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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

E disse o servo ao faraó:

- Eles se recusam a lhes prestar as devidas honrarias, senhor!
- Não se preocupe com eles, são loucos que cultuam um deus que não podem ver.


COSMOLOGIA EGÍPCIA é um livro escrito por Moustafa Gadalla, com 173 páginas, divididas em 30 capítulos e publicado no ano de 2003 pela Madras editora.

O povo mais supersticioso da história. Assim costumam definir alguns quando pretendem falar sobre o Egito antigo. Uma adjetivação no mínimo infeliz, diga-se de passagem. Infeliz pois ignora a forma como aqueles homens e mulheres do passado enxergavam a vida e o universo a sua volta: sempre como manifestações do divino. O sol que queimava era também aquele que trazia a luz e rompia o medo das trevas. O rio que inundava era também aquele que tornava o solo fértil e garantia a boa colheita. O escaravelho  que com dificuldade rolava seus dejetos pelas areias escaldantes do deserto, fazia deles nascer sua prole e provava que até mesmo da matéria mais rejeitada era possível surgir vida.  O faraó embora humano era ao mesmo tempo um deus. Cada elemento. Cada detalhe. Cada aspecto da vida - e da morte - encontrava sua correspondência com o aqui e o porvir, com o material e o espiritual. Não há nada de supersticioso nisso. Há de pragmático. Para o egípcio antigo o divino se apresenta na prática, e não na especulação daquilo que pode ser. E segundo Moustafa Gadalla, entender isso é o mínimo necessário para aqueles que se pretendam aventurar pela cosmologia egípcia.

Segundo o autor, Heródoto classificou os egípcios como os mais saudáveis, alegres e religiosos do mundo. E isso porque justamente encontravam na vida sempre uma forma de estar em contato com o divino, que era entendido como único, embora seus atributos fossem classificados sob outros nomes e formas, denominados erroneamente de deuses, mas melhor definidos como neteru. A não compreensão disto teria feito com que Akhenaton tentasse eliminar as diversas formas com o que o Divino era então representado.

Levando em consideração a correlação que aqueles povos estabeleciam com o espiritual e o material, os mitos tinham não apenas uma intenção moral, de instruir ideologicamente o povo, mas também científica, já que através dos símbolos era possível entender como o mundo se formara e a própria civilização humana. Segundo Gadalla, foi a ignorância de povos como dos judeus, cristãos e muçulmanos que os levaram a desconsiderar tais conhecimentos e tratá-los sob viés de literalidade, visto que estes tipos abraâmicos absorveram parte da cultura e conhecimento egípcio, porém, mal. Entretanto, Pitágoras teria sido um resultado positivo deste contato.

E por falar neste filósofo, tão celebrado por seus cálculos, números compõem uma grande parte desta publicação. Os mitos da criação apresentados aqui como Nun, sendo o caos primordial: Maat, a ordem; Amen, a força oculta. Estes então dão origem a Atum e toda variedade de aspectos do Divino que se unem não apenas nas histórias, mas também através das somas matemáticas e suas atribuições místicas, a exemplo de Ausar, representado pelo número 3 que se une a Auset, representada pelo número 2, que dão origem ao 5, Heru. Tal como a citação de Plutarco em sua Moralia, vol. V.:

Três (Osíris) é o primeiro número ímpar perfeito; quatro é um quadrado, cujo lado é o número par dois (Ísis), porém, de certa forma, o cinco (Hórus) é como seu pai e de outra forma, sua mãe, pois é feito de dois e três. E panta (tudo) é derivado de pente (cinco) e falam em contar numerando de cinco em cinco.

pg. 49


Há uma insistência  na descrição do autor em dizer que os Baladi são herdeiros daqueles egípcios da antiguidade, e que muitas das ideias entendidas por ele, são verificáveis neste povo que ainda carrega muito daquela antiga tradição. O mesmo pode-se dizer do conceito animista por trás de toda esta conjuntura, que estabelece que a matéria, conforme comumente a concebemos, assim o é apenas por uma convenção ideológica visto que tudo no universo é energia. Sendo assim, o que diferencia o físico do espírito é apenas a velocidade com que as moléculas vibram; quanto mais lenta, mais material, quanto mais rápida, mais espiritual.

Os antigos egípcios e os Baladi não faziam/fazem distinção entre um ser em estado metafísico e um ser com corpo material. Esta diferença é uma ilusão mental, pois existimos em diversos níveis simultaneamente, do mais físico ao mais metafísico. Einstein concordava com esses mesmos princípios...claramente mostrada na Estela de Shabaka (século VIII a.e.c)

Então os neteru (deuses) entraram em seus corpos, através de todos os tipos de madeira, mineral, argila, todas as coisas que crescem nele (terra).
pg. 60

E se os aspectos individuais dos seres eram importantes, a forma como estes seres se relacionavam também o era, por isso a organização social era tão fortemente pensada, a ascendência matriarcal tendo mais importância que a patriarcal, as profissões - geralmente passadas de pai para filho -, o faraó com sua função sacerdotal de garantir boas colheitas iniciando o plantio e praticando os rituais diários de conexão com os deuses, sendo ele próprio considerado uma divindade em si, e o templo, entendido não como um local de adoração pública, mas uma morada terrena de emanação de poder do deus para o povo. O livro se encerra tratando das mudanças de eras zodiacais, a função do homem nesta existência e sobre as mudanças futuras a qual todo universo está submetido.

