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domingo, 3 de janeiro de 2021

A magia - enquanto ferramenta da crença humana que pensa ser possível alterar a realidade presente ou futura através do uso de entidades espirituais - possui um interessante desenvolvimento evolutivo quando vista de perto. Se antes poderíamos dizer que esta se limitava a ideia de que desencarnados, fadas, anjos, demônios e divindades ditavam o sucesso ou fracasso das operações ritualísticas, modernamente vimos surgir um novo conceito, uma nova forma de prática, mais crua, direta e independente, distante dos objetivos místicos e teúrgicos tão comumente vistos em suas correntes mais tradicionais, e que normalmente faz uso apenas da intenção e energia mental do praticante. 

Com o advento da Magia do Caos, uma nova classe de magistas faria surgir, em meio aos influxos astrais que nos circundam, sigilos e servidores mágicos criados a partir das próprias energias psíquicas e também não raras as vezes seminais. Moderna e curiosa. Vanguardista com pitadas de tradicionalismo. Excêntrica em suma. Mas será eficaz?

O GRIMÓRIO DOS QUARENTA SERVIDORES é um livro escrito por Tommie Kelly, com 256 páginas divididas em 6 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Penumbra Livros.

Todos aqueles que já ouviram falar ao menos uma vez em magia do caos, muito provavelmente já ouviram dizer que se trata de um sistema mágico que lida com sigilos. Sigilos podem ser basicamente definidos como formas gráficas aleatórias, criadas a partir de textos modificados que contém a intenção mágica do praticante ocultada em suas linhas. Estes sigilos são feitos com uma intenção única, por exemplo, conseguir uma quantia específica de dinheiro, um livro, algum sentimento que o magista não disponha naquele momento, ou quaisquer outras coisas que sua criatividade e intenção mandarem. São feitos para serem absorvidos, destruídos e esquecidos. Funcionam como disparos mágicos do praticante lançados a partir de sua mente consciente contra as barreiras de sua própria mente subconsciente, plantados ali para germinarem em meio às trevas em direção à luz da superfície de sua vida. Se comparados a uma terminologia mais tradicional, são como feitiços, sem utilizar-se, entretanto de todos os elementos naturais, tais como pedras, animais e ervas que estes costumam exigir. Para um praticante de magia do caos, um pedaço de papel, caneta e um orgasmo costumam ser suficientes.

Porém, se podemos dizer que sigilos não possuem nada além de uma função específica, limitada e que estão destinados ao esquecimento literalmente, o mesmo não pode se dizer de uma outra ferramenta mágica igualmente característica deste segmento moderno de magia: os servidores. Servidores são iguais a sigilos do caos por sua artificialidade. Não são entendidos como sendo fadas, espíritos ou mesmo divindades advindas dos processos universais da criação, mas ao contrário, são frutos da mente do próprio magista, que os produz intencionalmente com forma, nomes, selos, comportamento, áreas de atuação e meios de subsistência pré-programados, tal como robôs, porém, astrais. Agem em função de sua programação e o principal: são feitos com personalidade e para durar.

Tudo bem, talvez você esteja pensando que este conceito não é tão novo assim e já vem sendo ensinado pela Tradição há muito tempo, visto que alguns os chamariam simplesmente de elementares, mas há uma pequena diferença entre estes conceitos que preferimos não entrar em detalhes aqui para não tornar o texto desnecessariamente extenso. Neste ponto pensamos ser suficiente dizer que embora ambos os conceitos sejam conhecidos pela tradição mágica, sigilos e servidores foram adaptados e modernizados de acordo com as diretrizes da magia do caos que por sua vez, bebe fortemente de fontes advindas do Zos Kia Cultus.

Tudo isso para falarmos deste interessante livro de Tommie Kelly chamado O Grimório dos Quarenta Servidores. Por não terem uma existência prévia, servidores dependem apenas da criatividade e habilidade mágica daquele que os criou para tornarem-se vivos. E foi lançando mão de suas competências artísticas alinhadas a sua experiência com o oculto, que este magista decidiu gerar quatro dezenas de seres, cada um alinhado com um objetivo específico que lhes dá nome, desenhados com sigilos próprios e formas características que ilustram toda a obra. E que bela obra: capa dura, ótima diagramação com conteúdo em cores, e para aqueles que apoiaram a produção do projeto (pois este livro fora produzido incialmente a partir de metas de crowdfunding), ainda alguns brindes como moeda, marcadores de páginas, adesivos dentre outros.

