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domingo, 16 de maio de 2021

Louvado sejas Tu, Ó! Osíris, senhor da eternidade, Un-nefer,
Hoorkhuit cujas formas são múltiplas e cujos atributos são excelentes, que é Ptah-Seker-Tem em Yunnu, o senhor do lugar escondido, e o criador de Het-ka-Ptah e dos deuses daquele lugar, o guia do outro mundo, que os deuses glorificam quando tu estás em Nut. Ísis abraça a ti em paz, e ela guiou para longe dos teus caminhos os demônios de tua boca. Tu voltaste tua face para Amentet, e tu fazes a terra brilhar como cobre refinado. Os mortos se levantam para te ver, eles respiram o ar e procuram a tua face quando o disco se levanta no horizonte; seus corações estão em paz pois eles contemplam a ti, Ó! Tu que és eternidade e imortalidade. 

AS IDÉIAS DOS EGÍPCIOS SOBRE A VIDA FUTURA é um livro escrito por E.A Wallis Budge, contém 121 páginas divididas em 5 capítulos e foi publicado no ano de 2004 pela Madras Editora.

Budge é sem dúvidas uma das figuras mais fundamentais para a egiptologia. Seus livros tiveram uma inegável importância para muito daqueles trabalhos de pesquisa que se desenvolveriam com o passar dos anos dentro deste ramo científico e costumam representar a porta de entrada para aqueles que decidem se enveredar por estes estudos. Embora deva-se sempre ter em mente que a egiptologia é uma ciência viva, que está em constante processo de evolução, vide as constantes descobertas de tumbas e elementos outros, ninguém que tenha real interesse em saber sobre os mistérios da terra de Kemet pode dispensar os escritos de consagrado autor.

Wallis esclarece que as páginas contidas neste livro objetivam apresentar as ideias dos egípcios antigos sobre ressurreição e vida após a morte, embora saiba que em milhares de anos de existência daquele povo, crenças e hábitos mudaram, além de nunca ter havido realmente um único conceito exposto e aceito de forma dogmática por toda a gente ou sacerdotes. Muito de seu embasamento entretanto advém dos comparativos existentes entre diversos tipos de fontes primárias, sendo a principal delas o livro conhecido popularmente como Livro Egípcio dos Mortos, que embora obscuro sob muitos aspectos, deixa clara a crença na existência de vida além da vida material.

Aqui o autor nos apresenta uma série de textos oriundos de diversas fontes originais que atestam o fato da crença em um ser único e superior, referido como Netjer, que tem a capacidade de manifestar-se de diversas formas a partir de Si próprio. Tais manifestações que podem ser entendidas como deuses em certo sentido, são conhecidas como Netjeru - plural de Netjer. Segundo Budge, apesar do comentário de alguns detratores da religiosidade egípcia, que costumavam considerá-los um povo supersticioso e sem fundamento, muito destes ataques residiam sobre o fato da não compreensão da maleabilidade do pensamento religioso daquele povo. Netjer, ou Deus, é um e ao mesmo tempo vários, pois expande sua própria forma e manifestação, multiplicando-se em sua própria criação. Tal como o Sol que expande sua própria luz a todos os cantos, assim o é Rá, a primeira manifestação conhecida do Criador. 

Para além disso, um outro elemento de igual importância dentro de sua religiosidade relacionava-se ao culto a ancestralidade representada por Osíris, o deus do submundo. Sendo Osíris o deus que superou a própria morte, tinham os egípcios antigos em sua figura a esperança do prolongamento da própria vida, a ser continuada no Duat, com a chance de viverem a imortalidade junto a este deus de benevolência no Campo dos Juncos - espécie de paraíso egípcio. O hábito de cuidarem e eventualmente mumificarem seus mortos residiria então sob o conceito de que, tal como Osíris, que tem seu corpo preservado graças aos encantamentos de Ísis e Thoth, caso reproduzissem no falecido feitiços específicos, garantiriam que o morto se encontrasse com tal deus no além, tendo sua alma devidamente preservada, para quem sabe, voltar ou ressuscitar um dia. 

Budge traça com estes elementos uma série de associações com a moderna crença cristã, que não por acaso, teria herdado muito dos conceitos egípcios, adaptando-os ao seu novo deus conhecido como Jesus. O sincretismo teria então o efeito de modificar a crença dos egípcios, fazendo-os substituir um dos mais populares deuses de seu panteão, por aquele deus judaico-romano. Um outro fator possivelmente colaborativo para tal mudança pode ter sido aquele da não existência da necessidade da mumificação dentro da crença cristã, visto ser essa prática inacessível para a maioria dos egípcios que não poderiam pagar por tais serviços.

O autor salienta que a crença egípcia, por sua grande maleabilidade, tampouco preocupava-se em qualquer tipo de dogmatismo ou obrigatoriedade. Uma pessoa, ou cidade, podia trocar de divindade livremente, e o faziam costumeiramente quando aquele deus não lhes atendia em suas expectativas. 

A continuidade, Wallis apresenta o Julgamento de Osíris, onde os mortos eram avaliados e podiam garantir - ou não - sua entrada no paraíso. Sobre a crença na ressurreição, pregada inclusive por cristãos até os dias de hoje, afirma não possuir elementos necessários para definir com exatidão se era vista de tal forma. A dúvida reside se criam na ressurreição literal dos corpos, e por isso o preservavam através da mumificação para evitar o apodrecimento e assim tê-los de forma "aceitável", ou se na verdade a crença residia sobre a ideia de que para a preservação do ka - espécie de alma -havia a necessidade de se preservar o corpo físico, para que assim o ka continuasse existindo no pós vida e pudesse voltar para eventualmente se comunicar com os vivos.

Especulações diversas, conceitos filosóficos e científicos, pluralidade de pensamento, riqueza material e espiritual, muita coisa a se descobrir. É esta a sensação que livros como estes nos passam sobre aquele povo tão maravilhoso e misterioso. Estudar egiptologia pode ser encantador, mas pode lhe causar efeitos colaterais irreversíveis: o desejo de querer sempre saber mais!

por Allan Trindade


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sexta-feira, 12 de março de 2021

Polêmico. Este é um dos adjetivos sugeridos por Barbieri a este coletivo tão controverso chamado de Exu. 

Você pode estranhar o fato de usarmos o termo coletivo para nos referirmos a Exu, porém isto se dá de forma intencional visto que esta palavra serve para definir tanto o orixá homônimo de origem yorubá, quanto todo o grupo de entidades que pegaram Seu nome emprestado para definirem a si próprias.

EXU é um livro escrito por Alan Barbieri, com 253 páginas divididas em 25 capítulos e foi publicado no ano de 2020 pela editora Mariwô.

Segundo Alan, esta é apenas uma das características de Exu, que vive sempre em transformação e que embora seja comumente associado ao mal, é justo e até mesmo caridoso, sendo a ignorância e o sincretismo cristão os culpados por sua associação ao Diabo. Tal engano teria sido iniciado por um nigeriano cristão de nome Samuel Crowther, quando em 1843 traduziu a Bíblia para o yorubá e substitui as referências ao demônio opositor do Deus judaico cristão, a Exu. Barbieri destaca o absurdo de tal comparativo visto ser Exu a força que impulsiona os homens a ação para sua própria evolução espiritual, e não uma criatura sedenta pela desgraça humana tal como a figura de satanás.

