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domingo, 16 de maio de 2021

Louvado sejas Tu, Ó! Osíris, senhor da eternidade, Un-nefer,
Hoorkhuit cujas formas são múltiplas e cujos atributos são excelentes, que é Ptah-Seker-Tem em Yunnu, o senhor do lugar escondido, e o criador de Het-ka-Ptah e dos deuses daquele lugar, o guia do outro mundo, que os deuses glorificam quando tu estás em Nut. Ísis abraça a ti em paz, e ela guiou para longe dos teus caminhos os demônios de tua boca. Tu voltaste tua face para Amentet, e tu fazes a terra brilhar como cobre refinado. Os mortos se levantam para te ver, eles respiram o ar e procuram a tua face quando o disco se levanta no horizonte; seus corações estão em paz pois eles contemplam a ti, Ó! Tu que és eternidade e imortalidade. 

AS IDÉIAS DOS EGÍPCIOS SOBRE A VIDA FUTURA é um livro escrito por E.A Wallis Budge, contém 121 páginas divididas em 5 capítulos e foi publicado no ano de 2004 pela Madras Editora.

Budge é sem dúvidas uma das figuras mais fundamentais para a egiptologia. Seus livros tiveram uma inegável importância para muito daqueles trabalhos de pesquisa que se desenvolveriam com o passar dos anos dentro deste ramo científico e costumam representar a porta de entrada para aqueles que decidem se enveredar por estes estudos. Embora deva-se sempre ter em mente que a egiptologia é uma ciência viva, que está em constante processo de evolução, vide as constantes descobertas de tumbas e elementos outros, ninguém que tenha real interesse em saber sobre os mistérios da terra de Kemet pode dispensar os escritos de consagrado autor.

Wallis esclarece que as páginas contidas neste livro objetivam apresentar as ideias dos egípcios antigos sobre ressurreição e vida após a morte, embora saiba que em milhares de anos de existência daquele povo, crenças e hábitos mudaram, além de nunca ter havido realmente um único conceito exposto e aceito de forma dogmática por toda a gente ou sacerdotes. Muito de seu embasamento entretanto advém dos comparativos existentes entre diversos tipos de fontes primárias, sendo a principal delas o livro conhecido popularmente como Livro Egípcio dos Mortos, que embora obscuro sob muitos aspectos, deixa clara a crença na existência de vida além da vida material.

Aqui o autor nos apresenta uma série de textos oriundos de diversas fontes originais que atestam o fato da crença em um ser único e superior, referido como Netjer, que tem a capacidade de manifestar-se de diversas formas a partir de Si próprio. Tais manifestações que podem ser entendidas como deuses em certo sentido, são conhecidas como Netjeru - plural de Netjer. Segundo Budge, apesar do comentário de alguns detratores da religiosidade egípcia, que costumavam considerá-los um povo supersticioso e sem fundamento, muito destes ataques residiam sobre o fato da não compreensão da maleabilidade do pensamento religioso daquele povo. Netjer, ou Deus, é um e ao mesmo tempo vários, pois expande sua própria forma e manifestação, multiplicando-se em sua própria criação. Tal como o Sol que expande sua própria luz a todos os cantos, assim o é Rá, a primeira manifestação conhecida do Criador. 

Para além disso, um outro elemento de igual importância dentro de sua religiosidade relacionava-se ao culto a ancestralidade representada por Osíris, o deus do submundo. Sendo Osíris o deus que superou a própria morte, tinham os egípcios antigos em sua figura a esperança do prolongamento da própria vida, a ser continuada no Duat, com a chance de viverem a imortalidade junto a este deus de benevolência no Campo dos Juncos - espécie de paraíso egípcio. O hábito de cuidarem e eventualmente mumificarem seus mortos residiria então sob o conceito de que, tal como Osíris, que tem seu corpo preservado graças aos encantamentos de Ísis e Thoth, caso reproduzissem no falecido feitiços específicos, garantiriam que o morto se encontrasse com tal deus no além, tendo sua alma devidamente preservada, para quem sabe, voltar ou ressuscitar um dia. 

Budge traça com estes elementos uma série de associações com a moderna crença cristã, que não por acaso, teria herdado muito dos conceitos egípcios, adaptando-os ao seu novo deus conhecido como Jesus. O sincretismo teria então o efeito de modificar a crença dos egípcios, fazendo-os substituir um dos mais populares deuses de seu panteão, por aquele deus judaico-romano. Um outro fator possivelmente colaborativo para tal mudança pode ter sido aquele da não existência da necessidade da mumificação dentro da crença cristã, visto ser essa prática inacessível para a maioria dos egípcios que não poderiam pagar por tais serviços.

O autor salienta que a crença egípcia, por sua grande maleabilidade, tampouco preocupava-se em qualquer tipo de dogmatismo ou obrigatoriedade. Uma pessoa, ou cidade, podia trocar de divindade livremente, e o faziam costumeiramente quando aquele deus não lhes atendia em suas expectativas. 

A continuidade, Wallis apresenta o Julgamento de Osíris, onde os mortos eram avaliados e podiam garantir - ou não - sua entrada no paraíso. Sobre a crença na ressurreição, pregada inclusive por cristãos até os dias de hoje, afirma não possuir elementos necessários para definir com exatidão se era vista de tal forma. A dúvida reside se criam na ressurreição literal dos corpos, e por isso o preservavam através da mumificação para evitar o apodrecimento e assim tê-los de forma "aceitável", ou se na verdade a crença residia sobre a ideia de que para a preservação do ka - espécie de alma -havia a necessidade de se preservar o corpo físico, para que assim o ka continuasse existindo no pós vida e pudesse voltar para eventualmente se comunicar com os vivos.

Especulações diversas, conceitos filosóficos e científicos, pluralidade de pensamento, riqueza material e espiritual, muita coisa a se descobrir. É esta a sensação que livros como estes nos passam sobre aquele povo tão maravilhoso e misterioso. Estudar egiptologia pode ser encantador, mas pode lhe causar efeitos colaterais irreversíveis: o desejo de querer sempre saber mais!

por Allan Trindade


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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Entenda: nenhuma religião estruturada com rituais, dogmas, deuses, entidades ou santos, surge do nada. Todas as religiões são consequência de uma ou mais fontes que influenciam aquela nova percepção sobre a vida material e espiritual. E com o Cristianismo não é diferente.

Se você já viu a Bíblia ao menos uma vez na vida sabe que o Antigo Testamento é um livro judaico, e que é, portanto, oriundo do Judaísmo, tendo sido o próprio Jesus um judeu. Isso já seria suficiente para dizer que o Cristianismo não é uma religião totalmente original assim, correto? Mas se baseado nisso você acha que o Judaísmo é a única religião que ajudou a formar o Cristianismo tal como o conhecemos hoje, este livro vem para lhe mostrar que você está redondamente enganado.

A ORIGEM EGÍPCIA DO CRISTIANISMO é um livro escrito por Lisa Ann Bargeman contém 158 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Pensamento.

Se você é o tipo de pessoa que adora estudar história ou religião e realmente se dedica a esses assuntos, cedo ou tarde notará algo interessante: você sempre será levado para o Antigo Egito. E isso não se dá por nenhum tipo de conspiração Illuminati ou por chips implantados em nossas cabeças pelos aliens, mas por um fator histórico incontestável: o Egito foi uma das mais poderosas e importantes nações do mundo antigo, perdurando por mais de 4.000 anos como uma terra próspera que exportava conhecimento científico e religioso para grande parte do mundo. 

