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segunda-feira, 13 de julho de 2020


A capa deste livro induz os incautos ao erro. Isso mesmo. 
A capa desta edição traz escrito em seu título
o nome Wicca para Homens. E qual é o problema nisso? Nenhum, não fosse o caso deste livro não ser o Wicca para Homens. A.J. Drew possui duas publicações de títulos muito semelhantes voltadas especificamente (mas não exclusivamente) para o público masculino. São elas: Wicca for Men [Wicca para Homens] e Wicca Spellcraft for Men [Wicca Feitiços para Homens], sendo a última aquela referente a presente publicação brasileira. E embora a capa esteja errada, a folha de rosto, ou seja, aquela primeira página que aparece logo que abrimos o livro e que geralmente repete o título da capa, traz o nome correto: Wicca Feitiços para Homens.

WICCA FEITIÇOS PARA HOMENS é um livro escrito por A.J.Drew com 224 páginas, divididas em 9 capítulos e foi publicado no ano de 2002 pela Madras editora.

Drew começa o livro de forma enfática e provocativa, dizendo que se você é o tipo de pessoa que acha que não existem diferenças físicas e biológicas entre homens e mulheres, o melhor que você tem a fazer é nem começar esta leitura. Isto pois, segundo o autor, homens e mulheres possuem características próprias de nascença, que fazem com que não possamos nos tratar como absolutamente iguais em todos os sentidos, sendo este livro indicado não apenas para aqueles que concordem com isso, mas também para todos que já tenham uma noção básica sobre a Wicca. Ainda sob esta perspectiva, o autor destaca que entende que mulheres tenham mais facilidade para se relacionarem com a Deusa, e os homens com Deus, e que não há nada de sexismo nesse tipo de aproximação, apenas um sentido de correlação. Atribui a culpa por toda esta divisão moderna ter-nos sido legada pela Igreja Católica, que durante muito tempo demonizara a mulher e em seguida a todos, dizendo que tudo é pecado, gerando com isso um sentimento moderno reverso, fazendo com que mulheres acreditem que não precisam de homens. Porém, segundo  A.J., nenhum sexo pode ser realmente independente do outro, nascemos como seres complementares.

Dividido em três partes, o autor inicia a teoria deste livro falando sobre sua própria experiência mágica, relatando que a eficácia de seus feitiços variava, ora sendo efetivos ora não, e que muito disso se dava por sua falta de conhecimento teórico que foi sanada após a leitura de Magick In Theory And Practice de Aleister Crowley. Segundo o autor, magia é apenas uma maneira de explicar leis ainda incompreendidas da natureza, que quando assim o forem, serão chamadas de ciência. Portanto, não deve haver oposição entre aquilo que se entende por magia ou aquilo que se sabe sobre ciência. Visto ser a mente a principal ferramenta da magia, o autor cita uma série de exemplos de doenças psicossomáticas ou mesmo curas alcançadas através do poder mental, indicando a inegável conexão entre aquilo que se crê e se tem certeza, se sente e se realiza. Levando em consideração a natureza dispersa da mente, e portanto, as dificuldades de trabalhá-la magicamente quando não a se tenha treinado, indica exercícios e métodos de observação para descobrir seus próprios padrões mentais e demais elementos que se relacionam aos sentidos, como a visão, o tato, olfato, paladar e a audição.

Drew recorda que este é um livro de feitiços, e portanto, faz-se necessário falar sobre a ética de seu uso neste campo. Para o autor, tudo isto é relativo. A Wicca ensina que todos tem o direito de fazer o que quiserem desde que não prejudiquem ninguém. Mas como considerar isso de forma absoluta, se, por exemplo, para sobreviver, animais carnívoros precisam se alimentar de outros animais? A ética deve ser então sempre uma medida pessoal, decidida por cada um a partir de seu próprio universo, convicções e emoções. 

Na segunda parte, esclarece que em você sendo um deus, sua ética também é a ética dos deuses, assim como a do próximo, idem. Entretanto, apesar de todo este panteão existente no mundo, que somos todos nós, o mundo também está infestado por demônios espalhados, escondidos e disfarçados em todos os lugares, por isso, é preciso saber lidar com eles, e os feitiços são uma ótima ferramenta. Sendo assim, a dúvida costuma ser a principal inimiga de seu sucesso. O autor alega que crianças geralmente pensam que podem fazer tudo pois poucos adultos lhes disseram que não poderiam fazer o que quisessem. Logo, sendo você um adulto que foi por tantas vezes censurado, é sua responsabilidade quebrar estas barreiras e convencer-se da certeza que é capaz.  Oferece então uma série de sugestões de rituais para serem feitos neste sentido, relacionados a sonhos e tudo mais pertinente ao astral e ao subconsciente, e até para disputas políticas, pessoais e sociais, visto que a atitude combativa deva ser praticada para a derradeira vitória.

Por fim, na terceira e última parte, o autor traz uma enorme lista de receitas de incensos e tinturas e óleos mágicos, relacionando deuses de diversas culturas, chakras, planetas e tudo mais. E esta é, sem dúvidas, umas das melhores partes deste livro. À todos aqueles que veem na magia algo para além do pensamento positivo, é neste ponto que você será levado a acender seu caldeirão.

Wicca Feitiços para Homens é um livro interessante, dividido em teoria e prática, à melhor maneira da bruxaria tradicional: com muitas receitas de óleos, ervas e incensos para tornar o bruxo e o ambiente sempre envolvido com todos os elementos naturais possíveis para a execução de seus feitiços, feitiços que aqui, são destinados para quase todos os fins. É, por vezes, também militante, considerando que o wiccan deve se envolver com questões que transcendam seu próprio microcosmo e alcance questões sócio ambientais, em defesa dos animais, florestas e de tudo que envolva a natureza em seu sentido puro. É bom, especialmente se usado como um livro de receitas.

por Allan Trindade





quarta-feira, 8 de abril de 2020

Em pleno século XXI, homens e mulheres renascem sedentos pelos poderes obscuros. Por mais que
os profetas de diversas crenças ‘tocassem suas trombetas’ anunciando o retorno desses espíritos inconformados e rebeldes, não conseguiram findar a sede de vingança da matilha renascida. Se assassinaram nossos antepassados das formas mais cruéis e irracionais, hoje devem nos respeitar e até nos temer, por nada mais funciona segundo as leis hipócritas dos velhos códigos da ‘Santa Inquisição’. Somos o povo da noite, escolhidos pela vitória e portamos as fagulhas dos Deuses ‘esquecidos’. Quem escolhe esse caminho sabe que em sua cabeça pode brilhar uma coroa, com a mesma luz emitida pela maravilhosa ‘Estrela Matutina’. ...

Sejam bem vindos a um dos afluentes de Hades, as velas do santuário de Ahndrus, aos cumes dos vulcões adormecidos e aos tornados em formação. Apreciem as melodias de cura e doença, de vida e morte, de amor e ódio e de deuses e demônios. pg 11/13

TEMPLO DE AHNDRUS é um livro escrito por Danilo Coppini, com 167 páginas divididas em 6 capítulos e foi publicado no ano de 2010 pela Madras editora.

Magia. Esta palavra conhecida por todos que costuma gerar reações no mínimo ambíguas quando proferida. Sinônimo de prestidigitação, truque e enganação para alguns, e de poder e fascínio  para tantos outros, são estes últimos aqueles que costumam tomá-la com o devido respeito que a mesma merece. Respeito esse que nada tem a ver com uma visão supersticiosa - quando devidamente compreendida –, mas que se relaciona a certeza de que através dela, o bruxo ou magista tem a capacidade de alterar, modificar e transformar aquilo que deseja.

A magia, quando vista sob este viés, nem mesmo precisa ser acreditada como uma manifestação espiritual, visto que em tempos modernos muitos são aqueles que atribuem à mesma um caráter puramente psicológico, embora isso também não signifique que através de seu toque indivíduos possam alcançar as escadas da autoconsciência, e consequentemente do sucesso, ou da completa loucura, e a derrota absoluta. Um caminho de mão dupla? No mínimo.