O livro traça uma linha progressiva de explicação sobre estas figuras da espiritualidade africana e brasileira. Vindo das terras de lá, Esu, neste ponto ainda o Orixá, é apresentado como tendo uma relação próxima e controversa com Oxalá, que se recusava a lhe prestar os devidos respeitos conforme mandado por Olorun. Em seguida, o autor nos apresenta os diversos epítetos atribuído ao Orixá dos Caminhos, que quando vistos por leigos, passam a impressão de se referirem a outros seres, porém, tais epítetos apenas marcam características de Exu em suas diversas formas e campos de atuação. 

Ao chegar em terras tupinikin, Exu passaria então a integrar diversos outros cultos brasileiros, carregando qualificações positivas e negativas, e misturando-se as tradições europeias e americanas que aqui se condensavam. E é assim que Exu deixa de ser apenas um Orixá para se tornar a fonte nominal da falange de todos os espíritos desencarnados que Dele pegam o nome e recebem o grau. 

Nas encruzilhadas, onde os exus costumam ser cultuados, pratos com farofa e sacrifícios animais compõem seus ebós, mas Barbieri deixa claro que apesar de respeitar todas as formas de culto, em seu terreiro não há derramamento de ejé (sangue) e que é hipocrisia daqueles que criticam tais práticas mas consomem carne de animais fruto de matadouros que não dispensam o mínimo respeito pela vida daqueles seres.

O autor nos diz ainda que nada é por acaso, e que somos consequência de nossos atos desta ou de outras vidas, e que Exu é o aplicador da lei do merecimento, sendo o responsável por dar a cada um aquilo que merece. Os exus são vistos então como agentes da ordem, espíritos responsáveis por fiscalizar as ações do mundo e decidir quais consequências devem ser tomadas em função de cada situação. 

Os mais atentos hão de perceber que tais conceitos se aproximam muito de ideias como lei do karma e lei do retorno, e aqui faz-se necessário esclarecer um ponto. 

Alan Barbieri é umbandista, e portanto, embasa grande parte de seus conceitos sobre o que sejam os exus, sob a lei de Umbanda. Sendo assim, que o leitor saiba que embora tais conceitos sejam amplamente difundidos como verdades sobre a realidade total de exu e pomba gira, nem todas as vertentes de culto a estes seres concordam sobre tais pontos. Em outras palavras: saiba que existem vertentes de linhas de Quimbanda que não atribuem as ações de Exu valores éticos ou morais, definindo-os como seres amorais, livres e liberados para agirem da forma que bem entenderem sem que isto lhes cause qualquer choque de retorno.

Barbieri fala ainda sobre a ação das entidades na vida das pessoas, quais critérios a espiritualidade usa para elevar espíritos ao grau de exus, a relação destes seres com a sexualidade, as falanges e as relações com os Orixás, receitas de diferentes tipos de padê para diversas finalidades, explicações sobre assentamentos e ervas, e instruções sobre como fazer firmezas para seus exus pessoais e cuidar deles em sua casa.

Um livro leve, muito bem diagramado, que apresenta história, teoria e prática num só conjunto. Útil para iniciantes que conheçam ou não seus exus de frente, mas igualmente interessante para aqueles que já tenham alguma experiência dentro das práticas e que queiram ter sempre em mãos um livro de consultas rápidas. Daqueles livros que vale a pena ler e ter.

por Allan Trindade


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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Entenda: nenhuma religião estruturada com rituais, dogmas, deuses, entidades ou santos, surge do nada. Todas as religiões são consequência de uma ou mais fontes que influenciam aquela nova percepção sobre a vida material e espiritual. E com o Cristianismo não é diferente.

Se você já viu a Bíblia ao menos uma vez na vida sabe que o Antigo Testamento é um livro judaico, e que é, portanto, oriundo do Judaísmo, tendo sido o próprio Jesus um judeu. Isso já seria suficiente para dizer que o Cristianismo não é uma religião totalmente original assim, correto? Mas se baseado nisso você acha que o Judaísmo é a única religião que ajudou a formar o Cristianismo tal como o conhecemos hoje, este livro vem para lhe mostrar que você está redondamente enganado.

A ORIGEM EGÍPCIA DO CRISTIANISMO é um livro escrito por Lisa Ann Bargeman contém 158 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Pensamento.

Se você é o tipo de pessoa que adora estudar história ou religião e realmente se dedica a esses assuntos, cedo ou tarde notará algo interessante: você sempre será levado para o Antigo Egito. E isso não se dá por nenhum tipo de conspiração Illuminati ou por chips implantados em nossas cabeças pelos aliens, mas por um fator histórico incontestável: o Egito foi uma das mais poderosas e importantes nações do mundo antigo, perdurando por mais de 4.000 anos como uma terra próspera que exportava conhecimento científico e religioso para grande parte do mundo. 

Localizado em uma área privilegiada do norte da África, esta terra de grandes faraós sempre atraiu o fascínio dos mais diferentes povos, e sua abundância, em todos os sentidos, fez escola entre cientistas, magistas e religiosos de todos os tempos. 

Para entender a lógica do argumento de Lisa Bargeman neste livro é antes de mais nada necessário entender o contexto e manter a cronologia em mente. Sendo assim, lembre-se que o Cristianismo, se calculado a partir do suposto nascimento de Jesus, possui pouco mais de 2.000 anos. Judeus, gregos, romanos, egípcios e uma série de outros povos viviam em constante contato muito antes deste tempo, chamado de "antes de cristo", tendo sido o Egito em seu período faraônico uma das maiores potências daquele período. 

Era coisa comum que nações menores, como da Grécia por exemplo, enviassem cidadãos gregos até aquelas terras para aprender ciência, magia e aquilo que chamamos de religião, mas que também poderia ser entendida por mitologia ou mesmo filosofia. Sem haver uma distinção clara entre tais conhecimentos naqueles tempos, também era relativamente comum que tais saberes fossem absorvidos e adaptados as novas culturas, ganhando roupagens novas de acordo com o local para onde se ia e levava tais conhecimentos. Por isso, Het-Heru poderia ser chamada de Hathor e ser sincretizada com Vênus ou mesmo Afrodite, sem que isso ofendesse a quem quer que seja. 

E por que isso funcionava? Pois em se tratando de politeísmo, o fenômeno da crença se manifesta naturalmente de forma inclusiva e não exclusiva. Se Deus é um, mas se manifesta através de diversas formas – e esta é a maneira a qual a visão religiosa egípcia interpretava tal conceito -, a forma que o outro cultua a Deus, chamando-o por outros nomes, ou considerando outras formas de Sua manifestação, não pode mesmo ser ofensiva, visto que todas são partes d’Ele mesmo.
 
Mas o que acontece quando alguém diz que só há uma forma de enxergar e cultuar a Deus?

No começo deste texto falamos sobre nenhuma religião ser totalmente original, absorvendo elementos ritualísticos e ideológicos de religiões contemporâneas ou predecessoras. Sendo o Cristianismo, herdeiro do conceito monoteísta de visão espiritual oriunda do Judaísmo, não poderia jamais admitir que sua religiosidade também fora fruto da inegável influência egípcia que possui, sendo a religião egípcia considerada pagã e, portanto, incorreta e até demoníaca para alguns. Logo, se para os politeístas antigos admitir que sua religião absorveu elementos de outras religiões politeístas era algo natural, para monoteístas como os cristãos, esse tipo de admissão pode ser uma ofensa para seu próprio conjunto de crenças, que é sempre pregado como original, oriundo e ou inspirado por seu próprio Deus único, e de nenhum outro. Mas os elementos históricos são muito mais certeiros que as crendices alheias e são incisivos para provar a realidade: o Cristianismo é inegavelmente uma religião construída a partir de uma grandessíssima influência pagã, e segundo a autora, indiscutivelmente egípcia!