Localizado em uma área privilegiada do norte da África, esta terra de grandes faraós sempre atraiu o fascínio dos mais diferentes povos, e sua abundância, em todos os sentidos, fez escola entre cientistas, magistas e religiosos de todos os tempos. 

Para entender a lógica do argumento de Lisa Bargeman neste livro é antes de mais nada necessário entender o contexto e manter a cronologia em mente. Sendo assim, lembre-se que o Cristianismo, se calculado a partir do suposto nascimento de Jesus, possui pouco mais de 2.000 anos. Judeus, gregos, romanos, egípcios e uma série de outros povos viviam em constante contato muito antes deste tempo, chamado de "antes de cristo", tendo sido o Egito em seu período faraônico uma das maiores potências daquele período. 

Era coisa comum que nações menores, como da Grécia por exemplo, enviassem cidadãos gregos até aquelas terras para aprender ciência, magia e aquilo que chamamos de religião, mas que também poderia ser entendida por mitologia ou mesmo filosofia. Sem haver uma distinção clara entre tais conhecimentos naqueles tempos, também era relativamente comum que tais saberes fossem absorvidos e adaptados as novas culturas, ganhando roupagens novas de acordo com o local para onde se ia e levava tais conhecimentos. Por isso, Het-Heru poderia ser chamada de Hathor e ser sincretizada com Vênus ou mesmo Afrodite, sem que isso ofendesse a quem quer que seja. 

E por que isso funcionava? Pois em se tratando de politeísmo, o fenômeno da crença se manifesta naturalmente de forma inclusiva e não exclusiva. Se Deus é um, mas se manifesta através de diversas formas – e esta é a maneira a qual a visão religiosa egípcia interpretava tal conceito -, a forma que o outro cultua a Deus, chamando-o por outros nomes, ou considerando outras formas de Sua manifestação, não pode mesmo ser ofensiva, visto que todas são partes d’Ele mesmo.
 
Mas o que acontece quando alguém diz que só há uma forma de enxergar e cultuar a Deus?

No começo deste texto falamos sobre nenhuma religião ser totalmente original, absorvendo elementos ritualísticos e ideológicos de religiões contemporâneas ou predecessoras. Sendo o Cristianismo, herdeiro do conceito monoteísta de visão espiritual oriunda do Judaísmo, não poderia jamais admitir que sua religiosidade também fora fruto da inegável influência egípcia que possui, sendo a religião egípcia considerada pagã e, portanto, incorreta e até demoníaca para alguns. Logo, se para os politeístas antigos admitir que sua religião absorveu elementos de outras religiões politeístas era algo natural, para monoteístas como os cristãos, esse tipo de admissão pode ser uma ofensa para seu próprio conjunto de crenças, que é sempre pregado como original, oriundo e ou inspirado por seu próprio Deus único, e de nenhum outro. Mas os elementos históricos são muito mais certeiros que as crendices alheias e são incisivos para provar a realidade: o Cristianismo é inegavelmente uma religião construída a partir de uma grandessíssima influência pagã, e segundo a autora, indiscutivelmente egípcia!

Maria seria nada menos que uma versão cristã de Ísis, que também gerou seu filho, Hórus, de maneira independente. Osíris também fora assassinado e traído num banquete, ressuscitou, e se tornou o salvador e pastor que conduzia seu rebanho de seguidores no pós vida, tal como se diz sobre Jesus. A morte, segundo os papiros egípcios, é seguida por um Julgamento onde o indivíduo deve declarar-se inocente frente as possíveis acusações de ter roubado, matado, etc. sob risco de ser condenado, tal como na perspectiva cristã de julgamento. Múmias eram produzidas baseadas na crença da ressurreição da carne tal como dito na Bíblia. As imagens dos deuses egípcios ficavam guardadas das vistas do público dentro dos templos, saindo apenas em datas especiais quando eram carregadas e acompanhadas por uma caravana de seguidores que ali faziam suas promessas e orações e aguardavam por bênçãos, tal como católicos fazem hoje em dia em suas procissões. O faraó era um líder de Estado mas também o sumo sacerdote, tal como o Papa nos dias de hoje. 

Todos estes elementos e muitos outros são apontados durante toda esta obra que, embora curta e pouco aprofundada, é rica em conteúdo comparativo para que todos aqueles que tem o interesse pela pesquisa e que assim o façam, se sintam inegavelmente compelidos a admitir aquilo que muitos adoram negar: que não há religião superior a verdade.

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quinta-feira, 20 de junho de 2019


Embora a popularidade de Aleister pareça indicar o contrário, Crowley era essencialmente um intelectual. Educado em teologia cristã e profundo conhecedor da Bíblia, além de diversos outros assuntos, sendo também um qualificado alpinista e exímio jogador de xadrez, aproveitou-se de sua criação e herança milionária para dedicar toda sua vida ao desenvolvimento de seu intelecto, sua arte e principalmente, sua espiritualidade. Mesmo que muitos possam contestar isso, fato é que a obra e vida de Crowley, quando observadas de perto e sob uma perspectiva desprovida de preconceitos, parecem mesmo serem únicas para os padrões que até então se tinham dentro do universo do ocultismo do século XIX. 

Entretanto, o caráter deste livro não é aquele de mais uma vez tentar explorar as vivências e peripécias praticadas por este inglês tão costumeiramente difamado, mas de apresentar e buscar entender o resultado mágico delas.

A MAGIA DE ALEISTER CROWLEY é um livro escrito por Lon Milo Duquette, com 255 páginas, divididas em 13 capítulos e publicado no ano de 2007 pela editora Madras.

Crowley nos legou um conjunto que contém em si um sistema de práticas mágicas herdadas da Ordem Hermética da Aurora Dourada, adaptadas e aprimoradas a sua maneira de acordo com suas perspectivas, baseadas em sua crença da chegada de uma nova era e uma nova religião para a humanidade, conhecida como Thelema. A partir disso, criou uma série de outros rituais próprios para serem praticados por seus adeptos de modo que pudessem cumprir suas próprias vontades mágicas e espirituais, de maneira alinhada com as influências destes novos tempos, em uma nova Ordem a qual denominaria A.’. A.’. . 

Porém, o que parece muito atraente num primeiro momento, pode ser um tanto decepcionante num segundo. Isso porque, tal como destacado por nós em parágrafo anterior, toda a erudição de Crowley talvez tenha o feito esquecer-se que 'pessoas comuns' podem não possuir tempo, dinheiro, ou mesmo condições intelectuais de entender toda a gama de referências, relações e correlações a sistemas, mitologias, artes e religiões contidas em seus escritos. O mesmo pode se dizer especificamente sobre muitos de seus rituais. E a falta de textos próprios e introdutórios podem fazer o interessado pensar que Thelema é complexa demais para a vida cotidiana. Sendo assim, nada mais justo que um livro para tentar sanar este problema.