Esta é uma publicação leve e fluida. Mais preocupada com a ideia geral da cosmovisão egípcia do que se aprofundar em todos os detalhes. O autor faz uma série de críticas sutis e - por vezes - nas entrelinhas, ao dizer que muitos dos pensamentos que temos hoje e consideramos serem gregos, são na verdade egípcios. É uma fonte introdutória para um assunto que, sem dúvidas, exigiria que morrêssemos, voltássemos no tempo e ressuscitássemos para tentar entendê-lo em sua totalidade.

por Allan Trindade


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quinta-feira, 19 de julho de 2018

O projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de penetrar no imaginário do outro, e este foi o empenho do apóstolo (i.e., Anchieta). Na passagem de uma esfera simbólica para outra, Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. Como dizer aos tupis, por exemplo, a palavra pecado, se eles careciam até mesmo da sua noção, ao menos no registro que esta assumiria ao longo da Idade Média européia? ... O mais comum é a busca de alguma homologia entre as duas línguas, com resultados de valor desigual:

Bispo é Pa'iguaçu, quer dizer, senhor maior. Nossa Senhora às vezes aparece sob o nome Tupãsy, mãe de Tupã. O reino de Deus é Tupãretama, Terra de Tupã. Igreja, coerentemente, é Tupãoka, casa de Tupã. Alma é 'anga, que vale tanto para sombra quanto para o espírito dos antepassados. Demônio é anhanga, espírito errante e perigoso. Para a figura bíblico-cristã do anjo, Anchieta cunha o vocábulo karaibebé, profeta voador...

A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível.

Começando pela arbitrária equação Tupã-Deus judeu-cristão, todo o sistema de correspondências assim criado procedia de atalhos incertos. Tupã era o nome, talvez onomatopaico, de uma força cósmica identificada com o trovão, fenômeno celeste que teria ocorrido a primeira vez com o arrebentamento de uma personagem mítica, Maíra-Monã. De qualquer modo, o que poderia significar, para a mente dos tupis o nome de Tupã com a noção de um Deus uno e trino, ao mesmo tempo todo-poderoso, e o vulnerável Filho do Homem dos Evangelhos?

Alfredo Bosi, Dialética da Colonização.


O TROVÃO E O VENTO é um livro escrito por Kaká Werá, com 250 páginas, divididas em quatro capítulos e publicada no ano de 2016 pela Polar Editora.

Tupi or not Tupi? A célebre frase do Manifesto Antropófago ainda se faz questão nos dias de hoje. Num país cada vez mais dividido e empenhado nas lutas por identificação, uma das características principais do nosso povo - a da mestiçagem e sincretismo social e ideológico - vem pouco a pouco dando lugar a discursos de auto afirmação étnicas, políticas e sexuais, que com a força de seu sectarismo cada vez mais distanciam seus cidadãos, que até não muito, viam-se como únicos, apesar das diferenças.

Nesta disputa sempre polarizada, onde quem não escolhe um lado é automaticamente lançado para o campo do inimigo, os justiceiros -  acromatópsicos por opção - parecem enxergar apenas duas cores nesta nação multicolorida: preto ou branco. Contrariando a descrição de Pero Vaz de Caminha que definira nossos ancestrais como pardos de tom avermelhado, ou ainda a própria honestidade intelectual e visual de perceber e admitir que até os dias de hoje nossa gente é majoritariamente mestiça, fruto do intercruzamento de brancos, pretos e vermelhos, querem mais uma vez excluir da existência o sangue e a pele indígena, como se o Brasil fosse metade Europa, metade África, esquecendo-se que este continente se chama América. Mas não se derrota um povo guerreiro tão facilmente. E se antes as disputas se travavam na ponta da flecha e da lança, comendo a carne do adversário como um símbolo de honra e vitória, nos dias atuais é através da resistência, do estudo e do conhecimento que se vence uma batalha.

Dr. Patrick Paul, assina o prefácio desta obra dizendo que ficou muito feliz com a oportunidade de escrevê-lo e em ter conhecido Kaká, já que não sabia nada sobre a história original do Brasil, mas que percebeu muitas similaridades em alguns processos de supressão, como aqueles da língua, cultura e religião dos povos indígenas, que também ocorreram sobre determinados povos europeus. E salienta que, embora o estudo do passado seja importante, uma volta aos modelos sociais antigos, em sua completude, são inviáveis uma vez que eles próprios estivessem adaptados a seus tempos, as suas realidades. Sendo assim, este tipo de conhecimento nos serve como uma maneira de estabelecer um equilíbrio entre aquilo que se tinha, para entender melhor aquilo que se é. Para além disso destaca ainda uma série de relações entre os conceitos religio-filosóficos dos tupi-guarani com a Alquimia, Cabala, filosofia grega e oriental, dentre outros.

Kaká fora atraído aos guarani através de um pedido de socorro, de um pequeno grupo que vivia as margens da represa Billings em SP, em meio a miséria e a doença, sem entretanto abandonarem o riso e o respeito as tradições. Conviveu dez anos com eles e encantou-se pelos cantos do Opy, assim como outros elementos da cultura, e reuniu nesta obra o que aprendera em todos estes anos de vivência.

A etnia Tupi, provavelmente a maior e que mais influenciou as terras brasileiras, surgiu há cerca de 12.000 anos. De característica semi-nômade, desdobrou-se em vários outros segmentos étnicos conhecidos como tupinambás, tupinikins, guaranis, kamaiurás, etc. De comportamento aguerrido, os tupi também eram dedicados ao moitará (escambo) e ao puxirum (uma espécie de serviço de camaradagem). Dentre suas andanças, comunicação e comércio, criaram estradas de ligação entre os dois pontos do continente, mantinham indivíduos destacados para transitar especificamente dentre estes espaços e com isso, tiveram contato com os povos andinos como quétchua e aymara.