Maria seria nada menos que uma versão cristã de Ísis, que também gerou seu filho, Hórus, de maneira independente. Osíris também fora assassinado e traído num banquete, ressuscitou, e se tornou o salvador e pastor que conduzia seu rebanho de seguidores no pós vida, tal como se diz sobre Jesus. A morte, segundo os papiros egípcios, é seguida por um Julgamento onde o indivíduo deve declarar-se inocente frente as possíveis acusações de ter roubado, matado, etc. sob risco de ser condenado, tal como na perspectiva cristã de julgamento. Múmias eram produzidas baseadas na crença da ressurreição da carne tal como dito na Bíblia. As imagens dos deuses egípcios ficavam guardadas das vistas do público dentro dos templos, saindo apenas em datas especiais quando eram carregadas e acompanhadas por uma caravana de seguidores que ali faziam suas promessas e orações e aguardavam por bênçãos, tal como católicos fazem hoje em dia em suas procissões. O faraó era um líder de Estado mas também o sumo sacerdote, tal como o Papa nos dias de hoje. 

Todos estes elementos e muitos outros são apontados durante toda esta obra que, embora curta e pouco aprofundada, é rica em conteúdo comparativo para que todos aqueles que tem o interesse pela pesquisa e que assim o façam, se sintam inegavelmente compelidos a admitir aquilo que muitos adoram negar: que não há religião superior a verdade.

por Allan Trindade

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sexta-feira, 13 de novembro de 2020


Ideias sobre demônios permeiam e sempre permearam o imaginário humano. E engana-se quem acha que tal pensamento - ou percepção - é exclusividade de uma única religião ou segmento espiritualista
. Muitas são as doutrinas que descrevem a existência de tais seres, muitas vezes nem tão maléficos como costumam ser imaginados, mas inegavelmente e comumente potencialmente nocivos a existência humana. Nossa herança cristã nos legou tal conceito e temor, mas as fontes judaicas podem explicar mais especificamente certos detalhes oriundos destas crenças.

DIALOGOS SOBRE DEMÔNIOS é um livro escrito por Rav Zadok Hakohen e Rafael Resende Daher, contém 211 páginas divididas em 8 capítulos, e foi publicado no ano de 2020 pela Mubarak editorial.

A vida de sucesso do rabino Zadok, coautor desta publicação, começou cedo. Por volta de seus 12 anos de idade já se destacava em sua comunidade através de seus escritos responsivos aos textos judaicos. Progressivamente aumentou sua dedicação, seu envolvimento e religiosidade, casando-se jovem, ainda com seus 15 anos, provando sua maturidade precoce, embora este mesmo fator possa ter sido fonte para seu pronto declínio. Divorciou-se graças as fofocas alheias que punham em pauta a fidelidade de sua esposa, e buscou em outros ares o apoio de rabinos que apoiassem sua decisão. Casou-se ainda por mais duas vezes, sem entretanto nunca gerar filhos, o que considerou como um provável castigo pela forma como tratara sua primeira mulher. 

E é assim que Rafael Daher nos introduz esta publicação bilíngue que trata das especificidades literárias da tradição hebraica voltadas para a tratativa e relação com demônios dos mais diversos tipos. Destaca que neste estudo, serão apontados as relações existentes no ideário dos grimórios componentes da Tradição Salomônica de magia, e suas origens bíblicas, cruzando conexões percebidas entre as tradições cristãs, islâmicas e judaicas, entretanto sem fazê-lo de forma diretamente comparativa. 

Daher salienta que, apesar do destaque para este ponto, este livro não se propõe a analisar de forma pormenorizada e lateral os textos encontrados em todas estas tradições, mas de outra forma, busca nas fontes hebraicas passagens e versículos que indiquem para o leitor a provável origem deste ou daquele conceito Salomônico, ou mágico, de modo que, em tendo conhecimento de ambas as tradições, o próprio legente estará habilitado para perceber suas origens e influências. Assim, ao encontrar em um grimório, por exemplo, que Salomão construíra seu templo com ajuda de demônios, apresenta quais textos originais tratam dos detalhes desta história e desenvolve seus argumentos sobre estas fontes. 

Como destaques adicionais, acrescenta histórias sobre Adão e sua relação (inclusive sexual) com demônios. Lilith e sua fama distorcida no ocidente, visto que segundo a literatura, nunca fora ela símbolo de independência feminina, mas que toda esta ideia de rejeição a Adão fora criada a partir de um texto denominado Alfabeto de Ben Sirach, obra de conteúdo antissemita que traz uma série de histórias bizarras sobre sexo e flatulências, que ganhou destaque através de discursos feministas do século XX. A influência que os egípcios teriam exercido sobre os israelitas e sua adoração pagã a animais e o sacrifício dos mesmos para aqueles demônios de lá. A Torre de Babel e a transformação de alguns de seus habitantes em diabos por seu desejo de praticar idolatria. Necromantes e a enganação que praticam ou sofrem, visto serem os demônios os agentes de suas predições sobre o futuro, demônios estes que atuam sob a supervisão do Deus de modo a testar a observância de suas regras. As disputas destacadas no Sepher ha-Zohar entre a Luz e as Trevas e a punição das almas no Gehenom. As tigelas babilônicas e seus feitiços, dentre outros.

O livro se encerra com um capítulo escrito pelo próprio rabino Zadok Hakohen e suas explicações sobre Cabala, a Árvore da Vida, as sephiroth e qliphot, sendo estas últimas, segundo o autor, as cascas de proteção criadas para que a pureza e potência do poder divino emanado não destruam a criação. A existência das qliphot e sua força negativa, entretanto, seriam o motivo para a confusão exercida sobre muitos daqueles que delas se aproximam e que se sujeitam as suas más influências, tornando-os tão impuros em alguns casos, que nada mais lhes resta, nesta ou em outra vida, se não o inevitável destino de tornaram-se eles próprios demônios em si.

Todos aqueles que conheçam minimamente personagens como Moises, Salomão, Ashmodeus, Azazel,  ou mesmo itens específicos como Urim e Tumim, dentre outros elementos da tradição judaica, entenderão a proposta desta publicação. Um livro de referências que indica certas fontes da magia, religião e crenças populares que pode ser aproveitado de forma igualmente proveitosa por curiosos, pesquisadores ou esoteristas que se apoiem sobre as bases tradicionais da magia ocidental.

por Allan Trindade



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sábado, 22 de agosto de 2020


- VADE RETRO SATANA! Me diga seu nome! - ordenou o padre à jovem que, possuída e fragilizada pelas forças demoníacas que ocupavam seu corpo, naquele instante se debatia e mostrava os dentes como uma fera aprisionada e raivosa.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis! - disse enquanto tentava arrancar com as unhas a pele do sacerdote da Igreja de Roma.

- Demônio! Liberte esta serva de Cristo e me diga seu nome! 

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis!

- Satã, inimigo da fé! Me diga seu nome, serpente das trevas!

- NOMES! NOOOOOMES! Nosso nome é Legião, pois nós somos muitos!

RITUAL ROMANO: EXORCISMO é um livro em quadrinhos criado por El Torres com 119 páginas, divididas em 4 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Darkside Books.