Em seu prefácio, Hymeneaus Beta fala sobre esta obra de Duquette servir como uma introdução para aqueles que podem não ter o conhecimento necessário para entender as especificidades  da obra de Crowley, não sem antes salientar que parte do que é apresentado aqui encontra-se também no campo da interpretação pessoal do autor, e que portanto, não deve ser encarado de forma dogmática. Em seguida, Lon nos fala sobre esta ser uma edição revisada e ampliada da primeira edição de 1993 e até se propõe a tocar no assunto sobre as calúnias e difamações propagadas contra Crowley, até os dias de hoje, antes de introduzir seus comentários sobre seus rituais. Aqui ele trata sobre o conceito da vontade entendido através da perspectiva thelêmica, como aquela vontade divina distinta da vontade comum. Sobre as diferentes eras astrológicas e os aeons de Ísis, Osíris e o atual, de Hórus. Do recebimento do Livro da Lei como uma confirmação de Crowley como o profeta da nova era. Para finalmente apresentar os libri de classe D, que contém os rituais e instruções oficiais da A.’. A.’. .

Duquette então nos apresenta os Rituais do Pentagrama, como por exemplo, mas não apenas, o Ritual Menor de Banimento do Pentagrama; os Rituais do Hexagrama, como o Ritual Menor do Hexagrama; os rituais de Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, como em Liber Samekh; os Ritos Solares, como a Missa da Fênix; do misticismo thelêmico, como em Liber Nu e ainda sobre os Ritos Elêusis, tal como praticados por membros da OTO desde a década de 70. Todos esses capítulos são organizados conforme comentários pessoais do autor seguidos pela apresentação do próprio liber em si. A conclusão do livro trata sobre Ordens thelêmicas e tece comentários específicos sobre esta religião, finalizando com o Liber XV, a Missa Gnóstica, rito central da Ordo Templi Orientis.

Uma breve busca por vídeos sobre rituais da Aurora Dourada ou mesmo da A.’. A.’. na internet sempre nos impressiona pela quantidade e, não raro,  pelos absurdos. A abertura de todos os documentos da Santa Ordem parece ter tido um efeito duplo: facilitou o acesso de novos aspirantes, porém, deu a oportunidade para que indivíduos nem sempre comprometidos com a honestidade, se aproveitassem da fama de muitos rituais para adaptá-los a suas próprias maneiras, e propagá-los como sendo genuínos. Perceba que não queremos dizer com isso que há qualquer tipo de proibição para adaptações pessoais, mas, que adaptações pessoais devem ser frisadas como adaptações pessoais.

Embora muitos thelemitas torçam o nariz para explicações públicas sobre os rituais da A.’. A.’., e o próprio Crowley tenha demostrado não gostar da ideia como exposto, por exemplo, em The Book of Lies, pensamos que livros como A Magia de Aleister Crowley, organizado e apresentado de forma honesta, distinguindo de forma clara opinião de escrito original, tem uma legítima função de existir.

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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

E disse o servo ao faraó:

- Eles se recusam a lhes prestar as devidas honrarias, senhor!
- Não se preocupe com eles, são loucos que cultuam um deus que não podem ver.


COSMOLOGIA EGÍPCIA é um livro escrito por Moustafa Gadalla, com 173 páginas, divididas em 30 capítulos e publicado no ano de 2003 pela Madras editora.

O povo mais supersticioso da história. Assim costumam definir alguns quando pretendem falar sobre o Egito antigo. Uma adjetivação no mínimo infeliz, diga-se de passagem. Infeliz pois ignora a forma como aqueles homens e mulheres do passado enxergavam a vida e o universo a sua volta: sempre como manifestações do divino. O sol que queimava era também aquele que trazia a luz e rompia o medo das trevas. O rio que inundava era também aquele que tornava o solo fértil e garantia a boa colheita. O escaravelho  que com dificuldade rolava seus dejetos pelas areias escaldantes do deserto, fazia deles nascer sua prole e provava que até mesmo da matéria mais rejeitada era possível surgir vida.  O faraó embora humano era ao mesmo tempo um deus. Cada elemento. Cada detalhe. Cada aspecto da vida - e da morte - encontrava sua correspondência com o aqui e o porvir, com o material e o espiritual. Não há nada de supersticioso nisso. Há de pragmático. Para o egípcio antigo o divino se apresenta na prática, e não na especulação daquilo que pode ser. E segundo Moustafa Gadalla, entender isso é o mínimo necessário para aqueles que se pretendam aventurar pela cosmologia egípcia.

Segundo o autor, Heródoto classificou os egípcios como os mais saudáveis, alegres e religiosos do mundo. E isso porque justamente encontravam na vida sempre uma forma de estar em contato com o divino, que era entendido como único, embora seus atributos fossem classificados sob outros nomes e formas, denominados erroneamente de deuses, mas melhor definidos como neteru. A não compreensão disto teria feito com que Akhenaton tentasse eliminar as diversas formas com o que o Divino era então representado.

Levando em consideração a correlação que aqueles povos estabeleciam com o espiritual e o material, os mitos tinham não apenas uma intenção moral, de instruir ideologicamente o povo, mas também científica, já que através dos símbolos era possível entender como o mundo se formara e a própria civilização humana. Segundo Gadalla, foi a ignorância de povos como dos judeus, cristãos e muçulmanos que os levaram a desconsiderar tais conhecimentos e tratá-los sob viés de literalidade, visto que estes tipos abraâmicos absorveram parte da cultura e conhecimento egípcio, porém, mal. Entretanto, Pitágoras teria sido um resultado positivo deste contato.

E por falar neste filósofo, tão celebrado por seus cálculos, números compõem uma grande parte desta publicação. Os mitos da criação apresentados aqui como Nun, sendo o caos primordial: Maat, a ordem; Amen, a força oculta. Estes então dão origem a Atum e toda variedade de aspectos do Divino que se unem não apenas nas histórias, mas também através das somas matemáticas e suas atribuições místicas, a exemplo de Ausar, representado pelo número 3 que se une a Auset, representada pelo número 2, que dão origem ao 5, Heru. Tal como a citação de Plutarco em sua Moralia, vol. V.:

Três (Osíris) é o primeiro número ímpar perfeito; quatro é um quadrado, cujo lado é o número par dois (Ísis), porém, de certa forma, o cinco (Hórus) é como seu pai e de outra forma, sua mãe, pois é feito de dois e três. E panta (tudo) é derivado de pente (cinco) e falam em contar numerando de cinco em cinco.

pg. 49


Há uma insistência  na descrição do autor em dizer que os Baladi são herdeiros daqueles egípcios da antiguidade, e que muitas das ideias entendidas por ele, são verificáveis neste povo que ainda carrega muito daquela antiga tradição. O mesmo pode-se dizer do conceito animista por trás de toda esta conjuntura, que estabelece que a matéria, conforme comumente a concebemos, assim o é apenas por uma convenção ideológica visto que tudo no universo é energia. Sendo assim, o que diferencia o físico do espírito é apenas a velocidade com que as moléculas vibram; quanto mais lenta, mais material, quanto mais rápida, mais espiritual.

