupo de outros estudiosos, incorporar a seu dia a dia a prática de evocação de espíritos planetários. De uma forma geral, tais magistas reuniram-se com a intenção de criar uma egrégora em comum, para gerar saúde e prosperidade em abundância, para cada um deles, através das energias Jupiterianas. Mas este foi apenas o começo para o autor, que com vontade e dedicação, reuniu experiência e instrução sob o título que dá nome a sua obra.



A ideia central do livro está intimamente ligada não apenas ao título Magus como um todo, mas a um capítulo em específico, de conteúdo curto e nome pomposo: A Magia e a Filosofia de Trithemius de Spanheim Contendo Seu Livro de Coisas Sagradas e a Doutrina dos Espíritos Com Muitos Segredos Curiosos e Preciosos (Até Agora Desconhecidos Pela Maioria) da Arte de Atrair os Espíritos Para Dentro de Cristais, Etc. Com Muitas Experiências Nas Ciências Ocultas, Nunca Antes Publicadas Na Língua Inglesa. Traduzido de um Manuscrito Latino Valioso por Francis Barrett, Estudioso de Química, Filosofia Natural e Oculta, a Cabala, etc.



Sugerindo que a tradução do título acima, atribuído a Trithemius, foi feita para um amigo, Francis lhe explica que esta arte não é dedicada àqueles que têm por finalidade objetivos vãos e egoístas, mas que deve servir para elevar sua existência ao Mais Alto. Diferentemente de outros sistemas bem
fonte: http://bryanashen.blogspot.com/
mais complexos em seu Arsenal, a prática de Atrair Espíritos Para Dentro de Cristais exige apenas: uma bola de cristal, presa a um suporte e rodeada por um círculo de ouro com nomes divinos; um círculo mágico, não muito grande, já que o ritual não exige movimentação; dois castiçais; um turíbulo e uma varinha de ébano negro com caracteres de ouro; além dos itens pessoais comuns aos sistemas cerimoniais, exigidas para uso do magista, como seu manto, pantáculos, etc.



Note que não há indicação para o uso de adagas ou espadas, uma provável sugestão para o fato de que tentar forçá-los a cumprir sua vontade não seja o caminho ideal.


Com todas as ferramentas em mãos e todo contexto pronto, dá-se então início a prática. Muito mais uma arte de comunicação que de pedidos, o sistema de Trithemius sugere que os espíritos planetários, também chamados de (Arc)Anjos, exigem dedicação e vontade pura de objetivo, e que antes de mais nada, é preciso saber a razão de se querer estar em contato com tais seres, e o que quer saber deles. Para isso é preciso, previamente, fazer uma seleção de perguntas que irão compor a sessão e que devem estar intimamente ligadas ao ofício de cada Anjo, a qual é relacionado a cada dia da semana e aos sete planetas antigos.


Tal como o fez o autor de Gateways Through Stone and Circle , não há dúvidas que as informações contidas em Magus seriam suficientes para que você iniciasse os rituais com este sistema. Porém, a exigência de conhecimentos prévios e o sobejo de proselitismo do livro de Barrett, poderiam ser empecilhos desnecessários a um praticante menos sabido, e que com a lapidação dos excessos feita por um magista mais experiente, o objetivo final da obra poderia ser melhor aproveitado. E é esse o trabalho que Ashen Chassan nos traz em sua publicação.



As palavras chaves aqui são instrução e praticidade. Seu livro não tem por objetivo grandes dissertações morais, espirituais ou históricas. É de se supor que o autor tenha deixado de lado tais componentes, típicos de textos grimóricos, pela consciência de os mesmos serem encontrados no livro a qual este título está relacionado. Não obstante, em uma página ou outra, até mesmo sugere que, se você não for uma pessoa simpática ao Cristianismo, alterações nas orações possam ser feitas desde que se respeitando o cerne da ideia.



Em seu princípio, Ashen dedica algumas páginas para comentários gerais sobre a prática mágica e alguns elementos históricos, que parecem ser de interesse de alguns, como a questão se esta arte foi de fato descrita por Trithemius, ou se foi apenas atribuída a ele por Francis. Segue tratando dos elementos psíquicos e espirituais relacionados a alguns sistemas, como a nem sempre tão objetiva indicação, encontrada em alguns livros antigos e pinturas, da parceria com um vidente para a recepção das mensagens dos Anjos, tal como o caso de John Dee e Edward Kelley, responsáveis pelo recebimento do Sistema Angélico, vulgo Enochiano. 



Traz ao leitor os nomes, sigilos, signos, características, desenhos - conforme sua própria experiência -
das formas humanoides destes seres. Segue descrevendo, item a item, a maneira como construiu e/ou adquiriu suas Armas Mágicas, e dá todas as instruções, passo a passo, de como fazê-las ou dos locais onde comprá-las. Destaca ainda a importância da mistificação da técnica mágica, desde a observância de seus estudos como santos, até a preocupação com o templo externo, um quarto ou local destinado exclusivamente para rituais, e o templo interno: seu próprio corpo. Encerra sua sequência trazendo o relato do contato com o espírito Cassiel. 



Considerar a objetividade do livro de Ashen parcial, por não se preocupar tão arraigadamente aos elementos religiosos contidos em Magus, seria o mesmo que desperdiçar a oportunidade de tomar este título não apenas como um grimório moderno para suas práticas pessoais, mas perder a chance de ter como referência seu método de estudo, prática e ensino. 