Possessão: o domínio de um corpo humano praticado contra um alguém que ainda esteja vivo, por alguma força de origem espiritual de um ser desencarnado ou ainda por alguma entidade præter-humana. Sem dúvidas um dos assuntos mais intrigantes pertencentes ao mundo da religião, especialmente explorado pela literatura e cinema através do viés cristão católico, e deveras banalizado pelas denominações pentecostais e neo pentecostais do protestantismo moderno. Quem nunca assistiu O Exorcista ou O Exorcismo de Emily Rose   está perdendo a oportunidade de conhecer dois grandes clássicos sobre o tema. Embora muitos desses filmes possam parecer pura ficção, eles sempre contém algo de realidade que fora usada para o desenvolvimento do roteiro. Não raras as vezes, esta parte de realidade costuma ser justamente aquilo que muitos gostariam que não fosse real...

Foi todo esse ar sinistro que permeia muito destas histórias que atraiu, desde a infância, a atenção de Paco Plaza, roteirista e diretor da série [REC] e Jogo Sobrenatural, que escreve no prólogo desta edição. Plaza considera carregar uma maldição: a maldição de sentir um forte desejo pelo sobrenatural, pelo monstruoso, pelo aterrorizante. É fato, como ele, existem muitos. E foi assim, e com essa sensação de que temos o mesmo gosto, que um dia encontrou os quadrinhos de El Torres, responsável pela produção da presente obra, junto de Jaime Martinez e Sandra Molina. E que bela obra esses três produziram! E que ótima edição essa da Darkside, não? Capa dura, diagramação impecável e ainda alguns mimos para envolver ainda mais o leitor com o clima da história: um marcador de páginas grande com o desenho de uma caveira, símbolo da editora feito para encaixar bem nesse livrão, uma base para apoiar copos inspirada nas hóstias católicas e uma cruz de madeira para você se proteger e não ficar com medo de dormir sozinho a noite.

Agora que já falamos sobre o que trata este livro e sobre a qualidade de seu conteúdo e forma, faz-se necessário deixarmos algo claro antes que você continue esta leitura. A partir daqui falaremos sobre a história em si - que sim, como o título sugere, trata de possessão e exorcismo -, e portanto teremos que dar um pequeno spoiler sobre qual o enredo se desenvolve. Nada que vá estregar a experiência da leitura, mas vale a pena te avisar. Portanto, se você é do tipo que não gosta de saber absolutamente nada sobre algo que está prestes a ler, melhor parar por aqui.

Tudo começa com um padre tendo sua cabeça decepada em meio aos corredores da Basílica de Pedro, no Vaticano. O sacerdote implorara por sua vida clamando a Deus que tivesse misericórdia, mas seu algoz não se importara com seu desespero, alegando que Deus simplesmente não está naquele lugar. 
Em outra parte do mundo, padre John, um jovem e problemático exorcista atende um caso de possessão: uma jovem que vivia amarrada a uma cama por ter seu corpo dominado por demônios. John, um dos melhores em seu cargo, cumpre a contento sua função. A jovem fora salva, mas ao retomar sua consciência, lhe diz: - Eles te enganaram, padre! Minha possessão fora apenas um plano para te despistar para que eles ganhassem tempo para seu plano maior!

Imediatamente um enviado da Santa Sé chega ao local com uma carta e uma convocação para que John voltasse imediatamente para lá. Ao chegar, em meio a aprovação de alguns e reprovação de muitos outros por sua escolha e histórico, um grande segredo lhe é confiado: o mais alto sacerdote da Igreja, o Papa, está possuído pelo demônio, e sua função é resolver esse problema!

Para todos aqueles interessados em uma história em quadrinhos de qualidade em todos os sentidos, Ritual Romano: Exorcismo, será um ótimo investimento.

por Allan Trindade


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sábado, 13 de junho de 2020

Em um tempo onde pessoas clamam pelo retorno de sistemas 
políticos e ideológicos dignos das mentes
mais atrasadas e boçais, nunca se fez tão necessário o estudo da história. Divulgar elementos do nosso passado enquanto sociedade e seres que tendem a repetir biológica e ideologicamente ações herdadas de nossos genitores, torna-se elemento fundamental  para tentar  evitar que aqueles mais suscetíveis aos discursos inflamados dos fanáticos e idólatras, não sejam infectados por suas falácias de "nos dias de hoje" ou "na minha época não era assim", induzindo-os a falsa ideia de que somos, enquanto seres humanos, absolutamente diferentes de nossos antepassados. 

Não há dúvidas, as coisas mudam. Porém, mudanças tecnológicas tendem a ser muito mais rápidas e eficientes que mudanças fisiológicas. Se podemos dizer que nos últimos 100 anos a humanidade alcançou avanços científicos nunca antes vistos em nossa história, biologicamente mudamos pouco ou quase nada em relação a nossos ancestrais de 4.000 anos atrás. 

Se podemos afirmar que o apaixonado grego ao trovar seus versos expunha e imortalizava seu amor através de suas palavras, atravessando as barreiras do tempo e encontrando correspondência no coração dos amantes dos dias de hoje, o mesmo pode se dizer daquelas também palavras milenares que propagavam o ódio contra o diferente, continuamente sendo reproduzidas através da boca de alguns cristãos, ideólogos políticos e relacionados até a presente data. 

Tal como o amor, o ódio não é uma exclusividade dos nossos tempos. Mas o despertar de flagrantes manifestações de burrice e ignorância frente a facilidade de acesso ao conhecimento tal como nunca antes vista, parece ser mesmo um fenômeno inédito e característico desta era.

Se antes poderíamos dizer que as pessoas tomavam determinadas atitudes por serem analfabetas ou não terem acesso ao conhecimento, qual será a desculpa para, nos dias de hoje, ainda existirem indivíduos que pensam e agem como neandertais, sedentos por discriminar, agredir ou matar o outro apenas por ser diferente?

LIBER QUEER é um livro escrito pelos membros do Círculo da Viada Chama Púrpura, com 213 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2019 de maneira independente.

Acredite, a homossexualidade sempre existiu em meio a humanidade. É um fenômeno tão comum quanto qualquer outro, encontrado inclusive em meio ao comportamento de animais não humanos. Você provavelmente já deve ter visto dois cachorros machos tentando fazer sexo entre si. Ou mesmo duas cadelas. Assim como os golfinhos que em sua adolescência ensaiam o sexo antes de reproduzirem com as fêmeas. Ter consciência disto não implica que você precisa fazer o mesmo. Nem tampouco que você tem o direito de impedir o outro. É simples, não?

Nada incomum. Nada anormal. Tudo devidamente evidenciado pela ciência e registrado  na história. E se por um lado temos algumas religiões que tentaram e tentam criminalizar tal comportamento, toda uma série de outros sistemas místicos sempre trataram tal fenômeno tal como ele é: uma parte intrínseca da existência humana. E para apontar tais fatos que o Círculo da Viada Chama Púrpura reuniu uma série de indivíduos LGBTQI+, para falar não apenas como membros desta comunidade, mas como graduados academicamente, e portanto, qualificados cientificamente para participarem da produção desta obra.

