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domingo, 16 de maio de 2021

Louvado sejas Tu, Ó! Osíris, senhor da eternidade, Un-nefer,
Hoorkhuit cujas formas são múltiplas e cujos atributos são excelentes, que é Ptah-Seker-Tem em Yunnu, o senhor do lugar escondido, e o criador de Het-ka-Ptah e dos deuses daquele lugar, o guia do outro mundo, que os deuses glorificam quando tu estás em Nut. Ísis abraça a ti em paz, e ela guiou para longe dos teus caminhos os demônios de tua boca. Tu voltaste tua face para Amentet, e tu fazes a terra brilhar como cobre refinado. Os mortos se levantam para te ver, eles respiram o ar e procuram a tua face quando o disco se levanta no horizonte; seus corações estão em paz pois eles contemplam a ti, Ó! Tu que és eternidade e imortalidade. 

AS IDÉIAS DOS EGÍPCIOS SOBRE A VIDA FUTURA é um livro escrito por E.A Wallis Budge, contém 121 páginas divididas em 5 capítulos e foi publicado no ano de 2004 pela Madras Editora.

Budge é sem dúvidas uma das figuras mais fundamentais para a egiptologia. Seus livros tiveram uma inegável importância para muito daqueles trabalhos de pesquisa que se desenvolveriam com o passar dos anos dentro deste ramo científico e costumam representar a porta de entrada para aqueles que decidem se enveredar por estes estudos. Embora deva-se sempre ter em mente que a egiptologia é uma ciência viva, que está em constante processo de evolução, vide as constantes descobertas de tumbas e elementos outros, ninguém que tenha real interesse em saber sobre os mistérios da terra de Kemet pode dispensar os escritos de consagrado autor.

Wallis esclarece que as páginas contidas neste livro objetivam apresentar as ideias dos egípcios antigos sobre ressurreição e vida após a morte, embora saiba que em milhares de anos de existência daquele povo, crenças e hábitos mudaram, além de nunca ter havido realmente um único conceito exposto e aceito de forma dogmática por toda a gente ou sacerdotes. Muito de seu embasamento entretanto advém dos comparativos existentes entre diversos tipos de fontes primárias, sendo a principal delas o livro conhecido popularmente como Livro Egípcio dos Mortos, que embora obscuro sob muitos aspectos, deixa clara a crença na existência de vida além da vida material.

Aqui o autor nos apresenta uma série de textos oriundos de diversas fontes originais que atestam o fato da crença em um ser único e superior, referido como Netjer, que tem a capacidade de manifestar-se de diversas formas a partir de Si próprio. Tais manifestações que podem ser entendidas como deuses em certo sentido, são conhecidas como Netjeru - plural de Netjer. Segundo Budge, apesar do comentário de alguns detratores da religiosidade egípcia, que costumavam considerá-los um povo supersticioso e sem fundamento, muito destes ataques residiam sobre o fato da não compreensão da maleabilidade do pensamento religioso daquele povo. Netjer, ou Deus, é um e ao mesmo tempo vários, pois expande sua própria forma e manifestação, multiplicando-se em sua própria criação. Tal como o Sol que expande sua própria luz a todos os cantos, assim o é Rá, a primeira manifestação conhecida do Criador. 

Para além disso, um outro elemento de igual importância dentro de sua religiosidade relacionava-se ao culto a ancestralidade representada por Osíris, o deus do submundo. Sendo Osíris o deus que superou a própria morte, tinham os egípcios antigos em sua figura a esperança do prolongamento da própria vida, a ser continuada no Duat, com a chance de viverem a imortalidade junto a este deus de benevolência no Campo dos Juncos - espécie de paraíso egípcio. O hábito de cuidarem e eventualmente mumificarem seus mortos residiria então sob o conceito de que, tal como Osíris, que tem seu corpo preservado graças aos encantamentos de Ísis e Thoth, caso reproduzissem no falecido feitiços específicos, garantiriam que o morto se encontrasse com tal deus no além, tendo sua alma devidamente preservada, para quem sabe, voltar ou ressuscitar um dia. 

Budge traça com estes elementos uma série de associações com a moderna crença cristã, que não por acaso, teria herdado muito dos conceitos egípcios, adaptando-os ao seu novo deus conhecido como Jesus. O sincretismo teria então o efeito de modificar a crença dos egípcios, fazendo-os substituir um dos mais populares deuses de seu panteão, por aquele deus judaico-romano. Um outro fator possivelmente colaborativo para tal mudança pode ter sido aquele da não existência da necessidade da mumificação dentro da crença cristã, visto ser essa prática inacessível para a maioria dos egípcios que não poderiam pagar por tais serviços.