O livro nos traz esta introdução sobre as questões sócio-culturais que envolviam os tupi para então tratar de seu tema principal: a religiosidade. Segundo nos conta o autor, os guarani se denominam jeguakava tenonde porangue-i. A expressão significa: " os primeiros adornados, que caminhavam de plumas sobre a cabeça". Foram os dirigentes desses adornados que receberam os cânticos sob inspiração do Céu. E foi sua comunidade que acolheu e passou a reproduzi-los no Opy - ou, como é conhecida hoje: a Casa de Rezas. pg 35 

Com a chegada do branco e seus missionários, na ânsia de fazer com que esquecessem suas práticas religiosas, alguns sacerdotes passaram a subornar certos índios, de modo a fazer com que abandonassem seus cânticos, que tinham por objetivo, amansar o Trovão e o Vento, ou alma e a mente. Mas é certo que os cristãos não foram bem sucedidos nesta empresa, uma vez que as rezas indígenas tenham sobrevivido até os dias de hoje.

Baseados na crença do deus Tupã, que segundo estudiosos não possui uma tradução ou sentido plenamente conhecido, mas costumeiramente associado ao trovão, seria ele um outro aspecto de Poromonham, o Absoluto Incomensurável, de onde Nhamandú, o Inominável, vibra. Desta conjuntura saem dez princípios norteadores para a humanidade, desenvolvidos ponto a ponto pelo autor nesta obra.

Todos estes elementos formam então a base para o foco principal do livro: os cânticos que educam os ventos. Escritos em guarani e português, são divididos em quatro grupos: 


  • I - Maino i reko ypi kue / Os Primeiros Costumes do Colibri; 
  • II - Ayvu rapyta / Os Fundamentos do Ser; 
  • III - Yvy tenondé / A Primeira Terra; 
  • IV - Oñemboapyka pota jeayú porangue i rembi rerovy'a rã i / Está na hora de dar assento a um Ser, para alegria dos bem amados. 


Por fim, o autor nos sugere um exercício a ser praticado durante 21 dias, com textos oriundos de seus processos rituais, para serem usados como meditação diária.

Esta é uma obra introdutória, leve e instrutiva. Se comparados, muitos dos conceitos indígenas se assemelham em muitos aspectos a muitos elementos do esoterismo indo-europeu, e ficamos mesmo com a sensação de que, com tantas similaridades, se talvez não sejam conceitos modernos, pós contato com o branco. A falta de registros escritos pode dificultar essa resposta, embora os índios sejam sempre lembrados como tendo uma memória impecável sobre suas origens e tradições. Independentemente disso, o livro cumpre aquilo que propõe e certamente, abre possibilidades para ainda outras obras complementares a esta...que sinceramente, esperamos que surjam, para que cada vez mais tomemos consciência que o Brasil foi, é e também continuará sendo índio!

por Arãnhangá



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terça-feira, 17 de julho de 2018

Eu era criança quando a irmã do meu pai tinha um terreiro próximo a nossa casa. Minha mãe me avisou cedo que naquela tarde iriamos lá pois era dia de festa. Ao chegarmos tudo já tinha começado. Lembro-me de achar muito estranho o comportamento daqueles adultos vestidos de branco, mas ela me explicara que era gira de erê, e eles estavam com espíritos de crianças mortas no corpo.

Uns tomavam guaraná quente. Alguns brincavam com os presentes que tinham ganhado. Outros conversavam de uma maneira enrolada com os convidados. E tinha ainda aqueles que comiam as formigas do quintal - eu gostava destes em especial. Minha tia, trajada com seus paramentos de Mãe de Santo e com seu jeitão autoritário e de pouco riso de sempre, chegou botando ordem na bagunça. Bateu suas palmas, pediu silêncio a todos e mandou que os incorporados fizessem fila única.

Fiquei na varanda observando tudo. Um dos últimos erês da linha inclinou-se um pouco em minha direção, esfregou as mãos como que as aquecendo, e com uma expressão que era um misto de deboche com um leve semblante diabólico, sussurrou dizendo: " Obaaa! Hoje vou fazer uma macumbinha! "


UMBANDA NÃO É MACUMBA é um livro escrito por Alexandre Cumino, com 155 páginas e publicado no ano de 2016 pela Madras Editora.

Macumba tem sido um termo usado de forma dúbia, tanto por adeptos de algumas religiões brasileiras para designar seus credos e práticas, quanto por aqueles detratores que se apropriaram desta palavra e usam-na de forma pejorativa para ofender os seguidores destas crenças.

A similaridade, a ignorância e o medo, sem dúvidas, contribuem para muitas das problemáticas que envolvem o uso deste vocábulo. Por similaridade destacamos aqueles elementos comuns a maior parte das religiões de influência africana que surgem em solo nacional, que possuem relações com orixás e rituais de necromancia, além de agregarem elementos da cultura e religiosidade indígena.  Por ignorância entendemos a falta de interesse em compreender as diferenças entre estes diversos credos, que é, finalmente nutrida pelo medo de que sejam usados para a prática do mal. É para desfazer o generalismo e traçar as especificidades que Alexandre Cumino nos traz esta obra então.

Esta antologia reúne parte dos textos publicados dentre os anos de 2005 a 2013 no Jornal de Umbanda Sagrada e Revista Espírita de Umbanda,  além de outros exclusivos que aqui foram organizados de modo a dar ao leitor as condições não apenas de entender sua defesa, como para explicar as origens desta religião.