Os antigos egípcios e os Baladi não faziam/fazem distinção entre um ser em estado metafísico e um ser com corpo material. Esta diferença é uma ilusão mental, pois existimos em diversos níveis simultaneamente, do mais físico ao mais metafísico. Einstein concordava com esses mesmos princípios...claramente mostrada na Estela de Shabaka (século VIII a.e.c)

Então os neteru (deuses) entraram em seus corpos, através de todos os tipos de madeira, mineral, argila, todas as coisas que crescem nele (terra).
pg. 60

E se os aspectos individuais dos seres eram importantes, a forma como estes seres se relacionavam também o era, por isso a organização social era tão fortemente pensada, a ascendência matriarcal tendo mais importância que a patriarcal, as profissões - geralmente passadas de pai para filho -, o faraó com sua função sacerdotal de garantir boas colheitas iniciando o plantio e praticando os rituais diários de conexão com os deuses, sendo ele próprio considerado uma divindade em si, e o templo, entendido não como um local de adoração pública, mas uma morada terrena de emanação de poder do deus para o povo. O livro se encerra tratando das mudanças de eras zodiacais, a função do homem nesta existência e sobre as mudanças futuras a qual todo universo está submetido.

Esta é uma publicação leve e fluida. Mais preocupada com a ideia geral da cosmovisão egípcia do que se aprofundar em todos os detalhes. O autor faz uma série de críticas sutis e - por vezes - nas entrelinhas, ao dizer que muitos dos pensamentos que temos hoje e consideramos serem gregos, são na verdade egípcios. É uma fonte introdutória para um assunto que, sem dúvidas, exigiria que morrêssemos, voltássemos no tempo e ressuscitássemos para tentar entendê-lo em sua totalidade.

por Allan Trindade


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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Os deuses do nebuloso passado deixaram inumeráveis pistas que só hoje podemos decifrar e interpretar; pela primeira vez, porque o problema das viagens interplanetárias, tão característico de nossa época, já não era problema, mas realidade rotineira, para homens que viveram há milhares de anos. Pois eu afirmo que nossos antepassados receberam visitas do espaço sideral na mais recuada Antiguidade, embora não me seja ainda possível determinar a identidade dessas inteligências extraterrenas ou o ponto exato de sua origem no Universo. Não obstante, proclamo que aqueles "estranhos" aniquilaram parte da humanidade existente na época e produziram um novo, se não o primeiro, Homo Sapiens.

Esta afirmativa é revolucionária. Abala até os alicerces de um arcabouço mental que parecia tão solidamente construído. Meu objetivo é tentar fornecer provas de sua veracidade.

ibidem, pg VIII.


ERAM OS DEUSES ASTRONAUTAS? é um livro escrito por Erich Von Däniken, com 200 páginas, divididas em 13 capítulos, e publicado no ano de 2016 pela editora Melhoramentos.

A arqueologia não aceita este livro. Assim considera von Däniken, pois o mesmo possui ideias ousadas demais para seus modos tradicionais de interpretar o passado. Mas se os cientistas consideram que há algo de errado nesta publicação, o mesmo diz o autor sobre eles, uma vez que segundo seu entendimento, ignoram muitas descobertas avançadíssimas para o contexto primitivo, e vai além, acrescentando os religiosos a sua crítica, alegando que estes costumeiramente referem-se a seus deuses como salvadores, embora isso não se verifique na prática.

Não leia o leitor este livro como se fosse mais uma obra de ficção científica. Não confunda as categorias em que se dividem a literatura que, de uma forma ou de outra, se relacionam com os campos científicos. Há três grandes espécies de livros ligados a essa esfera: livros de Ciência, livros de ficção científica e livros de especulação científica.

A especulação científica não é contrária à Ciência, muito menos pretende tomar-lhe o lugar. Mas também não se submete servilmente a postulados 'consagrados'; isso seria frontalmente contrário à natureza da atitude especulativa, além de que a Ciência, por mais ortodoxa que seja, vez por outra é forçada a substituir seus próprios conceitos, até então considerados inabaláveis e definitivos.
pg. 06

As palavras expostas no parágrafo anterior do Professor Flávio Pereira em sua apresentação, nos dão um bom panorama sobre no que se baseia a ideia central desta obra. Sim, o autor afirma que nós fomos visitados por alienígenas, que estes alienígenas nos ensinaram parte de sua tecnologia e que tinham interesses escusos não apenas para nossa raça, mas com nossa evolução e relação com este planeta. Mas para além disso, deve-se ressaltar que Erich não tem a pretensão de esgotar toda a discussão especulativa que possa se criar em torno dos indícios apresentados aqui, mas de engatilhar a pesquisa e incentivar a curiosidade de todos sobre esta possibilidade, de modo que o assunto extraterrestre não seja tratado com o preconceito do rigor acadêmico, que tende a considerar que algo que não se evidencia não existe, mas fazer com que a ponderação esteja a frente ao cogitar que algo que não se evidencie pode existir ou não.

Tudo começa com um cálculo de possibilidade sobre a vida extraterrestre que leva em consideração os quintilhões de estrelas visíveis por telescópios e que se admitirmos a possibilidade de vida em 1 a cada 1000 , teríamos cerca de 100 milhões de planetas com seres viventes. E que a alegação comum que se faz sobre a necessidade de água e oxigênio para abrigar vida é no mínimo presunçosa uma vez que esta seja uma necessidade nossa. Cita o caso de insetos e bactérias expostos por cientistas a atmosfera reproduzida de planetas gasosos, além de radiação, e que concluíram que muitas destas formas de vida sobreviveram sem efeitos colaterais para si ou seus descendentes.

A partir destas premissas, o autor nos fala sobre a possibilidade hipotética de viajarmos pelo espaço e encontrarmos algum tipo de sociedade semelhante a nossa, porém, tecnologicamente atrasada. Pararíamos lá não apenas para conhecê-los mas também para abastecer nossa espaçonave. Qual seria a impressão que teriam de nós? Muito provavelmente a que nós tivemos caso o mesmo tenha acontecido no nosso passado: consideraríamos os astronautas, deuses!

Pronto! É a partir daqui então que Däniken começa a nos dar uma série de exemplos encontrados ao redor de todo mundo, de indícios de que este tipo de contato fora feito com nossos ancestrais. Mas uma vez que os aliens tenham conseguido aquilo que queriam daqui e de nós, continuaram seus planos maiores, sejam eles de partir em busca de novos mundos, ou ainda aqueles de nos observarem de longe sob a promessa de um dia retornarem para o cumprimento de novos planos. E nós, geração após geração, desenvolvemos rituais, conceitos metafísicos, espiritualidade e religião, para explicar aquilo que no começo era algo absolutamente físico e material, para nos prendermos a ideia de que tudo isso é energético e espiritual.

Assim teriam surgido as pinturas rupestres com seus seres humanoides estranhos, diferentes dos animais, geralmente desenhados de forma facilmente identificável. Os relatos sobre pássaros de metal que vinham das estrelas. Os vimanas descritos no Mahabharata e as armas de poderio semelhante ao de bombas atômicas. Gilgamesh e o dilúvio. Os nephilins e os humanos híbridos. Os alinhamentos perfeitos dos templos sagrados para com as estrelas e seus cálculos precisos. Sobre a Ilha de Páscoa e seus colossos que pesam toneladas. Dentre outros. E que uma vez que partamos definitivamente para a exploração espacial, os problemas humanos se tornarão pequenos, e até mesmo ocultistas e alquimistas abandonarão suas labutas terrenas para explorar os labores do céu.

O livro se encerra com especulações sobre o porquê dos governos fazerem tanto mistério sobre as investigações extraterrestres, e que o investimento na cosmonáutica não apenas nos capacita entender mais sobre o universo a que pertencemos, como nos desenvolve tecnologicamente, uma vez que os avanços feitos nesta área sejam muitas vezes usados, cedo ou tarde, para os benefícios do nosso dia a dia na Terra.