O objetivo aqui pode ser dividido em três aspectos:

Primeiramente objetiva apropriar-se do termo e ideal queer, traduzir e correspondê-lo a palavra que mais se aproxime do mesmo sentido em seu original. Queer em inglês representa tudo aquilo que é excêntrico, marginal, exótico, bizarro e sexualmente reprovável. Perceba que aqui dizemos que não se trata de ser excêntrico OU marginal, exótico OU bizarro, mas tudo isso amalgamado num só conceito. Isto é o queer. Refletindo sobre qual palavra em nossa língua mais se aproximaria daquela, concluíram então que 'viado' seria o mais adequada para tal, visto que tal como seus co-semelhantes estrangeiros, a apropriação do xingamento representa também uma atitude política de empoderamento frente ao constante processo de naturalização da discriminação e assassinato de homossexuais e relacionados. Tal atitude poderia ser traduzida como: " Sou viado mesmo, e daí?! ";

Em segundo lugar o livro visa elencar os elementos históricos que apresentam indivíduos LGBTQI+ sob as mais diferentes funções religiosas e correlações divinas, apresentando uma série de estudos onde tais pessoas eram não apenas conhecidas e aceitas dentro das sociedades antigas, como também e em muitos casos, adoradas como divindades encarnadas vide sua excentricidade frente a dicotomia do gênero estabelecido, a saber homem e mulher, transcendendo tal dualidade. Ou mesmo no campo da sexualidade onde homens poderiam ser adorados por outros homens com intenções místicas e sexuais, de tal modo que cidades e religiões inteiras foram criadas para este propósito. Aqui tratam ainda daqueles seres espirituais, deuses e deusas que foram capazes de mudar suas formas e sexualidade apenas pela possibilidade de contato com outros seres divinos ou mesmo seres humanos;

Como um terceiro e último elemento, a edição nos apresenta uma série de rituais, listas de correspondências, instruções para altares e até mesmo sigilos e pantáculos voltados para o fortalecimento e proteção do público LGBTQI+.

Liber Queer pode ser visto como uma espécie de manifesto. Tal publicação não tem uma intenção puramente literária, mas social e política. Tal como o queer, agrega tudo, discrimina nada. Visa preencher a lacuna sentida por muitos membros de tal comunidade que nunca puderem se ver representados nas modernas publicações religiosas ou ocultistas, sendo também e sempre relegados ao campo da indiferença, negação ou rejeição. Aqui, gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e todo o conjunto de indivíduos pertencentes a este universo contribuem, cada um a sua maneira, com um pouco de sua vivência e sugestão para que todos possam encontrar também na magia um pouco de amor e muito mais de paz.

" tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes!" - AL I:51

por Allan Trindade


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Conheci F. há cerca de 10 anos atrás. Desde o primeiro dia sabia que seríamos grandes amigos. Isto porque ele era até então uma das únicas pessoas que conseguia conversar comigo sobre todos os assuntos que sempre me fascinaram: magia, religião, ocultismo, psicologia, alquimia... Nos encontrávamos sempre que possível e ficávamos por horas a fio falando sobre os mais diversos temas.

Eu sempre soube que ele era gay, mesmo quando ele, por vergonha ou qualquer outro motivo, negava. Seu jeito afeminado fazia com que as pessoas especulassem coisas sobre nossa relação, que sempre foi da mais pura amizade. Eu, que desde a adolescência aprendi a não dar a mínima para a opinião alheia, especialmente a opinião de gente burra e maldosa, ria junto dele da cara destes tipos. Para mim, o cérebro de alguém inteligente sempre valeu muito mais que mil línguas de gente da família dos asininos ou dos muares. Mas nós bem sabemos que a cada dez faladores, sempre existe um que resolve tomar uma atitude.

Era madrugada e voltávamos para casa depois de mais uma dessas agradáveis noites de conversa. Ele, aquariano e um pouco desatento, caminhava pela calçada de forma despreocupada, falando e rindo alto, exibindo seus trejeitos, enquanto eu, leonino nato, compartilhava suas gargalhadas mas permanecia atento a estrada deserta. De repente, algumas quadras a frente, um carro surgiu virando a esquina. Em princípio vinha em velocidade normal mas logo reduziu. Rapidamente direcionei minha atenção para a cena. F. continuava falando como se nada estranho estivesse acontecendo.

Um homem do banco do carona pôs metade de seu corpo para fora da janela com uma coisa preta na mão, em forma de tacape. O carro repentinamente acelerou. F. se assustou com o barulho e logo percebeu que estávamos em perigo. A calçada era curta, não havia muito o que fazer. Ao se aproximarem em alta velocidade, o homem tentou acertá-lo na cara com aquilo que, imagino eu, era o tapete de borracha do carro enrolado como uma arma. F. saltou para o meu lado para se esquivar e fomos os dois direto para uma parede chapiscada, ralando nossos braços e tronco. 

Poucos segundos depois e alguns metros a frente, o homem gritou:
- VIADO, FILHO DA PUTA!

Pegamos um táxi e voltamos para casa ainda assustados com toda a situação. Nada de pior, felizmente, nos aconteceu. Mas infelizmente esta não é a realidade de muitos. 

A homofobia discrimina, machuca, mata. E ela não surge do nada, é teorizada, propagada e fundamentada na maior parte das vezes através de um livro, um livro religioso chamado Bíblia Sagrada. 

Mas afinal de contas, o que a Bíblia ensina sobre a Homossexualidade?

O QUE A BÍBLIA ENSINA SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE é um livro escrito por Kevin Deyoung, com 193 páginas divididas em 12 capítulos e foi publicado no ano de 2015 pela Fiel editora.

Antes de mais nada faz-se necessário criarmos um parenteses aqui: não, a Bíblia não é a única fonte para a homofobia. O ser humano é um animal que naturalmente discrimina seus pares pelos mais diversos motivos, sem com isso necessariamente precisar de qualquer justificativa lógica. Entretanto, a atitude discriminatória, quando surgida naturalmente, costuma procurar algum tipo de referência para justificar sua postura. Assim, por exemplo, se uma criança branca, que vive em meio a crianças brancas, considera estranha a presença de uma criança preta em sua sala de aula, se seus responsáveis não lhe derem a devida orientação sobre o fato da multiplicidade étnica existente no mundo, e ainda apoiar sua estranheza dizendo que crianças pretas não deveriam estar ali, as chances desta criança branca não apenas crescer como uma racista mas ainda incentivar as outras a terem a mesma atitude, é muito grande. 

Perceba então que temos uma fonte espontânea, ou seja, o sentimento de diferença sentido pela criança em sua comparação de cores, justificado e incentivado por seus pais racistas. O mesmo processo pode ser observado na questão homossexual. Vale ressaltar ainda que embora possam surgir em nós reações estranhas frente ao diferente, este sentimento pode ser induzido por outrem. Em outras palavras, uma criança que nunca tenha considerado tratar seu coleguinha de forma diferente por ser afeminado, por exemplo, pode ser incentivada por ser seus pais a discriminá-lo por acreditarem que este é um comportamento errado ou pecaminoso. Enfim, consideramos a multiplicidade de origem para um comportamento discriminatório, mas observamos que de uma forma geral, em nossa sociedade, a homofobia, ou seja, o medo e ódio contra pessoas e  atitudes consideradas homossexuais tem sempre se justificado por argumentos bíblicos.

