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domingo, 21 de junho de 2020

Os tempos modernos e a facilidade de acesso ao conhecimento parecem ter dado ao estudo do ocultismo um desenvolvimento nunca antes visto em sua história. Se imaginarmos as dificuldades que aqueles que vieram antes de nós provavelmente tiveram para fazerem suas investigações, sem acesso a internet ou mesmo bibliotecas físicas e virtuais, poderemos ter uma noção do esforço que fizeram para chegar aonde chegaram. E talvez isso também explique o porque de muitos destes terem se destacado não apenas neste campo do conhecimento mas em muitos outros, igualmente, ou quem sabe, ainda mais importantes para o desenvolvimento da humanidade. 

Nos dias de hoje declarar-se ocultista costuma gerar dois tipos de reações que em muitos casos estão relacionadas as próprias posturas e convicções dos indivíduos que assim o ouvem. Para alguns, tal enunciação gera um certo espanto, pois creem que aquele que assim se intitula seja alguma espécie de ser das trevas que faz pactos com demônios, assassina crianças nas horas vagas, veste um avental e conspira para, através de algum plano mirabolante, dominar o mundo. Para outros, tudo isso não passa de uma tolice e perda de tempo, e são estes também que costumeiramente nos comparam aos tipos bizarros que se apresentam em redes sociais ou programas televisivos, prometendo trazer o ser amado em 24 horas por uma boa quantia em reais, que dizem que podem provar a existência de Deus através da "física quântica", ou que falam por aí que bolores oriundos de infiltração são na verdade almas grudadas em seu banheiro. 

É mesmo uma pena que a ignorância e a falta de divulgação e pesquisa tenham criado esses tipos de conceitos sobre este caminho que sempre buscou entender o espiritual de forma racional e as razões para a nossa existência neste planeta. Quem sabe se um dia nas escolas tivessem nos ensinado que Isaac Newton fora um físico mas também um ocultista, as pessoas levassem tudo isso mais a sério. Que Platão fora um filósofo mas também um ocultista de seu tempo, as pessoas levassem tudo isso mais a sério. Que Pitágoras fora um matemático mas que provavelmente adquiriu seu conhecimento através do templo do deus Ptah, no Egito, e por isso seu nome, "Ptahgoras", as pessoas levassem tudo isso mais a sério. As personalidades históricas são várias. Os feitos, grandiosos. As conexões, inegáveis. 

Mas tudo bem que alguns não levem o ocultismo a sério. Pois ainda existem aqueles que assim o fazem.

MAGIA TRADICIONAL é um livro escrito por Kayque Girão, com 128 páginas, divididas em 3 três partes e foi publicado no ano de 2019 pela Daemon editora.

O imaginário humano. Assim nos introduz nesta obra Rafael Resende Daher, levando-nos a refletir sobre como nossa mente fora capaz de pensar os mais diversos tipos de seres fantásticos, tais como espíritos e deuses sob as mais diversas formas e personalidades, para explicar este estranho sentimento do além. Não, o editor não sugere que a imaginação seja um elemento isolado e destacado da realidade, como se tivesse a única função de preencher uma lacuna neurótica presente em nossa mentalidade, pintando em nosso imaginário o absurdo. Nem tampouco nos parece esta uma premissa ateística. Mas sugere que a imaginação seja também uma ferramenta usada por nosso cérebro para nos conectar aquela estranha sensação da existência do espiritual, que por não podermos provar, ou perfeitamente explicar, nos força a comparar e imaginar.

A partir desta premissa, o próprio avanço científico e desenvolvimento do homem em busca da verdade fora capaz de alterar a maneira como a imaginação sobre o divino deu-se no decorrer de milhares de anos, para alguns, sempre baseada sobre esta mesma certeza do além. Deus poderia até mudar de forma, ou mesmo posição, as  vezes visto de maneira verticalizada, as vezes horizontalizada, ou até mesmo negado, mas sempre presente. Da sua imaginação e função, toda uma miríade de seres, conceitos e sistemas surgiriam com a genuína intenção de compreender. Daí nasceria então a filosofia oculta.

Daher introduz a obra destacando o trabalho de pesquisa de Kayque Girão, os temas abordados pelo autor, tais como o da Astrologia, dos sonhos e das drogas, sua lucidez e fundamentos para tratar do ocultismo sem com isso ignorar sua evolução de prática e desenvolvimento de seu conhecimento. 