Alguns podem pensar que se um dia fomos tão evoluídos assim tecnologicamente, por que não detemos mais esses conhecimentos? E este é um questionamento dúbio que pode jogar tanto a favor como contra a teoria de Däniken. Pode-se considerar que a necessidade nos fez chegar a certos saberes e que com o passar do tempo, outras prioridades nos fizeram focar outras necessidades. Ou ainda elucubrar que de fato recebemos por empréstimo algumas tecnologias que com o passar do tempo nos foram retiradas por aqueles que por aqui passaram. Se levarmos em consideração que muito do conhecimento científico da antiguidade era restrito as altas esferas sociais - como líderes religiosos e políticos - e que muitas foram as bibliotecas queimadas nos tempos passados, havemos de concordar, conforme dito por um grande mestre do ocultismo ocidental, que o mistério é mesmo inimigo da verdade.

Fato é que muitas das perguntas sobre como e porquê fizemos tais coisas continuam sem respostas. Sendo assim, talvez seja melhor que não tomemos partido nem de um lado, nem de outro. A neutralidade aqui é a melhor das conselheiras: evita o fanatismo e está sempre de portas abertas para o possível; seja este possível aquele que vem dos recônditos mais criativos da nossa mente, da nossa centelha espiritual transcendental que chamamos de Deus ou deuses ou até mesmo dos nossos criadores estranhos e misteriosos advindos do espaço sideral.

por Allan Trindade


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domingo, 4 de novembro de 2018


Exótico. Eis uma palavra bastante conhecida e que quando usada pela maioria das pessoas, tende a expressar muito mais um sentimento que uma definição fria. Este vocábulo costuma ser evocado quando de alguma maneira sentimos que o objeto a qual nos deparamos desperta em nós uma estranheza tal, que ficamos sem saber o que exatamente dizer daquilo, uma indecisão estranha que nos deixa em cima do muro para definir se gostamos ou não, se achamos bonito ou feio, se queremos apenas olhar ou tocar, mas que indiscutivelmente nos atrai e chama a atenção. 

Segundo descrições comuns, exótico é um adjetivo a qual se atribui aquilo que não é originário do país em que ocorre, que é estrangeiro, ou ainda, que é esquisito, excêntrico, extravagante. É fato que poderíamos concordar ipsis litteris com estes termos, mas caso seja este o caso, faríamos apenas um acréscimo a esta definição: de que exótica é também, e sem dúvidas, a mitologia nórdica.




MITOLOGIA NÓRDICA é um livro escrito por Neil Gaiman, com 286 páginas, divididas em 16 capítulos e publicado no ano de 2017 pela editora Intrínseca.


Embora este seja nosso entendimento, parece que Neil Gaiman não concordaria de todo com esta opinião, já que para ele, embora seja difícil escolher uma dentre as várias mitologias, esta é sua favorita.  

Saídos do norte da Europa e descendo para o sul junto com suas campanhas de guerra e busca por novas terras para morar, aqueles antigos homens e mulheres conhecidos popularmente como vikings, trouxeram consigo sua ciência, língua, cultura, religião e seus deuses, de modo que de tão impressivos, perpetuaram-se também através dos nomes dados aos dias da semana encontrados na língua inglesa, tais como: Tyr/Tuesday (terça-feira), Odin/Wednesday (quarta-feira), Thor/Thursday (quinta-feira) e Frigga/Friday (sexta-feira). Divididos em dois grupos distintos conhecidos como Vanir,  deuses relacionados a natureza e menos belicosos, opostos aos Aesir, aqueles de comportamento notadamente mais aguerrido, é de todo este contexto que surge também a influência para as histórias em quadrinhos e filmes de super heróis que tratam das aventuras de Thor e seus relacionados. Entretanto, embora este e muitos outros livros sobre esta conjuntura tenham sido escritos, Gaiman nos salienta que muito pouco sobrou da tradição oral dos mitos, visto que só começaram a ser registrados quando o Cristianismo já era a religião dominante.


Aqui os protagonistas das histórias costumam ser sempre o já citado Thor, Odin e seu irmão, Loki. Odin, o principal dentre todos os deuses, tem diversos nomes. Viaja pelo mundo querendo conhecer a realidade das pessoas e vive acompanhado de dois corvos: Hugin (pensamento) e Munin (memória). Contempla todo o universo de seu trono, Hlidskjalf e trouxe a guerra para o mundo. Thor forja trovões, é ruivo, não muito inteligente, mas o mais forte dos deuses. Simpático e franco, usa um cinturão, Megingjord para duplicar sua força. Sua arma é um martelo, Mjölnir. Ele é filho de Jürd, deusa da terra e tem três filhos com Sif. Thor defende Asgard e Midgard. Loki encanta por sua beleza, é sensato, convincente e diferentemente de seu sobrinho, é astuto e inteligente. Mas seu interior é cheio de ódio. Filho de Laufey com Farbaut, é irmão por jura de sangue de Odin. Dentre e acima de todos está a Yggdrasil, a mais bela e frondosa de todas as árvores. Yggdrasil cresce através dos nove mundos, finca suas raízes em três deles e se eleva acima acima dos céus. Foi nela que Odin se sacrificou para obter o conhecimento de tudo através das Runas.

Os nove mundos são: Asgard, lar dos Aesir; Álfheim, lar dos elfos da luz; Nídavellir, lar dos elfos negros; Midgard, o mundo dos homens; Jötunheim, morada dos gigantes; Vanaheim, casa dos Vanir; Niflheim, o mundo escuro e finalmente Muspell, o mundo das chamas. Há ainda um mundo extra, que carrega o nome de sua governante, Hel, o local para onde os mortos que não tiveram uma passagem honrada em batalha vão. Dados estes entendimentos básicos sobre toda a cosmogonia nórdica, e até mesmo sua gênesis, não citada nesta resenha por nós vide sua complexidade e exotismo, que pode, se exposta em poucas palavras, mais confundir que informar o leitor, mas que é devidamente tratada pelo autor em capítulo exclusivo dedicado a esta função, dá-se início aos diversos contos. Embora organizados aqui de forma mais ou menos progressiva, faz necessário destacar que os mesmos podem ser lidos de modo aleatório, sem grandes perdas no entendimento.

Num total de doze, seus títulos são: A Cabeça de Mímir e o Olho de Odin, Os Tesouros dos Deuses, O Mestre Construtor, Os Filhos de Loki, O Casamento Incomum de Freya, O Hidromel da Poesia, Thor na Terra dos Gigantes, As Maçãs da Imortalidade, A História de Gerda e Frey, A Pescaria de Hymir e Thor, A Morte de Balder, Os Últimos Dias de Loki e Ragnarök - O Destino Final dos Deuses.