Umbanda não é macumba é o que argumenta o autor. De acordo com Alexandre, Macumba é o nome do instrumento musical de percussão, um tambor, que era utilizado em cultos afro-brasileiros no Rio de Janeiro. A pessoa que tovaca macumba era chamada de macumbeiro; logo, o culto se autodenominou Macumba, assim como sua dança e práticas, como as oferendas. Em geral, eram cultos de origem africana bantu (Angola/Congo/Cabinda), que incluíam rituais realizados nas encruzilhadas, em que sempre se deixavam suas oferendas, entregas e despachos. pg 15

Cumino ressalta que não haveria problema no uso do termo, caso este fosse usado de forma natural, porém, entende que o mesmo é verbalizado, na maior parte das vezes, de forma preconceituosa. Para além disso, o autor nos traz ainda os elementos que compõem a Umbanda e fazem dela uma religião, fundamentada, com origem e doutrina, e distante até mesmo das práticas oriundas das encruzilhadas cariocas.

Nascida em Niterói por intermédio de Zélio Fernandino de Moraes, a Umbanda surgiu através do descontentamento com a forma discriminatória na qual alguns espíritos eram tratados em centros kardecistas, e foi anunciada pelo Caboclo 7 Encruzilhadas, incorporado ao médium, pelos idos de 1908. De caráter e crença cristã, a Umbanda é então declarada como uma religião destinada a prática da caridade, sincrética e arquetípica, gratuita em todos os seus aspectos, que tem como único objetivo ajudar vivos e mortos no caminho do bem.

A partir daquele ponto, sagrava-se como uma crença organizada e doutrinária, com liturgias e ritualística próprias, que indiscutivelmente se distanciava de qualquer outra forma de prática da qual fora também herdeira, ou injustamente associada.

À continuidade do livro, os textos tratam do desenvolvimento da doutrina, discute a participação dos filhos genéticos e de santo de Zélio, e as mudanças e dificuldades que a religião enfrentara no decorrer de seus mais de 100 anos de existência.

Da nossa parte, acreditamos na importância do conhecimento da história e fundamento das religiões, especialmente para aqueles que se dizem pertencentes a algum segmento, ou para aqueles que se pretendam falar sobre. Este título nos traz todos os elementos necessários para a compreensão que de fato há uma distinção entre aquilo que a Umbanda é e aquilo que a Umbanda não é. Entretanto, num contexto onde tanto adeptos quanto escarnecedores fazem uso do mesmo termo para por vezes se referirem a toda esta conjuntura, a palavra macumba, por fim, talvez devesse ser entendida como neutra, dependendo sempre de quem e como a utiliza. 

Mas esta é a nossa opinião, e como não somos umbandistas, embora esta seja também parte da nossa origem e vivência religiosa, tanto por frequência quanto por ascendência, que as palavras finais desta resenha sejam aquelas de quem tem esta religião como prática de vida:

Dizer que Umbanda não é Macumba é muito mais que separar o joio do trigo. Para o leigo, tudo é Macumba e, mesmo para alguns de dentro, Umbanda é Macumba. No entanto, quando alguém fala: "Eu vou à Macumba", não dá para saber se a pessoa vai para o Candomblé, Catimbó, Tambor de Mina, Umbanda ou mesmo Espiritismo. E, por isso, fica muito claro que pode até ser engraçado dizer: "Eu vou à Macumba", mas em momento algum a palavra macumba define Umbanda, e por isso, podemos dizer com certeza que: Umbanda não é Macumba. pg 154/155

por Allan Trindade



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sexta-feira, 2 de março de 2018

Ao olhar para as estantes da minha biblioteca, percebi que um título estava desalinhado para com os outros em sequência. Normalmente minha ação seria a de endireitá-lo e tornar a fazer aquilo que estava fazendo. Entretanto, resolvi pegá-lo e abrir uma página a esmo, na qual se lia:

Um círculo de crânios é colocado em volta de mim e quatro espadas são fincadas ao meu redor. Cercado estou pelos Quatro Cruzeiros Negros que regem do fundo da Terra ao Alto do Espaço e imperam o Lado Obscuro dos Quatro Elementos da Criação. Eu clamo no centro desse círculo às Sombras da Sabedoria e da Força cujas cabeças são adornadas com coroas!...Eu levanto a cruz ao Alto e a inverto mostrando ao Inimigo que seu câncer não habita em meu corpo! Coloco minha mão na Terra e que todos os Exus e Pombagiras conectados com Maioral me escutem: se uma flecha em minha direção for lançada, um milhão de flechas negras voltarão em seu lugar! 


Foi suficiente, resolvi lê-lo.

QUIMBANDA Fundamentos e Práticas Ocultas VOL. 01 é um livro escrito por Danilo Coppini, com 200 páginas, publicado no ano de 2015 pela editora Cape Lobo.

Este livro surge como uma continuação aquele publicado primeiramente e já resenhado por nós, chamado Quimbanda O Culto da Chama Vermelha e Preta. Caso não tenha consultado aquela resenha ainda, recomendamos que o faça para um melhor aproveitamento desta. A proposta geral é que esta sequência será complementada ainda por mais dois livros, totalizando um total de quatro publicações, onde o enfoque será dado tanto para a filosofia quanto à prática desta religião.

Em sua introdução, Danilo mais uma vez destaca as diferenças entre a Quimbanda e a Kimbanda, e que este livro, tal qual o templo no qual ele nasce, é fruto de anos de práticas e pesquisas, e que não é destinado para mentes estagnadas uma vez que o dinamismo e a Evolução sejam forças motrizes que direcionam a ação e pensamento de seus eleitos.