O livro é chamado de grimório pois traz em seu conteúdo os conceitos do autor sobre o que seja magia e como a mesma funciona, suas opiniões sobre o que sejam sigilos, servidores e egrégoras, divinação, feitiços e o principal: como ativá-los através de um extenso ritual sugerido, a ser praticado diariamente durante mais de quarenta dias (um para cada servidor), para que eles estejam sempre a sua disposição no momento em que você precisar. O livro ainda foi ampliado, em função do alcance das metas estendidas, com uma série de apêndices contendo entrevistas e tabelas adicionais que visam melhorar o entendimento sobre a função de cada um dos quarenta. Tudo muito bem explicado e organizado, apesar do aparente estranhamento que a palavra caos possa causar na mente de alguns...

E para aqueles que adquirem o conjunto, o grimório vem acompanhado de um deck contendo cada um dos quarentas servidores de modo que estes possam também ser usados na forma de cartas como oráculo para divinação, ou qualquer outro uso que você resolva dar, o autor faz questão de salientar. Além dos quatro diabos, quatro servidores extras incluídos no final da publicação. 

No começo desta resenha questionamos a eficácia destes métodos modernos, muito mais como uma provocação, coisa bem característica deste segmento que é essencialmente empírico. Aqui não há nenhum apelo à tradição, a antiguidade, ou sucessão de linhagens mágicas. Tudo é feito a panos claros com um objetivo preciso de resultados, sem entretanto se emocionar com a eventual falta deles. O grimório dos quarentas servidores oferece uma experiência moderna de interação com entidades artificiais que podem ter muito a lhe oferecer. Ou não, afinal de contas, isso só você, e quem sabe eles, poderão de fato dizer... 

por Allan Trindade



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sábado, 16 de maio de 2020

Segundo Frater U.D, a prática dos sigilos, tal como cunhada por Austin Osman Spare, é uma das formas mais eficientes para convencer curiosos e praticantes sobre a eficácia da magia, justamente por sua simplicidade de execução, independência de misticismos e sistemas mais complexos.

Mas será tudo assim tão fácil?

PRACTICAL SIGIL MAGIC é um livro escrito por Frater U. D. com 140 páginas, divididas em 9 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela Llewellyn Publications.

Em seu primeiro capítulo, o autor nos apresenta as grandes mudanças vistas no final do século XIX  e começo do século XX, destacando a forte presença de Austin Osman Spare, sendo depois de Aleister Crowley, um dos ocultistas mais interessantes do mundo inglês. Fora este indivíduo, que seria usado como referência para grande parte das teorias envolvendo o uso dos sigilos, que a sua maneira fundamentou a base sobre a qual se apoiam muitos dos métodos de uso dessa ferramenta mágica.

Os tempos eram de florescimento de ideias sobre a psicologia humana, seu modus operandi, e personalidades que se consagrariam cada vez mais como fundamentais para o entendimento da psique do homem, tais como Freud e Jung, propagavam conceitos que influenciaram não apenas o mundo comum, mas de forma igual as mentes de ocultistas de seu tempo, transformando de maneira irreversível aquilo que seria produzido dentro do contexto esotérico vindouro. Assim, muito daquilo que era dito até então sobre como a magia funcionava, de um modo geral sua eficácia sendo atribuída a ação de espíritos, daria então lugar a teorias sobre o ID, ego e superego, consciente e subconsciente, neuroses e sincronicidades. 

A tradição mágica, por sua vez, sempre manteve em seu espaço desenhos estranhos, muitas vezes considerados rabiscos ininteligíveis pelo vulgo, que guardavam em si uma intenção própria, um objetivo pré-definido e oculto. As formas mais conhecidas, geralmente encontradas nos grimórios clássicos e presentes nos pantáculos planetários, de uma forma geral, eram produzidas a partir de métodos cabalísticos e na maioria dos casos, eram usados para a fabricação de talismãs.