Não podemos negar que há mais de uma década atrás, quando da primeira vez que tivemos contato com estas histórias através da narrativa de Thomas Bulfinch em seu Livro de Ouro da Mitologia, toda esta excentricidade sobre deuses que vivem em grandes salões em um mundo dominado pelo gelo, gigantes que se confundem com montanhas e vazios que possuem geleiras, se comparados, aqui parecem mesmo fazer bem mais sentido. A lógica, que pode ser a lógica do absurdo em muitos casos, ganha certa simpatia quando percebemos que os relatos estão quase sempre limitados aos mundos divinos, e não ao mundo dos homens, e que os deuses de lá não tem mesmo a pretensão de serem perfeitos ou mesmo éticos sob a nossa perspectiva. As histórias são repletas de brigas, traições, magia e resultados que nem sempre estarão de acordo com o entendimento daquilo que nós consideraríamos correto ou justo para os dias de hoje. Neil torna esta leitura interessante e cativante sem precisar alterá-la, como fazem muitos quadrinistas e roteiristas modernos. Sentimos que há muito de genuíno aqui.

A mitologia nórdica parece nos ensinar que devemos estar sempre prontos para a eminência da traição, da injustiça, do golpe, da guerra, da covardia, do Ragnarök, e quanto a isso, não há exotismo algum que nos separe. Que o leitor fique atento: não importa quão distante esteja o hemisfério sul do norte, Midgard de Asgard, os Aesir dos Vanir, o passado do presente, a Ponte do Arco-Íris une deuses aos homens no campo de batalha, onde todos sangram igual. Lembre-se que os únicos que serão dignos de adentrar os salões do Valhalla serão os guerreiros. Portanto, se não quer ser condenado ao Hel, lute!

por Allan Trindade



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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

orixá
substantivo masculino

religião designação genérica das divindades cultuadas pelos iorubás do Sudoeste da atual Nigéria, e também de Benin e do Norte do Togo, trazidas para o Brasil pelos negros escravizados dessas áreas e aqui incorporadas por outras seitas religiosas [os mitos dão-nos frequentemente como ancestrais divinizados que se transformaram em rios, árvores, pedras etc e que fazem de intermediários entre os homens e as forças naturais e sobrenaturais].
fonteDicionário Houaiss


AS SETE LINHAS DE UMBANDA
é um livro escrito por Rubens Saraceni, publicado pela Madras editora no ano de 2017, com 151 páginas.

É certo que o mundo da religião pode ser considerado tão ou mais vasto que o mundo físico. O número de Deuses, doutrinas, dogmas, interpretações, sistemas, seres, templos, etc certamente alcança somas incontáveis para uma classificação absoluta e precisa. Falamos disso em termos generalistas mas é certo que o mesmo conceito pode ser aplicado para casos específicos com as devidas proporções.

As religiões brasileiras, formadas através de diversos sincretismos e aglutinações oriundas dos mais diferentes povos advindos de diversos continentes, são sempre um exemplo tangível para tudo isso. A macumba, como termo popular e genérico usado para se referir a todo este conjunto nacional, carrega em si uma variedade tão grande de linhas, que apesar de se subdividir em diversas religiões tais como Umbanda, Candomblé e Quimbanda, para citar as mais conhecidas, concebem ainda divisões dentro de cada uma destas religiões, que por fim, não é exagero dizer que cada templo pode representar uma religião diferente. Portanto, é preciso que o buscador entenda que existem formas e formas de se trabalhar dentro de cada uma destas correntes.

Se tal entendimento pode ser usado para definir a religião em si, o mesmo pode ser dito sobre os conceitos existente dentro delas. As Sete Linhas de Umbanda são antes de mais nada uma ideia plural, utilizada e interpretada pelas mais diversas correntes umbandistas, cada qual classificando e elencando os elementos que compõem este setenário de acordo com suas próprias interpretações. Logo, não há uma forma exclusiva de se falar sobre as Sete Linhas, mas a forma como este ou aquele terreiro trata este tema. Sendo assim, que fique claro para o leitor que este livro não se propõe a tratar de todas as variantes existentes dentro deste conjunto, nem tampouco se preocupa em traçar a história de todo este desenvolvimento, mas lida exclusivamente com a interpretação e classificação do autor sobre tudo isso.

Mas calma, vamos começar do começo. Saraceni inicia o livro alertando ao leitor que as exposições apresentadas são fruto de sua experiência no campo espiritual e que existem mistérios que não podem ser revelados. Partindo desta premissa, propõe-se a esclarecer que apesar da multiplicidade de nomes que possam, e são atrelados, aos diversos tipos de Umbanda, em essência, todas bebem da mesma fonte: os Orixás. As qualidades relacionadas a estas denominações servem apenas para destacar alguma característica de trabalho específica com o qual aquele Centro decide trabalhar. Por exemplo: na Umbanda Astrológica há apenas uma particularização do trabalho dos Orixás com correspondências astrológicas, o mesmo para a cabalística, a qual vai relacionar os mesmos a conceitos cabalísticos, assim como a numerológica, sincrética, etc todas tendo como base o mesmo mistério: os Orixás.

Estes, correlacionados a elementos formadores da criação, são apresentados aqui como pertencentes a um conjunto denominado de Setenário Sagrado, essências oriundas do incriado Olorum, a fonte primordial. As sete emanações formadoras da Coroa Divina regente do nosso planeta, também referida como Sete Linhas de Umbanda formadoras da natureza, são então classificadas como: 


1° Essência Cristalina - Fé - Oxalá
2° Essência Mineral - Amor - Oxum
3° Essência Vegetal - Conhecimento - Oxossi
4° Essência Ígnea - Justiça - Xangô
5° Essência Aérea - Lei - Ogum
6° Essência Telúrica - Evolução - Obaluaiê
7° Essência Aquática - Geração(Vida) - Iemanjá


Perceba então que a essência indica uma manifestação física, que está atrelada a um conceito vibracional que são regidos por um Orixá. Logo, se entendermos que a quarta essência, ígnea, representa o fogo, este está relacionado ao conceito da Justiça e ambos são governados por Xangô.

À continuidade, Rubens destaca a correspondência do número sete encontrado em diversos sistemas exotéricos e esotéricos, tais como sete raios, sete chakras, sete virtudes, etc, que nós, seres humanos, recebemos estas vibrações constantemente e que todas as tentativas de classificação destes mistérios, apesar de funcionais sob certos aspectos, são tolices, uma vez que partem de baixo para cima, e os Orixás, como forças descendentes, são incompreensíveis em sua verdadeira essência. Entretanto, apesar de considerar que as classificações não sejam tão positivas, alega que nossas ações refletem-se nestas mesmas energias primordiais, fazendo com que haja uma troca constante de influenciador para influenciado e de influenciado para influenciador.

A partir deste ponto os capítulos passam a ser encabeçados com reverências a Li-Mahi-Am-Seri-yê, também referido como Grande Mago do Raio da Luz Cristalina, e tudo começa a ficar muito confuso. A palavra Orixá passa então a ser usada de forma indiscriminada para classificar toda uma categoria de seres em processo de influência ou evolução, que apesar de ditos como tendo funções diferentes, acabam por parecer serem sempre os mesmos: Orixás Ancestrais, Orixás Naturais, Orixás Dimensionais, Orixás Encantados, Orixás Mistos, Orixás Auxiliares, Orixás Tronos, Orixás Bielementais etc etc etc. 

Veja que aqui não queremos dizer que através da correspondência, tradução esotérica e um certo esforço, não possamos entender o significado de todos estes grupos que o autor se refere, mas que a linguagem e método usados por ele dificulta a compreensão. Por exemplo, no capítulo em que trata de Orixás Dimensionais, diz que ao desencarnar, os espíritos vão para um plano de existência chamado de faixa energo-magnética, matéria-espírito ou plano-misto, o que nos parecem apenas mais nomes complicados para o Plano Astral. 