A ideia de publicar um livro baseado em um grimório antigo, respeitando os fundamentos apresentados em sua forma original, e atualizando componentes de modo a, não favorecer os baixos egos sedentos por pirotecnias e resultados fáceis, mas a contribuir para o progresso do conhecimento mágico, é uma prática que deve ser não apenas adquirida, mas reproduzida e ampliada. 



Se Magus pode ser considerado a ferramenta mágica para a prática de Atrair Espíritos para Dentro de Cristais, Gateways Through Stone and Circle é, sem dúvidas, seu manual de instruções. 


por Allan Trindade


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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Idade Média nos deixou como legado uma série de pergaminhos e grimórios mágicos que até hoje fundamentam ou influenciam a atuação dos magistas modernos.

Como beneficiários desta herança, quase sempre nos é possível traçar uma linha ascendente em busca das origens de algum sistema que se pratique nos dias atuais, e perceber que muito do dogmatismo encontrado em determinado contexto, é em si, uma adaptação contemporânea de algum herdeiro mais antigo.

Por mais incrível que possa parecer, esta característica não é uma exclusividade do conjunto esotérico, e é largamente encontrada no campo da religião. De uma maneira geral, o surgimento de religiões se dá de forma sucessória, onde a mais atual "nega" a mais antiga, onde o profeta daquele tempo ab-roga seu predecessor,  e se coloca como uma resposta atualizada para as questões e os problemas de sua própria era. Os Deuses do passado tornam-se então os Demônios dos dias de hoje, assim como os Deuses de hoje, podemos supor, tornar-se-ão os Demônios do futuro.

São raros os casos onde as mudanças de paradigmas se dão de maneira radical e absoluta; em geral, todas essas vicissitudes ocorrem de maneira gradativa, e em não raras as vezes, se mesclam a tal ponto de não serem mais aquilo que foram, e nem mesmo se tornam aquilo que se esperava: geram então um terceiro objeto, fruto da junção do velho e do novo.

O período medieval, marcado pela violência das colonizações e histeria cristã, agregou em si mesmo ciência, magia e religião, num amálgama tão porcamente fundido, que nada menos que o radicalismo foi necessário para que a separação se desse. Hoje, apesar de alguns espíritos retrógrados ainda se debaterem na tentativa de nos lançarem de volta ao limbo deste passado negro, podemos respirar aliviados ao dizer que estes três pilares do conhecimento encontram-se adequadamente separados...


Magus é escrito por Francis Barrett, no ano de 1801, com 370 páginas e publicado no Brasil pela editora Mercuryo. Dividido em três partes, o livro se pretende como um tratado geral e completo, que disserta sobre as três principais Ciências Arcanas do mundo ocidental: a Magia, a Alquimia e a Astrologia.


Contextualização é a palavra chave para a leitura deste título. Primeiro para que se possa entender
que há certa injustiça praticada contra Barrett ao acusá-lo de plágio, mesmo quando está claro que seu título é de fato um apanhado de toda uma série de escritos anteriores que vieram a influenciar seu livro, e que este tipo de prática literária era relativamente comum em tempos outros. Além disso, Francis fora fruto de seu tempo, e portanto, não diferente de diversos outros ocultistas contemporâneos e futuros - tais como Levy, Papus, Mathers, Fortune, etc -  mesclava em si mesmo as características ambiciosas de um mago junto as aspirações místicas - e certos devaneios - de um religioso.

Paciência é o segundo ingrediente que você terá de ter em mãos ao virar de cada página. Apesar de sua publicação ser relativamente recente - se comparada a grimórios muitos mais antigos existentes até os dias de hoje que possuem mais de 500 anos de idade - o autor não economiza palavras ao deixar clara sua fé, não só nos efeitos produzíveis pelas fórmulas apresentadas, como é repetitivo e taxativo em alertar que o temor e a gratidão ao Deus de Israel e seu Filho são essenciais para a eficácia de sua didática. De um proselitismo entendiante e cansativo, Magus fará você se questionar se a intenção de Francis era instruir indivíduos para se tornarem magistas, ou catequizar noviços para se tornarem padres.

Seus capítulos são introduzidas por títulos pomposos que ocupam páginas inteiras, e prometem coisas maravilhosas para todos aqueles que ousarem se enveredar pelos meandros destes conhecimentos. Longe desta ser uma divisão "justa", sua introdução ao estudo e prática, chamada de Magia Natural, ocupa a maior parte de suas 370 páginas. E é justamente nesta etapa que o autor investe fundo em teoria e doutrinação, a tal ponto que, é melhor que você tenha um mínimo de conhecimento bíblico para não se perder em meio a tantos nomes e referências judaico-cristãs.

Como destaque para um de seus discursos religiosos, atribui a Satanás o surgimento do ateísmo e do paganismo:

"Para que o mal existisse ininterruptamente, [satã] incitou não apenas os fratricidas e as pessoas muito más, mas cuidou para que surgisse o ateísmo e o paganismo, fazendo-os crescer a cada dia." p.46

E é no embalo da ideia pagã, que Francis tece seus comentários sobre bruxaria e ensina feitiços e poções de tipos exóticos para seus leitores, tal qual o uso de sapos como panaceia:

"O sapo pode ser usado no preparo de um remédio simpático contra a praga e distúrbios tais como a malária, epilepsia e vários outros. Para que o medo que o sapo tem de nós e o ódio natural inato possam ser aumentados e marcados, devemos pendurá-lo pelas pernas no alto de uma chaminé, colocando uma vasilha de cera amarela embaixo para recolher tudo o que possa descer ou cair de sua boca. Deixa-o pendurado nesta posição por três ou quatro dias, até morrer. Não devemos deixar de estar freqüentemente ao alcance de sua visão, para que seu medo e o terror inato de nós, com a ideia de intenso ódio, possam aumentar até ele morrer.
Assim terás um remédio muitíssimo poderoso neste sapo para a cura de quarenta mil pessoas infectadas de peste ou praga." p.49

Não nos parece demais alertar aqui que tal experimento é extremamente perigoso e não deve jamais ser reproduzido. A exposição desta receita é compartilhada apenas para fins ilustrativos.

