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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Quero dizer que o que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios e não a Deus, e não quero que vocês tenham comunhão com os demônios. Vocês não podem beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; não podem participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.

I Coríntios 10:20-21


THE DAEMON TAROT é um livro escrito por Ariana Osborne, com 143 páginas, 69 cartas e publicado no ano de 2013 pela Sterling Ethos.

A passagem destacada acima certamente não é a única encontrada na Bíblia que faz referência a demônios. Antigo e Novo Testamento dão indicativos diretos e indiretos sobre a existência destes seres, variando, porém, na descrição e forma como são entendidos. Se a partir de Jesus tais criaturas são descritas de maneira quase sempre genérica, agrupados sob uma mesma categoria, é nos tempos da vigência da lei de Moisés que eles costumam ter nomes mais específicos.

E talvez tenha sido sob esta perspectiva que Jacques Auguste Simon Collin de Plancy tenha se inspirado para escrever sua obra mais conhecida, Le Dictionnaire Infernal, lançada em 1818, ainda mais cristianizada em 1830 quando se convertera ao Catolicismo, e famosa por classificar uma série de demônios e atribuir-lhes diversos títulos nobilitários. Entretanto, embora tenha sido Collin o autor do Dicionário, seu grande sucesso só seria alcançado em 1863, já em sua 6° edição, através da arte de Louis Breton, o artista que imortalizaria a forma como enxergamos cada um dos seres apresentados naquela obra, que é copiada até os dias de hoje.

E foi assim que inspirada pelo Dictionnaire e as belas imagens de Breton, que Ariana nos apresenta seu título, que embora carregue o nome de tarô, em nada se relaciona com aquele livro, sendo este melhor definido como um oráculo. The Daemon Tarot vem em uma caixa resistente de papelão, com um livro e 69 cartas. Cada demônio, um para cada carta, fora explicado sob três perspectivas pela autora: annotation, inspiration e divination.


  • Em Annotation estão reunidas as informações históricas oriundas de suas pesquisas de diversas fontes - não apenas do Dicionário - que estão indicadas na bibliografia do livro.



  • Em Inspiration encontram-se suas interpretações e insights sobre cada carta, mas deixa claro que, cada um é livre para reinterpretá-las a sua própria maneira.



  • Em Divination traz o significado oracular da carta e diz que este, ao menos em sua experiência, melhor funciona com tiragens de 1 ou 6. No método de 1 carta, basta que pense em uma pergunta e consulte a resposta no livro. No método de 6, cinco cartas são dispostas em forma de cruz, uma para cada braço e uma no centro +, além de mais uma a ser posta do lado direito. Este método é destinado para questões mais complexas.


Os 69 arcanos trazem o nome no topo, a imagem no centro e a descrição do demônio em sua base. São eles: Abigor, Abraxas, Adramelech, Agares, Alastor, Alocer, Amduscias, Amon, Andras, Asmodeus, Astaroth, Azazel, Bael, Balan, Barbatos, Beelzebub, Behemoth, Belphegor, Berith, Beyrevra, Brooms, Buer, Bufonite, Caacrinolaas, Cali, Cerberus,Deumus, Eurynome, Flaga, Flavros, Forcas, Furfur, Ganga-Gramma, Garuda, Gomory, Haborym, Ipes, Lamia, Lechies, Leonard, Lucifer, Malphas, Mammon, Marchochias, Melchom, Moloch, Mycale, Nickar, Nybbas, Orobas, Paimon, Picollus, Pruflas, Rahovart, Ribesal, Ronove, Sabbat, Scox, Stolas, Tap, Torngarsuk, Ukobach, Volac, Vuall, Witch's Round, Xaphan, Yan-Gant-Y-Tan, Zaebos.


The Daemon Tarot é sem dúvidas um título primoroso, que reúne qualidade, pesquisa, divinação e história em um só conjunto. Observar cada uma das ilustrações de forma tranquila e despretensiosa é um prazer a parte, e dá mesmo a impressão de estar imerso em um museu antigo admirando as telas de um criativo artista que com sua mente inventiva, tem a capacidade de encantar pelas estranhezas de suas composições que misturam homens, bestas e objetos diversos, além de, com a devida concentração, nos dar a capacidade de nos conectar a tais seres para que possam nos auxiliar a sanar nossas dúvidas. Mas para isso, quem sabe o ideal seja que tu estejas sentado a mesa, com os 69 demônios dispostos a sua frente, degustando um ótimo cálice de vinho... e então, aceitas?



por Allan Trindade




quarta-feira, 14 de março de 2018

De todos os moradores da minha rua, uma velha senhora chamava atenção por seu jeito exótico de se vestir. Com seus prováveis um metro e sessenta de altura, andar lento, vestida permanentemente de preto e com um guarda-chuva de cor igual para protegê-la do sol, destacava-se ao longe a visão de qualquer um que direcionasse o olhar na direção em que estivesse. Seu marido, um velho de aparência absolutamente normal, costumava ficar sentado no portão daquela casinha estranha, e ao me ver, criança que eu era, passava a mão na minha cabeça e dizia com certo sotaque: Olá, Trindade!