O autor salienta que a crença egípcia, por sua grande maleabilidade, tampouco preocupava-se em qualquer tipo de dogmatismo ou obrigatoriedade. Uma pessoa, ou cidade, podia trocar de divindade livremente, e o faziam costumeiramente quando aquele deus não lhes atendia em suas expectativas. 

A continuidade, Wallis apresenta o Julgamento de Osíris, onde os mortos eram avaliados e podiam garantir - ou não - sua entrada no paraíso. Sobre a crença na ressurreição, pregada inclusive por cristãos até os dias de hoje, afirma não possuir elementos necessários para definir com exatidão se era vista de tal forma. A dúvida reside se criam na ressurreição literal dos corpos, e por isso o preservavam através da mumificação para evitar o apodrecimento e assim tê-los de forma "aceitável", ou se na verdade a crença residia sobre a ideia de que para a preservação do ka - espécie de alma -havia a necessidade de se preservar o corpo físico, para que assim o ka continuasse existindo no pós vida e pudesse voltar para eventualmente se comunicar com os vivos.

Especulações diversas, conceitos filosóficos e científicos, pluralidade de pensamento, riqueza material e espiritual, muita coisa a se descobrir. É esta a sensação que livros como estes nos passam sobre aquele povo tão maravilhoso e misterioso. Estudar egiptologia pode ser encantador, mas pode lhe causar efeitos colaterais irreversíveis: o desejo de querer sempre saber mais!

por Allan Trindade


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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

" uma festa para a vida e uma festa ainda maior para a morte!...Ah! tua morte será adorável: quem a vir ficará feliz. Tua morte será o selo da promessa de nosso amor de eras. Vinde! "
AL II:41 - 66

1° de Dezembro de 1947. Morre  em Netherwood de bronquite crônica agravada por pleurisia e degeneração do miocárdio,  Edward Alexander Crowley, mais conhecido como Aleister Crowley. Partiu aos 72 anos de forma tranquila e destemida, como um sopro, movendo as cortinas do pequeno e humilde quarto em que estava hospedado.

A partir daquela data muitas seriam as disputas pelos direitos sobre as obras do Profeta de Thelema, desentendimentos que correriam o mundo, incluindo alguns bem conhecidos personagens brasileiros. Tempos que também que ficaram na história.

Setenta anos se passaram e com eles, o direito a exclusividade sobre os livros da Grande Besta caíram em domínio público. Uma nova etapa então se inicia. Na nossa geração, as contendas não são mais travadas por quem pode ou não traduzir suas obras, mas sobre quem faz melhor!

O LIVRO DA LEI é um livro escrito por Aleister Crowley, publicado pela editora Chave no ano de 2017, com 207 páginas divididas em 7 partes.

Antes de mais nada é preciso que o leitor interessado nesta obra saiba que esta é uma edição histórica, a primeira a ser publicada no período de domínio público dos escritos de Aleister Crowley. Publicações anteriores a esta - salvo aquelas autorizadas ou lançadas oficialmente pela O.T.O, detentora dos direitos autorais até então - são ilegais. Portanto, esta publicação é marca de uma divisão de tempos dos libri de Thelema no Brasil.

Feito em capa dura, roxa com grafismos cor de abóbora, foge ao padrão comum produzido em vermelho. Não poderíamos deixar de destacar o fator estético, que de fato, foi pensado com bom gosto. Para além disso, ressaltamos que esta não é uma publicação de objetivo estritamente religioso, mas vem acompanhada de alguns outros elementos, textos, que precedem e sucedem o Liber AL vel Legis em seu miolo.

Em seu prefácio, escrito por M.B., destaca a grande importância que Crowley teve dentro e fora do Ocultismo, servindo de influência para intelectuais dos mais variados gêneros, e ainda para a cultura pop, com seus quadrinhos, bandas, filmes, clipes, músicas e todo um universo de elementos que fazem referência direta e indireta a ele. Sem dúvidas, uma ótima fonte para pesquisas.

Na Introdução a Edição Brasileira, assinada por Marina Della Valle, a tradutora do livro, nos traz um ótimo resumo da biografia de Aleister, complementado pela história do recebimento do Livro da Lei,  seguido por suas explicações sobre os desafios de traduzi-lo. Segundo nos diz


O Livro da Lei é um texto cheio de particularidades. Há inconsistência de grafias, como o nome da deusa Nuit, que aparece também como Nuith; o fraseado muitas vezes é incomum e dá margem a obscuridades; há mudanças bruscas de "tu" para "vós" e vice-versa; há também o uso de "vós" quando o narrador obviamente se dirige a uma só pessoa; o uso de maiúsculas não segue as regras comuns do idioma original e há mesmo uma palavra que não existe no inglês, questões diligentemente mencionadas por Crowley em seu comentário sobre o livro...
pg. 22 


Esta edição respeita a exigência de que as traduções devam sempre vir acompanhadas do original, e a diagramação fez um ótimo trabalho em colocar - uma em cada página -  versão em inglês ladeada pela tradução em português.