Em sua dissertação sobre Alquimia, é tradicional ao mencionar os perigos da ganância que o estudo desta Ciência pode despertar no Buscador. Trata das propriedades do Pó da Transmutação, acumula mais instruções morais na mente do leitor na preparação para o Trabalho, dá quatro lições para a "obtenção da Pedra Filosofal", e finalmente alega que a chave para a consecução da Grande Obra não está no processo em si, mas na descoberta da Matéria Prima, que ele mesmo não revela qual é.

Outra característica marcante em seu conteúdo é o forte uso da Astrologia como fundamento para praticamente tudo que se pretenda fazer com este grimório: estudar esta matéria antes de consultar este livro será essencial para o uso do mesmo; sem este conhecimento é bem provável que você fique totalmente perdido em seu aspecto prático.

Teologia, astrologia, cabala, alquimia, bruxaria, magnetismo, unguentos, incensos, sacrifícios animais, mineralogia, superstição, numerologia, sigilos, alfabetos antigos, necromancia  etc, são todos temas encontráveis neste título como introdução até finalmente chegar no ponto à qual Magus angariou sua fama: seu sistema de evocação de espíritos de mortos, anjos e  seres planetários. O método é comum a todos os outros tipos contemporâneos: círculos mágicos, varinhas, mantos, espadas e todo arsenal encontrado dentro do contexto da Magia Cerimonial. O diferencial reside no fato de que toda esta ritualística tem por fim o fabrico de talismãs.

A Magia Talismânica - como também é conhecida - encontra grande fundamento em escritos deste período, com seus astrólogos que produziam pingentes específicos para pessoas com mapas natais e objetivos pré-determinados, de modo a atrair a energia natural e a força de seres espirituais para a concretização de seus intentos. Era por muitas vezes um trabalho terceirizado, onde o cliente solicitava a seu magista, que o mesmo produzisse tal item - fosse este um colar, um anel, patuá, etc - que passaria então a ser usado por esta pessoa em locais apropriados por tempos determinados.

Fato é que, de uma maneira geral, ainda não nos desprendemos desta prática ao observar que até hoje fazemos uso de cordões, brincos, anéis e tatuagens com intenções e símbolos religiosos, mas perdemos o hábito de verdadeiramente tornar estes itens mágicos, consagrando-os seja pessoalmente, ou contratando os serviços de um outro alguém para que assim o faça...mas Barrett nos traz as instruções de como fazê-lo.

Para isso a familiarização com a Cabala, quadrados mágicos e sigilação será fundamental, mas caso não domine tais técnicas, neste sentido, o livro lhe dará uma noção de como tudo isso se dá. A ritualística mágica, à maneira Tradicional, é essencial, e Francis não deixa dúvidas que, em se
cumprindo o passo a passo descrito em seu conteúdo, manifestações e visibilidade destes seres serão reais e tangíveis. Por fim, o conhecimento da Astrologia será obrigatório. Todos os talismãs são feitos observando-se as conjunções planetárias favoráveis para cada intento.

O livro finalmente termina com curtas biografias de personalidades importantes para o cenário mágico, químico e alquímico, que, como já dito em outro momento, devem ser sempre lidas com olhares críticos, uma vez que foram escritas a no mínimo duas centenas de anos atrás, e que portanto, podem estar desatualizadas.

Magus é uma exata reprodução de seu período e é um dos últimos grimórios que ainda trazem em seu conteúdo esta estranha mescla de dependência entre ciência, magia e religião. Exerceu influência sobre grandes nomes do cenário ocultista que lhe sucederam, e dentro de seu contexto, cumpre bem aquilo que se pretende. Apesar de seu excesso de proselitismo, que se lapidado, teria o livro conteúdo bem menor com que se apresenta, deve ser lido com um olhar histórico contra sua abordagem religiosa, e prático em seu aspecto mágico. É sem dúvidas um exemplar obrigatório para todos os Tradicionalistas.

À saber: a resenha a seguir tem íntima relação com este título, onde abordaremos de forma mais específica o capítulo especial atribuído a Trithemius de Spanheim, e seu sistema de evocação de espíritos para dentro de cristais. Fique atento.

Agradecimento especial ao Frater C.B. que carinhosamente me presenteou com este livro. Obrigado meu caro!

por Allan Trindade




terça-feira, 8 de setembro de 2015

Assassinatos. Falta de saneamento básico. Doenças. Tortura. Roubo. Mentira. Corrupção. Ignorância. Pobreza. Desafetos. Superstição. Sujeira. Vício.  Ilusão. Ciência. Religião.  Muitos poderiam tentar sugerir em que lugar afastado no mundo se ilustra este cenário. Outros tantos poderiam dizer categoricamente ser este o pano de fundo do lugar em que vivem. Entretanto, é provável que sua imaginação esteja lhe traindo neste momento e lhe distanciando algumas centenas de anos da realidade.

