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sexta-feira, 2 de março de 2018

Ao olhar para as estantes da minha biblioteca, percebi que um título estava desalinhado para com os outros em sequência. Normalmente minha ação seria a de endireitá-lo e tornar a fazer aquilo que estava fazendo. Entretanto, resolvi pegá-lo e abrir uma página a esmo, na qual se lia:

Um círculo de crânios é colocado em volta de mim e quatro espadas são fincadas ao meu redor. Cercado estou pelos Quatro Cruzeiros Negros que regem do fundo da Terra ao Alto do Espaço e imperam o Lado Obscuro dos Quatro Elementos da Criação. Eu clamo no centro desse círculo às Sombras da Sabedoria e da Força cujas cabeças são adornadas com coroas!...Eu levanto a cruz ao Alto e a inverto mostrando ao Inimigo que seu câncer não habita em meu corpo! Coloco minha mão na Terra e que todos os Exus e Pombagiras conectados com Maioral me escutem: se uma flecha em minha direção for lançada, um milhão de flechas negras voltarão em seu lugar! 


Foi suficiente, resolvi lê-lo.

QUIMBANDA Fundamentos e Práticas Ocultas VOL. 01 é um livro escrito por Danilo Coppini, com 200 páginas, publicado no ano de 2015 pela editora Cape Lobo.

Este livro surge como uma continuação aquele publicado primeiramente e já resenhado por nós, chamado Quimbanda O Culto da Chama Vermelha e Preta. Caso não tenha consultado aquela resenha ainda, recomendamos que o faça para um melhor aproveitamento desta. A proposta geral é que esta sequência será complementada ainda por mais dois livros, totalizando um total de quatro publicações, onde o enfoque será dado tanto para a filosofia quanto à prática desta religião.

Em sua introdução, Danilo mais uma vez destaca as diferenças entre a Quimbanda e a Kimbanda, e que este livro, tal qual o templo no qual ele nasce, é fruto de anos de práticas e pesquisas, e que não é destinado para mentes estagnadas uma vez que o dinamismo e a Evolução sejam forças motrizes que direcionam a ação e pensamento de seus eleitos.

Desejamos que os adeptos enxerguem na obra uma bússola que apontará a Luz de Lúcifer expandindo a mente e o espírito para novas práticas. A Quimbanda crê que a evolução individual é o caminho que prezará o que é útil, mudará segundo a necessidade e eliminará o desnecessário. Isso faz parte do fortalecimento do caráter que libertará o adepto dos entraves psíquicos e sociais. pg.6


Para os menos familiarizados com toda a conjuntura religiosa comparativa, alguns pontos expostos no primeiro livro podem ter causado certa ânsia por um maior desenvolvimento. Lá, em muitos pontos da exposição de sua filosofia, há uma constante referência, por vezes subjetiva, a ideias gnósticas que podem deixar os menos acostumados com todo este universo um tanto confusos sobre no quê afinal de contas eles acreditam. Sendo o Gnosticismo um conjunto de ideias historicamente dinâmico e heterogêneo, pensamos que um melhor desenvolvimento sobre este ponto seria bastante proveitoso para todos os interessados em saber mais sobre esta crença. 

Consciente deste ponto ou não, fato é que o autor, já no princípio desta edição, faz questão de dedicar um capítulo inteiro chamado "Exu - Entre o Cosmos e o Caos" destinado a esclarecer seus conceitos sobre estas polaridades, alegando que este último é erroneamente confundido com confusão. Ao destacar a linearidade e oscilação atreladas a cada um destes conceitos,  utiliza-se do conhecimento deixado pelos Iorubás e seus Itan e Orikis, para auxiliar na compreensão da função cósmica e caótica de Exu, assim como as diferenças de ação dos exus da Umbanda e da Quimbanda. É fato ser este capítulo de grande importância e complemento para o progresso do entendimento sobre sua cosmovisão.

Em seguida, fala que a Quimbanda Brasileira desenvolveu-se de diferentes maneiras através do trabalho daqueles que resistiram aos seus ordálios. Sobre a consciência do adepto em saber quando e porquê atacar ou recuar. E destaca a necessidade de compreender seus próprios instintos para usá-los quando necessário, já que a compreensão dos impulsos faz parte do caminho para a libertação destes.