Já em sua introdução, o autor salienta que embora sejam muitos aqueles que se erguem em pleno século XXI demonstrando interesse por estes conhecimentos malditos, coragem, responsabilidade e autocontrole são essenciais para descer as escadas da escuridão.

Muitos são os livros que tratam o tema sob seu aspecto filosófico e teórico. Mas este não é o caso aqui. Em Templo de Ahndrus, Coppini nos apresenta um livro introdutório, pensado para os iniciantes que não apenas tem interesse pela parte prática da magia, mas especificamente por seu lado esquerdo, o lado obscuro desta Arte, o caminho da Magia Negra. 

Renascer é o objetivo de qualquer prática magística, quebrar os grilhões, rasgar véus de séculos de imposições religiosas e proporcionar 'vida' aos desejos. O homem é o dono do seu destino, guardião da sua eternidade e manipulador das Leis da Natureza (visto que são imutáveis). A Arte Negra é a liberdade de manipular, jogar, prorrogar e vencer todos os obstáculos cotidianos. Somos, antes de tudo, buscadores da liberdade na dança das reencarnações.  pg.11

Dividido em três partes, Templo de Ahndrus começa tratando das Armas e materiais a serem usados dentro das cerimônias mágicas. As condições ideais para as consagrações e o modus operandi são apresentados antes de cada um dos elementos. Tabelas de correspondências, listas de ervas, e o uso do athame, bastão, espada, espelho, taça, sino, óleos e pantáculo, dentre diversos outros itens e elementos tradicionais da Magia Cerimonial.

Em sua segunda parte, destinada aos feitiços, o autor salienta que feitiços são ações mágicas direcionadas a objetivos específicos, frutos de desejos pessoais e praticados para o cumprimento dos mesmos. Aqui não existe certo ou errado, e pecado, sem dúvidas, são os outros. Ideias como "Lei do Retorno", "Tríplice" ou similares são conceitos vulgares, e segundo sua concepção, as Artes Negras estão acima disso. A regra é a própria consciência individual. Se você está em paz com seu intento, não há o que temer. A união do seu desejo ao feitiço são provas da sua pureza de intenção, sendo assim, o resultado esperado é simplesmente justo. Com o auxílio da Lua, e suas posições no céu, o momento mais propício para esta ou aquela forma de magia é indicado. Os tipos dividem-se em feitiços para atração, dinheiro, sedução, dominação, amarração, poder, dentre outros.

Por fim, Danilo nos apresenta capítulos destinados a tratar da importância dos números dentro da tradição mágica, e a necessidade de conhecer bem seus significados. Ensina a maneira de produzir círculos mágicos, destacando sua importante função de proteção e projeção das energias que se opera, circundando o magista com os nomes de Lúcifer, Satã, Leviatã e Belial. E finaliza tratando dos Reis e Rainhas da Mão Esquerda, sua descrição, refeições e bebidas preferidas de Abadoon, Beelzebuth, Hecate, Leviatã, Lilith, Mammon, dentre outros.

Este livro cumpre aquilo que promete: é introdutório e essencialmente prático. Possui uma linha de pensamento própria, embora todos os elementos tradicionais sejam encontrados em sua estrutura. Destina-se aqueles que buscam o caminho da magia negra, embora isso não necessariamente represente sempre fazer o mal para outrem. Especialmente se levarmos em consideração que aquilo que é mal para uns, pode ser bem para outros...

por Allan Trindade


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terça-feira, 17 de julho de 2018

Eu era criança quando a irmã do meu pai tinha um terreiro próximo a nossa casa. Minha mãe me avisou cedo que naquela tarde iriamos lá pois era dia de festa. Ao chegarmos tudo já tinha começado. Lembro-me de achar muito estranho o comportamento daqueles adultos vestidos de branco, mas ela me explicara que era gira de erê, e eles estavam com espíritos de crianças mortas no corpo.

Uns tomavam guaraná quente. Alguns brincavam com os presentes que tinham ganhado. Outros conversavam de uma maneira enrolada com os convidados. E tinha ainda aqueles que comiam as formigas do quintal - eu gostava destes em especial. Minha tia, trajada com seus paramentos de Mãe de Santo e com seu jeitão autoritário e de pouco riso de sempre, chegou botando ordem na bagunça. Bateu suas palmas, pediu silêncio a todos e mandou que os incorporados fizessem fila única.

Fiquei na varanda observando tudo. Um dos últimos erês da linha inclinou-se um pouco em minha direção, esfregou as mãos como que as aquecendo, e com uma expressão que era um misto de deboche com um leve semblante diabólico, sussurrou dizendo: " Obaaa! Hoje vou fazer uma macumbinha! "


UMBANDA NÃO É MACUMBA é um livro escrito por Alexandre Cumino, com 155 páginas e publicado no ano de 2016 pela Madras Editora.

Macumba tem sido um termo usado de forma dúbia, tanto por adeptos de algumas religiões brasileiras para designar seus credos e práticas, quanto por aqueles detratores que se apropriaram desta palavra e usam-na de forma pejorativa para ofender os seguidores destas crenças.

A similaridade, a ignorância e o medo, sem dúvidas, contribuem para muitas das problemáticas que envolvem o uso deste vocábulo. Por similaridade destacamos aqueles elementos comuns a maior parte das religiões de influência africana que surgem em solo nacional, que possuem relações com orixás e rituais de necromancia, além de agregarem elementos da cultura e religiosidade indígena.  Por ignorância entendemos a falta de interesse em compreender as diferenças entre estes diversos credos, que é, finalmente nutrida pelo medo de que sejam usados para a prática do mal. É para desfazer o generalismo e traçar as especificidades que Alexandre Cumino nos traz esta obra então.

Esta antologia reúne parte dos textos publicados dentre os anos de 2005 a 2013 no Jornal de Umbanda Sagrada e Revista Espírita de Umbanda,  além de outros exclusivos que aqui foram organizados de modo a dar ao leitor as condições não apenas de entender sua defesa, como para explicar as origens desta religião.

Umbanda não é macumba é o que argumenta o autor. De acordo com Alexandre, Macumba é o nome do instrumento musical de percussão, um tambor, que era utilizado em cultos afro-brasileiros no Rio de Janeiro. A pessoa que tovaca macumba era chamada de macumbeiro; logo, o culto se autodenominou Macumba, assim como sua dança e práticas, como as oferendas. Em geral, eram cultos de origem africana bantu (Angola/Congo/Cabinda), que incluíam rituais realizados nas encruzilhadas, em que sempre se deixavam suas oferendas, entregas e despachos. pg 15

Cumino ressalta que não haveria problema no uso do termo, caso este fosse usado de forma natural, porém, entende que o mesmo é verbalizado, na maior parte das vezes, de forma preconceituosa. Para além disso, o autor nos traz ainda os elementos que compõem a Umbanda e fazem dela uma religião, fundamentada, com origem e doutrina, e distante até mesmo das práticas oriundas das encruzilhadas cariocas.

Nascida em Niterói por intermédio de Zélio Fernandino de Moraes, a Umbanda surgiu através do descontentamento com a forma discriminatória na qual alguns espíritos eram tratados em centros kardecistas, e foi anunciada pelo Caboclo 7 Encruzilhadas, incorporado ao médium, pelos idos de 1908. De caráter e crença cristã, a Umbanda é então declarada como uma religião destinada a prática da caridade, sincrética e arquetípica, gratuita em todos os seus aspectos, que tem como único objetivo ajudar vivos e mortos no caminho do bem.

A partir daquele ponto, sagrava-se como uma crença organizada e doutrinária, com liturgias e ritualística próprias, que indiscutivelmente se distanciava de qualquer outra forma de prática da qual fora também herdeira, ou injustamente associada.

À continuidade do livro, os textos tratam do desenvolvimento da doutrina, discute a participação dos filhos genéticos e de santo de Zélio, e as mudanças e dificuldades que a religião enfrentara no decorrer de seus mais de 100 anos de existência.