Conhecia-os de perto, vez por outra minha mãe me levava lá para rezar a tal da espinhela caída. A casa era pobre, com uma sala repleta de santos católicos, velas, ramos de arruda e uma aura constante de religiosidade. É fato que eu tinha certo medo daquele lugar. Mas a tensão inicial era sempre compensada pelas boas energias de reza que aquela exótica velha cristã humildemente oferecia a todos de graça, se você não pudesse pagar, ou pelo valor que pudesse doar.

O tempo levou um a um. A casa, abandonada e sob escombros, está pouco a pouco sendo tomada pelas plantas. A memória um dia também vai se esvair. Mas a impressão permanece; de que já não se fazem mais bruxas como antigamente...


ARADIA O EVANGELHO DAS BRUXAS é um livro escrito por Charles Godfrey Leland, com 119 páginas, divididas em 15 capítulos, publicado no ano de 2016 pela Madras editora.

Embora esta seja uma edição recente, faz-se necessário posicionar o leitor em sua data original: 1899. Charles Leland, um inveterado pesquisador do tema de Bruxaria, autor de mais de 50 livros, empenhou-se em registrar nesta publicação parte daquela antiga tradição italiana de feitiços e adorações a deuses pagãos.

Stregheria, vocábulo utilizado para referir-se a bruxaria italiana enquanto exercício da feitiçaria ou ofício religioso, define a prática das strege, ou feiticeiras, que segundo o autor, fazem jus a realidade e devaneio atribuídos popularmente ao imaginário da magia, com suas produções e comércio de adivinhações, amuletos, feitiços, que podem ser apontadas como herdeiras de tradições familiares deste contexto.

Segundo Leland, parte da responsabilidade da existência destes homens e mulheres alinhados para com estas artes, seria a própria Igreja Católica, que ao atacá-los, produz um sentimento de atração nas mentes daquelas pessoas mais curiosas, aumentando, desta forma, o número de seus adeptos. Mas deixa claro que não é otimista sobre o futuro de nenhum destes lados, e prediz que tanto a bruxa quanto o padre correm o risco de desaparecer em um futuro próximo.

Baseado nesta perspectiva pessimista, ao conhecer uma senhora adepta de tais práticas, a incumbiu de recolher informações em meio a suas iguais, e usou este conhecimento para a formação deste livro, sob o preço, quem sabe, de nunca mais tê-la visto novamente.

Em poucas palavras, pode-se dizer que a bruxaria é conhecida como la vecchia religione, ou antiga religião, sendo Diana a Deusa e sua filha Aradia (ou Herodias) o Messias feminino, seu nascimento, como desceu à terra e instituiu as bruxas e a bruxaria, retornando então aos céus, são temas apresentados nessa pequena obra. Também fazem parte as cerimônias e invocações ou encantamentos a Diana e Aradia, o exorcismo de Caim e os feitiços da pedra sagrada, da arruda e da verbena que, segundo afirma o texto, integram o que se pode considerar uma celebração religiosa regular, para entoar ou recitar em encontros de bruxas. Além disso, também se incluem os singulares encantamentos ou bênçãos do mel, do trigo ou pão e sal, ou os bolos da refeição das bruxas, curiosamente clássicos, e um nítido vestígio dos Mistérios Romanos.
pg. 9


O parágrafo em destaque resume grande parte do conteúdo, e como complemento podemos dizer que este título parte do princípio que Diana, irmã de Lúcifer, deus do Sol e da Lua, e que fora expulso do Paraíso pelo orgulho de sua beleza, juntou-se a ele e deu a luz a Aradia (Heródias). Todo este ocorrido teria acontecido num tempo onde ricos humilhavam e escravizavam os pobres, e que estes, comumente tinham que fugir para poder garantirem sua sobrevivência. Assim, Diana instruiu Aradia para que descesse a Terra e ensinasse a estes oprimidos as técnicas de bruxaria e envenenamento para serem usadas contra ciganos, judeus e cristãos, seus principais opressores. A partir deste ponto, os capítulos incluem receitas de alimentos, histórias, fetiches e feitiços para os mais diversos fins e são, em grande parte, escritos em formas de versos bilíngues, em italiano e português.

Quando o nobre e o padre disserem que deves crer no Pai, no Filho e em Maria, tua resposta há de ser sempre: Vosso Deus, o Pai e Maria são três demônios...Pois o verdadeiro Deus-Pai não é o vosso: vim para destruir os maus e os destruirei...Vós que sois pobres e de fome sofreis, em miséria labutais e, muitas vezes, sofreis ainda a prisão, tendes também uma alma, e por vossos sofrimentos felizes sereis no outro mundo, e mau destino terão todos os que vos fizerem mal!
pg. 13

Este é um livro de caráter histórico, mas nem por isso menos empírico. Registra práticas de bruxaria italianas oriundas do século XIX, que possivelmente antecedem em muito esta data. É simples e direto. Cumpre de forma objetiva e satisfatória aquilo que propõe.

por Allan Trindade


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