Os livros de história, filmes e discursos parecem descrever este local como seu exato oposto; um lugar onde, emoldurado por uma bela arquitetura sinônima, pessoas de gabarito educacional e exemplo de cortesia, dividiam as ruas de calçamento calcário em meio a lírios, rosas e carruagens guiadas por Andaluzes de marcha pomposa e crina trançada. Porém, a realidade é que na Europa do século XVI, ser rico era quase um fator cármico de casta, saber ler e escrever era um privilégio. O clima frio e a falta de condições (ou de interesse) para o asseio pessoal, fazia com que alguns seres humanos vivessem como ratos  em um esgoto a céu aberto, compartilhando seu lugar no mundo com toda sorte de animais e pragas, doença e todo tipo de sujeira, externa e interna, do corpo e da alma, exportando e importando desgraça, na ânsia de sobreviver.

Paracelsus e a Alquimia Medicinal é um livro escrito por Robson Fernandes de Farias, publicado pela editora Gaia, no ano de 2006, com 74 páginas. Com 4 capítulos, o livro possui introdução, um capítulo dedicado a biografia de Paracelso, um terceiro dedicado a seus feitos alquímicos e químicos e considerações finais do autor.

Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, ou como é comumente conhecido, Paracelso. Referência obrigatória para todo estudante sério de Alquimia, Paracelso foi nascido na Suíça no ano de 1493, porém, manteve durante toda sua vida uma rotina de peregrinação pelos meandros da Europa do século XV e XVI. Influenciado por seu pai, Wilhelm von Hohenheim, professor de Alquimia Teórica e Prática na Escola de Mineração, dedicou-se inteiramente ao estudo da Medicina, Mineralogia e Química até o dia de sua morte, sob circunstâncias controversas, no ano de 1541.

De personalidade forte e gênero tempestuoso, o menino mirrado, de caracteres físicos afeminados, era uma pedra nos sapatos de religiosos e eruditos de sua época. Convicto de suas capacidades e conhecimento, Philippus declarava-se superior em qualidade, competência e ética, não só daqueles que lhe eram contemporâneos, mas principalmente de Aulus Cornelius Celsius, famoso médico romano do século I, a qual tomou como referência para sua alcunha de Paracelsus; aquele que é maior que Celsus. 

Nascido em um dos períodos mais negros da história Europeia, este médico – alquimista, dedicou sua vida na tentativa de curar as mazelas do corpo e do espírito do povo. Entretanto, sua postura antagônica a predominância comportamental da época, lhe dificultavam o trabalho, e é possível que no íntimo de sua humanidade, a díspar de sua aparente prepotência divina, também necessitasse de algum consolo, já que era assolado pelo mal do alcoolismo.

Brigou com os ‘representantes de deus’ e com o mundo. Diferenciava alquimistas e médicos; tratando os primeiros como verdadeiros e humildes sábios, e reservava para os outros o adjetivo de pomposos ignorantes. Foi responsável pelo desenvolvimento de um dos ramos alquímicos mais práticos já vistos, a Espagíria. Viveu uma vida simples e humilde, com o objetivo único de colaborar com o conhecimento verdadeiro, na intenção de desvencilhá-lo da mesquinharia e a falta de compaixão, dominantes em sua época. Morreu sem deixar riqueza ou herdeiros...mas seu nome e sua sabedoria são lembrados até os dias de hoje.

Este é um título biográfico, no qual expõe a humanidade de um homem, que até hoje é referência para cientistas e ocultistas. A baixa quantidade de páginas impressiona em princípio mas seu conteúdo compensa qualquer má impressão neste quesito. Entretanto, apesar de uma vasta bibliografia, o autor, Robson de Farias, peca ao fazer citações atribuídas a Paracelso sem lhes dar as devidas referências de rodapé. Portanto, a não ser que você consulte todos os livros usados para esta pesquisa, você não saberá de que fontes especificamente as citações foram tiradas.

O livro tem um estilo simples, mas gostoso de ler. E apesar do peso e do drama reais a qual a história é retratada, a narrativa cativa, e provavelmente atenderá as expectativas inclusive de leigos dos dois campos, uma vez que a linguagem neutra utilizada pelo biógrafo, não apele para os termos excessivamente técnicos, sejam eles de cunho científico ou esotérico. Certamente uma confortável leitura para um clima mais ameno, acompanhado de um chá, num domingo ao fim de tarde!


por Allan Trindade


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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

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"Vervm sine mendacio, certvm et verissimvm:
Qvod est inferivs est sicvt qvod est svperivs, et qvod est svperivs est sicvt qvod est inferivs, ad perpetranda miracvla rei vnivs." 

Se a Astrologia está para os céus, é a Geomancia, arte de adivinhação através de símbolos pré-estabelecidos, que está para a Terra. Sua origem se perde nos anais da história, e segundo a afirmação de alguns autores, a Geomancia foi largamente utilizada por diferentes povos ao redor do mundo, sob diferentes formas; desenhos intuitivos, sementes lançadas a esmo, ossos e, nos tempos modernos, cartas, compõem o aparato de possibilidades de uso que este tipo de arte nos oferece. No ocidente, parece ter alcançado seu ápice e desenvolvimento por volta do século XVI, entretanto, caiu em desuso quase absoluto pelos ocultistas modernos, e parco, ou nulo, é seu ensino e uso por magistas e Sociedades Secretas dos dias de hoje. Entretanto, uma autora francesa foge a regra, e nos fornece um livro que nos faz um convite para deixar de olhar tanto para o céu, e buscar um pouco mais de conhecimento sobre o solo que pisamos.