Da nossa parte, acreditamos na importância do conhecimento da história e fundamento das religiões, especialmente para aqueles que se dizem pertencentes a algum segmento, ou para aqueles que se pretendam falar sobre. Este título nos traz todos os elementos necessários para a compreensão que de fato há uma distinção entre aquilo que a Umbanda é e aquilo que a Umbanda não é. Entretanto, num contexto onde tanto adeptos quanto escarnecedores fazem uso do mesmo termo para por vezes se referirem a toda esta conjuntura, a palavra macumba, por fim, talvez devesse ser entendida como neutra, dependendo sempre de quem e como a utiliza. 

Mas esta é a nossa opinião, e como não somos umbandistas, embora esta seja também parte da nossa origem e vivência religiosa, tanto por frequência quanto por ascendência, que as palavras finais desta resenha sejam aquelas de quem tem esta religião como prática de vida:

Dizer que Umbanda não é Macumba é muito mais que separar o joio do trigo. Para o leigo, tudo é Macumba e, mesmo para alguns de dentro, Umbanda é Macumba. No entanto, quando alguém fala: "Eu vou à Macumba", não dá para saber se a pessoa vai para o Candomblé, Catimbó, Tambor de Mina, Umbanda ou mesmo Espiritismo. E, por isso, fica muito claro que pode até ser engraçado dizer: "Eu vou à Macumba", mas em momento algum a palavra macumba define Umbanda, e por isso, podemos dizer com certeza que: Umbanda não é Macumba. pg 154/155

por Allan Trindade



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quarta-feira, 14 de março de 2018

De todos os moradores da minha rua, uma velha senhora chamava atenção por seu jeito exótico de se vestir. Com seus prováveis um metro e sessenta de altura, andar lento, vestida permanentemente de preto e com um guarda-chuva de cor igual para protegê-la do sol, destacava-se ao longe a visão de qualquer um que direcionasse o olhar na direção em que estivesse. Seu marido, um velho de aparência absolutamente normal, costumava ficar sentado no portão daquela casinha estranha, e ao me ver, criança que eu era, passava a mão na minha cabeça e dizia com certo sotaque: Olá, Trindade!

Conhecia-os de perto, vez por outra minha mãe me levava lá para rezar a tal da espinhela caída. A casa era pobre, com uma sala repleta de santos católicos, velas, ramos de arruda e uma aura constante de religiosidade. É fato que eu tinha certo medo daquele lugar. Mas a tensão inicial era sempre compensada pelas boas energias de reza que aquela exótica velha cristã humildemente oferecia a todos de graça, se você não pudesse pagar, ou pelo valor que pudesse doar.

O tempo levou um a um. A casa, abandonada e sob escombros, está pouco a pouco sendo tomada pelas plantas. A memória um dia também vai se esvair. Mas a impressão permanece; de que já não se fazem mais bruxas como antigamente...


ARADIA O EVANGELHO DAS BRUXAS é um livro escrito por Charles Godfrey Leland, com 119 páginas, divididas em 15 capítulos, publicado no ano de 2016 pela Madras editora.

Embora esta seja uma edição recente, faz-se necessário posicionar o leitor em sua data original: 1899. Charles Leland, um inveterado pesquisador do tema de Bruxaria, autor de mais de 50 livros, empenhou-se em registrar nesta publicação parte daquela antiga tradição italiana de feitiços e adorações a deuses pagãos.

Stregheria, vocábulo utilizado para referir-se a bruxaria italiana enquanto exercício da feitiçaria ou ofício religioso, define a prática das strege, ou feiticeiras, que segundo o autor, fazem jus a realidade e devaneio atribuídos popularmente ao imaginário da magia, com suas produções e comércio de adivinhações, amuletos, feitiços, que podem ser apontadas como herdeiras de tradições familiares deste contexto.

Segundo Leland, parte da responsabilidade da existência destes homens e mulheres alinhados para com estas artes, seria a própria Igreja Católica, que ao atacá-los, produz um sentimento de atração nas mentes daquelas pessoas mais curiosas, aumentando, desta forma, o número de seus adeptos. Mas deixa claro que não é otimista sobre o futuro de nenhum destes lados, e prediz que tanto a bruxa quanto o padre correm o risco de desaparecer em um futuro próximo.

Baseado nesta perspectiva pessimista, ao conhecer uma senhora adepta de tais práticas, a incumbiu de recolher informações em meio a suas iguais, e usou este conhecimento para a formação deste livro, sob o preço, quem sabe, de nunca mais tê-la visto novamente.

Em poucas palavras, pode-se dizer que a bruxaria é conhecida como la vecchia religione, ou antiga religião, sendo Diana a Deusa e sua filha Aradia (ou Herodias) o Messias feminino, seu nascimento, como desceu à terra e instituiu as bruxas e a bruxaria, retornando então aos céus, são temas apresentados nessa pequena obra. Também fazem parte as cerimônias e invocações ou encantamentos a Diana e Aradia, o exorcismo de Caim e os feitiços da pedra sagrada, da arruda e da verbena que, segundo afirma o texto, integram o que se pode considerar uma celebração religiosa regular, para entoar ou recitar em encontros de bruxas. Além disso, também se incluem os singulares encantamentos ou bênçãos do mel, do trigo ou pão e sal, ou os bolos da refeição das bruxas, curiosamente clássicos, e um nítido vestígio dos Mistérios Romanos.
pg. 9


O parágrafo em destaque resume grande parte do conteúdo, e como complemento podemos dizer que este título parte do princípio que Diana, irmã de Lúcifer, deus do Sol e da Lua, e que fora expulso do Paraíso pelo orgulho de sua beleza, juntou-se a ele e deu a luz a Aradia (Heródias). Todo este ocorrido teria acontecido num tempo onde ricos humilhavam e escravizavam os pobres, e que estes, comumente tinham que fugir para poder garantirem sua sobrevivência. Assim, Diana instruiu Aradia para que descesse a Terra e ensinasse a estes oprimidos as técnicas de bruxaria e envenenamento para serem usadas contra ciganos, judeus e cristãos, seus principais opressores. A partir deste ponto, os capítulos incluem receitas de alimentos, histórias, fetiches e feitiços para os mais diversos fins e são, em grande parte, escritos em formas de versos bilíngues, em italiano e português.

Quando o nobre e o padre disserem que deves crer no Pai, no Filho e em Maria, tua resposta há de ser sempre: Vosso Deus, o Pai e Maria são três demônios...Pois o verdadeiro Deus-Pai não é o vosso: vim para destruir os maus e os destruirei...Vós que sois pobres e de fome sofreis, em miséria labutais e, muitas vezes, sofreis ainda a prisão, tendes também uma alma, e por vossos sofrimentos felizes sereis no outro mundo, e mau destino terão todos os que vos fizerem mal!
pg. 13

Este é um livro de caráter histórico, mas nem por isso menos empírico. Registra práticas de bruxaria italianas oriundas do século XIX, que possivelmente antecedem em muito esta data. É simples e direto. Cumpre de forma objetiva e satisfatória aquilo que propõe.

por Allan Trindade


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sexta-feira, 2 de março de 2018

Ao olhar para as estantes da minha biblioteca, percebi que um título estava desalinhado para com os outros em sequência. Normalmente minha ação seria a de endireitá-lo e tornar a fazer aquilo que estava fazendo. Entretanto, resolvi pegá-lo e abrir uma página a esmo, na qual se lia:

Um círculo de crânios é colocado em volta de mim e quatro espadas são fincadas ao meu redor. Cercado estou pelos Quatro Cruzeiros Negros que regem do fundo da Terra ao Alto do Espaço e imperam o Lado Obscuro dos Quatro Elementos da Criação. Eu clamo no centro desse círculo às Sombras da Sabedoria e da Força cujas cabeças são adornadas com coroas!...Eu levanto a cruz ao Alto e a inverto mostrando ao Inimigo que seu câncer não habita em meu corpo! Coloco minha mão na Terra e que todos os Exus e Pombagiras conectados com Maioral me escutem: se uma flecha em minha direção for lançada, um milhão de flechas negras voltarão em seu lugar! 