Em sua introdução, Kevin Deyoung esclarece que embora a Bíblia não seja um livro sobre homossexualidade, a Bíblia fala explicitamente sobre este assunto. Já em seu princípio, destaca que para entender os argumentos daquele livro, faz-se necessário entender seu objetivo e método. Para tal, propõe uma volta as origens, mais especificamente em Gênesis, onde o Deus de Israel criara o homem e o jardim do Éden, e em seguida Eva, para que vivessem em paz. A queda os teria feito então sair de seu estado original e abençoado, e com isso, uma nova perspectiva se criava: o homem precisava retornar a seu estado de santidade e a única maneira para alcançar tal modo, seria mantendo-se casto. Por castidade, termo que poderíamos também definir como sinônimo de puro de objetivo, entende-se que este mesmo Deus criara uma série de regras a serem cumpridas, de modo que só através de sua observância, o homem poderia então retornar a seu estado original. No tocante ao sexo, ele poderia ser feito, desde que com o objetivo principal da procriação.

Sendo assim, o ser humano deve então: cumprir as diretrizes estabelecidas por Deus, fazer sexo para fins reprodutivos, longe das lascívia e orar para que tenha a chance de adentrar no Reino dos Céus.
Anos se passaram porém sem que o homem de fato cumprisse todas as regras estabelecidas pelo Deus, e sua degradação tornara-se cada vez maior. 

Os judeus teriam visto então surgir em seu meio um suposto messias, chamado Jesus, que teria vindo não para negar a antiga Lei, mas para afirmá-la, embora tenha feito pequenas modificações aqui e acolá, incluindo elementos interpretativos da mesma. A partir deste messias, que seria considerado pelos cristãos o próprio Deus encarnado, outros homens viriam para destacar a importância da observância de seus mandamentos. Paulo seria então uma destas figuras de maior proeminência. 

Mas o que teria toda esta história a ver com a homossexualidade? Segundo o autor, a Bíblia é um livro atemporal, cunhado como um manual de regras para que o cristão alcance a pureza estabelecida pelo Deus de Israel, transfigurado agora sob o nome de Jesus. Este livro estabelece que dentre estas regras, existem aquelas que são consideradas mais ou menos importantes, ou ainda pecados menores e maiores segundo as vistas deste Deus. Desvios como o de tocar em mulheres menstruadas diziam respeito as questões de pureza relacionadas especialmente aos sacerdotes, glutonia aos malandros e indivíduos já majoritariamente transviados que porém, ainda podem ser libertos, divórcio, que embora proibido, poderia ser então considerado em casos de adultério. Porém, seja no Antigo ou Novo Testamento, nenhum porém é garantido para a prática da homossexualidade, sendo este um pecado considerado uma abominação sob os olhos daquele Deus, um crime passível de morte dentre os judeus, e considerado um impeditivo para a entrada no Reino dos Céus pelos cristãos. 

Para o autor, este é um fato inconteste: embora possam haver crimes de igual nível abominável, nenhum pecado é maior que um homem se deitar com outro homem. E destaca ainda que se a Bíblia quase não fala sobre a questão homossexual, isso se dá pelo simples fato de que todos daquela época estavam plenamente cientes que esta prática não era aceitável.

 Segundo ele, este livro fora escrito então para um destes três tipos de pessoas:

convictos: que sabem que a homossexualidade é um pecado;
contenciosos: que espera que se os elementos textuais, exegéticos e lógicos expostos aqui não forem suficientes, que saibam que estão recorrendo a argumentos não bíblicos;
confusos: para os quais espera poder elucidar todas as questões sob a luz das Escrituras.

O Que a Bíblia Ensina Sobre a Homossexualidade é um livro bastante completo a sua maneira. Responde de forma lógica as principais questões levantadas por liberais cristãos ou defensores da causa gay, sempre fundamentando seus argumentos com versículos daquele livro sagrado. Sua exposição faz uma viagem desde a criação em Gênesis, passando por Sodoma e Gomorra, Romanos e Coríntios, incluindo uma observação sobre a suposta natureza amorosa daquela Deus. Traz ainda três apêndices que tratam sobre o casamento homossexual dentro da sociedade contemporânea, a atração homossexual, e a igreja: seus compromissos e a homossexualidade.

Kevin Deyoung é acima de tudo respeitoso em sua exposição, deixando claro que a declaração de sua fé, e seus dogmas, visto que é um cristão, de modo algum justificam qualquer tipo de agressão ou violência contra quem quer que seja. Embora seja opinativo em seus apêndices, e até levemente tendencioso neste ponto, é majoritariamente teológico em seu conteúdo. Não deixa dúvidas de que a Bíblia de fato condena enfaticamente, e sobre a maioria dos outros pecados, a prática da homossexualidade, e qualquer indivíduo coerente se sentirá impelido a concordar com suas conclusões.

Entretanto, concordar que um determinado texto afirme tal coisa, não significa considerar que tais afirmações devam ser aplicadas e praticadas por não cristãos, que sejam legalmente cabíveis para uma sociedade laica, ou mesmo que sejam lógicas para os nossos tempos.

"Dai a César o que é de César." Mt 22:21


por Allan Trindade


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sábado, 4 de abril de 2020


" Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações. " 
Isaías 14:12


" Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e o resplandecente Lúcifer. " Apocalipse 22:16

ANJOS CAÍDOS é um livro escrito por Harold Bloom, com 83 páginas e foi publicado no ano de 2008 pela editora Objetiva.

Sim, talvez você tenha se impressionado com as passagens acima, especialmente no ponto onde Jesus afirma ser Lúcifer. A bem da verdade eu manipulei o texto. A fonte original se refere em Isaías a Lúcifer, mas em Apocalipse como estrela da manhã. O que eu fiz não é novidade e em outros lugares você poderá encontrar o termo lúcifer também sendo substituído por sua forma traduzida mais adequada, ou seja, estrela da manhã. E se procurar além das traduções verá que existem diversas teorias que especulam sobre lúcifer ter sido um rei déspota daqui, um príncipe de acolá, ou um planeta de outrora.  E por que tantas fontes usam tantas traduções diferentes, ou dão sentidos diversos para uma mesma sentença? Teologia!

 A  interferência teológica dentro das traduções causa este tipo de fenômeno e confunde as mentes daqueles menos entendidos do assunto. Estrela da manhã é apenas a tradução para a palavra lúcifer. Uma expressão filosófica para alguns. Um nome próprio para outros. Para aqueles que consideram lúcifer como estrela da manhã, em outras palavras, como sendo apenas uma alegoria poética para aquele que traz a luz, na maior parte do tempo serão justos em considerar que todas as vezes que esta palavra aparecer na Bíblia, deverá ser traduzida como tal. 

Porém, para aqueles tantos outros que creem que lúcifer seja na verdade um nome próprio, uma pessoa em si, ou ainda o próprio anjo caído, bem...estes provavelmente considerarão Lúcifer em Isaías mas certamente não considerarão Lúcifer como sendo Jesus no Apocalipse. Dois pesos e duas medidas? Provável que sim...

...

Harold Bloom abre sua obra destacando um fato: há no mínimo três mil anos somos apresentados a imagens e conceitos de anjos, oriundos das três principais religiões abraâmicas dominantes do mundo ocidental, e em tempos modernos, pela grande explosão do tema através de místicas alternativas que desde a década de 90 preenchem as estantes de livrarias e locadoras (quando estas ainda existiam) com os mais variados tipos de livros, kits e filmes sobre o tema. Cremos não ser exagero afirmar que não há pessoa viva nestas terras que não tenha ouvido falar nestes divinos seres alados. 