A Natureza da Verdadeira Quimbanda, ao contrário das demais religiões e cultos, não está associada ao desenvolvimento de uma conduta moral e ética refinada e nem é influenciada pelas empenhas do período evolutivo da sociedade humana. Também não é um meio ao qual os adeptos sentirão a satisfação espiritual enquanto estiverem na matéria, pois o intuito da Quimbanda não é gerar satisfação e sim libertação, pois satisfação desprovida de libertação é ilusória. pg.29


O leitor sentirá que cada nova edição tem tornado as análises e o pensamento mais complexos. Aqui, discussões sobre o ego, ID, inconsciente, organização social e ética, e a relação de Exu com todos estes elementos, deixam claro que a evolução do saber fazem parte não apenas de seus objetivos, como serão exigidos daqueles que se pretendam compreender ou preencher suas fileiras.

De forma igual e como característica comum dos escritos do autor, informações históricas são apresentadas sobre o uso de búzios em diversas culturas ao redor do mundo, seu emprego vulgar e mágico, além de ensinar um método específico destas conchas como oráculo para uso pessoal do adepto, assim como também explora o conceito do Plano Astral e os seres que lá residem. Em seu aspecto prático, traz alguns procedimentos de limpeza espiritual, discorre sobre o tema e apresenta um ritual para a libertação do vício em drogas, o significado, função, consagração e uso de Armas Mágicas e uma série de ritos para os mais diversos fins.

Pensamos que o buscador interessado em se aprofundar nesta linha de Quimbanda deva ter em mente que o dinamismo verbalizado e pleiteado por Coppini, e os demais membros deste templo, exposto frequentemente em suas diversas obras, e continuado nesta, exigirá um constante aprofundamento dos estudos não apenas desta vertente em específico, mas do conhecimento esotérico e exotérico em geral. As constantes referências a conceitos ocultos e das ciências vulgares, como aqueles da psicologia, da história, da linguística etc, deixam claro que a preguiça e a ignorância passam longe daqui.

por Allan Trindade



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017


Lembro-me claramente de quando era criança, nas rodas de conversa dos adultos, quando o assunto era religião, um tema sempre era tabu: Quimbanda! Os que nada sabiam, diziam, temiam saber, os que pouco sabiam, ficavam receosos em saber mais...e quase sempre o diálogo se encerrava com a mesma velocidade com que se iniciava, com a clássica 'é melhor não falarmos disso'.



O clima de mistério e obscurantismo imperava, e era preciso mudar o rumo da prosa para 'algo mais leve'. Criança que era não podia ser eu aquele que obrigaria os mais velhos a me dizerem as coisas que sabiam, pois era fato, curiosidade eu tinha de sobra. E tampouco poderia, naquela época, considerar de que maneiras obteria o conhecimento necessário sobre o assunto. 



A mim era legado o 'direito' de frequentar o catecismo, a missa e os batismos católicos durante o dia, e as giras de erês, caboclos e pretos-velhos de Umbanda à tarde. Mas eram os mistérios da noite que ano após ano clamavam o viço da minha juventude. As extravagâncias de vestidos, ternos, tridentes e capas, os fumos, as bebidas, o deboche e as gargalhadas, os atabaques, os pontos cantados e a sensualidade, tinham uma incrível capacidade de transformar um ambiente tranquilo e neutro, numa corrente de força e vigor, que até a mais medíocre das pessoas quando incorporada, ganhava uma aura tão grande de sensualidade e atração, medo e repulsão, que ao término de tudo aquilo, você estaria desejando entregar-se nos braços de algum Malandro ou Pomba Gira, ou estaria implorando para que o Deus de Israel te livrasse daquele inferno



Curiosamente meus familiares e amigos nunca se referiram a gira do povo de rua dentro da Umbanda, como Quimbanda...mas como festa. E que festa! Para eles, que não tinham um conhecimento profundo sobre o assunto, Quimbanda nunca foi um evento esporádico, com data e horas marcadas, mas uma outra religião, que concentrando em si o poder de Exu, deveria ser tratada com ainda mais cautela e respeito, mas jamais com indiferença!



QUIMBANDA - O Culto da Chama Vermelha e Preta é um livro escrito por Danilo Coppini, com 563 páginas, divididas em 8 capítulos, publicado no ano de 2014, pela editora Cape Lobo.



Este livro surge dentro de uma conjuntura própria, mais especificamente através do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, e é fruto da pesquisa e experiência não apenas de seu autor, mas também dos outros adeptos que comungam do mesmo credo. Originalmente vendido como tiragem única, porém em sua segunda edição até a presente data, tem a intenção de informar a todos os interessados não apenas as interpretações do culto dadas especificamente por este segmento, como também de esclarecer muitos aspectos confusos e mitificados que pairam o imaginário popular sobre esta religião. 