Foi suficiente, resolvi lê-lo.

QUIMBANDA Fundamentos e Práticas Ocultas VOL. 01 é um livro escrito por Danilo Coppini, com 200 páginas, publicado no ano de 2015 pela editora Cape Lobo.

Este livro surge como uma continuação aquele publicado primeiramente e já resenhado por nós, chamado Quimbanda O Culto da Chama Vermelha e Preta. Caso não tenha consultado aquela resenha ainda, recomendamos que o faça para um melhor aproveitamento desta. A proposta geral é que esta sequência será complementada ainda por mais dois livros, totalizando um total de quatro publicações, onde o enfoque será dado tanto para a filosofia quanto à prática desta religião.

Em sua introdução, Danilo mais uma vez destaca as diferenças entre a Quimbanda e a Kimbanda, e que este livro, tal qual o templo no qual ele nasce, é fruto de anos de práticas e pesquisas, e que não é destinado para mentes estagnadas uma vez que o dinamismo e a Evolução sejam forças motrizes que direcionam a ação e pensamento de seus eleitos.

Desejamos que os adeptos enxerguem na obra uma bússola que apontará a Luz de Lúcifer expandindo a mente e o espírito para novas práticas. A Quimbanda crê que a evolução individual é o caminho que prezará o que é útil, mudará segundo a necessidade e eliminará o desnecessário. Isso faz parte do fortalecimento do caráter que libertará o adepto dos entraves psíquicos e sociais. pg.6


Para os menos familiarizados com toda a conjuntura religiosa comparativa, alguns pontos expostos no primeiro livro podem ter causado certa ânsia por um maior desenvolvimento. Lá, em muitos pontos da exposição de sua filosofia, há uma constante referência, por vezes subjetiva, a ideias gnósticas que podem deixar os menos acostumados com todo este universo um tanto confusos sobre no quê afinal de contas eles acreditam. Sendo o Gnosticismo um conjunto de ideias historicamente dinâmico e heterogêneo, pensamos que um melhor desenvolvimento sobre este ponto seria bastante proveitoso para todos os interessados em saber mais sobre esta crença. 

Consciente deste ponto ou não, fato é que o autor, já no princípio desta edição, faz questão de dedicar um capítulo inteiro chamado "Exu - Entre o Cosmos e o Caos" destinado a esclarecer seus conceitos sobre estas polaridades, alegando que este último é erroneamente confundido com confusão. Ao destacar a linearidade e oscilação atreladas a cada um destes conceitos,  utiliza-se do conhecimento deixado pelos Iorubás e seus Itan e Orikis, para auxiliar na compreensão da função cósmica e caótica de Exu, assim como as diferenças de ação dos exus da Umbanda e da Quimbanda. É fato ser este capítulo de grande importância e complemento para o progresso do entendimento sobre sua cosmovisão.

Em seguida, fala que a Quimbanda Brasileira desenvolveu-se de diferentes maneiras através do trabalho daqueles que resistiram aos seus ordálios. Sobre a consciência do adepto em saber quando e porquê atacar ou recuar. E destaca a necessidade de compreender seus próprios instintos para usá-los quando necessário, já que a compreensão dos impulsos faz parte do caminho para a libertação destes.

A Natureza da Verdadeira Quimbanda, ao contrário das demais religiões e cultos, não está associada ao desenvolvimento de uma conduta moral e ética refinada e nem é influenciada pelas empenhas do período evolutivo da sociedade humana. Também não é um meio ao qual os adeptos sentirão a satisfação espiritual enquanto estiverem na matéria, pois o intuito da Quimbanda não é gerar satisfação e sim libertação, pois satisfação desprovida de libertação é ilusória. pg.29


O leitor sentirá que cada nova edição tem tornado as análises e o pensamento mais complexos. Aqui, discussões sobre o ego, ID, inconsciente, organização social e ética, e a relação de Exu com todos estes elementos, deixam claro que a evolução do saber fazem parte não apenas de seus objetivos, como serão exigidos daqueles que se pretendam compreender ou preencher suas fileiras.

De forma igual e como característica comum dos escritos do autor, informações históricas são apresentadas sobre o uso de búzios em diversas culturas ao redor do mundo, seu emprego vulgar e mágico, além de ensinar um método específico destas conchas como oráculo para uso pessoal do adepto, assim como também explora o conceito do Plano Astral e os seres que lá residem. Em seu aspecto prático, traz alguns procedimentos de limpeza espiritual, discorre sobre o tema e apresenta um ritual para a libertação do vício em drogas, o significado, função, consagração e uso de Armas Mágicas e uma série de ritos para os mais diversos fins.

Pensamos que o buscador interessado em se aprofundar nesta linha de Quimbanda deva ter em mente que o dinamismo verbalizado e pleiteado por Coppini, e os demais membros deste templo, exposto frequentemente em suas diversas obras, e continuado nesta, exigirá um constante aprofundamento dos estudos não apenas desta vertente em específico, mas do conhecimento esotérico e exotérico em geral. As constantes referências a conceitos ocultos e das ciências vulgares, como aqueles da psicologia, da história, da linguística etc, deixam claro que a preguiça e a ignorância passam longe daqui.

por Allan Trindade



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

orixá
substantivo masculino

religião designação genérica das divindades cultuadas pelos iorubás do Sudoeste da atual Nigéria, e também de Benin e do Norte do Togo, trazidas para o Brasil pelos negros escravizados dessas áreas e aqui incorporadas por outras seitas religiosas [os mitos dão-nos frequentemente como ancestrais divinizados que se transformaram em rios, árvores, pedras etc e que fazem de intermediários entre os homens e as forças naturais e sobrenaturais].
fonteDicionário Houaiss


AS SETE LINHAS DE UMBANDA
é um livro escrito por Rubens Saraceni, publicado pela Madras editora no ano de 2017, com 151 páginas.

É certo que o mundo da religião pode ser considerado tão ou mais vasto que o mundo físico. O número de Deuses, doutrinas, dogmas, interpretações, sistemas, seres, templos, etc certamente alcança somas incontáveis para uma classificação absoluta e precisa. Falamos disso em termos generalistas mas é certo que o mesmo conceito pode ser aplicado para casos específicos com as devidas proporções.

As religiões brasileiras, formadas através de diversos sincretismos e aglutinações oriundas dos mais diferentes povos advindos de diversos continentes, são sempre um exemplo tangível para tudo isso. A macumba, como termo popular e genérico usado para se referir a todo este conjunto nacional, carrega em si uma variedade tão grande de linhas, que apesar de se subdividir em diversas religiões tais como Umbanda, Candomblé e Quimbanda, para citar as mais conhecidas, concebem ainda divisões dentro de cada uma destas religiões, que por fim, não é exagero dizer que cada templo pode representar uma religião diferente. Portanto, é preciso que o buscador entenda que existem formas e formas de se trabalhar dentro de cada uma destas correntes.

Se tal entendimento pode ser usado para definir a religião em si, o mesmo pode ser dito sobre os conceitos existente dentro delas. As Sete Linhas de Umbanda são antes de mais nada uma ideia plural, utilizada e interpretada pelas mais diversas correntes umbandistas, cada qual classificando e elencando os elementos que compõem este setenário de acordo com suas próprias interpretações. Logo, não há uma forma exclusiva de se falar sobre as Sete Linhas, mas a forma como este ou aquele terreiro trata este tema. Sendo assim, que fique claro para o leitor que este livro não se propõe a tratar de todas as variantes existentes dentro deste conjunto, nem tampouco se preocupa em traçar a história de todo este desenvolvimento, mas lida exclusivamente com a interpretação e classificação do autor sobre tudo isso.