Não entraremos aqui no mérito de questionar as convicções religio-filosóficas da tradutora para ter sido incumbida desta função, já que há uma prescrição encontrada nos libri de Thelema para que traduções do Livro da Lei sejam feitas apenas por thelemitas graduados, entretanto, e levando em consideração o comentário da autora destacado acima, e onde à continuidade do capítulo a mesma deixa claro ter ciência sobre elementos gemátricos que compõem a produção original deste livro, não podemos deixar de citar o incômodo que por vezes sentimos ao ler sua versão. Exemplificaremos :


I:7.Behold! it is revealed by Aiwass the minister of Hoor-paar-kraat.

I:7. Contemplai! [*] é revelado por Aiwass o ministro de Hoor-paar-kraat.
*O pronome ' it / isto ' foi eliminado.

I:9. Worship then the Khabs, and behold my light shed over you!

I:9. Adorai então [*] Khabs, e contemplai minha luz derramada sobre vós!
* O artigo ' the / o ' foi eliminado.


[ o destaque em negrito foi usado por nós apenas para uma melhor visualização do texto e não constitui sua forma original.]

Nos parece que estes dois exemplos sejam suficientes para indicar a razão de nossa fala, entretanto, é importante que o leitor tenha em mente que isso ocorre em vários momentos da tradução.

Fato é que a língua portuguesa permite, através de seus vocábulos, indicar artigos e pronomes sem a necessidade de tê-los ali, de forma aparente. Todavia, esta é uma possibilidade e não uma obrigatoriedade, ou seja, não entendemos como necessária a eliminação destes nesta tradução, especialmente por sua natureza de caráter profundamente esotérico, onde " pingos podem sim ser lidos como letras. "

Obviamente que não estamos considerando que seja possível uma correspondência perfeita em traduções quando o assunto é gematria, - em termos gemátricos é imprescindível a análise do texto em sua língua original - porém, pensamos que num livro desta natureza, mesmo na tradução, manter é melhor que eliminar. Respeitamos a escolha e bagagem acadêmica da tradutora mas não podemos nos furtar de deixar registrada esta opinião.

O livro vem ainda acompanhado d'O Comento, os originais escritos pela Besta, e Os Comentários de Crowley, onde fala longamente sobre o recebimento do AL e as condições em que se encontrava, sua rejeição inicial para com o mesmo e dúvidas sobre sua natureza, análises sobre determinadas passagens, dentre outros.

Por fim, David Soares nos apresenta um capítulo onde trata do encontro de Aleister com Fernando Pessoa, e o possível contra gosto deste em encontrar o mesmo. Levanta questões sobre os reais interesses de Crowley para este encontro e destaca também o famoso evento arquitetado pelos dois onde o Mago fingira sua morte na Boca do Inferno. Fechamos o livro com o poema de Crowley intitulado Hino a Pã, em sua versão original e traduzido por Pessoa para a língua portuguesa.

Pensamos que a introdução desta resenha fale per se. Ter esse livro é uma oportunidade única de participar de um momento histórico, o resto é detalhe.


por Allan Trindade



post scriptum: e para aqueles que estejam curiosos para saber qual fora a tradução dada para a máxima "Do what thou wilt shall be the whole of the Law", a forma usada aqui é "Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei."


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domingo, 24 de dezembro de 2017

Na resenha anterior falamos sobre as dúvidas comuns que os principiantes podem ter em relação a quais autores ou títulos primeiro consultar. Que a vanguarda do Esoterismo moderno, oriunda em grande parte dos séculos XIX e XX, e com uma linguagem por demais técnica ou rebuscada em alguns casos, pode não dar condições para o novato compreender todas as nuances e profundidade que os textos apresentam. 

Não pensamos ser exagero dizer que o Ocultismo seja um caminho de muito, muito mais estudo que prática. O próprio Mvtvs Liber, um dos grandes clássicos da Nossa Tradição, nos traz o axioma lege, lege, lege, relege, labora et invenies. É preciso ler, ler, ler, reler para então trabalhar. Não discordamos desta máxima, entretanto, ousamos dizer que a prática unida ao estudo pode ser igualmente proveitosa.