Os grandes objetivos desse livro consistem em despertar e 'quebrar grilhões'...A quebra de 'grilhões'visa retirar o poder mítico da mão de certos manipuladores que inventam coisas sem vivenciá-las. pg.9



O autor faz questão de deixar claro que a Quimbanda não é uma gira e nem mesmo uma contraparte, ou ainda a Mão Esquerda da Umbanda - religião cristã atribuída a Zélio Fernandino de Moraes, iniciada por volta do ano de 1908, e que tem na crença de muitos de seus adeptos a ideia de que os eguns evocados são espíritos errantes, que precisam trabalhar em nome da caridade para edificar uma vida espiritual pura, em função de pagar pelos pecados que cometeram em vida. Segundo Coppini, a Quimbanda Brasileira é uma outra religião, completa e independente, com sua própria cosmovisão e objetivos místicos, que em nada se assemelham a este entendimento sobre os exus:


 Que nos desculpem os Umbandistas que creem nessa falácia, mas a Quimbanda é um Culto Religioso desprovido de dupla via, ou seja, não existe divisão entre bem ou mal, direita ou esquerda, céu e inferno. A Quimbanda Brasileira é a arte de evocar ou invocar espíritos dos mortos que ascenderam através dos Conhecimentos Esotéricos Ocultos e burlaram a Lei de Reencarnação...pg.11



E que as acusações populares sobre este ser um culto de Magia Negra, não estão totalmente erradas, 

pois se partirmos do pressuposto que a Magia Negra é o conjunto de práticas imersas na ciência da corrupção, os entendimentos se alinham. Porém, a Magia da Quimbanda não consiste em apenas praticar atos nocivos, pois para nós o ato de destruir estruturas que atrapalham o desenvolvimento e a evolução dos adeptos e de todos os que procuram os feiticeiros dessa arte é fundamental. A doença, a solidão, o desespero, a violência, os acidentes, a depressão, a raiva, o desinteresse, os caminhos fechados e os problemas sentimentais são 'armadilhas' que o Sistema Vigente regido pelo Falso Deus nos impõe para que continuemos alimentando as correntes energéticas escravistas através da nossa fé e das nossas ações. Dessa forma, ao trabalharmos para retirarmos essa pressão estamos combatendo e agindo contra as barreiras impostas, como entraves desse Sistema. pg.11



O livro inicia-se dando ao leitor uma visão geral sobre toda a conjuntura da religião. Alguns elementos como palavras e até mesmo ideias, podem parecer confusos ao novato, mas o desenvolvimento do livro se dá de forma gradativa e organizada, adicionando a cada conhecimento exposto em seu princípio, novas informações, beirando o estilo acadêmico pela qualidade da pesquisa histórica e etimológica, e a imparcialidade da exposição dos temas, deixando sempre claras as diferenças entre aquilo que se tem através de fundamento científico, daquilo que se assume por opção e convicção religiosa.



Ainda em seu princípio, o autor fala da fusão étno-cultural constituinte desta nossa nação, sobre o comércio de escravos pretos e das tribos trazidas para cá, dos brancos e a interferência cristã sobre estes povos, e explana de forma incomum, a participação dos vermelhos (indígenas) não só para a construção da sociedade brasileira como consequentemente das novas formas religiosas que se desenvolviam. Destacamos aqui este tipo de informação, pois infelizmente são muitos os ignorantes que ainda acreditam que as senzalas eram ocupadas apenas por pretos, quando em verdade, vermelhos também foram escravizados e tiveram participação igual e fundamental na formação da cultura e religiosidade do Brasil.



A construção do imaginário sobre o Diabo é desenvolvida em meio a todo este contexto, e são expostas as correlações existentes entre as ideias de pecado cristãs, fundamentalmente relacionadas ao sexo, e aos cultos à sexualidade e ao pênis encontrados nas culturas pagãs africanas e americanas, dando margem então para a fusão do Inimigo cristão, para com Exu, o Orixá.

De todos os Deuses africanos (para os sacerdotes cristãos todos eram formas atrasadas), destacou-se Èsú. Esse Deus de origem Yorubá é o princípio da comunicação entre o Àiyè (astral) e o Òrum (material) dos homens e dos deuses. Simboliza o crescimento, a mudança e a força dinâmica de toda criação. ... Sangue de sacrifício, pessoas de pele negra, ambiente selvagem e por vezes hostil, nudismo, falta de concepção de pecado e um Deus fálico que regula toda essa força. Resultado: Èsú era o Príapo africano; uma das formas de Satanás e seus anjos caídos e, consequentemente, o ódio, maldade e perversidade que iam de encontro ao 'misericordioso deus cristita'. pg.19



O passar dos anos faria com que o encontro de todos estes diferentes conceitos, e a concentração de toda esta conjuntura energética, originassem as destemidas legiões daqueles espíritos revoltados que governados pela força de um líder, fariam oposição à concepção religiosa dominante, e Maioral do alto de seu trono, organizaria seus reinos.