Mas calma, vamos começar do começo. Saraceni inicia o livro alertando ao leitor que as exposições apresentadas são fruto de sua experiência no campo espiritual e que existem mistérios que não podem ser revelados. Partindo desta premissa, propõe-se a esclarecer que apesar da multiplicidade de nomes que possam, e são atrelados, aos diversos tipos de Umbanda, em essência, todas bebem da mesma fonte: os Orixás. As qualidades relacionadas a estas denominações servem apenas para destacar alguma característica de trabalho específica com o qual aquele Centro decide trabalhar. Por exemplo: na Umbanda Astrológica há apenas uma particularização do trabalho dos Orixás com correspondências astrológicas, o mesmo para a cabalística, a qual vai relacionar os mesmos a conceitos cabalísticos, assim como a numerológica, sincrética, etc todas tendo como base o mesmo mistério: os Orixás.

Estes, correlacionados a elementos formadores da criação, são apresentados aqui como pertencentes a um conjunto denominado de Setenário Sagrado, essências oriundas do incriado Olorum, a fonte primordial. As sete emanações formadoras da Coroa Divina regente do nosso planeta, também referida como Sete Linhas de Umbanda formadoras da natureza, são então classificadas como: 


1° Essência Cristalina - Fé - Oxalá
2° Essência Mineral - Amor - Oxum
3° Essência Vegetal - Conhecimento - Oxossi
4° Essência Ígnea - Justiça - Xangô
5° Essência Aérea - Lei - Ogum
6° Essência Telúrica - Evolução - Obaluaiê
7° Essência Aquática - Geração(Vida) - Iemanjá


Perceba então que a essência indica uma manifestação física, que está atrelada a um conceito vibracional que são regidos por um Orixá. Logo, se entendermos que a quarta essência, ígnea, representa o fogo, este está relacionado ao conceito da Justiça e ambos são governados por Xangô.

À continuidade, Rubens destaca a correspondência do número sete encontrado em diversos sistemas exotéricos e esotéricos, tais como sete raios, sete chakras, sete virtudes, etc, que nós, seres humanos, recebemos estas vibrações constantemente e que todas as tentativas de classificação destes mistérios, apesar de funcionais sob certos aspectos, são tolices, uma vez que partem de baixo para cima, e os Orixás, como forças descendentes, são incompreensíveis em sua verdadeira essência. Entretanto, apesar de considerar que as classificações não sejam tão positivas, alega que nossas ações refletem-se nestas mesmas energias primordiais, fazendo com que haja uma troca constante de influenciador para influenciado e de influenciado para influenciador.

A partir deste ponto os capítulos passam a ser encabeçados com reverências a Li-Mahi-Am-Seri-yê, também referido como Grande Mago do Raio da Luz Cristalina, e tudo começa a ficar muito confuso. A palavra Orixá passa então a ser usada de forma indiscriminada para classificar toda uma categoria de seres em processo de influência ou evolução, que apesar de ditos como tendo funções diferentes, acabam por parecer serem sempre os mesmos: Orixás Ancestrais, Orixás Naturais, Orixás Dimensionais, Orixás Encantados, Orixás Mistos, Orixás Auxiliares, Orixás Tronos, Orixás Bielementais etc etc etc. 

Veja que aqui não queremos dizer que através da correspondência, tradução esotérica e um certo esforço, não possamos entender o significado de todos estes grupos que o autor se refere, mas que a linguagem e método usados por ele dificulta a compreensão. Por exemplo, no capítulo em que trata de Orixás Dimensionais, diz que ao desencarnar, os espíritos vão para um plano de existência chamado de faixa energo-magnética, matéria-espírito ou plano-misto, o que nos parecem apenas mais nomes complicados para o Plano Astral. 

Não obstante, o livro é abarrotado de tabelas infindáveis e deveras confusas, que tentam explicar todas as relações, correspondências, vibrações, polaridades, etc, etc, etc de tudo aquilo que, apesar das ditas diferenças, vai sempre ser referido como Orixás e justificado como mistérios, e que portanto, não cabe mesmo a nós a compreensão de tudo isso...por fim, fala sobre Exu e exus, distinções e origens, entidades e seus trabalhos na Umbanda.

Que fique claro que não estamos questionando a validade do sistema, mas a forma confusa com a qual ele é apresentado.

As Sete Linhas de Umbanda é um livro que tem um começo interessante, esbarra em certo proselitismo em alguns momentos, é evasivo em tantos outros ao dizer que a compreensão humana é limitada ou que nem tudo pode ser revelado, perde-se em uma confusão repetitiva, cansativa e pouco didática no meio do caminho, mas retoma o senso em seus últimos capítulos...

...o pouco que se aproveita pode ser encontrado em outras publicações, a maior parte, que é aquilo que sobra, não vale o investimento.

por Allan Trindade

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


Há cerca de um ano atrás publicamos pela primeira vez uma resenha falando sobre o Livro de São Cipriano. Nossos canais - blog e youtube - ainda tinham pouquíssimos inscritos e os acessos também não eram tão consideráveis em termos numéricos. Perfeitamente entendível uma vez que o tema ocultismo - tratado como estudo e não como entretenimento - não seja o preferido da maioria da população e que religião costume ser referida por muitos como algo que simplesmente não se discute. Entretanto, ao trazer a público as análises sobre os escritos atribuídos ao famigerado Bruxo Mais Poderoso de Todos os Tempos, vimos um exponencial e inesperado crescimento. Em poucas semanas dezenas de acessos se tornaram centenas, centenas se transformaram em milhares, e hoje já passamos da marca de oitenta mil acessos. Nos surpreendemos.

Nos surpreendemos pois não esperávamos uma aceitação positiva sobre um personagem que mexe tanto com o imaginário e religiosidade popular. Não esperávamos que uma análise crítica, uma resenha, que questiona não apenas a autoria dos livros atribuídos ao Santo Bruxo, como a própria existência de São Cipriano, fosse ser tão bem recebida pela maioria. Desde então, foram várias as mensagens com elogios e agradecimentos pelo trabalho apresentado, as quais só temos, igualmente, a agradecer. Entretanto, muitas também foram as dúvidas, como por exemplo,  sobre como confiar então nos livros existentes atribuídos a figura deste bruxo, ou ainda qual seria o livro verdadeiro, e no que, ou em quais, poderiam acreditar ?

Pensávamos não haver uma pesquisa objetiva que pudesse nos tirar do campo da especulação e que mostrasse se de fato São Cipriano fora real ou não. Pensávamos que não haveria como responder se existem fontes primárias, reunidas por algum pesquisador sério, que atestem ou contestem os textos modernos destes grimórios. Pensávamos que ninguém tinha se dedicado a apresentar ao grande público uma análise comparativa e aprofundada sobre a história e os feitiços do Bruxo mais popular do Brasil e de Portugal. Pensávamos, mas para nossa grata surpresa, estávamos enganados.

THESAURUS MAGICUS II é um livro escrito por Humberto Maggi, publicado pelo Clube de Autores no ano de 2016, com 625 páginas divididas em 10 capítulos.

Este título é uma espécie de antologia, ou seja, uma organização de diversos escritos atribuídos a figura de São Cipriano, reunidos aqui com um objetivo duplo: servir ao pesquisador que tenha interesse em analisar diferentes capítulos dos livros do Bruxo, ou ao praticante que tenha dúvidas sobre a completude estrutural de algum ritual ou texto específico.

Em seu prefácio, chamado São Cipriano, o Escrivão do Diabo, Nicholaj de Mattos Frisvold se ocupa em fazer um apanhado geral sobre a história do Feiticeiro, possíveis relações com a Quimbanda e os diversos grimórios atribuídos a ele em cerca de 500 anos de fatos e lendas. Em seguida, Felix Vicente fala sobre a figura do Santo, o surgimento dos livros e sua relação com o autor desta obra, num resumo histórico e impecável que por si só já valeria a leitura. 