Não obstante, o livro é abarrotado de tabelas infindáveis e deveras confusas, que tentam explicar todas as relações, correspondências, vibrações, polaridades, etc, etc, etc de tudo aquilo que, apesar das ditas diferenças, vai sempre ser referido como Orixás e justificado como mistérios, e que portanto, não cabe mesmo a nós a compreensão de tudo isso...por fim, fala sobre Exu e exus, distinções e origens, entidades e seus trabalhos na Umbanda.

Que fique claro que não estamos questionando a validade do sistema, mas a forma confusa com a qual ele é apresentado.

As Sete Linhas de Umbanda é um livro que tem um começo interessante, esbarra em certo proselitismo em alguns momentos, é evasivo em tantos outros ao dizer que a compreensão humana é limitada ou que nem tudo pode ser revelado, perde-se em uma confusão repetitiva, cansativa e pouco didática no meio do caminho, mas retoma o senso em seus últimos capítulos...

...o pouco que se aproveita pode ser encontrado em outras publicações, a maior parte, que é aquilo que sobra, não vale o investimento.

por Allan Trindade

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Pode não parecer, mas a facilidade de comunicação instantânea é um advento bem recente da história da humanidade. Especificamente falando sobre celulares multifuncionais, computadores e internet em quase todos os lugares, toda esta realidade ainda comemora sua primeira década de existência. Para muitos, nascidos e criados com conexão direta ao plano virtual, vislumbrar contextos anteriores talvez seja uma tarefa no mínimo difícil: disquetes, k7s, Lps,...foram divindades menores, que tiveram uma importante participação neste mundo, mas que caíram com a chegada de um novo deus único. Aquele que, sendo onipotente, onipresente e onisciente, depois do tetragrammaton com seu YHVH, do pentagramaton com seu YHSVH, seguiria esta curiosa progressão, sendo então o hexagramaton dos nossos tempos, com seu G O O G L E. 

Antes dele a vida era bem mais difícil, ao menos no campo da pesquisa: era preciso se dedicar de verdade para encontrar informações sobre os temas que lhe interessavam; bibliotecas seriam seu browser, jornaleiros suas lojas virtuais, cartas seu whatsapp, e seus amigos seu site de notícias. Paciência seu loading, papel seu word, lápis seu ctrl+c e caneta seu pdf, porém, considerando no mínimo um dia inteiro para a execução de todas estes "rituais". 



Se para assuntos comuns a tarefa já não era fácil, o que dizer sobre temas de menor apelo  popular, como religião e ocultismo? 



Lembro com certa clareza das minhas idas semanais as bancas de revistas em busca de novidades. Certos assuntos eram recorrentes e já não supriam mais minhas necessidades: sociedades secretas e "TODOS OS SEGREDOS da Maçonaria finalmente revelados"...curioso é pensar que todo este sensacionalismo parece funcionar até os dias de hoje. Frustrante. Porém, um dia tudo mudou, e recebi um convite em minha casa - não de nenhuma Ordem, como eu tinha a ilusão de que um dia aconteceria, mas - para me tornar assinante de uma nova publicação da editora Abril: A Revista das Religiões! Li a sinopse e quase não acreditei: uma revista que abordava especificamente o tema religião de forma imparcial?! Devo até ter me emocionado...porém disso eu não lembro. Assinei! No mês seguinte recebi meu primeiro exemplar.


COLEÇÃO DIVINDADES é um conjunto de quatro livros publicados pela editora Abril, no ano de 2004, com 98 páginas cada, sob o título da Revista das Religiões.



O primeiro título chama-se Divindades Gregas, traz em seu prefácio a notável diferença de percepção existente do nosso ponto de vista para com o dos gregos antigos, quando tratamos seus Deuses como símbolos e sua religião como mitologia. Traz ainda apontamentos sobre os fatores possíveis para o surgimento da religião helênica, ou Helenismo, com seus cultos domésticos, e da mudança radical que marcou  o fim da era olimpiana: o advento do Cristianismo. Em sua lista de Deuses e Semi-Deuses apresentados através de suas histórias e curiosidades, destacam-se: Zeus, Hera, Hades, Posêidon, Afrodite, Dioniso, Atena, Apolo, Hermes, Héracles, Asclépio, Orfeu e Prometeu.





O segundo exemplar, intitulado como Divindades Afro-Brasileiras, aborda os tipos africanos que chegaram ao Brasil e suas misturas. Nos traz boas referências para pesquisa, que se contropõem a ignorância popular de considerar a África como um lugar único, tal qual um país, sem diferenças étnicas, religiosas ou linguísticas, que mais do que nunca, em tempos de orgulho pela ancestralidade preta, deveriam ser tratadas com muito mais rigor que se tem praticado por grupos ou pessoas em específico, que apelam para a demagogia em detimento do critério científico e histórico. Os Deuses comentados são: Exu, Ogum, Oxóssi, Omolu, Nanã, Iemanjá, Xangô, Oxalá, Iansã e Oxum.





O número três, Divindades Indianas, fala sobre o gigantesco número de adeptos da religião Hindu e as razões para, apesar de seus milhões de Deuses, esta religião também ser passível de ser considerada monoteísta. Aborda as origens históricas e sincréticas entre Drávidas e Árias, e os aglomerados de povos de compõem uma das maiores religiões do mundo. Além de curiosidades sobre os vários braços e cabeças das divindades e interessantes correlações com conceitos ocidentais, tais como a Trindade, ou Trimurti, e os novos movimentos vaishnavas. Os Deuses aqui são: Krishna, Vishnu, Shiva, Parvati, Brahma, Agni, Varuna, Indra, Kama, Ganesh e Skanda.




O último e não menos interessante, trata das Divindades Egípcias, e em seu prefácio também nos dá indicativos históricos sobre a formação do povo egípcio, e sua relação milenar com o rio Nilo. O Alto e Baixo Egito, a unificação e a formação da religião khemética, ou Khemetismo, sua adoração ao Sol, seus Deuses com cabeças de animais, o faraó como divindade encarnada, e a sucessão desses como influenciadores e modificadores não só para a religiosidade local, como para a eleição de uma divindade principal de seu panteão. Seus Deuses: Osíris, Ísis, Hórus, Rá, Seth, Amon, Hathor, Áton, Nut, Anúbis.

Como era de se esperar a revista não durou muito. Novamente recebi uma carta sendo informado que a publicação encerrava seu ciclo, e que eu poderia trocar o número de edições restantes da assinatura, por algum outro título da editora. Fiquei triste. Mas tal qual homens, espíritos e Deuses, tudo tem seu fim...mas será que este fim há de ser eterno?


por Allan Trindade





quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ao observarmos a evolução das religiões no mundo, percebemos uma grande divisão histórica nos registros modernos: saímos do plural para o singular. No período anterior ao advento do Cristianismo, há cerca de 2016 anos atrás, o mundo religioso, em sua grande maioria, era povoado por uma infinidade tão grande de Deuses e divindades menores, que seria impossível classificar a todos, fosse qual fosse nosso esforço. Panteísmo, animismo, politeísmo, monolatria, são termos recentes, desconhecidos para povos que estavam conectados as suas crenças, não por uma questão de escolha, mas por uma ligação étnica. Nascer sob a égide de uma determinada religião, receber de seus pais e sociedade os ensinamentos daquela crença, era automaticamente ser e considerar-se pertencente a ela.