Geomancia - o Tarô da Terra é um livro escrito por Chantal Mehiel, com 212 páginas, publicado pela editora Pensamento. O livro traduzido para o português perde o efeito de seu título homônimo original em francês. Geomancia em francês é géomancie, e esta é a razão da autora para usar o título Geomancia para designar seu método, que causa um efeito para os falantes de língua francesa que é totalmente nulo para nós, lusófonos, uma vez que Geomancia para nós seja exatamente geomancia.
O livro vem em formato de kit, acompanhado de um livreto adicional - como daqueles que acompanham caixas de tarô - e 64 cartas.

A autora inicia seu título dando uma introdução aos leitores sobre sua experiência mística, onde fora salva, segundo ela, graças a uma intervenção divina de uma santa a qual sua mãe era devota. Tanto quanto a inutilidade deste meu comentário nos parece essa introdução, que, ao menos segundo o teor da descrição, não tem a menor relação com o tema do livro.

Segue então introduzindo o leitor aos tipos de leitura indicadas e os métodos de tiragem das cartas. No campo intuitivo, assim como em qualquer outro oráculo, será preciso que você conheça cada um dos 16 símbolos oferecidos pela geomancia, seus nomes e significados. Ter uma noção básica de latim pode ajudá-lo, uma vez que todas suas figuras sejam tratadas por esta língua, e saber sua tradução há de auxiliar no processo da associação e significado do símbolo. Outra dica é manter em mente que eles são sempre opostos uns aos outros, portanto oito pares, que se complementam em um sentido positivo e negativo. Por exemplo:

Puella e Puer
Puella em latim é menina e Puer, menino. Conhecer os aspectos comuns associados à feminilidade e a masculinidade automaticamente te levarão a sugerir o significado de cada um destes símbolos. O resultado é mais simples do que possa parecer, mas não se preocupe, você encontrará tudo isso dentro do conteúdo do livro.

Seu método é um ótimo facilitador para iniciantes que estão acostumados ao uso de cartas como sistema divinatório. 64 são as que acompanham o livro e são compostas, metade por um ponto, metade por dois pontos. Ao embaralhá-las, seu único trabalho será de retirar quatro delas do monte, em posição horizontal e dispô-las na vertical, formando assim uma figura geomântica.

O pequeno livreto que fecha este conjunto é mais uma repetição do mesmo conteúdo do livro principal, em formato menor e reduzido, e funciona apenas como um guia rápido, talvez para uso em consultas pessoais nas quais você leve as cartas dentro de uma caixa ou algo do tipo...essa nos parece ser a única explicação plausível para a existência dele.

A autora nos oferece uma obra introdutória, simples no conteúdo, mas bastante útil e eficiente para aquilo que se propõe. Seu método é prático e limpo, objetivo e bastante direto. Nele você encontrará informações sobre como jogar e respostas pré-prontas para perguntas de diferentes aspectos da vida pessoal e social. Divididas sob os temas: consultas do cotidiano, consultas mensais, consultas de aniversário, dentre outras, cada grupo deste é subdividido em diferentes aspectos que vão lhe dar as respostas para questões que mais lhe aprouver.

O resultado é esse: um conjunto de cartas que compõem figuras geomânticas acompanhadas de um livro para consultar as respostas.  

Não espere por grandes explanações esotéricas, ou históricas sobre a geomancia. Este título é essencialmente prático e consultivo...uma ótima sugestão para todos aqueles que nunca tiveram contato com o tema.


por Allan Trindade


terça-feira, 28 de julho de 2015

Como prêmio por ter ido bem na escola, tio conta a seu sobrinho, a história de um pobre menino chamado Ojesed. Com uma forte sede por conhecimento, e sem condições financeiras de ter seus sonhos realizados, Ojesed se sente injustiçado pelo destino por não ter recursos para estudar. Considerando o fato de não ter tido uma madrinha para lhe abençoar no dia de seu batismo, como um dos motivos para seu triste destino, ignora os argumentos de sua mãe de que fora entregue as bençãos de "Nossa Senhora", sendo desta forma tão ou mais abençoado que os outros. Convicto de que isso não passa de uma desculpa, esbraveja a esmo sua infeliz condição, quando, neste momento, é surpreendido por uma fada, a Estrela D'Alva, enviada por sua então madrinha, para lhe ensinar sobre os reinos elementais...

Ojesed é desta forma levado para o primeiro destes reinos, o reino dos pigmeus, ou, como o autor passará a chamar doravante, o reino dos gnomos!...

No Mundo dos Elementais é um livro escrito por Vasariah S. I. , publicado no ano 2000 , com 248 páginas, pela editora Vasariah . O livro conta o início da saga de Ojesed e tem uma intenção didática, disfarçada pelo romance literário. Dividido em 15 capítulos, sempre introduzidos por breve diálogos entre tio e sobrinho, é repleto de lições ocultistas, que se dão entre a Fada e o menino em sua viagem.  Com uma intenção clara de expor conceitos esotéricos e mágicos em suas linhas, o autor nos fornece orações, pantáculos, rituais e até mesmo receitas de plantas e ervas, tanto para uso cerimonial, quanto para a labuta medicinal. É um livro introdutório para os conceitos da Alta Magia, que tem por objetivo trazer ao leitor um entendimento geral sobre práticas, ideias, e fórmulas esotéricas.

