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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Em 1910 fui admitido na Ordo Templi Orientis. Dois anos depois sou Baphomet, o Rei Santo e Supremo da Irlanda, Iona e todas as Bretanhas no santuário da gnose...sou o chefe da Ordem inglesa. Começo a preparar rituais novos e melhores, incorporando o Livro da Lei nos ensinamentos da OTO. É 1915 e, tendo capturado, adorado, sacrificado e consumido um sapo sagrado, eu alcanço o grau de Magus... To Mega Therion. Em 1923 sou nomeado chefe internacional da Ordem. Título que levarei pelo resto da vida. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, apenas a sede californiana da OTO sobrevive. As sedes europeias foram violentamente suprimidas pelos nazistas. Eles próprios não eram estranhos ao mundo do oculto. É 1937 e estou ganhando a vida vendendo pílulas do Elixir da Vida. São feitas de calcário, açúcar, goma arábica e meu sêmen. Vendem bem para mulheres ricas.

A memória se apaga - estou na escuridão...uma alma à deriva no vento solar. - Cap. V

ALEISTER CROWLEY é um livro em quadrinhos, capa dura, produzido por Martin Hayes e RH Stewart com 157 páginas, divididas em 8 capítulos e publicado no ano de 2018 pela editora Chave.


Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais. A história começa em Netherwoods, com Crowley já velho, mais precisamente em 1947, quando recebe a visita de William Keyes, um homem interessado em escrever sua biografia. Aleister aceita e a trama então começa a ser contada conforme a memória do mago. Sua infância e a relação conturbada com sua família: cristãos fundamentalistas do segmento Plymouth Brethren, que criam na volta repentina de Jesus. Sua revolta após a morte inesperada de seu pai, culpa, em partes, de suas crenças. O encontro com Julia Baker e Cecil Jones e a entrada na Golden Dawn. A amizade com Allan Benett e o uso de drogas. As práticas com Goetia. O rápido desenvolvimento mágico na Ordem e a confusão com os membros e Mathers. O casamento com Rose e o recebimento do Livro da Lei. A criação da Abadia de Thelema. Sua morte.

Como introdução, esta é uma boa obra de ficção, com um roteiro resumido complementado por alguns elementos fantasiosos.  Embora a distinção de fato e mito possam preocupar o leitor não familiarizado com sua biografia, um capítulo denominado Exegeses se destina a distinguir cada um dos elementos reais dos ficcionais. Portanto, sinta-se confortável para desligar o senso crítico por alguns minutos antes de adentrar nos aspectos factuais da vida do biografado. Entretanto, se quanto ao roteiro e explicações não temos do que reclamar, em relação a arte dos quadrinhos sentimos que deixou a desejar. As ilustrações de RH Stewart são desconexas, não seguem um padrão de traço, em muitos momentos são escuras e confusas, chegando ao ponto de serem sujas até, dando por vezes a impressão de rafe ao invés de arte final.

A cada ano a vida de Crowley parece suscitar mais e mais interesse de ocultistas e curiosos. Conturbada, fascinante, polêmica, satânica, lamentável... são alguns dos diversos adjetivos dados pela maioria quando questionados sobre. Perceba que o todo costuma ser sempre negativo. Talvez por desconhecimento. Talvez por gosto. Talvez por ignorância em saber sob quais preceitos místicos este homem guiou sua vida. Num mundo onde o sucesso costuma ser medido por quão famoso um alguém é ou por quantos zeros possui sua conta bancária, considerar que aquele menino, nascido em berço de ouro, um milionário descendente de uma família tradicional cristã, terminaria seus dias sem dinheiro e afirmando ser a Grande Besta apocalíptica, é para muitos um fim trágico.

Mas aqueles que assim o consideram ignoram toda a trajetória de vida deste homem. Do quanto suas atitudes e investimento representam a vanguarda de seu tempo. A quebra de paradigmas, os apontamentos da hipocrisia, a criação de uma nova religião que garantisse a liberdade de toda a humanidade, o reduzir-se ao mínimo para elevar-se ao máximo, o transformar a si próprio naquilo que cria como fundamento básico: que todo homem, não importa como comece, e toda mulher, não importa como termine, é sem dúvidas e sempre, uma estrela. 

por Allan Trindade


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sexta-feira, 23 de março de 2018

- Oi, Allan! Gostaria de tirar uma dúvida com você sobre pantáculos...
- Olá, ...! Sobre qual sistema estamos falando?
- Salomônico. É que eu fiz um pantáculo para...e não obtive resultado nenhum.
- Entendi. Fez em papel ou em metal?
- Papel mesmo.
- Exorcizou e consagrou suas Armas?
- Basicamente, do meu jeito.
- Fez no dia apropriado?
- Não.
- Na hora apropriada?
- Não sei.
- Então deixa eu ver se entendi. Você simplesmente desenhou um pantáculo num papel, com uma caneta profana, num dia qualquer, sem nem saber que horas fez, e presumo eu, sem nenhum dos exorcismos e evocações que mandam a Tradição e quer, mesmo sem ter seguido nada da forma correta, que a coisa funcione?
- Mas é que me disseram que é tudo uma questão mental, que o que vale é a intenção...
- Te disseram, você acreditou e olha que engraçado, não funcionou! Eu lhe recomendo procurar uma igreja, pois o que você está querendo com a sua "questão mental e pensamento positivo" não é magia, o que você quer na verdade é um milagre e milagre, meu caro, é uma outra jurisdição!