Em seguida, Humberto Maggi fala dos primeiros contatos que teve com os livros de Cipriano, sua decepção com o conteúdo dos mesmos, e o reacendimento do interesse por todo este contexto em 2008, graças aos questionamentos de uma amiga. Em toda esta primeira parte do livro, o autor se dedica a explicar as razões para a existência dos diversos grimórios atribuídos ao Santo, além de apresentar exemplos comparativos com outros livros que podem ter influenciado a existência destes  e análises sobre processos inquisitórios nos quais o livro fora citado. 

Sobre sua organização, Maggi nos explica que 


As partes centrais desta edição vem da versão Portuguesa publicada pela Livraria Econômica e das versões Espanholas do Heptameron, Sufurino e das seções originais do livro de Enediel Shaiah. A essas, muitos textos, trechos, capítulos, feitiços, invocações, etc. associados na tradição mágica ao nome de São Cipriano foram adicionados. A intenção é prover o leitor com uma vasta e significativa coleção de materiais diversos diretamente relacionados à Magia Ciprianica.

Eu organizei o material de acordo com o assunto contido em cada texto. Isto significa, ao invés de simplesmente copiar os livros originais por inteiro, eu dividi seus conteúdos em seções separadas. 


Sendo assim, as seções organizadas pelo autor dividem-se em:


A Origem do Livro 
onde apresenta uma seleção de lendas diversas atribuídas ao seu surgimento.

Vita Cypriani 
onde estão incluídos os contos sobre a vida do Bruxo.

A Arte Mágica 
com instruções sobre rituais: locais mais apropriados para executá-los, qualidades essenciais para o êxito nos feitiços e Armas mágicas.

Talismãs e Amuletos 
com funções e como produzir estes objetos.

O Livro dos Espíritos 
apresentando listas de hierarquias celestes, infernais e elementais, além de conceitos filosóficos sobre estes.

As Preces de São Cipriano 
com orações para as horas, santos, doentes, incluindo aqui a Cabra Preta. 

Os Exorcismos 
com orações e rezas dedicadas a esta prática, além de explicações e listas sobre demônios e almas e as razões para Deus permitir sua ação sobre os viventes.

Tesouros Mágicos 
sobre o uso de forquilhas e varinhas e onde reúne as listas de supostos tesouros enterrados em certos locais do contexto ibérico.

Segredos Mágicos 
onde apresenta receitas e fórmulas de feitiços, para os fins mais diversos, contendo a clássica característica existente em praticamente todas as edições destes livros: a forte presença de sacrifícios de animais.


Através desta organização, nos parece claro para o leitor interessado, que esta obra atende aos anseios de todos aqueles que justamente buscam pelo livro original. Aqui, livros de diferentes épocas e origens estão reunidos e organizados num ótimo tomo, separados por capítulos em comum, que facilitarão o estudo e responderão as clássicas perguntas sobre as verdades e as mentiras envolvendo a vida, a morte e os feitos do Bruxo. 

É leitura obrigatória sobre o tema para qualquer um verdadeiramente empenhado em saber sobre os detalhes históricos da criação deste Cipriano tão conhecido em terras latinas, já que desmistifica as crendices populares, apresentando as razões para o argumento de que muitas destas histórias não passam de lendas, e todo conteúdo possível para provar isto, sem entretanto ser um livro apenas teórico. Em sua primeira parte são apresentados os argumentos científicos, em sua segunda parte estão reunidos os textos tradicionais, atendendo tanto ao leigo, interessado apenas na prática, quanto ao pesquisador, inclinado ao conhecimento. Duvidamos que haja trabalho mais completo que este publicado até a presente data.

Este livro, Thesaurus Magicus II, grande no número de páginas e profundo em seu conteúdo, desbanca o senso comum e não deixa dúvidas de que aqui tamanho é documento!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017


Lembro-me claramente de quando era criança, nas rodas de conversa dos adultos, quando o assunto era religião, um tema sempre era tabu: Quimbanda! Os que nada sabiam, diziam, temiam saber, os que pouco sabiam, ficavam receosos em saber mais...e quase sempre o diálogo se encerrava com a mesma velocidade com que se iniciava, com a clássica 'é melhor não falarmos disso'.



O clima de mistério e obscurantismo imperava, e era preciso mudar o rumo da prosa para 'algo mais leve'. Criança que era não podia ser eu aquele que obrigaria os mais velhos a me dizerem as coisas que sabiam, pois era fato, curiosidade eu tinha de sobra. E tampouco poderia, naquela época, considerar de que maneiras obteria o conhecimento necessário sobre o assunto. 



A mim era legado o 'direito' de frequentar o catecismo, a missa e os batismos católicos durante o dia, e as giras de erês, caboclos e pretos-velhos de Umbanda à tarde. Mas eram os mistérios da noite que ano após ano clamavam o viço da minha juventude. As extravagâncias de vestidos, ternos, tridentes e capas, os fumos, as bebidas, o deboche e as gargalhadas, os atabaques, os pontos cantados e a sensualidade, tinham uma incrível capacidade de transformar um ambiente tranquilo e neutro, numa corrente de força e vigor, que até a mais medíocre das pessoas quando incorporada, ganhava uma aura tão grande de sensualidade e atração, medo e repulsão, que ao término de tudo aquilo, você estaria desejando entregar-se nos braços de algum Malandro ou Pomba Gira, ou estaria implorando para que o Deus de Israel te livrasse daquele inferno



Curiosamente meus familiares e amigos nunca se referiram a gira do povo de rua dentro da Umbanda, como Quimbanda...mas como festa. E que festa! Para eles, que não tinham um conhecimento profundo sobre o assunto, Quimbanda nunca foi um evento esporádico, com data e horas marcadas, mas uma outra religião, que concentrando em si o poder de Exu, deveria ser tratada com ainda mais cautela e respeito, mas jamais com indiferença!



QUIMBANDA - O Culto da Chama Vermelha e Preta é um livro escrito por Danilo Coppini, com 563 páginas, divididas em 8 capítulos, publicado no ano de 2014, pela editora Cape Lobo.



Este livro surge dentro de uma conjuntura própria, mais especificamente através do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, e é fruto da pesquisa e experiência não apenas de seu autor, mas também dos outros adeptos que comungam do mesmo credo. Originalmente vendido como tiragem única, porém em sua segunda edição até a presente data, tem a intenção de informar a todos os interessados não apenas as interpretações do culto dadas especificamente por este segmento, como também de esclarecer muitos aspectos confusos e mitificados que pairam o imaginário popular sobre esta religião. 

Os grandes objetivos desse livro consistem em despertar e 'quebrar grilhões'...A quebra de 'grilhões'visa retirar o poder mítico da mão de certos manipuladores que inventam coisas sem vivenciá-las. pg.9



O autor faz questão de deixar claro que a Quimbanda não é uma gira e nem mesmo uma contraparte, ou ainda a Mão Esquerda da Umbanda - religião cristã atribuída a Zélio Fernandino de Moraes, iniciada por volta do ano de 1908, e que tem na crença de muitos de seus adeptos a ideia de que os eguns evocados são espíritos errantes, que precisam trabalhar em nome da caridade para edificar uma vida espiritual pura, em função de pagar pelos pecados que cometeram em vida. Segundo Coppini, a Quimbanda Brasileira é uma outra religião, completa e independente, com sua própria cosmovisão e objetivos místicos, que em nada se assemelham a este entendimento sobre os exus:


 Que nos desculpem os Umbandistas que creem nessa falácia, mas a Quimbanda é um Culto Religioso desprovido de dupla via, ou seja, não existe divisão entre bem ou mal, direita ou esquerda, céu e inferno. A Quimbanda Brasileira é a arte de evocar ou invocar espíritos dos mortos que ascenderam através dos Conhecimentos Esotéricos Ocultos e burlaram a Lei de Reencarnação...pg.11