A junção do clássico com o moderno então produziu o conceito de que o homem continha em si todas as potencialidades para alcançar seus próprios objetivos, sem a necessidade de atribuir a potências planetárias, espirituais, ou externas por assim dizer, a consecução de seus intentos. Os sigilos então passariam a ser fabricados não mais apenas por kameas, mas também através de fórmulas de desejos simples, e simplificadas, que uma vez absorvidas, burlariam o sistema de defesa mental do homem e tornariam seus intentos reais.

Aqui, pragmatismo é a palavra chave. Tudo deve ser feito de forma desprendida de ânsia de resultados ou mesmo crença. Fazer a coisa conforme manda a fórmula deve ser suficiente. E se a fórmula não funcionar, tente de outra maneira. Não há dogmas, não há limites, não há moral, você é seu próprio agente, medidor e guia.

Segundo U. D., baseando-se nas ideias práticas do já citado magista inglês, a magia ocidental se apoia sobre dois pilares: vontade e imaginação. Sendo assim, você precisa de não muito mais que isso para que a mágica seja feita. Seu principal  método é relativamente simples e consiste em primeiramente definir um desejo. Em seguida, faz-se necessário expressá-lo numa folha de papel em letras garrafais, por exemplo: É MEU DESEJO GANHAR O LIVRO X. Todas as letras repetidas devem ser então eliminadas, mantendo apenas a primeira: se a letra E aparece por duas ou mais vezes, elimine todas as outras, mantendo apenas uma. Deve-se então repetir este processo com todas as letras até que restem apenas um conjunto de letras que será unido, manipulado e transformado ao gosto do magista numa forma pictórica, um desenho, que será então usado para ser implantado no subconsciente através de métodos que alterem a consciência do indivíduo, produzindo um vácuo momentâneo, seja usando ilícitos, através do orgasmo ou outros, para  que assim aquela semente plantada possa germinar como advinda de algum lugar esquecido da floresta da sua mente. E pronto! Uma vez concluído todo o processo, basta continuar com a normalidade da vida.

O livro segue ainda tratando da evolução dos próprios conceitos da fabricação dos sigilos. Da relação com o Zos Kia Cultus, a IOT e Magia do Caos. De métodos outros como aqueles que usam o mesmo processo para criar mantras ou ainda acessar os aspectos animais presentes em nossa 'subconsciência biológica'. Do alfabeto do desejo, tema ainda bastante discutido nestes meios. E finaliza então fazendo uma volta as origens, tratando da fabricação dos sigilos através dos métodos tradicionais cabalísticos.

Frater U.D. mais uma vez expressa seu talento ao apresentar um livro que trata sobre um tema bastante popular, e normalmente vulgarizado, que através de sua escrita ganha os ares da fundamentação histórica, teórica e prática necessárias e esperadas por todo ocultista sério, sem com isso ser prolixo. Este livro resume e cobre as diversas formas da fabricação de sigilos, deixando claro para todos que a partir das informações contidas aqui, qualquer um terá o fundamento necessário não apenas para produzir os seus próprios, mas ainda inovar, criando métodos pessoais. Desnecessário dizer que este livro é obrigatório na biblioteca de qualquer um que a preze.

por Allan Trindade



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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Ao decidir se enveredar pelos caminhos do Ocultismo e do Esoterismo é absolutamente natural que você tenha dúvidas sobre quais temas ou autores primeiro estudar. Com uma variedade de opções grande o suficiente para deixar até o mais habilidoso dos 'multitarefas' confuso, dar os primeiros passos pode fazê-lo se sentir tão desemparado quanto um bebê que ainda ensaia sua saída da fase do engatinhar e se apoia, sem muita confiança, naquilo que está mais próximo. 

Ao consultar indivíduos que estão a mais tempo nesta senda, é bastante comum que estes lhe recomendem os nomes clássicos da literatura oculta, como Lévi, Mathers, Crowley, Blavatsky, Papus...dentre outros. Não podemos negar a importância de conhecê-los, nós mesmos começamos assim, e por isso também podemos afirmar que este início pode ser um tanto frustrante. E a razão para isso se dá por um motivo muito simples: eles não falavam para iniciantes! Não se espante se ao ler o Dogma e Ritual de Alta Magia, a Coletânea Hermética ou ainda a Kabbalah Revelada você não entender praticamente nada.  