Girão abre o livro nos falando sobre as conexões existentes entre a Magia e a Astrologia, da importância que a última tivera para agricultores a partir da observação de correlações entre o movimento dos astros, os plantios e colheitas, estações e demais conhecimentos adquiridos e associados, fazendo com que o astrólogo, que predizia, se tornasse também o mago, que controlava, conectando ambas as funções em um só ofício. O desenvolvimento do próprio conhecimento fez com que tal ciência se tornasse cada vez mais complexa, e aparentemente inacessível para aqueles que não lhe fossem totalmente dedicados. Para além disso, elementos religiosos acabaram por mesclar-se as próprias ideias astrológicas fazendo com que tal ciência se dividisse em vários segmentos, ora alinhados com elementos mágicos e magia talismânica, ora separados e voltados para uma relação especulativa com o divino e o destino do homem. Expoentes renomados destas ideias são apresentados  de forma mais ou menos cronológica, além de elementos religio-sócio-políticos de cada local e época, que neste ensaio, visam, conforme afirmação do autor, demonstrar que a Astrologia não é tão complexa como parece, especialmente em tempos de facilidade tecnológica.

Na segunda parte do livro, Kayque nos fala sobre drogas, o uso de tais substâncias no decorrer do tempo pelas mais diversas culturas, tais como: os hindus e gregos com o vinho, os judeus e a maconha, thelemitas, tal como Crowley, e a cocaína, além de citar Abramelin e o uso de seu óleo sagrado, provavelmente adicionado a canábis, e sua experiência com uma feiticeira que dizia poder comunicar-se com outras pessoas a quilômetros de distância quando besuntada por seu unguento.
Aqui o autor expõe ainda sua experiência pessoal com o fumo, lá pelos idos de 2014/2015, quando trabalhava como médium de Umbanda, percebendo então a conexão que o mesmo estabelecia com os espíritos, alterando o espaço e as consciências com sua fumaça, além de relatar suas vivências com o chá conhecido popularmente como Ayahuasca, ou Santo Daime.

Na terceira e última parte,  Girão nos fala sobre o ato de sonhar ser intrínseco a humanidade, e portanto, pretende traçar um caminho intermediário entre os extremos do academicismo e do misticismo, de modo a auxiliar o buscador em sua senda onírica. Ressaltando que o trabalho psicológico se faz tão importante quanto o mágico neste quesito, vide que em muitos casos os sonhos tratam simplesmente de nossas vivências ordinárias, a Arte Onírica encerra a obra.

Kayque Girão nos introduz a cada um dos temas com a qualidade que há anos vem apresentando em seus textos publicados nas redes sociais. A exposição de suas ideias nestes ensaios, com seu pensamento crítico, experiência pessoal, citações de autores clássicos e modernamente já consagrados, além de bibliografia, deixam claro que o ocultismo nacional tem, sem dúvidas nenhuma, um ótimo futuro pela frente se orientado por autores e trabalhos que compartilhem deste nível de qualidade. 

por Allan Trindade


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sábado, 25 de abril de 2020

Se você alguma vez já se deparou com algum texto relacionado a Thelema, você também provavelmente já encontrou por aí alguns livros desta religião escritos por Aleister Crowley. E se procurou um pouco mais, deve ter percebido também que há anos estes livros encontram-se disponíveis gratuitamente na internet, tanto em sua versão original em inglês, quanto em traduções brasileiras. Mas eis que de uns anos pra cá, começaram a surgir diferentes edições impressas destes mesmos livros a venda por diversas editoras. Uma questão então deve surgir a mente de muitos neste momento: por que pagar por um livro que reúna livros que já tenho ou posso ter de graça? Para responder a esta pergunta é preciso entender um pouco do contexto nacional de Thelema.

OS LIVROS SAGRADOS DE THELEMA é um livro escrito por Aleister Crowley, com 256 páginas, divididas em 17 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Madras editora.