A CLAVÍCULA DE SALOMÃO é um livro organizado por Samuel Lidell Mathers, com 287 páginas, divididas em dois livros internos, publicado no ano de 2015 , pela editora Chave.

A tradição de grimórios mágicos oriundos da Idade Média carrega consigo uma característica comum: a falta de uma autoria precisa e exata. Embora tais títulos costumeiramente carreguem nomes de personalidades famosas em seus cabeçalhos, oriundas, de uma forma geral, de textos sagrados no qual se apoiam e definem muito das características de suas práticas internas, tais personas podem nunca terem de fato escrito tais livros, em verdade, tais indivíduos podem nunca ter existido.

Salomão é apenas mais um destes exemplos. Por seu histórico literário de relação com mulheres e práticas pagãs, um dos mais famosos reis do Judaísmo tem sido usado de forma mais ou menos frequente em tempos antigos, e até os dias de hoje, para justificar e fundamentar certas práticas mágicas. Segundo o mito, Salomão teria recebido tais ensinamentos através de um anjo, os transmitira a seu filho Roboão, e a partir deste contexto, tais textos teriam chegado até as nossas mãos. Fato é que os escritos mais antigos conhecidos datam de períodos do século XIV ao XVI, data bem mais recente que aquela que teria reinado o filho de Davi, que supostamente vivera no século X a.e.c.

A este legado, e seus diversos grimórios e pergaminhos, damos o nome de Tradição Salomônica, enquanto que para sua magia, chamamo-no-nas de Magia Salomônica. Toda esta conjuntura agrega em si elementos de cunho essencialmente mágico, porém, com uma forte influência religiosa baseada no Cristianismo e Judaísmo, além de pagã e notáveis elementos oriundos da bruxaria. Coube a Samuel Mathers, proeminente magista do século XIX e uma das vanguardas da história moderna do ocultismo, a função de reunir em uma única edição os diversos manuscritos existentes no British Museum, atribuídos ao monarca judeu e oferecê-los ao grande público. Sendo esta então a referida edição deste trabalho, assinado por ele em 1888, mesma data em que junto a Woodman e Westcott fundara a Golden Dawn.

Em seu prefácio, Samuel destaca a inovação desta publicação para os padrões da época, que falhavam em apresentar uma compilação integral e corrigida de tais textos, uma vez que muitos deles continham erros nas transcrições em hebraico. Sobre o mal entendimento de algumas pessoas ao confundirem o Grimorium Verum e a Clavícula Ridolta com estas atribuídas a Salomão, e salienta que não são, uma vez que aquelas sejam magia negra. Que omitira alguns ritos em função de sua malignidade e uso de sangue, e que o Lemegeton, aquele onde se encontram os demônios da Goetia, não está aqui. Faz-se necessário lembrar que Mathers era essencialmente um teurgista, que cria na magia em sua função mística para o desenvolvimento espiritual do homem.

Dadas as devidas introduções de editores, listas de gravuras e histórias mitológicas, já comentadas por nós em parágrafos anteriores, chegamos ao Livro I. É aqui que o leitor encontrará toda uma série de instruções sobre a necessidade de se crer em Deus para a consecução, tabelas sobre os dias e horas planetárias indicadas para cada tipo de trabalho, diversas orações com exortações e referências bíblicas para que os espíritos se manifestem no ritual, imagens dos pantáculos planetários e como fazê-los, além de alguns rituais com objetivos medievais, tais como: frustrar a caça de outrem, percorrer grandes distâncias sem cansaço, encontrar tesouros enterrados e desencantá-los, dentre outros.

No Livro II traz uma nota prefacial onde sugere que é preciso ser um Mestre da Arte para obter êxito nestes experimentos e que é preciso defender este livro dos incautos. Novamente sobre dias e horas, a aparência dos espíritos, locais apropriados, jejuns, orações, exorcismos, sacrifícios animais, vestimentas, armas, banhos e companheiros para os rituais. Aqui estão reunidos os aspectos preparatórios do magista para o cumprimento dos rituais expostos no Livro I.

O livro se encerra com um apêndice, indicado como sendo um Fragmento Ancestral da Clavícula de Salomão, Traduzido do Hebraico por Eliphas Lévi, presente em seu Philosophie Occulte, serie II, onde fala sobre Cabala e relaciona as sephirot com as qliphot e seus anjos. Uma invocação cabalística de Salomão e uma tabela com alfabetos místicos.

Este é um livro histórico. Traz notas de rodapé dos vários envolvidos que enriquecem ainda mais o conteúdo apresentado e deixam claro o quão rica e complexa a Magia Salomônica em essência é. Possui um ótimo acabamento, diagramação clara, capa dura e folhas de alta qualidade que certamente tornam esta edição própria até mesmo para ser usada dentro de um ritual. Simplesmente obrigatório.

por Allan Trindade


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