Evitar os clássicos não é uma opção para o ocultista realmente empenhado na busca pelo conhecimento, entretanto, pode ser que no princípio, livros mais modernos, com uma linguagem menos complexa, possam te dar um suporte maior para encará-los doravante.

ONDE VIVEM OS DEMÔNIOS? é um livro escrito por Frater U.'. D.'. publicado pela Madras editora no ano de 2011, com 135 páginas.

Ralph Tegtmeier é uma figura relativamente conhecida no contexto ocultista moderno, especialmente nos meios thelêmicos e da Magia do Caos, graças também ao sucesso de um outro livro de sua autoria chamado Practical Sigil Magic (até a presente data, sem tradução oficial no Brasil). Entretanto, não bastasse o uso de seu moto como Frater Ubique Daemon/Ubique Deus para assinar grande parte de seus livros, aqui incorpora ainda uma outra persona, seu alter ego Tia Klara, uma bruxa velha que dentre outras atividades, gosta de suprir seu vício de beber café encontrando-se com outras senhoras, e responder perguntas de curiosos sobre religião e ocultismo nas horas vagas, enquanto fuma seus incontáveis cigarros. 

O livro, surgido a partir da coluna "Templo do Consolo da Tia Klara", presente na revista ocultista alemã Anúbis, é uma reunião das diversas perguntas enviadas por seus leitores, agrupadas aqui de forma objetiva e descontraída, mas nem por isso menos profunda, que atenderão aos anseios tanto de iniciantes, quanto de estudantes médios e avançados, partindo de temas simples como os de Sociedades Secretas, suas verdades e mentiras, até elementos mais complexos como a discussão espaço-tempo e a atuação da magia dentro deste contexto. 

Precedidas por uma pequena nota preliminar, seu título Onde Vivem os Demônios? é apenas uma de um total de 28 perguntas respondidas por esta feiticeira através da mente e criatividade de Frater U.'. D.'. :

Eu preciso de um mestre ou mentor?
Devo entrar para uma ordem magística?
A magia tem que ser sempre ritualística?
O que você acha de Franz Bardon?
A bruxaria é uma antiga religião europeia de culto à natureza?
A O.T.O "inventou" a Magia Sexual?
...


...dentre outras, que já podem dar uma noção ao leitor interessado sobre o conteúdo apresentado.

Ao terminar a leitura deste título, e admirados com o vasto conhecimento de Tia Klara, pensamos que adoraríamos recebê-la em terras tupinikins. Pois se temos o melhor café do mundo, o tabaco é produto nacional, a magia aqui tem nome de macumba, e não demora muito, em uma encruza ou outra você sempre encontra um despacho, então temos tudo que ela gosta! Por isso não temos dúvidas de que no Brasil ela se sentiria em casa. Quem sabe um dia...

por Allan Trindade

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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Idade Média nos deixou como legado uma série de pergaminhos e grimórios mágicos que até hoje fundamentam ou influenciam a atuação dos magistas modernos.

Como beneficiários desta herança, quase sempre nos é possível traçar uma linha ascendente em busca das origens de algum sistema que se pratique nos dias atuais, e perceber que muito do dogmatismo encontrado em determinado contexto, é em si, uma adaptação contemporânea de algum herdeiro mais antigo.

Por mais incrível que possa parecer, esta característica não é uma exclusividade do conjunto esotérico, e é largamente encontrada no campo da religião. De uma maneira geral, o surgimento de religiões se dá de forma sucessória, onde a mais atual "nega" a mais antiga, onde o profeta daquele tempo ab-roga seu predecessor,  e se coloca como uma resposta atualizada para as questões e os problemas de sua própria era. Os Deuses do passado tornam-se então os Demônios dos dias de hoje, assim como os Deuses de hoje, podemos supor, tornar-se-ão os Demônios do futuro.

São raros os casos onde as mudanças de paradigmas se dão de maneira radical e absoluta; em geral, todas essas vicissitudes ocorrem de maneira gradativa, e em não raras as vezes, se mesclam a tal ponto de não serem mais aquilo que foram, e nem mesmo se tornam aquilo que se esperava: geram então um terceiro objeto, fruto da junção do velho e do novo.