Diferentemente de seus parentes menores, os demônios, que possuem um caráter mais universal, sendo encontrados em praticamente todas as culturas ao redor do mundo, segundo o autor, os anjos parecem ter uma relação específica com aquelas origens zoroatristas, judaicas e consequentemente cristãs e islâmicas. Sempre dotados de funções divinas e por vezes rebeldes, estes seres são únicos por terem uma relação estranhamente próxima a nossa, não apenas em seu sentido pseudo histórico - vide os diversos relatos de contatos e relações encontráveis nestes textos sagrados-, mas também comportamental, sendo dotados de paixões e vontades, embora na maior parte do tempo exerçam a função de servir. 

Seria a atração dos anjos por nós e nossa por eles mero acaso?

Bloom destaca o fato de seres humanos não terem o mesmo apreço pelos demônios que possuem pelos anjos, sendo estes vistos com certo glamour mesmo quando são diabólicos. O que dizer de frases como " ...você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu, com olhos de cristal, me enfeitiçou eu nunca vi nada igual...",  apenas para citar um dentre vários casos de poemas e canções que tornam a queda destes seres interessantes ou atraentes para nós. A razão para isso? 

Segundo Harold, anjos caídos foram portadores de algo que tem o potencial de ser reavido, pois este algo é parte intrínseca de sua própria natureza. Sendo assim, toda esta atração por anjos, sendo eles caídos ou não, talvez represente um apelo íntimo e desconhecido residente dentro de cada um de nós. Uma verdade oculta em nossa próprio ser, que se manifesta através deste estranho interesse, ansiando por manifestar-se. Algo que também temos mas não sabemos. Um segredo sobre aquilo que nós somos.  A possibilidade de nós sermos anjos caídos buscando reconciliação com nossos iguais. 

Para justificar toda esta senda por comunicação ou reconciliação, que destaca, existe desde o paganismo,  como visto nos textos de Apuleio e sua fala sobre o daemon de Sócrates, passando por Santo Agostinho e seu entendimento de como seria a vida dos anjos antes do Éden, segundo o autor, são estes os seres, e não os diabos,  que independentemente do nome ou forma que lhes sejam atribuídas, sempre estiveram no imaginário e ânsias humanas em busca do Divino. E se levarmos em consideração a etimologia da palavra, angelus, mensageiros, e portanto, intermediários, talvez essa teoria nem parece tão absurda. 

O autor disserta sobre outros temas correlacionados, como do conceito judaico sobre satã e seu entendimento amorfo, muito mais ligado a qualquer ideia ou elemento de oposição, que propriamente tratando de um ser como um diabo espiritual ou demônio sedento por maldade, considerando que esta percepção deturpada fora propagada principalmente pelo já mencionado Santo Agostinho em sua obra A Cidade de Deus. A ideia por trás do conceito reside sobre o argumento de que mesmo que os demônios tenham sua função no imaginário humano, são os anjos que desempenham os papéis mais importantes.

Anjos caídos é um livro interessante a sua maneira. Divaga, vai e volta nos temas sem muito compromisso com uma formalidade textual. Lança assuntos e ideias e deste modo exige um certo nível de conhecimento geral sobre o que trata. É curto mas levemente profundo, cheio de referências a textos e autores clássicos da literatura, como Shakespeare, John Milton, Mary Shelley, dentre outros. Tem uma proposta interessante sobre qual seja a real identidade humana e é preenchido com belas ilustrações de Liberati.

Não crie grandes expectativas. Não é indispensável. Mas até vale um tanto.


por Allan Trindade

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segunda-feira, 9 de março de 2020


Asa de morcego. Olho de boi. Pelo de búfalo. Uma pitada de veneno de escorpião. E uma criança que seja filha de um anão. 

Misturar todos os ingredientes em um caldeirão fervente. Sob a luz da lua cheia numa noite quente. Evocar os diabos de chifre de corte e beijar a bunda preta de um bode.

THE SATANIC RITUALS é um livro escrito por Anton Szandor LaVey, com 220 páginas, divididas em 11 capítulos e foi publicado no ano de 1972 pela Avon Books.

Não, este ritual não existe. Eu acabei de inventá-lo. E apesar de tê-lo criado neste momento, rituais como este preenchem os livros de contos infantis e testemunhos de vítimas da santa inquisição católica, que sob as mais diversas formas de tortura, inventavam coisas deste tipo para se livrarem o mais rápido possível da dor e tormento extremo a que eram expostos sob a acusação de bruxaria e satanismo. Se podemos afirmar que a humanidade possui facilidade para a criatividade, o que dizer sobre nossa disposição para a insanidade?

Insanidade esta que pouco ou nenhuma relação tem com a realidade. Insanidade esta que sob a justificativa de vingar o sacrifício fictício de fetos em rituais sabáticos, matou mais pessoas inocentes que nenhum satanista jamais foi capaz. Ao menos não os satanistas de Lavey, seguidores deste homem que deixa claro nas linhas de seu livro sagrado, chamado de A Bíblia Satânica, que o sacrifício de animais e crianças não faz parte das práticas satanistas vide a pureza contida nestes seres. E se podemos garantir que a Bíblia Satânica não autoriza o assassinato de crianças, fato é que não podemos dizer o mesmo da Bíblia Sagrada, aquela dos cristãos, onde o deus de israel não apenas sacrifica seu próprio filho, como autoriza o extermínio dos pequenos como visto nas passagens que contam as histórias de Eliseu, Êxodo, dentre outras. Ao que parece o infanticídio suja mais o dedo histórico daqueles que acusam, do que daqueles que são acusados. Que mundo irônico este em que vivemos, não?!

Mas tudo bem, comparar as Bíblias deve ser uma artimanha de satanás que está me fazendo pecar e desviar do caminho que é falar sobre um outro livro, aquele que foi escrito como um complemento para a Bíblia Satânica, o livro chamado Os Rituais Satânicos.

Sim, este livro é um complemento, logo, caso você não tenha lido a Bíblia Satânica, é melhor que o faça antes. Embora Lavey comece este título de uma forma bem semelhante a sua primeira publicação, mais uma vez ressaltando que o Diabo vem sendo usado de forma irrestrita pelos mais diversos tipos de abraâmicos, sempre com o intuito de acusar seus opositores ideológicos de serem seus seguidores, ou ainda sobre a passividade das modernas escolas de bruxaria que se esquivam a todo custo de qualquer acusação de que seus rituais, ou mesmo seu deus cornudo, tenham qualquer relação com satanismo, as semelhanças se encerram aí, visto que esta publicação não é filosófica ou ideológica, mas essencialmente prática. 

Lavey considera que a fantasia desempenha um papel importante em qualquer religião e que os rituais satânicos são usados não para escravizar o praticante com fantasias sobre espiritualidade, mas para que o adepto entre num estado alterado de consciência, de maneira que possa manipular de forma livre suas crenças e emoções, e assim alcançar seus próprios objetivos. Partindo do princípio de que é através da tensão que as mudanças são produzidas, concebe que a magia reproduz o movimento de retração e expansão do universo. Portanto, o praticante puxa para si aquilo que deseja e empurra de si aquilo que não quer mais, sempre motivado pela intensidade das situações. A ação mágica aqui leva em consideração o magista em si, sua energia e da vítima, e que os efeitos, em geral, afetam muito mais a psique e vontade, que um dano físico direto. É importante notar que não há a crença da interferência de espíritos ou deuses e que a energia dos envolvidos é direcionada para alterar o estado mental da vítima, de modo que ela produza as alterações físicas desejadas sobre si mesma. Se for para o bem, que ela tenha forças para conquistar, se for o mal, que ela se boicote e se destrua.