Maioral é a quintessência de muitos seres unificados que lutam para extinguir as formas de aprisionamento da psique humana dos que o buscam, como o ódio, a paixão, a ilusão, a soberba material, a cobiça desenfreada e a luxúria, todavia, alimenta as fornalhas qliphóticas que incendeiam a alma dos moribundos cegos e limitados...Maioral são todos os antigos deuses fundidos na chama de Lúcifer! pg 63


Sincretizado a imagem de Baphomet eternizada pelas mãos de Eliphas Levi em seu Dogma e Ritual de Alta Magia, Maioral ou o Grande Dragão Negro, como também é por vezes referido, é o Ser Supremo para os adeptos da Quimbanda Brasileira, e aqui, Orixás não são cultuados.

Quando V.S. desejou, começou separar esses espíritos por afinidade. Maioral enxergou na ancestralidade africana a força apropriada para edificar um culto próprio. Dessa forma, aproveitando-se de todo contexto histórico e político que essa terra vivia, nasceu, de um nome incompreendido, uma das religiões mais temidas da Terra: A Quimbanda. pg33

Como “Reinos”, nos explica o autor, definem-se aqueles locais presentes no Plano Astral, subordinados a um imperador. Sendo assim, os exus destacados por seu poder de persuasão, guerra, domínio e força, são considerados reis destes locais que são divididos em número de sete: o Reino das Encruzilhadas, dos Cruzeiros, das Matas, dos Cemitérios, das Almas, da Lira e da Praia.



Os espíritos dos mortos reúnem-se e dividem-se por afinidade nestes ambientes. Desta forma, entende-se que toda a pluralidade de nomes de exus e pombagiras não se dá de maneira arbitrária, sem qualquer critério ou por escolha pessoal, mas por fundamento esotérico. Com histórias, características, personalidades, gostos e pontos próprios, o livro estende-se longamente na explanação de cada um destes elementos, sobre cada um destes seres. Neste segundo conjunto de capítulos, de característica mais prática, você aprenderá não apenas como agradar algum exu, como saberá qual ponto cantar, quais rituais praticar. Como jogar búzios para situações específicas, feitiços, pontos riscados, banhos, orações e rezas para fins diversos. 



A história do Brasil, a formação do povo brasileiro, e a progressão religio-cultural se fundem de forma absolutamente harmoniosa à história da Quimbanda exposta pelo autor. Não apenas pelos ingredientes que compõem esta mistura, mas também pela maneira com que tudo se dá. Há uma insistência recorrente nas palavras de Danilo para que não haja dúvidas de que esta não é uma religião estagnada. Aqui tudo se move, e tudo precisa estar em constante movimento. A energia dinâmica de Exu encontra livre correspondência com as entidades que receberam seu nome, e não por menos, pois mesmo que não necessariamente tenham as mesmas atribuições que este Deus-Orixá possua em sua completude, aqui todos são respeitados sem qualquer demérito ou depreciação.



Coppini é excepcional em sua abordagem histórica e no curso de seu título para expor todos aqueles elementos que compõem esta religião. Porém, o conhecimento esotérico do autor, visível para qualquer ocultista mais experiente, pode não ser tão aparente e confundir em alguns momentos os novatos. A referência a conceitos gnósticos, vias atuais expressas através de suas “correntes numéricas”, e a falta de comparativos sobre o que dizem as outras linhas de Quimbanda sobre as ideias expostas neste título e vice versa, podem deixar os recém-chegados com certas questões em aberto, mas, uma vez que haja a promessa de que outros livros sobre o tema sejam publicados em breve, talvez tais dúvidas sejam futuramente sanadas.



Recordando-me dos meus tempos de infância, penso ter valido a pena a espera para minhas questões sobre esta religião. Não por considerar que as exposições neste título sejam definitivas e absolutistas sobre o que seja a Quimbanda, mas pela satisfação de ter em mãos uma obra com alta qualidade didática, produzida por quem sem proselitismo - e independentemente do que os outros digam sobre seus próprios cultos - entende daquilo que pratica e fala.



por Allan Trindade