O período medieval, marcado pela violência das colonizações e histeria cristã, agregou em si mesmo ciência, magia e religião, num amálgama tão porcamente fundido, que nada menos que o radicalismo foi necessário para que a separação se desse. Hoje, apesar de alguns espíritos retrógrados ainda se debaterem na tentativa de nos lançarem de volta ao limbo deste passado negro, podemos respirar aliviados ao dizer que estes três pilares do conhecimento encontram-se adequadamente separados...


Magus é escrito por Francis Barrett, no ano de 1801, com 370 páginas e publicado no Brasil pela editora Mercuryo. Dividido em três partes, o livro se pretende como um tratado geral e completo, que disserta sobre as três principais Ciências Arcanas do mundo ocidental: a Magia, a Alquimia e a Astrologia.


Contextualização é a palavra chave para a leitura deste título. Primeiro para que se possa entender
que há certa injustiça praticada contra Barrett ao acusá-lo de plágio, mesmo quando está claro que seu título é de fato um apanhado de toda uma série de escritos anteriores que vieram a influenciar seu livro, e que este tipo de prática literária era relativamente comum em tempos outros. Além disso, Francis fora fruto de seu tempo, e portanto, não diferente de diversos outros ocultistas contemporâneos e futuros - tais como Levy, Papus, Mathers, Fortune, etc -  mesclava em si mesmo as características ambiciosas de um mago junto as aspirações místicas - e certos devaneios - de um religioso.

Paciência é o segundo ingrediente que você terá de ter em mãos ao virar de cada página. Apesar de sua publicação ser relativamente recente - se comparada a grimórios muitos mais antigos existentes até os dias de hoje que possuem mais de 500 anos de idade - o autor não economiza palavras ao deixar clara sua fé, não só nos efeitos produzíveis pelas fórmulas apresentadas, como é repetitivo e taxativo em alertar que o temor e a gratidão ao Deus de Israel e seu Filho são essenciais para a eficácia de sua didática. De um proselitismo entendiante e cansativo, Magus fará você se questionar se a intenção de Francis era instruir indivíduos para se tornarem magistas, ou catequizar noviços para se tornarem padres.

Seus capítulos são introduzidas por títulos pomposos que ocupam páginas inteiras, e prometem coisas maravilhosas para todos aqueles que ousarem se enveredar pelos meandros destes conhecimentos. Longe desta ser uma divisão "justa", sua introdução ao estudo e prática, chamada de Magia Natural, ocupa a maior parte de suas 370 páginas. E é justamente nesta etapa que o autor investe fundo em teoria e doutrinação, a tal ponto que, é melhor que você tenha um mínimo de conhecimento bíblico para não se perder em meio a tantos nomes e referências judaico-cristãs.

Como destaque para um de seus discursos religiosos, atribui a Satanás o surgimento do ateísmo e do paganismo:

"Para que o mal existisse ininterruptamente, [satã] incitou não apenas os fratricidas e as pessoas muito más, mas cuidou para que surgisse o ateísmo e o paganismo, fazendo-os crescer a cada dia." p.46

E é no embalo da ideia pagã, que Francis tece seus comentários sobre bruxaria e ensina feitiços e poções de tipos exóticos para seus leitores, tal qual o uso de sapos como panaceia:

"O sapo pode ser usado no preparo de um remédio simpático contra a praga e distúrbios tais como a malária, epilepsia e vários outros. Para que o medo que o sapo tem de nós e o ódio natural inato possam ser aumentados e marcados, devemos pendurá-lo pelas pernas no alto de uma chaminé, colocando uma vasilha de cera amarela embaixo para recolher tudo o que possa descer ou cair de sua boca. Deixa-o pendurado nesta posição por três ou quatro dias, até morrer. Não devemos deixar de estar freqüentemente ao alcance de sua visão, para que seu medo e o terror inato de nós, com a ideia de intenso ódio, possam aumentar até ele morrer.
Assim terás um remédio muitíssimo poderoso neste sapo para a cura de quarenta mil pessoas infectadas de peste ou praga." p.49

Não nos parece demais alertar aqui que tal experimento é extremamente perigoso e não deve jamais ser reproduzido. A exposição desta receita é compartilhada apenas para fins ilustrativos.