Os rituais apresentados são classificados em dois tipos: ritos para fins específicos ou cerimônias e celebrações festivas. O livro apresenta o contexto histórico do rito e em seguida, a forma de realizá-lo. Homens e mulheres podem desempenhar as mesmas funções, desde que as polaridades sejam analisadas e combinadas de modo prévio, e destaca o mesmo para grupos homossexuais.
Todos os rituais são pensados como peças de um teatro, onde atores e plateia participam ativamente, com roteiro e emoção, de modo que o grand finale seja proveitoso para todos. Portanto é importante estar conscientemente ali, querer estar ali e saber por que está ali: qualidade é mais importante que quantidade! E que o oficiante saiba distinguir os mais adequados. 

Sobre suas origens, alega que são de influência esotérica advindas predominantemente da Alemanha e França, vide a riqueza do drama satânico produzido por esses países. Lembremo-nos que muitas dos contos infantis ou mesmo infanto-juvenis da Europa tinham contextos e finais dignos de filmes de terror, mas que muitos foram alterados ao caírem nas mãos de Walt Disney. As versões que conhecemos sempre tem um final feliz, mas a realidade dos livros é bem outra...

A sequência de rituais são:

THE ORIGINAL PSYCHODRAMA 
Le Messe Noir

L'AIR EPAIS
The Cerimony of the Stifling Air

THE SEVENTH SATANIC STATEMENT 
Das Tierdrama

THE LAW OF THE TRAPEZOID 
Die Elektrischen Vorspiele

NIGHT ON BALD MOUNTAIN 
Homage to Tchort

PILGRIMS OF THE AGE OF FIRE 
The Statement of Shaitan

THE METAPHYSICS OF LOVECRAFT 
The Cerimony of the Nine Angles and The Call to Cthulhu

THE SATANIC BAPTISMS 
Adult Rite and Children's Cerimony

THE UNKNOWN KNOWN


Sentimos decepcionar o leitor que tivesse a esperança de encontrar neste livro fórmulas contendo sacrifícios de animais ou crianças. Não, eles não fazem parte desta obra. Todos estes rituais transcendem a prática e são interessantes não apenas pela contextualização histórica, mas também pela ideia que apresentam, sempre focados num fundamento subversivo. Neste complemento à Bíblia Satânica, Lavey nos convida a não mais pensar Satã como o outro, como aquele que não gostamos, como símbolo de nossas desavenças, mas a incorporarmos Satã em nós mesmos visto que para nossos opositores nós já somos ele. A proposta de antes era ideológica, a proposta aqui é prática, o objetivo da literatura de Lavey é fazer de todas esses ingredientes a receita para a sua vida, com boas pitadas daqueles temperos especiais que sempre dão gosto as suas obras: a ironia e o deboche.


por Allan Trindade


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quarta-feira, 12 de junho de 2019


Há alguns anos atrás me tornei hindu, devoto de sri Ganesha. Dentro desse período não era incomum que pessoas, especialmente cristãos, ao saberem disso, me confrontassem de forma debochada.

 - Quer dizer que você acredita num deus gordo com cabeça de elefante?
 - Sim, pratico meus pujas diariamente. Algum problema?
 - Não, só acho engraçado você acreditar nisso.
 - Pois é, também acho engraçado você acreditar que cobras um dia falaram, tal qual em Gênesis. Ou que um ser humano pode viver dentro de uma baleia, tal como o relato de Jonas. Ah, a Bíblia não fala de baleia mas peixe gigante? Como queira. Ou que teu deus precisa falar através de jumentas como no caso de Balaão, ou plantas como no caso de Moisés. Ou que esse mesmo deus seja capaz de mandar duas ursas arrancarem pernas, braços e cabeças de 42 crianças simplesmente porque chamaram Eliseu de careca. Ou ainda que é normal destruir duas cidades 'por pederastia', como Sodoma e Gomorra, mas deixar que os sobreviventes, Ló e suas filhas, transem a vontade, regados a muito vinho, mesmo depois de sua esposa/mãe ter morrido, num caso no mínimo bizarro de incesto. E isso porque eu nem citei os anjos do Apocalipse e suas formas bem mais exóticas que aquela do deus que eu sigo...

Mas o melhor mesmo deve ser rir também dos ribeirinhos que dizem que o boto sai do rio para engravidar meninas, mas achar absolutamente normal que Jesus tenha nascido de uma virgem, não é mesmo?

Vamos continuar essa conversa e rir mais um pouco?

O LIVRO DOS SANTOS é um livro em capa dura, escrito por Rogério de Campos, com 366 páginas, divididas em 16 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Veneta.

Este livro chega assim: sem introduções ou explicações sobre sua estrutura, metendo o pé na porta da Igreja para, tal qual no dia do Apocalipse, reerguer os corpos empoeirados de santos e santas chamados a darem suas opiniões, ou relatar um pouco de suas vivências para nós. De tom cômico, irônico ou mesmo tenso em alguns momentos, cada uma de suas páginas contém um quadro onde a história é apresentada, tudo organizado por temas que vão desde o machismo característico de muitos santos conhecidos do grande público - conhecidos por sua imagem mas dificilmente por suas ideias -, perpassando pelo estranho hábito que outros tantos tinham de ficar andando por aí sem cabeça, até sua estranha adoração pelo sofrimento e pela morte. Os capítulos aqui são:


Da Perversidade Natural das Mulheres
Onde são apresentadas histórias ou falas de santos misóginos

Dos Milagres Milagrosos
Milagres diversos do tipo histórias que o povo conta e a igreja assina embaixo


Donde se Constata que Existem Algumas Mulheres que, de Tão Virtuosas, São Quase Homens
Que lista mulheres santas que em geral não queriam contatos com homens


Donde se Aprende Que, Para um Bom Cristão, a Cabeça é Algo Dispensável
Onde apresenta alguns santos cefalóforos, ou seja, que andavam por aí literalmente sem cabeça e até falavam


Da Vontade Própria: a Semente do Mal
Sobre o quanto a vontade própria é perniciosa para um cristão


Do Porque Só os Virgens Agradarem ao Senhor
Onde os santos evitam ou condenam o sexo e exaltam a virgindade como caminho para o Céu

Do Casamento: um Pecado Menor
Que trata de casamentos diversos e o quão condenável isso é para alguns santos

Do Amor Puro
Sobre os "vários tipos de amor cristão"

Da Justiça Cristã
Onde apresenta casos de amor e justiça praticados pela cristandade católica

Da Ciência Cristã
Onde apresenta o quão científica a Igreja é...só que não

Da Virtude, Conduta e Afins
Histórias diversas sobre hábitos, atos e consequências

Das Delícias da Dor
Sobre o prazer que os santos têm em praticar BDSM

Do Cemitério como Jardim Cristão
Sobre morrer quando bem entender e relíquias da morte

Da Utilidade dos Santos
Onde são indicados os santos padroeiros e do que.


Os capítulos seguintes trazem uma Nota Semibibliográfica e um Índice Onosmático.

O Livro dos Santos é leve e descontraído, mas acima de tudo divertido, embora possa ser considerado pesado ou herético por aqueles menos espirituosos. Carrega a virtude da honestidade em seu interior, porém, peca pela falta de beleza exterior: sua capa embora dura, é feia. Indicado para todos aqueles que, em sendo capazes de rir da fé dos outros, sejam igualmente capazes de rirem de suas próprias. Afinal de contas, água benta na cara dos outros é refresco.

por Allan Trindade.



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