Vasariah assina seu nome com as siglas S. I. , provável referência para seu grau dentro de alguma Ordem martinista, uma vez que estas sejam as iniciais de Superior Incógnito usado por estas Sociedades. Sendo assim, não nos impressiona o teor proselitista encontrado em seu romance, onde não mede esforços para deixar claro o fundo religioso do livro, profundamente cristão em suas orações e conceitos. Levando em consideração que o autor se coloca apenas como narrador de sua história, e não como um dos presentes, poderíamos considerar que toda esta conceitualização tendenciosa faz parte apenas da personalidade dos personagens apresentados, entretanto, pelo teor didático que o livro possui, além dos motivos de Ordem já citados, não nos resta dúvidas sobre as intenções evangelistas de Vasariah apresentadas neste romance.

O primeiro conceito exposto é o da Viagem Astral, seguido pelo uso de paramentos, ensinado pela fada ao menino, para que possam transitar com segurança por outros planos. Introduz o leitor a diferença entre elemental e elementar, e ao fabrico e uso de pantáculos e inclui ainda um curioso cálculo que mede o raio de atuação de um pantáculo em relação a seu tamanho. Faz referências a Cabala, apresentando classificações de anjos e suas hierarquias, à Astrologia, à Botânica Oculta, fala longamente sobre a Alquimia Espagírica, e até sobre Macumba, na tentativa de fazer uma distinção entre Umbanda e Quimbanda, elevando a primeira e denegrindo a segunda.

No campo filosófico, não bastasse o excesso de cristianismo contido no livro, o título ainda nos leva a reflexões curiosas sobre alguns conceitos apresentados. Em um dos primeiros casos observados pela dupla, um dos gnomos, fala longamente sobre os "por ques" que eles, elementais, devem atender aos chamados de nós, seres humanos, que, segundo a apresentação do autor; estamos para servir a deus assim como os elementais estão para servir a nós. Porém, a estranheza nos surge quando, dentre grande parte da narrativa, além dos elementais apresentados serem profundamente organizados em sua sociedade, possuindo inclusive um código penal, e demonstrar tão ou mais equilibrada  a relação que que eles possuem com a natureza em comparação a relação humana para esta, dizem eles almejarem acima de tudo a possibilidade de um dia encarnarem como membros da nossa raça! Que superioridade há de ser esta humana então?...resta saber!

No campo esotérico e literário, além das matérias citadas, o autor se utiliza de algumas técnicas básicas de ocultamento para dar nome a alguns de seus personagens. Ojesed é nada mais que a palavra Desejo lida de trás para frente. Ramak, um gnomo que obsedia um menino, é um jogo de letras para Karma, assim como seu defensor no julgamento, Sacpuldes, é Desculpas.

No Mundo dos Elementais é fraco em sua história e só vale a leitura caso você consiga separar romance, de proselitismo, de ensino didático!

por Allan Trindade



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Posted by Resenha Oculta | File under : , , , , , , , , , , ,
Em um belo dia de primavera, uma jovem e virgem donzela faz a frente de uma procissão nas ruas da Grécia Antiga. Em suas delicadas mãos, um rústico e quase invisível incensário libera uma espessa fumaça aromática de Aloé, Rosas, Óleo de Oliva, Almíscar e Âmbar Gris. 

Fileiras e mais fileiras de bancos sustentam o peso de homens e mulheres ajoelhados em oração. Caminhando no centro em direção ao altar, um velho homem recita palavras em latim, ininteligíveis para a maioria dos presentes, enquanto balança um rico turíbulo de prata contendo incenso, na Inglaterra. 

Uma grande fogueira ao centro aquece todas as pessoas reunidas do lado de fora de suas cabanas, vestindo roupas de couro, penas na cabeça, e pinturas faciais, enquanto seu xamã lhes defuma com um amarrado de linhas de algodão e sálvia, na América do Norte.

Música, dança e alegria preenchem os corações de homens e mulheres vestidos de branco, dentro de um terreiro, enquanto entram em transe e defumam o lugar com orégano, café, manjericão e arruda, no Brasil.

Do oriente ao ocidente, de norte a sul, do esotérico ao exotérico, seja no passado ou no presente, as defumações sempre tiveram sua presença garantida dentro de rituais religiosos ou mágicos. Com diferentes peculiaridades que poderiam variar desde a inclusão de sangue e vísceras, até o uso de excrementos em sua composição; fosse para agraciar alguma divindade, cura, limpeza de ambientes, proteção, ou ainda para amaldiçoar a vida de alguém, o uso de defumações pode ser encontrado em praticamente todas as culturas antigas.

O Uso Mágico e Espiritual de Incensos e Defumadores, de M. E. Caland, publicado no Brasil pela Editora Pensamento, com 166 páginas nos dá um ótimo panorama sobre sua importância e uso ritualístico. Dividido em seis capítulos, o autor nos introduz a um mundo de teoria e prática desta arte tão negligenciada pelos magistas da modernidade. Caland é didático, classifica funções e métodos, origens e usos para cada uma das defumações apresentadas. Em seu argumento histórico, nos faz viajar para tempos antigos onde grandes rituais eram feitos em homenagem a Deuses e entidades, de diversas partes do mundo.

Apesar da aparente baixa quantidade de páginas, o livro é completo e faz jus a seu subtítulo: Aromas para curar, sonhar, amar, meditar e estimular, e vai além, já que dá instruções sobre como fazer seu próprio turíbulo, altar de incenso, tabelas de correspondência astrológica, associação de cores e dias da semana, dentre outras. Suas receitas não são apenas aromáticas, e grande parte delas incluem um objetivo mágico para seu fabrico e objetivo, tais como: incenso para prosperidade, incenso para vingança, incenso para círculos mágicos, incenso para favorecer os estudos... Além de incensos místicos, como: incenso de Pan, de Saturno, do Sol, etc...