Desejamos que os adeptos enxerguem na obra uma bússola que apontará a Luz de Lúcifer expandindo a mente e o espírito para novas práticas. A Quimbanda crê que a evolução individual é o caminho que prezará o que é útil, mudará segundo a necessidade e eliminará o desnecessário. Isso faz parte do fortalecimento do caráter que libertará o adepto dos entraves psíquicos e sociais. pg.6


Para os menos familiarizados com toda a conjuntura religiosa comparativa, alguns pontos expostos no primeiro livro podem ter causado certa ânsia por um maior desenvolvimento. Lá, em muitos pontos da exposição de sua filosofia, há uma constante referência, por vezes subjetiva, a ideias gnósticas que podem deixar os menos acostumados com todo este universo um tanto confusos sobre no quê afinal de contas eles acreditam. Sendo o Gnosticismo um conjunto de ideias historicamente dinâmico e heterogêneo, pensamos que um melhor desenvolvimento sobre este ponto seria bastante proveitoso para todos os interessados em saber mais sobre esta crença. 

Consciente deste ponto ou não, fato é que o autor, já no princípio desta edição, faz questão de dedicar um capítulo inteiro chamado "Exu - Entre o Cosmos e o Caos" destinado a esclarecer seus conceitos sobre estas polaridades, alegando que este último é erroneamente confundido com confusão. Ao destacar a linearidade e oscilação atreladas a cada um destes conceitos,  utiliza-se do conhecimento deixado pelos Iorubás e seus Itan e Orikis, para auxiliar na compreensão da função cósmica e caótica de Exu, assim como as diferenças de ação dos exus da Umbanda e da Quimbanda. É fato ser este capítulo de grande importância e complemento para o progresso do entendimento sobre sua cosmovisão.

Em seguida, fala que a Quimbanda Brasileira desenvolveu-se de diferentes maneiras através do trabalho daqueles que resistiram aos seus ordálios. Sobre a consciência do adepto em saber quando e porquê atacar ou recuar. E destaca a necessidade de compreender seus próprios instintos para usá-los quando necessário, já que a compreensão dos impulsos faz parte do caminho para a libertação destes.

A Natureza da Verdadeira Quimbanda, ao contrário das demais religiões e cultos, não está associada ao desenvolvimento de uma conduta moral e ética refinada e nem é influenciada pelas empenhas do período evolutivo da sociedade humana. Também não é um meio ao qual os adeptos sentirão a satisfação espiritual enquanto estiverem na matéria, pois o intuito da Quimbanda não é gerar satisfação e sim libertação, pois satisfação desprovida de libertação é ilusória. pg.29


O leitor sentirá que cada nova edição tem tornado as análises e o pensamento mais complexos. Aqui, discussões sobre o ego, ID, inconsciente, organização social e ética, e a relação de Exu com todos estes elementos, deixam claro que a evolução do saber fazem parte não apenas de seus objetivos, como serão exigidos daqueles que se pretendam compreender ou preencher suas fileiras.

De forma igual e como característica comum dos escritos do autor, informações históricas são apresentadas sobre o uso de búzios em diversas culturas ao redor do mundo, seu emprego vulgar e mágico, além de ensinar um método específico destas conchas como oráculo para uso pessoal do adepto, assim como também explora o conceito do Plano Astral e os seres que lá residem. Em seu aspecto prático, traz alguns procedimentos de limpeza espiritual, discorre sobre o tema e apresenta um ritual para a libertação do vício em drogas, o significado, função, consagração e uso de Armas Mágicas e uma série de ritos para os mais diversos fins.

Pensamos que o buscador interessado em se aprofundar nesta linha de Quimbanda deva ter em mente que o dinamismo verbalizado e pleiteado por Coppini, e os demais membros deste templo, exposto frequentemente em suas diversas obras, e continuado nesta, exigirá um constante aprofundamento dos estudos não apenas desta vertente em específico, mas do conhecimento esotérico e exotérico em geral. As constantes referências a conceitos ocultos e das ciências vulgares, como aqueles da psicologia, da história, da linguística etc, deixam claro que a preguiça e a ignorância passam longe daqui.

por Allan Trindade



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


" Na manhã de 14 de janeiro de 1907, um homem vestindo um manto vermelho, considerado um irresponsável, apareceu em Kingston alertando as pessoas sobre o fato de que antes do anoitecer a cidade seria destruída. Às três horas da tarde, Kingston, e na verdade toda a ilha, foi atingida por um terremoto de grande magnitude, que não apenas deixou uma vasta área da capital em ruínas, mas matou pelo menos 2.000 pessoas. "

VODU é um livro escrito por Joseph Williams, publicado pela Madras editora no ano de 2004, com 163 páginas divididas em 7 capítulos.

É comum ouvir as pessoas falarem que não se deve comprar um livro pela capa. E as razões para isso possuem lógica tanto para o aspecto positivo quanto para o negativo. Encantar-se por uma bela estampa pode levá-lo a se decepcionar com um péssimo conteúdo. Assim como uma arte não tão atraente pode fazê-lo perder a oportunidade de ler um ótimo texto. Se podemos dizer que contra estes fatos não há argumentos, deveríamos estender o mesmo conceito para os títulos. 

Já fazia algum tempo, estávamos a procura de um exemplar que pudesse servir como uma introdução a este tema tão popularmente conhecido, e lotado de histórias (ou estórias) acerca das práticas e poderes do Vodu. Ora referido como religião, e outras tantas como ofício de feitiçaria, não deve haver uma só pessoa vivendo nas grandes cidades que nunca tenha ouvido falar nesta palavra.