E que as acusações populares sobre este ser um culto de Magia Negra, não estão totalmente erradas, 

pois se partirmos do pressuposto que a Magia Negra é o conjunto de práticas imersas na ciência da corrupção, os entendimentos se alinham. Porém, a Magia da Quimbanda não consiste em apenas praticar atos nocivos, pois para nós o ato de destruir estruturas que atrapalham o desenvolvimento e a evolução dos adeptos e de todos os que procuram os feiticeiros dessa arte é fundamental. A doença, a solidão, o desespero, a violência, os acidentes, a depressão, a raiva, o desinteresse, os caminhos fechados e os problemas sentimentais são 'armadilhas' que o Sistema Vigente regido pelo Falso Deus nos impõe para que continuemos alimentando as correntes energéticas escravistas através da nossa fé e das nossas ações. Dessa forma, ao trabalharmos para retirarmos essa pressão estamos combatendo e agindo contra as barreiras impostas, como entraves desse Sistema. pg.11



O livro inicia-se dando ao leitor uma visão geral sobre toda a conjuntura da religião. Alguns elementos como palavras e até mesmo ideias, podem parecer confusos ao novato, mas o desenvolvimento do livro se dá de forma gradativa e organizada, adicionando a cada conhecimento exposto em seu princípio, novas informações, beirando o estilo acadêmico pela qualidade da pesquisa histórica e etimológica, e a imparcialidade da exposição dos temas, deixando sempre claras as diferenças entre aquilo que se tem através de fundamento científico, daquilo que se assume por opção e convicção religiosa.



Ainda em seu princípio, o autor fala da fusão étno-cultural constituinte desta nossa nação, sobre o comércio de escravos pretos e das tribos trazidas para cá, dos brancos e a interferência cristã sobre estes povos, e explana de forma incomum, a participação dos vermelhos (indígenas) não só para a construção da sociedade brasileira como consequentemente das novas formas religiosas que se desenvolviam. Destacamos aqui este tipo de informação, pois infelizmente são muitos os ignorantes que ainda acreditam que as senzalas eram ocupadas apenas por pretos, quando em verdade, vermelhos também foram escravizados e tiveram participação igual e fundamental na formação da cultura e religiosidade do Brasil.



A construção do imaginário sobre o Diabo é desenvolvida em meio a todo este contexto, e são expostas as correlações existentes entre as ideias de pecado cristãs, fundamentalmente relacionadas ao sexo, e aos cultos à sexualidade e ao pênis encontrados nas culturas pagãs africanas e americanas, dando margem então para a fusão do Inimigo cristão, para com Exu, o Orixá.

De todos os Deuses africanos (para os sacerdotes cristãos todos eram formas atrasadas), destacou-se Èsú. Esse Deus de origem Yorubá é o princípio da comunicação entre o Àiyè (astral) e o Òrum (material) dos homens e dos deuses. Simboliza o crescimento, a mudança e a força dinâmica de toda criação. ... Sangue de sacrifício, pessoas de pele negra, ambiente selvagem e por vezes hostil, nudismo, falta de concepção de pecado e um Deus fálico que regula toda essa força. Resultado: Èsú era o Príapo africano; uma das formas de Satanás e seus anjos caídos e, consequentemente, o ódio, maldade e perversidade que iam de encontro ao 'misericordioso deus cristita'. pg.19



O passar dos anos faria com que o encontro de todos estes diferentes conceitos, e a concentração de toda esta conjuntura energética, originassem as destemidas legiões daqueles espíritos revoltados que governados pela força de um líder, fariam oposição à concepção religiosa dominante, e Maioral do alto de seu trono, organizaria seus reinos.


Maioral é a quintessência de muitos seres unificados que lutam para extinguir as formas de aprisionamento da psique humana dos que o buscam, como o ódio, a paixão, a ilusão, a soberba material, a cobiça desenfreada e a luxúria, todavia, alimenta as fornalhas qliphóticas que incendeiam a alma dos moribundos cegos e limitados...Maioral são todos os antigos deuses fundidos na chama de Lúcifer! pg 63


Sincretizado a imagem de Baphomet eternizada pelas mãos de Eliphas Levi em seu Dogma e Ritual de Alta Magia, Maioral ou o Grande Dragão Negro, como também é por vezes referido, é o Ser Supremo para os adeptos da Quimbanda Brasileira, e aqui, Orixás não são cultuados.

Quando V.S. desejou, começou separar esses espíritos por afinidade. Maioral enxergou na ancestralidade africana a força apropriada para edificar um culto próprio. Dessa forma, aproveitando-se de todo contexto histórico e político que essa terra vivia, nasceu, de um nome incompreendido, uma das religiões mais temidas da Terra: A Quimbanda. pg33

Como “Reinos”, nos explica o autor, definem-se aqueles locais presentes no Plano Astral, subordinados a um imperador. Sendo assim, os exus destacados por seu poder de persuasão, guerra, domínio e força, são considerados reis destes locais que são divididos em número de sete: o Reino das Encruzilhadas, dos Cruzeiros, das Matas, dos Cemitérios, das Almas, da Lira e da Praia.



Os espíritos dos mortos reúnem-se e dividem-se por afinidade nestes ambientes. Desta forma, entende-se que toda a pluralidade de nomes de exus e pombagiras não se dá de maneira arbitrária, sem qualquer critério ou por escolha pessoal, mas por fundamento esotérico. Com histórias, características, personalidades, gostos e pontos próprios, o livro estende-se longamente na explanação de cada um destes elementos, sobre cada um destes seres. Neste segundo conjunto de capítulos, de característica mais prática, você aprenderá não apenas como agradar algum exu, como saberá qual ponto cantar, quais rituais praticar. Como jogar búzios para situações específicas, feitiços, pontos riscados, banhos, orações e rezas para fins diversos. 



A história do Brasil, a formação do povo brasileiro, e a progressão religio-cultural se fundem de forma absolutamente harmoniosa à história da Quimbanda exposta pelo autor. Não apenas pelos ingredientes que compõem esta mistura, mas também pela maneira com que tudo se dá. Há uma insistência recorrente nas palavras de Danilo para que não haja dúvidas de que esta não é uma religião estagnada. Aqui tudo se move, e tudo precisa estar em constante movimento. A energia dinâmica de Exu encontra livre correspondência com as entidades que receberam seu nome, e não por menos, pois mesmo que não necessariamente tenham as mesmas atribuições que este Deus-Orixá possua em sua completude, aqui todos são respeitados sem qualquer demérito ou depreciação.



Coppini é excepcional em sua abordagem histórica e no curso de seu título para expor todos aqueles elementos que compõem esta religião. Porém, o conhecimento esotérico do autor, visível para qualquer ocultista mais experiente, pode não ser tão aparente e confundir em alguns momentos os novatos. A referência a conceitos gnósticos, vias atuais expressas através de suas “correntes numéricas”, e a falta de comparativos sobre o que dizem as outras linhas de Quimbanda sobre as ideias expostas neste título e vice versa, podem deixar os recém-chegados com certas questões em aberto, mas, uma vez que haja a promessa de que outros livros sobre o tema sejam publicados em breve, talvez tais dúvidas sejam futuramente sanadas.



Recordando-me dos meus tempos de infância, penso ter valido a pena a espera para minhas questões sobre esta religião. Não por considerar que as exposições neste título sejam definitivas e absolutistas sobre o que seja a Quimbanda, mas pela satisfação de ter em mãos uma obra com alta qualidade didática, produzida por quem sem proselitismo - e independentemente do que os outros digam sobre seus próprios cultos - entende daquilo que pratica e fala.



por Allan Trindade


quarta-feira, 6 de julho de 2016

- Que capa bonita! Comprou? Que livro é esse?
- São Cipriano, te disse que ia comprar.
- Nossa! Não vou nem abrir!
- Por quê?
- Dizem que se abrir tem que ler até o final...