Foi no início do século XX quando Crowley começou a receber os primeiros livros daquela religião, que doravante seria conhecida como Thelema, através de um mensageiro dos deuses que o elegeram o profeta desta nova doutrina. Embora tenha resistido a ideia e até mesmo rejeitado por um momento o mais importante destes recebimentos, o Livro da Lei, o passar dos anos o convenceram de que esta era inegavelmente sua função, e assim, dedicou toda sua vida e fortuna para esta grande obra. Os 14 livros sagrados então se desdobrariam em outras dezenas, que tratariam de rituais, teorias, organização da Ordem que fundara, e tudo o mais relacionado aquele contexto. Em 1° de dezembro de 1947, Crowley partiu para ter sua Grande Festa.

A partir daquela data a propriedade intelectual da Besta - como o mesmo também se autodenominava - passaria então para uma organização que fora inteiramente reformulada por ele, a Ordo Templi Orientis, ou simplesmente OTO. Para os falantes de língua inglesa, e neste contexto, a questão dos direitos autorais tem menor importância se levarmos em consideração que a única coisa que terão de diferente entre uma edição e outra será a capa e, quem sabe, algumas notas de rodapé. Porém esta questão torna-se de suma importância quando tratamos de traduções.

Para todos os países signatários da Convenção de Berna, há de se esperar 70 anos a partir da morte do autor de uma obra para que a mesma caia em domínio público. Se até 2017 qualquer tradução brasileira necessitava da autorização da Ordem citada, a partir de 2018 todos poderiam então trabalhar nestas publicações de modo a traduzi-las conforme seus próprios entendimentos e gostos. E foi assim que vimos o lançamento quase simultâneo de algumas obras onde o interesse do público passava a ser não apenas o texto em si e seu "autor", mas quem o publicava e principalmente, quem o traduzira.

Vitor Cei é o presente tradutor desta publicação que reúne os 14 libri sagrados de Thelema. Em seu prefácio nos apresenta uma pequena biografia sobre a vida de Aleister Crowley, sua relação com Thelema e a visão de mundo presente nesta doutrina, além dos desafios de ter abraçado esta tarefa de tradução. Cei introduz cada uma das obras com um pequeno resumo de seu conteúdo e data de recebimento pelo profeta. Inicia todo o conjunto a partir do Liber LXI Vel Causae, um livro de Classe D, usado para fundamentar a origem da Ordem da A.' .A.'., para em seguida nos apresentar enfim os textos de Classe A. E são eles:

  • Liber B vel Magi sub figura I
  • Liber Liberi vel Lapidis Lazuli, Adumbratio Kaballae Aegyptiorum sub figura VII
  • Liber Porta Lucis sub figura X
  • Liber Trigrammaton sub figura XXVII
  • Liber Cordis Cincti Serpente sub figura LXV
  • Liber Estellae Rubeaesub figura LXVI
  • Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus sub figura XC
  • Liber Cheth vel Vallum Abiegni sub figura CLVI
  • Liber AL vel Legis sub figura CCXX 
  • Liber AL  sub figura XXXI
  • Liber Arcanorum sub figura CCXXXI
  • Liber A'Ash vel Capricorni sub figura CCCLXX
  • Liber Tau vel Kaballae sub figura CD
  • Liber vel Ararita sub figura DLXX


Finalizando então esta edição com uma tradução do Liber LXXVII, ou Liber Oz, um livro não classificado, lançado como um manifesto para a garantia da liberdade e Direitos Humanos na presente era de Heru-Paar-Kraat.

Victor Cei executou um trabalho excepcional nesta obra, não apenas pelo respeito e proximidade com o texto fonte, mas também pela escolha minuciosa das palavras de modo que sua tradução pode soar quase tão poética e sensível quanto os originais. O trabalho é ainda enriquecido por seus comentários, que sem dúvidas tornam esta edição uma das mais primorosas desta nova leva de traduções destes textos sagrados. Se sucesso é tua prova, caro escriba, ele sem dúvidas também se confirma aqui.

por Allan Trindade

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quinta-feira, 20 de junho de 2019


Embora a popularidade de Aleister pareça indicar o contrário, Crowley era essencialmente um intelectual. Educado em teologia cristã e profundo conhecedor da Bíblia, além de diversos outros assuntos, sendo também um qualificado alpinista e exímio jogador de xadrez, aproveitou-se de sua criação e herança milionária para dedicar toda sua vida ao desenvolvimento de seu intelecto, sua arte e principalmente, sua espiritualidade. Mesmo que muitos possam contestar isso, fato é que a obra e vida de Crowley, quando observadas de perto e sob uma perspectiva desprovida de preconceitos, parecem mesmo serem únicas para os padrões que até então se tinham dentro do universo do ocultismo do século XIX. 