O subtítulo nos tentou de forma igual: Fenômenos Psíquicos da Jamaica. Aparentemente uma combinação consistente o suficiente para suprir a nossa necessidade, e por que não dizer, também a nossa curiosidade. Mas infelizmente erramos. Isso porque apesar do título em português sugerir que este livro trata do assunto que gostaríamos que ele tratasse, seu título em inglês é muito mais justo, e provavelmente não nos conduziria de forma tão tentadora ao erro. Seu nome original, que aqui fora transformado em subtítulo, expressa bem a proposta dessa publicação. Ele não se propõe a tratar do tipo de religiosidade ou magia conhecida como vodu, mas trás a investigação do autor, que vivera por cerca de 6 anos na Jamaica, acerca dos possíveis fenômenos espirituais existentes por lá, e apresenta este trabalho como uma investigação das experiências que tivera e dos relatos daquilo que ouvira.

Em sua primeira parte, e a única que nos parece realmente interessante, elenca uma série de casos de poltergeists, ataques a jovens, batidas em cômodos de casas, apedrejamento de pessoas com pedras que surgem do meio do mato mas que não causam danos físicos as vítimas, possessões, exorcismos, etc... e demonstra que apesar do tempo em que fora escrito, no início do século XX, Williams não se deixara levar pelo apelo popular e sempre mantivera uma postura cética para todos os casos, procurando investigá-los ou se abstendo de tomar conclusões definitivas quando as provas não eram suficientes. 


Os capítulos que se seguem procuram apresentar ao leitor a relação conturbada das tribos africanas existentes naquele país, em especial a dos Ashanti, algumas definições etmológicas, ritos funerários,  suas práticas religio-mágicas conhecidas como Obeah e Mialismo, a forte crença que os pretos mantinham com estes elementos e ainda a relação destes para com os brancos e sua religião, o Cristianismo.

Este é um livro de interesse acadêmico que se ocupa em trazer descrições sobre os povos e crenças da Jamaica do início do século XX. Seu autor faz constantes referências a seu título anterior - Voodos and Obeahs - e aparentemente complementar a esta leitura (na verdade, nossa impressão é que aquele livro precisa ser lido antes deste). Os casos apresentados aqui são repetitivos e se limitam a falar de enterros e pseudo fantasmas que atiram pedras. É um livro para quem tem interesse na história da Jamaica e já detenha algum conhecimento prévio sobre aquele país e seu período como colônia do Reino Unido.

E se você está procurando por instruções sobre como costurar e alfinetar o boneco de vodu do seu inimigo, uma loja de corte e costura pode vir a lhe dar muito mais informações que esse livro, já que afinal de contas, esse tipo de instrução simplesmente não existe aqui.


por Allan Trindade

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017


Lembro-me claramente de quando era criança, nas rodas de conversa dos adultos, quando o assunto era religião, um tema sempre era tabu: Quimbanda! Os que nada sabiam, diziam, temiam saber, os que pouco sabiam, ficavam receosos em saber mais...e quase sempre o diálogo se encerrava com a mesma velocidade com que se iniciava, com a clássica 'é melhor não falarmos disso'.



O clima de mistério e obscurantismo imperava, e era preciso mudar o rumo da prosa para 'algo mais leve'. Criança que era não podia ser eu aquele que obrigaria os mais velhos a me dizerem as coisas que sabiam, pois era fato, curiosidade eu tinha de sobra. E tampouco poderia, naquela época, considerar de que maneiras obteria o conhecimento necessário sobre o assunto. 



A mim era legado o 'direito' de frequentar o catecismo, a missa e os batismos católicos durante o dia, e as giras de erês, caboclos e pretos-velhos de Umbanda à tarde. Mas eram os mistérios da noite que ano após ano clamavam o viço da minha juventude. As extravagâncias de vestidos, ternos, tridentes e capas, os fumos, as bebidas, o deboche e as gargalhadas, os atabaques, os pontos cantados e a sensualidade, tinham uma incrível capacidade de transformar um ambiente tranquilo e neutro, numa corrente de força e vigor, que até a mais medíocre das pessoas quando incorporada, ganhava uma aura tão grande de sensualidade e atração, medo e repulsão, que ao término de tudo aquilo, você estaria desejando entregar-se nos braços de algum Malandro ou Pomba Gira, ou estaria implorando para que o Deus de Israel te livrasse daquele inferno



Curiosamente meus familiares e amigos nunca se referiram a gira do povo de rua dentro da Umbanda, como Quimbanda...mas como festa. E que festa! Para eles, que não tinham um conhecimento profundo sobre o assunto, Quimbanda nunca foi um evento esporádico, com data e horas marcadas, mas uma outra religião, que concentrando em si o poder de Exu, deveria ser tratada com ainda mais cautela e respeito, mas jamais com indiferença!



QUIMBANDA - O Culto da Chama Vermelha e Preta é um livro escrito por Danilo Coppini, com 563 páginas, divididas em 8 capítulos, publicado no ano de 2014, pela editora Cape Lobo.



Este livro surge dentro de uma conjuntura própria, mais especificamente através do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, e é fruto da pesquisa e experiência não apenas de seu autor, mas também dos outros adeptos que comungam do mesmo credo. Originalmente vendido como tiragem única, porém em sua segunda edição até a presente data, tem a intenção de informar a todos os interessados não apenas as interpretações do culto dadas especificamente por este segmento, como também de esclarecer muitos aspectos confusos e mitificados que pairam o imaginário popular sobre esta religião. 