Muitos são aqueles que não conseguem viver tanto tempo saciando apenas os anseios do intelecto e precisam de mostras físicas de que tudo isso, todos estes textos, ideias, filosofias e sistemas não são um simples amontoado verborrágico inventado por um bando de intelectuais desocupados que, por não terem acesso a internet em sua época, viviam viajando no Plano Astral. A experiência pode, em muitos casos, preceder o estudo.

Portanto, se você ainda não leu o suficiente mas já tem dúvidas sobre o que praticar, quem sabe este livro possa te ajudar.



THE ONE YEAR MANUAL é um livro escrito por Israel Regardie, publicado pela Samuel Weiser, INC. no ano de 1992, com 71 páginas.


Sim, este é um livro curto, com poucas dezenas de páginas, mas não se deixe iludir pelo seu tamanho. Sua proposta é nada menos que objetiva e seu título e subtítulo deixam claro a que ele veio: ser um manual com duração mínima de um ano, voltado para guiar o iniciante nos caminhos místicos do esoterismo ocidental.

Aqui você não precisará de conhecimento prévio nenhum. Cada capítulo é planejado para ser praticado por pelo menos um mês, e contém explicações sobre os benefícios que tais práticas podem vir a causar no aspirante, sempre com foco no maior autoconhecimento corporal e equilíbrio espiritual. Se você conhece o mínimo de yoga, dos exercícios mágicos oriundos da Ordem Hermética da Aurora Dourada ou ainda da A.'. A.'., você poderá prever o conteúdo que este título traz, uma vez que alguns dos rituais apresentados aqui sejam adaptações daqueles de lá. 

Não espere por exigências de grandes aparatos ritualísticos, nem mesmo por explicações muito aprofundadas sobre o funcionamento metafísico de cada um dos exercícios expostos. Todo o conjunto foi pensado com foco na prática e no iniciante, que disponha ao menos de um pequeno espaço reservado para meditar, como um quarto com uma cama e uma cadeira, por exemplo, e esteja disposto a dispensar pelo menos quinze minutos diários para a busca de sua iluminação

Nesta edição, Israel salienta que fez algumas modificações, como chamar o livro de Manual do Ano ao invés de Doze Passos Para a Iluminação Espiritual - que aqui tornou-se o subtítulo - por ter considerado presunçoso demais este nome da primeira edição. Além de modificações dos textos dos próprios rituais que, segundo ele, na edição anterior, estavam com citações cristãs em excesso.

Vale destacar que na nossa opinião os textos continuam com muitas referências cristãs e poderiam estar bem mais neutralizados, de modo a atender um público mais abrangente, e que talvez não se sinta tão a vontade com adaptações disfarçadas de forma mais ou menos subliminar a Jesus e seu contexto. Em verdade, e para sermos justos, diremos o mesmo para o primeiro exercício, das Quatro Adorações solares, desenvolvido para ser executado durante as grandes horas do dia e da noite, e que traz orações para os deuses keméticos. Somos da opinião que referências a deuses de qualquer religião deveriam ser evitadas pois trazem consigo uma carga energética - ou de pensamento - que talvez não esteja em consonância com o período atual do iniciante. Quem sabe aqui o novato perceba que a magia é também considerada uma Arte pois nela, vez por outra, temos de mostrar o nosso talento e habilidade em adaptar e produzir nossa própria Obra.

Para além do exercício previamente citado, o livro nos traz ainda Body Awareness, Relaxation, Rhythmic Breathing, Mind Awareness, Concentration - Use of the Mantram, Developing the Will, The Rose Cross Ritual, The Middle Pillar Ritual, Symbol of Devotion, Practice of the Presence of God, Unity - All is God e Invoke Often! Inflame Thyself With Prayer.

Israel Regardie dispensa comentários pois é figura conhecida e consagrada em nosso meio - por sua experiência e dedicação de toda uma vida ao Ocultismo - e novamente  nos abrilhanta com mais uma obra digna de nota. Está voltada especificamente para aqueles que pouco ou nenhuma experiência prática possuem neste meio mas que querem, sem se prender a nenhum caminho específico, ter algum tipo de treinamento espiritual. 

A força da magia é intrínseca a natureza e não depende de conhecimento técnico para se manifestar. O que falta a maioria de nós então é compreender que somos parte desta mesma natureza, portanto e por consequência, seres potencialmente mágicos. Tomar consciência do próprio corpo e mantê-lo em equilíbrio é santificar o Templo no qual o seu espírito reside. Ler pode te fazer acordar para isso. Mas apenas o praticar te fará sentir esta Verdade.

por Allan Trindade




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