Em sua dissertação sobre Alquimia, é tradicional ao mencionar os perigos da ganância que o estudo desta Ciência pode despertar no Buscador. Trata das propriedades do Pó da Transmutação, acumula mais instruções morais na mente do leitor na preparação para o Trabalho, dá quatro lições para a "obtenção da Pedra Filosofal", e finalmente alega que a chave para a consecução da Grande Obra não está no processo em si, mas na descoberta da Matéria Prima, que ele mesmo não revela qual é.

Outra característica marcante em seu conteúdo é o forte uso da Astrologia como fundamento para praticamente tudo que se pretenda fazer com este grimório: estudar esta matéria antes de consultar este livro será essencial para o uso do mesmo; sem este conhecimento é bem provável que você fique totalmente perdido em seu aspecto prático.

Teologia, astrologia, cabala, alquimia, bruxaria, magnetismo, unguentos, incensos, sacrifícios animais, mineralogia, superstição, numerologia, sigilos, alfabetos antigos, necromancia  etc, são todos temas encontráveis neste título como introdução até finalmente chegar no ponto à qual Magus angariou sua fama: seu sistema de evocação de espíritos de mortos, anjos e  seres planetários. O método é comum a todos os outros tipos contemporâneos: círculos mágicos, varinhas, mantos, espadas e todo arsenal encontrado dentro do contexto da Magia Cerimonial. O diferencial reside no fato de que toda esta ritualística tem por fim o fabrico de talismãs.

A Magia Talismânica - como também é conhecida - encontra grande fundamento em escritos deste período, com seus astrólogos que produziam pingentes específicos para pessoas com mapas natais e objetivos pré-determinados, de modo a atrair a energia natural e a força de seres espirituais para a concretização de seus intentos. Era por muitas vezes um trabalho terceirizado, onde o cliente solicitava a seu magista, que o mesmo produzisse tal item - fosse este um colar, um anel, patuá, etc - que passaria então a ser usado por esta pessoa em locais apropriados por tempos determinados.

Fato é que, de uma maneira geral, ainda não nos desprendemos desta prática ao observar que até hoje fazemos uso de cordões, brincos, anéis e tatuagens com intenções e símbolos religiosos, mas perdemos o hábito de verdadeiramente tornar estes itens mágicos, consagrando-os seja pessoalmente, ou contratando os serviços de um outro alguém para que assim o faça...mas Barrett nos traz as instruções de como fazê-lo.

Para isso a familiarização com a Cabala, quadrados mágicos e sigilação será fundamental, mas caso não domine tais técnicas, neste sentido, o livro lhe dará uma noção de como tudo isso se dá. A ritualística mágica, à maneira Tradicional, é essencial, e Francis não deixa dúvidas que, em se
cumprindo o passo a passo descrito em seu conteúdo, manifestações e visibilidade destes seres serão reais e tangíveis. Por fim, o conhecimento da Astrologia será obrigatório. Todos os talismãs são feitos observando-se as conjunções planetárias favoráveis para cada intento.

O livro finalmente termina com curtas biografias de personalidades importantes para o cenário mágico, químico e alquímico, que, como já dito em outro momento, devem ser sempre lidas com olhares críticos, uma vez que foram escritas a no mínimo duas centenas de anos atrás, e que portanto, podem estar desatualizadas.

Magus é uma exata reprodução de seu período e é um dos últimos grimórios que ainda trazem em seu conteúdo esta estranha mescla de dependência entre ciência, magia e religião. Exerceu influência sobre grandes nomes do cenário ocultista que lhe sucederam, e dentro de seu contexto, cumpre bem aquilo que se pretende. Apesar de seu excesso de proselitismo, que se lapidado, teria o livro conteúdo bem menor com que se apresenta, deve ser lido com um olhar histórico contra sua abordagem religiosa, e prático em seu aspecto mágico. É sem dúvidas um exemplar obrigatório para todos os Tradicionalistas.

À saber: a resenha a seguir tem íntima relação com este título, onde abordaremos de forma mais específica o capítulo especial atribuído a Trithemius de Spanheim, e seu sistema de evocação de espíritos para dentro de cristais. Fique atento.

Agradecimento especial ao Frater C.B. que carinhosamente me presenteou com este livro. Obrigado meu caro!

por Allan Trindade