Os grandes objetivos desse livro consistem em despertar e 'quebrar grilhões'...A quebra de 'grilhões'visa retirar o poder mítico da mão de certos manipuladores que inventam coisas sem vivenciá-las. pg.9



O autor faz questão de deixar claro que a Quimbanda não é uma gira e nem mesmo uma contraparte, ou ainda a Mão Esquerda da Umbanda - religião cristã atribuída a Zélio Fernandino de Moraes, iniciada por volta do ano de 1908, e que tem na crença de muitos de seus adeptos a ideia de que os eguns evocados são espíritos errantes, que precisam trabalhar em nome da caridade para edificar uma vida espiritual pura, em função de pagar pelos pecados que cometeram em vida. Segundo Coppini, a Quimbanda Brasileira é uma outra religião, completa e independente, com sua própria cosmovisão e objetivos místicos, que em nada se assemelham a este entendimento sobre os exus:


 Que nos desculpem os Umbandistas que creem nessa falácia, mas a Quimbanda é um Culto Religioso desprovido de dupla via, ou seja, não existe divisão entre bem ou mal, direita ou esquerda, céu e inferno. A Quimbanda Brasileira é a arte de evocar ou invocar espíritos dos mortos que ascenderam através dos Conhecimentos Esotéricos Ocultos e burlaram a Lei de Reencarnação...pg.11



E que as acusações populares sobre este ser um culto de Magia Negra, não estão totalmente erradas, 

pois se partirmos do pressuposto que a Magia Negra é o conjunto de práticas imersas na ciência da corrupção, os entendimentos se alinham. Porém, a Magia da Quimbanda não consiste em apenas praticar atos nocivos, pois para nós o ato de destruir estruturas que atrapalham o desenvolvimento e a evolução dos adeptos e de todos os que procuram os feiticeiros dessa arte é fundamental. A doença, a solidão, o desespero, a violência, os acidentes, a depressão, a raiva, o desinteresse, os caminhos fechados e os problemas sentimentais são 'armadilhas' que o Sistema Vigente regido pelo Falso Deus nos impõe para que continuemos alimentando as correntes energéticas escravistas através da nossa fé e das nossas ações. Dessa forma, ao trabalharmos para retirarmos essa pressão estamos combatendo e agindo contra as barreiras impostas, como entraves desse Sistema. pg.11



O livro inicia-se dando ao leitor uma visão geral sobre toda a conjuntura da religião. Alguns elementos como palavras e até mesmo ideias, podem parecer confusos ao novato, mas o desenvolvimento do livro se dá de forma gradativa e organizada, adicionando a cada conhecimento exposto em seu princípio, novas informações, beirando o estilo acadêmico pela qualidade da pesquisa histórica e etimológica, e a imparcialidade da exposição dos temas, deixando sempre claras as diferenças entre aquilo que se tem através de fundamento científico, daquilo que se assume por opção e convicção religiosa.



Ainda em seu princípio, o autor fala da fusão étno-cultural constituinte desta nossa nação, sobre o comércio de escravos pretos e das tribos trazidas para cá, dos brancos e a interferência cristã sobre estes povos, e explana de forma incomum, a participação dos vermelhos (indígenas) não só para a construção da sociedade brasileira como consequentemente das novas formas religiosas que se desenvolviam. Destacamos aqui este tipo de informação, pois infelizmente são muitos os ignorantes que ainda acreditam que as senzalas eram ocupadas apenas por pretos, quando em verdade, vermelhos também foram escravizados e tiveram participação igual e fundamental na formação da cultura e religiosidade do Brasil.



A construção do imaginário sobre o Diabo é desenvolvida em meio a todo este contexto, e são expostas as correlações existentes entre as ideias de pecado cristãs, fundamentalmente relacionadas ao sexo, e aos cultos à sexualidade e ao pênis encontrados nas culturas pagãs africanas e americanas, dando margem então para a fusão do Inimigo cristão, para com Exu, o Orixá.

De todos os Deuses africanos (para os sacerdotes cristãos todos eram formas atrasadas), destacou-se Èsú. Esse Deus de origem Yorubá é o princípio da comunicação entre o Àiyè (astral) e o Òrum (material) dos homens e dos deuses. Simboliza o crescimento, a mudança e a força dinâmica de toda criação. ... Sangue de sacrifício, pessoas de pele negra, ambiente selvagem e por vezes hostil, nudismo, falta de concepção de pecado e um Deus fálico que regula toda essa força. Resultado: Èsú era o Príapo africano; uma das formas de Satanás e seus anjos caídos e, consequentemente, o ódio, maldade e perversidade que iam de encontro ao 'misericordioso deus cristita'. pg.19



O passar dos anos faria com que o encontro de todos estes diferentes conceitos, e a concentração de toda esta conjuntura energética, originassem as destemidas legiões daqueles espíritos revoltados que governados pela força de um líder, fariam oposição à concepção religiosa dominante, e Maioral do alto de seu trono, organizaria seus reinos.


Maioral é a quintessência de muitos seres unificados que lutam para extinguir as formas de aprisionamento da psique humana dos que o buscam, como o ódio, a paixão, a ilusão, a soberba material, a cobiça desenfreada e a luxúria, todavia, alimenta as fornalhas qliphóticas que incendeiam a alma dos moribundos cegos e limitados...Maioral são todos os antigos deuses fundidos na chama de Lúcifer! pg 63


Sincretizado a imagem de Baphomet eternizada pelas mãos de Eliphas Levi em seu Dogma e Ritual de Alta Magia, Maioral ou o Grande Dragão Negro, como também é por vezes referido, é o Ser Supremo para os adeptos da Quimbanda Brasileira, e aqui, Orixás não são cultuados.