Quem já sentiu o aroma de um incenso de rosa musgosa, quem já foi defumado dentro de um terreiro de macumba, ou ainda quem naquele momento de paz e tranquilidade acendeu um incenso para aromatizar e harmonizar o ambiente, sabe o quão poderoso é o cheirar de um aroma como esses. Entretanto, nos dias atuais, ervas são substituídas por produtos sintéticos que de longe são uma vaga memória do que seria o cheiro de determinado componente em seu estado herbal, ou natural.

Ir até a loja de produtos exotéricos e pagar menos do que o valor de um café na compra de um pacote de incensos, é o mesmo que querer investir miséria para obter riqueza...não dá! Produzidos de forma industrial, com bastões neutros, incensos combustíveis baratos são feitos a partir de óleos sintéticos que simulam, através de composições químicas, os aromas de ervas e demais elementos naturais, porém, de forma limitada e ruim.

Cada objeto ritual deve ser pensado de forma séria e dedicada, e o negligenciar de uma ferramenta tão importante, quanto os defumadores, pode empobrecer ou ainda, tornar o seu rito menos eficaz se levarmos em consideração, que sim, inteligências parahumanas existem e são atraídas para o nosso plano por associação e correspondência. Se não se oferta como presente um desodorante ao invés de um perfume para um alguém querido, então porque ofereces algo ruim, barato e sintético, ao invés de ervas naturais e aromáticas, a seus Deuses?

Adquirir o livro de Caland é não apenas investir em conhecimento prático, mas didático e mágico; é dar-se a chance de elevar seu ritual a um outro nível!

por Allan Trindade


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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Se tivéssemos de classificar uma Ordem de primeira importância dentro do esoterismo ocidental quando o assunto é magia, esta certamente seria a Golden Dawn. Fundada em 1888 por três maçons saídos da Societas Rosacruciana in Anglia, a Ordem Hermética da Aurora Dourada destacou-se dentre os meios ocultistas de sua época, como uma das Ordens Mágicas mais importantes, surgidas após muitos séculos de obscurantismo e ignorância.

De completos anônimos a celebridades, de 'santos a bestas', a Ordem reuniu em suas fileiras gente de todas as estirpes, de todos os anseios... Num mundo onde a ciência finalmente respirava os novos ares do progresso, onde a religião era finalmente posta em seu devido lugar de coadjuvante descartável para a história humana vindoura, as expectativas de um novo século traziam consigo as esperanças de um novo misticismo.

Muitas foram as Ordens criadas, muitas foram as lendas inventadas, muitas foram as histórias contadas, mas pouquíssimos foram os nomes imortalizados. E foi nesse furacão de novas promessas que surgiram aqueles que seriam os precursores de uma nova era do conhecimento oculto. Aqueles que seriam legitimados como organizadores de um conjunto de sistemas esotéricos, que tinham por objetivo conhecer o passado, alterar o estado do presente, ou as tendências do futuro, de acordo com suas próprias vontades.

Magia! Se as pessoas temiam tanto esta palavra, a ponto de mandar outras para serem queimadas vivas em fogueiras, talvez fosse esta a solução para os problemas que a vida podia oferecer. Porém, para evitar que tais ensinamentos fossem utilizados de forma desmedida e irresponsável, era preciso que todo conhecimento fosse organizado de forma sistemática, e processado de forma gradativa, para que cada adepto, a seu próprio tempo, tivesse então a chance de compreender a profundidade dos conceitos expostos.

Tanta liberdade, tantas expectativas, e tanto poder foram como um “Big Bang” que explodiu criando através de si um universo de novas realidades. Porém, tal qual um reflexo natural do nosso mundo, assim o é com a Golden Dawn: uma Ordem de objetos visíveis e invisíveis.

Sobre os visíveis, Israel Regardie nos deixou um ótimo legado...sobre os invisíveis, R. A. Gilbert nos abrilhanta com mais uma de suas obras.

O FEITICEIRO E SEU APRENDIZ é uma antologia organizada por R. A. Gilbert, publicado pela Editora Pensamento, com 225 páginas. O título é sugestivo, transfere a ideia da organização de seu conteúdo. Dividido em duas partes, cada capítulo é completo em si, e não possui qualquer conexão com a monografia anterior, ou sucedente. Isso porque, tal qual sugere seu subtítulo "Escritos Herméticos Desconhecidos", o livro reúne diversos textos esparsos, de diferentes idades e origens, que até o presente momento eram desconhecidos do público em geral, por nunca terem sido previamente publicados.

Samuel Lidel Matthers ocupa seu primeiro capítulo, trazendo a público comentários sobre Cabala, Qliphot, análises bíblicas, opiniões sobre a origem e complexas tiragens do Tarô, etc ...sem grandes introduções ou dissertações, mas que funcionam bem para a necessidade de uma consulta rápida. Sua participação é curta, e é fato que, fosse só por isso, o livro não valeria tanto investimento. Porém, a importância da obra encontra-se em seu segundo capítulo. Seu autor, J. W. Brodie-Innes apresenta-se como um pesquisador de qualidade rara dentre o contexto ocultista. Diz ele:

"Defendo o ponto de vista de meu velho amigo de infância, Charles Darwin, de que o dever de um investigador honesto é registrar imparcialmente todos os fatos que puder apurar e, depois, declarar com clareza as deduções que deles extraiu, deixando os leitores à vontade, para aceitar ou rejeitar suas teorias, mas estando certo de lhes haver relatado todos os fatos de que tem conhecimento."