O primeiro contato que tive com esse livro foi há muitos anos atrás. Uma cópia velha e maltrapilha que uma amiga havia me emprestado. Já naquele tempo o alerta havia sido dado: "Este livro é muito perigoso! Não é bom deixar ele em casa! Estou te emprestando mas nem deveria! Cuidado com a oração da Cabra Preta!" Tantas exclamações até me impressionaram na época: eu, um adolescente recém saído das amarras do Cristianismo que ainda trazia nas costas o peso da cruz do Deus de Nazaré que a Igreja de Roma havia jogado sobre meus ombros: pecado, culpa, temor e sectarismo eram meus estigmas. E por que diabos estaria interessado em ler o livro de um santo justamente naquele momento? Não era interesse, era curiosidade. Quem sabe o grande-bruxo-são-capa-preta-Cipriano, tivesse algo de interessante a me ensinar.

Seu aspecto usado e sujo unido a todo aquele sensacionalismo, mexeriam com o ceticismo de quase todo ser vivente deste planeta...ou ao menos aqueles que, de uma maneira ou de outra, possuem o mínimo de fé. Resolvi encarar o desafio. Entre "hocus pocus" mirabolantes, sapos com bocas costuradas dentro de cemitérios, drinks de sangue puro de cabras brancas virgens, diabinhos criados de ovos de galinha e sêmen, rituais para invisibilidade, centenas de outros tantos para trazer a pessoa amada a seus pés, orações para Jesus, Maria e José e orgias com bodes, por fim, nem mesmo o viço da minha adolescência ele fora capaz de despertar. Vi-me quase totalmente desinteressado por tudo aquilo: não tinha a menor intenção de cozinhar um gato preto até que sua carne se desprendesse de seus ossos, nem tampouco enfiar favas no ânus de cachorros. Li e devolvi o livro maldito.

Mais de uma década se passou. Não morri. Ele reapareceu, numa forma muito mais bonita, com capa dura, intacto e aos montes na estante de uma livraria. E onde quer que fosse, o via, sempre em duas versões: Prata e Preta. Talvez fosse um sinal. Resolvi comprá-lo. Desta vez eu mesmo fui atrás dos alertas. Eles aumentaram e se tornaram ainda mais "assustadores". Pragas de maldições eternas, morte de parentes, casas incendiadas, e relatos dos mais cinematográficos, encontrados na boca de cada um que tinha no seu ouvido a pergunta: você conhece o livro de São Cipriano?

Eu, em minha arrogância, ri da maioria deles. Vide minha experiência do passado, nunca imaginei que dessa vez, algo pudesse me acontecer ao ler esse livro...mas eu estava enganado...

São Cipriano - Capa Preta é um título publicado pela editora Pallas, no ano de 2014, com 448 páginas, 13 capítulos e possui sua autoria atribuída a Cipriano, o Bruxo.

As origens deste livro se perdem nos meandros da história, e tampouco parece haver algum  estudo - interesse - realmente aprofundado sobre suas raízes, por parte daqueles que são empenhados na pesquisa exotérica ou ocultista. Uma possível explicação para isso talvez se dê pelo fato de que este grimório passou tanto tempo nas mãos de pessoas ignorantes, e foi possivelmente incluído e modificado tantas vezes, que se torna quase impossível distinguir o que lhe é original, daquilo que não passa de cultura popular.


Neste caso em específico, o mesmo é iniciado com uma introdução - não assinada - que se pretende distinguir a figura de Cipriano o santo, do bruxo. Nada que de fato vai  lhe instruir sobre tais diferenciações "históricas", mas ao menos lhe dará um direcionamento neste sentido. Tal esforço parece não ajudar muito à continuidade de sua biografia, já que logo em seguida, o livro nos traz diversos relatos que misturam a figura de um Cipriano pagão, com a de um Cipriano arrependido e convertido, por diversas vezes, em diversos momentos, por diversos motivos, ao Cristianismo, que por fim, parecem indicar que Cipriano bruxo ou santo, são um só.


O cerne da maioria destas histórias resumem-se a um motivo único: o desejo por mulheres
impossíveis, que pela força de sua fé, raramente sucumbem aos feitiços do bruxo. Em observação a
esta resistência, Cipriano sempre questiona ao "Demônio"sobre os motivos para a falha de seus
encantamentos. Este, por sua vez, explica que os poderes do Deus de Israel são muito superiores aos seus, e que a potência da crença destas mulheres as protege de qualquer mal. Proselitismo é pouco
para definir...


Tanta confusão não deve impressionar aos leitores com maior nível cultural e senso crítico mais apurado; não há dúvidas, nenhum dos relatos sobre sua existência e atuação são confiáveis e verossímeis. Contradições, histórias repetidas contadas por diferentes motivos e com diversos finais são uma constante neste livro. E ele vai além. O título contém uma série de imagens que supostamente ilustram cenas de sua vida, e signos diversos, atribuídos de forma direta e indireta ao Bruxo. E não é difícil encontrar descrições absurdas sobre certos símbolos e até mesmo erros primários da posição de selos.


A nível ilustrativo, encontramos na página 223 um pantáculo de Vênus, apresentado de ponta cabeça, e descrito como sendo de uso comum de feiticeiros egípcios, que "não realizam trabalhos sem o traçado mágico que o desenho mostra."

Em minhas pesquisas sobre o que as pessoas dizem sobre o Capa Preta, encontrei uma forte crença não só em poderes pseudo emanados do livro, como a ideia de que o título fora escrito de próprio punho pelo feiticeiro. Não se iluda. Cipriano é dito como tendo vivido no século III e na página 186, descrições sobre o que fazer em caso de ser pego praticando magia pela Inquisição Católica, sugerem então uma data que giraria em torno da Idade Média, mas que ainda assim não seria contemporânea a pseudo existência do bruxo, ou do santo. Desta forma, como poderia ter sido ele o escritor da obra?

A edição ainda traz alusões contemporâneas. Um desses casos é dada ao livro "Magus" na página 243, de Francis Barrett publicado no ano de 1801; a Eliphas Levi, famoso ocultista francês também do século XIX na página 187; e não obstante, ao LSD, substância química isolada apenas no século
XX, na página 231. Se muito, o título não passa de uma antologia, que pratica os moldes dos antigos métodos de publicação de livros; o uso do nome de alguma figura de forte apelo popular, para dar credibilidade a obra e alavancar vendas.

O título é essencialmente cristão e brinca com um forte apelo a conversão ao Deus de Israel na mesma medida que ensina como fazer pactos com o Demônio. Magia negra e rituais de ataque e amarração são uma constante, e a não ser que você esteja realmente disposto a sujar suas mãos com sangue - em muitos casos literalmente - o livro não lhe será muito útil.  Seus rituais simples por sua estrutura, e complexos por seus ingredientes, são sem dúvidas um diferencial se comparados a sistemas e grimórios mais Tradicionais, usados por ocultistas com uma tendência mais teúrgica. Entretanto, todo este cenário parece preencher exatamente as descrições cinematográficas de bruxos e bruxas que supostamente se reuniam em sabás para adorar bodes, praticar orgias e assassinar crianças.

A nível prático, nele você encontrará três perspectivas possíveis: a de usar este grimório apenas para um fim exclusivo, como para amarrar uma pessoa amada, por exemplo; a de se tornar um feiticeiro seguindo um guia prático de feitiços, para fins diversos; ou conforme ensinado em seu apêndice, poderá iniciar e ser iniciado em rituais de magia negra, para se tornar um bruxo e em seguida, alto sacerdote, conforme descrito em seu conteúdo.

São Cipriano - Capa Preta une histórias à feitiços, exorcismos em latim à receitas diversas de poções e magias, além de sugerir que o feiticeiro, além de santo era também alquimista e cartomante. É recomendado para todos aqueles que tem interesse por ocultismo, não apenas pelo seu aspecto prático, mas também "histórico". Possui um ótimo acabamento editorial e é digno de fazer parte da biblioteca de qualquer estudioso sério.

Mas não espere por nada além de uma bela edição de capa dura e letras douradas: sua casa não vai pegar fogo, você não vai morrer por ter comprado este livro, e nem tampouco a cabra preta vai puxar seu pé a noite...mas é possível que o conteúdo do livro tenha o poder de fazer com você o mesmo que fez comigo: me deu sono!


                                                                                                                             por
Allan Trindade
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