Quando V.S. desejou, começou separar esses espíritos por afinidade. Maioral enxergou na ancestralidade africana a força apropriada para edificar um culto próprio. Dessa forma, aproveitando-se de todo contexto histórico e político que essa terra vivia, nasceu, de um nome incompreendido, uma das religiões mais temidas da Terra: A Quimbanda. pg33

Como “Reinos”, nos explica o autor, definem-se aqueles locais presentes no Plano Astral, subordinados a um imperador. Sendo assim, os exus destacados por seu poder de persuasão, guerra, domínio e força, são considerados reis destes locais que são divididos em número de sete: o Reino das Encruzilhadas, dos Cruzeiros, das Matas, dos Cemitérios, das Almas, da Lira e da Praia.



Os espíritos dos mortos reúnem-se e dividem-se por afinidade nestes ambientes. Desta forma, entende-se que toda a pluralidade de nomes de exus e pombagiras não se dá de maneira arbitrária, sem qualquer critério ou por escolha pessoal, mas por fundamento esotérico. Com histórias, características, personalidades, gostos e pontos próprios, o livro estende-se longamente na explanação de cada um destes elementos, sobre cada um destes seres. Neste segundo conjunto de capítulos, de característica mais prática, você aprenderá não apenas como agradar algum exu, como saberá qual ponto cantar, quais rituais praticar. Como jogar búzios para situações específicas, feitiços, pontos riscados, banhos, orações e rezas para fins diversos. 



A história do Brasil, a formação do povo brasileiro, e a progressão religio-cultural se fundem de forma absolutamente harmoniosa à história da Quimbanda exposta pelo autor. Não apenas pelos ingredientes que compõem esta mistura, mas também pela maneira com que tudo se dá. Há uma insistência recorrente nas palavras de Danilo para que não haja dúvidas de que esta não é uma religião estagnada. Aqui tudo se move, e tudo precisa estar em constante movimento. A energia dinâmica de Exu encontra livre correspondência com as entidades que receberam seu nome, e não por menos, pois mesmo que não necessariamente tenham as mesmas atribuições que este Deus-Orixá possua em sua completude, aqui todos são respeitados sem qualquer demérito ou depreciação.



Coppini é excepcional em sua abordagem histórica e no curso de seu título para expor todos aqueles elementos que compõem esta religião. Porém, o conhecimento esotérico do autor, visível para qualquer ocultista mais experiente, pode não ser tão aparente e confundir em alguns momentos os novatos. A referência a conceitos gnósticos, vias atuais expressas através de suas “correntes numéricas”, e a falta de comparativos sobre o que dizem as outras linhas de Quimbanda sobre as ideias expostas neste título e vice versa, podem deixar os recém-chegados com certas questões em aberto, mas, uma vez que haja a promessa de que outros livros sobre o tema sejam publicados em breve, talvez tais dúvidas sejam futuramente sanadas.



Recordando-me dos meus tempos de infância, penso ter valido a pena a espera para minhas questões sobre esta religião. Não por considerar que as exposições neste título sejam definitivas e absolutistas sobre o que seja a Quimbanda, mas pela satisfação de ter em mãos uma obra com alta qualidade didática, produzida por quem sem proselitismo - e independentemente do que os outros digam sobre seus próprios cultos - entende daquilo que pratica e fala.



por Allan Trindade


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Eu até hoje me pergunto quantas prováveis biografias sobre o "Homem mais terrível do mundo" existem. Quantas existem e quantas ainda hão de existir, afinal de contas, Crowley parece estar a cada dia mais em evidência midiática. Bandas, filmes, documentários, livros, sociedades secretas, pesquisadores, cristãos e malucos, sempre que podem, usam o nome da Grande Besta 666, seja para propagar ideias, ou difamar a imagem daquele que segundo os Thelemitas, é o Profeta da Nova Era...

Filho de pais cristãos fanáticos, fundamentalistas e protestantes, herdeiro de uma fortuna milionária, o garoto que em princípio parecia seguir o caminho do pai, e passar seus anos de forma medíocre e com medo de castigos divinos, resolveu revolucionar e viver uma vida verdadeiramente mágica!

A Magic Life é um livro escrito por Martin Booth, de 507 páginas, que vai lhe dar uma boa visão sobre os aspectos mais humanos de Aleister Crowley. O livro faz jus ao subtítulo de ser uma biografia, já que conta a história de um dos magos mais famosos do mundo, do momento do seu nascimento, até virar cinza...

Direto, sem apelos, por vezes constrangedor, em tantas outras inspirador, e certamente intenso...esta é a sensação ao virar de cada página, em cada capítulo da história daquele que viria a declarar a si mesmo como o novo redentor de toda a humanidade.

Cristão evangelizador, milionário, inconsequente, drogado, perverso, maldito, louco, libertário, gênio, bissexual, poeta, alpinista, devasso, pecador, anticristo, artista, profeta, mago,...a Besta! Com tantos adjetivos fica difícil imaginar, como tão poucas páginas, poderiam resumir todo o histórico de vida deste homem que influenciou - da música ao cinema - e continua influenciando - da literatura a política -, gerações desde o século xx até os dias de hoje.

Martin Booth é excepcional em sua função, e seguindo o contra fluxo da maioria daqueles que ainda insistem em fazerem biografias de forma tendenciosa, desempenha seu papel com a qualidade da imparcialidade e da escrita clara e sem dualismos esperada de um ótimo biógrafo.


Conquanto que você não espere - apesar do título que dá nome ao livro - extensas explanações sobre questões mágicas (ou mágickas?), sejam elas baseadas na terminologia usada por ocultistas, ou explicações sobre 'questões de Ordens'...encontrará nas páginas deste livro todas as informações necessárias para, caso queira, fazer parte de toda a turba da atualidade e também expressar sua opinião sobre um dos homens mais polêmicos do mundo...afinal de contas, não seria difícil imaginar que, caso ainda não tivesse sido criada, teria sido Crowley o autor da máxima: 
“Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!”


por Allan Trindade