Tal introdução é mais que confortante para um mundo onde o achismo impera sobre o saudoso senso crítico. Seus capítulos resumem-se, em sua maioria, a relatos de experiências vividas pelo autor em suas diversas buscas investigativas sobre os mistérios do oculto. Mediunidade, Mitologia, Tarô, Khemetismo, Astrologia, Bruxaria são alguns dos temas abordados. Innes é imparcial, expõe suas vivências de modo claro, objetivo, sem proselitismo ou tendencionismos infundados, mas com o bom senso e a clareza sincera de quem apenas deseja saber e compartilhar. Bastava que tal antologia trouxesse os escritos de Brodie-Innes e esta já valeria o investimento.

Comparativamente falando, nos parece estranho que Gilbert sugira que o Feiticeiro seja Mathers e o Aprendiz seja Innes. Mathers será para sempre lembrado na história como um dos homens que fundou uma das Ordens Mágicas mais importantes da história da humanidade, mas é fato que, como Aprendiz, John Willian Brodie-Innes era um ótimo mestre!

por Allan Trindade



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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Não se iluda: ser escritor, pertencer a Sociedades Secretas ou até mesmo ser um dos nomes mais destacados do esoterismo ocidental, não torna ninguém isento de falhas e erros. Se considerarmos que pela história esta parece ser uma regra, Papus, certamente, não é uma exceção!

Mas antes de continuarmos, entenda uma coisa: Esoterismo não é religião! Esoterismo é o conjunto de conhecimentos Tradicionais, e em muitos aspectos Ocultos, que dão base para a formação daquilo que vulgarmente se chama religião, ao que nós comumente nos referimos como Exoterismo.

O ABC DO OCULTISMO, publicado pela editora Martins Fontes, e escrito por um dos ocultistas mais famosos do século XX, Papus, é uma decepção em muitos momentos. Com um total de 345 páginas, a intenção do autor em escrever uma obra que seja uma espécie de introdução ao ocultismo, nos parece em princípio, bastante válida, e tenta resumir em capítulos distintos temas base para uma continuidade de estudos a posteriori do assunto em questão.

Lotada de referências externas a escritores modernos e antigos, em especial Alexandre Saint-Yves d'Alveydre - o criador do Arqueômetro -, além de todo um belo conjunto de imagens que ilustram suas explicações, a primeira vista, o livro pode soar como obrigatório a qualquer um que se pretenda ser ocultista algum dia. E de fato, por ser um escritor clássico, citado em qualquer conversa trivial sobre o esoterismo, há de se ter o mínimo de conhecimento sobre as ideias que o autor expressara em vida, para se ter o mínimo de noção opinativa.

Entretanto, antiguidade não é desculpa para falta de bom senso. O livro é péssimo em seu princípio, completo de referências a dados pseudo científicos (ou em outras palavras, e até em certos momentos, mitológicos), além de afirmações convictas sobre a existência de "realidades" que carecem do mínimo fundamento factual. Dentre estes absurdos, afirma categoricamente que Atlântida existiu[pg.3], nos fornece um mapa sobre sua localização[pg.4 e 5] e ainda se propõe a indicar os locais de migração "dos povos que lá viveram" para o resto do mundo. Porém, talvez o maior de todos os disparates esteja mesmo na página 117: " ... As erupções vulcânicas são produzidas por curto-circuitos da eletricidade vital terrestre, e o centro da Terra é habitado por seres de forma humana, mas com brânquias. ..."

Não obstante, abusa do neologismo até não poder mais...e mesmo assim vai além, e entope o leitor com extensa nomenclatura pseudo rebuscada, que se pretende diferenciar nuances encontradas dentro de sistemas e filosofias, que por mais que possam fazer sentido para um estudante mais avançado, são absolutamente descartáveis e desnecessárias para o buscador iniciante. Neste sentido, Papus mais parece uma espécie de Omar Khayyam - não o original, mas o charlatão brasileiro - com seu extenso conhecimento geral, que como um prestidigitador, desvia a atenção do público com diversos movimentos desnecessários para por fim, exibir seu grande truque...

Alguns de seus capítulos parecem compensar as baboseiras expostas em seu princípio. Fornece reflexões interessantes sobre Magia e até mesmo toma partido e comenta sobre o quanto alguns, moldados e condicionados pelos preconceitos da crença dominante, excluem de seu contexto esta palavra, mesmo que, sob nomenclatura diversa, lhe sejam adeptos. Traz ainda abordagens simples sobre os temas: Maçonaria, Egito, Alquimia, Astrologia etc...simples não por carecerem de coerência ou faltarem em qualidade, mas por terem a proposta única de serem uma introdução ao tema.  Veja que ainda assim, não estamos concordando com todas as afirmativas expressadas pelo autor, mas em alguns aspectos, podemos dizer que ainda há aquilo que se possa aproveitar.

O livro contém um ensinamento oculto, indireto por assim dizer. Nos leva a compreender sobre aquela necessidade clássica; é preciso saber separar o joio do trigo...ou, de forma mais direta e menos elegante; aquilo que presta, do resto!

Eu sinceramente espero que os absurdos encontrados neste título não sejam um reflexo geral de toda a imagem de tão aclamado ocultista, para que, quem sabe, possa afirmar doravante, que a primeira impressão não é a que fica...


por Allan Trindade

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