Tal visualização pode parecer difícil num primeiro momento, num contexto onde a mística exerce um papel social secundário, neste mundo atual onde as pessoas trocam de religião com a mesma facilidade com que bebem um copo d'água. Mas basta pensar que ainda confundimos árabes com muçulmanos, que ignorantemente chamamos de racista todo aquele que diz não gostar do Judaísmo, para perceber que ainda temos muito que aprender sobre esta matéria.

Estas três religiões são então nossa principal referência para o assunto que se segue. É o Judaísmo o precursor do pensamento moderno, disseminado pelo Cristianismo, e tão ferrenhamente defendido pelo Islamismo de que "Deus é um só!". Todo este reducionismo, obviamente, encontra seus fundamentos numa colcha de retalhos histórica tão distante dos métodos modernos de classificação e verificação científica, que somos obrigados a usar deste argumento, de que são eles os "inventores" desta ideia, de modo a não cairmos num relativismo sem fim, que nos distancia da pluralidade de Deus(es) mas nos lança no "polihistoricismo" teórico. Deixemos que os cientistas da religião e exegetas nos digam se o monoteísmo existe de fato ou se toda esta ideia não passa de puro marketing espiritual.


E por qual razão consideramos essa possibilidade? Pois basta que você recorra ao principal elemento de perpetuação, usado principalmente pelas religiões monoteístas - seus livros sagrados -, para que sem esforço se depare com uma infinidade de seres espirituais imbuídos de funções sob o comando do tal "Deus Único", que em muitos casos, são tão poderosas, e descritas como tão mais próximas de nós, e tantas outras tão próximas d'Ele, que mais justo seria também considerá-las divindades dignas dos mesmos preletores. E não era esse o argumento daqueles antigos religiosos a que modernamente nos referimos como pagãos? Não é recorrente no paganismo, o conceito de que, apesar da pluralidade, apesar de um panteão com diferentes Deuses, todos eles, e as criaturas sob seus comandos, eram advindos de uma fonte única?


 Em todo mundo moderno, o esforço exercido pelas religiões monoteístas para desvincular o povo de seus mitos e crenças, foi em certo nível falho e vão. Pessoas e religiões se viram na obrigação de adaptar sua magia, fé e seres espirituais a nova linguagem imposta, daqueles que teimavam em lhes dizer que "basta pedir para Deus". Não bastou! Deuses viraram santos, semi-deuses foram travestidos como super heróis, rituais transmutaram-se em festas, espíritos reinterpretados como assombrações ou guias, elementais como folclore, anjos e demônios como serviçais de Deus para a manutenção da vida do homem... todos, tão antigos quanto o antigo, mais fortes que o tempo, venceram a força da abstração ignorante e minimalista, e superaram, mesmo que reconfigurados, as invasões, fogueiras e bombas do tempo que tanto insistiram e insistem, na tentativa de lhes expulsar do contato para com cada um de nós, e lhes apagar dos registros da nossa história e memória.

Os Espíritos da Natureza é um livro publicado pela editora ISIS, no ano de 2004, com 94 páginas, 16 capítulos, e foi escrito por Charles Webster Leadbeater, famoso teosofista e clarividente do século XIX.


Entendendo-se que Leadbeater chama de fadas, todos os espíritos da natureza ligados ao plano telúrico, de forma etérica ou astral, o autor reuniu através de capítulos uma coletânea de descrições sobre o mundo dos elementais, com foco em seu comportamento e forma.


A ideia básica por trás de seu conteúdo reside no conceito de que estes seres são formas sutis de energia, nascidas através de anjos e devas, com sua própria trajetória evolutiva no mundo espiritual. Sua proximidade conosco então se dá, pois são os elementais os responsáveis pela criação e manutenção de grande parte de todo o ciclo de vida da natureza, em seu sentido mais natural, sendo eles os administradores de flores e suas colorações, plantas e suas formas, insetos e toda a infinidade de coisas que se possa imaginar.

Sendo o homem um ser dotado de inteligência e individualização, e tendo em si caracteres revolucionários e ignorantes que o distanciam deste contato, está, por conseguinte, em grande parte, se afastando da relação com estes seres, todas as vezes que substitui florestas por cidades, rios por esgotos, despertando assim a ojeriza das fadas. Isso explicaria então o por que de no passado termos tido tantos relatos de seres fantásticos, e nos dias de hoje, tudo soar para nós como lendas de contos de fadas, aos quais, apesar de nosso anseio, só temos conhecimento através de reproduções cinematográficas.

Ainda segundo o autor, quanto mais distante do contato com a civilização humana, mais simpáticos eles são para conosco, traçando assim uma distinção entre os elementais que residem em rios e florestas, que por exemplo, são mais avessos e arredios a nossa presença já que conhecem e veem com frequência nossos atos destrutivos em seus reinos, e sendo aqueles residentes das superfícies do alto mar muito mais simpáticos a nós, uma vez que nossa aparição por lá seja muito mais rara.

As descrições de Leabeater são sempre generalistas e nada tem de realmente profundas: cada capítulo, quando muito, não chega ao número de quatro páginas. Entretanto, o título também não nos
traz promessa alguma: não há nele qualquer indicação sobre como o autor chegou aquelas verificações e nem tampouco, como elas poderiam então ser reproduzidas por outrem. Obviamente que aqui não estamos ignorando a fama do referido ser um clarividente, apenas consideramos que o livro carece de uma introdução explicativa neste sentido, para aqueles que não conhecem sua história. Se você está procurando um livro prático de magia elemental este título certamente não é para você.

Os Espíritos da Natureza ainda exige um certo conhecimento prévio, por incrível que pareça, para entender algumas ideias apresentadas pelo autor. Talvez seja interessante que você esteja familiarizado com tipos de pensamento relacionados a metempsicose, hierarquia celeste, hinduísmo e teosofia. Nada que você realmente precise, mas que pode evitar, principalmente em seus primeiros capítulos, questionamentos sobre "O quê ele quer dizer com isso?!".

Além disso, a editora incluiu nesta edição tantas imagens de fadas, que acredite, caso não fossem elas, o livro teria ainda bem menos páginas. Não obstante, não consta em sua ficha técnica seu nome original. Como seus leitores saberão de onde vocês tiraram estes escritos, Editora ISIS? Isso nos leva a pensar sobre a possibilidade desta publicação ser uma antologia destacada de algum outro contexto, onde originalmente os pontos falhos citados acima - como uma introdução para o assunto e explicações sobre métodos - talvez estivessem incluídos. Deixamos aqui o espaço aberto para uma possível explicação.

Este título dificilmente lhe trará algo de realmente significativo, seja a nível intelectual ou prático. Não espere por grandes revelações, métodos ou exercícios: nada disso você encontrará lá. Mas, com um certo esforço, tal qual o que eu fiz aqui, você poderá usá-lo como um gatilho para reflexões sobre o porquê da nossa relação de tanta dependência com o mundo moderno e o nosso distanciamento, cada vez mais intenso, para com os aspectos mais básicos da natureza.

por Allan Trindade


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