Entretanto, o caráter deste livro não é aquele de mais uma vez tentar explorar as vivências e peripécias praticadas por este inglês tão costumeiramente difamado, mas de apresentar e buscar entender o resultado mágico delas.

A MAGIA DE ALEISTER CROWLEY é um livro escrito por Lon Milo Duquette, com 255 páginas, divididas em 13 capítulos e publicado no ano de 2007 pela editora Madras.

Crowley nos legou um conjunto que contém em si um sistema de práticas mágicas herdadas da Ordem Hermética da Aurora Dourada, adaptadas e aprimoradas a sua maneira de acordo com suas perspectivas, baseadas em sua crença da chegada de uma nova era e uma nova religião para a humanidade, conhecida como Thelema. A partir disso, criou uma série de outros rituais próprios para serem praticados por seus adeptos de modo que pudessem cumprir suas próprias vontades mágicas e espirituais, de maneira alinhada com as influências destes novos tempos, em uma nova Ordem a qual denominaria A.’. A.’. . 

Porém, o que parece muito atraente num primeiro momento, pode ser um tanto decepcionante num segundo. Isso porque, tal como destacado por nós em parágrafo anterior, toda a erudição de Crowley talvez tenha o feito esquecer-se que 'pessoas comuns' podem não possuir tempo, dinheiro, ou mesmo condições intelectuais de entender toda a gama de referências, relações e correlações a sistemas, mitologias, artes e religiões contidas em seus escritos. O mesmo pode se dizer especificamente sobre muitos de seus rituais. E a falta de textos próprios e introdutórios podem fazer o interessado pensar que Thelema é complexa demais para a vida cotidiana. Sendo assim, nada mais justo que um livro para tentar sanar este problema.

Em seu prefácio, Hymeneaus Beta fala sobre esta obra de Duquette servir como uma introdução para aqueles que podem não ter o conhecimento necessário para entender as especificidades  da obra de Crowley, não sem antes salientar que parte do que é apresentado aqui encontra-se também no campo da interpretação pessoal do autor, e que portanto, não deve ser encarado de forma dogmática. Em seguida, Lon nos fala sobre esta ser uma edição revisada e ampliada da primeira edição de 1993 e até se propõe a tocar no assunto sobre as calúnias e difamações propagadas contra Crowley, até os dias de hoje, antes de introduzir seus comentários sobre seus rituais. Aqui ele trata sobre o conceito da vontade entendido através da perspectiva thelêmica, como aquela vontade divina distinta da vontade comum. Sobre as diferentes eras astrológicas e os aeons de Ísis, Osíris e o atual, de Hórus. Do recebimento do Livro da Lei como uma confirmação de Crowley como o profeta da nova era. Para finalmente apresentar os libri de classe D, que contém os rituais e instruções oficiais da A.’. A.’. .

Duquette então nos apresenta os Rituais do Pentagrama, como por exemplo, mas não apenas, o Ritual Menor de Banimento do Pentagrama; os Rituais do Hexagrama, como o Ritual Menor do Hexagrama; os rituais de Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, como em Liber Samekh; os Ritos Solares, como a Missa da Fênix; do misticismo thelêmico, como em Liber Nu e ainda sobre os Ritos Elêusis, tal como praticados por membros da OTO desde a década de 70. Todos esses capítulos são organizados conforme comentários pessoais do autor seguidos pela apresentação do próprio liber em si. A conclusão do livro trata sobre Ordens thelêmicas e tece comentários específicos sobre esta religião, finalizando com o Liber XV, a Missa Gnóstica, rito central da Ordo Templi Orientis.

Uma breve busca por vídeos sobre rituais da Aurora Dourada ou mesmo da A.’. A.’. na internet sempre nos impressiona pela quantidade e, não raro,  pelos absurdos. A abertura de todos os documentos da Santa Ordem parece ter tido um efeito duplo: facilitou o acesso de novos aspirantes, porém, deu a oportunidade para que indivíduos nem sempre comprometidos com a honestidade, se aproveitassem da fama de muitos rituais para adaptá-los a suas próprias maneiras, e propagá-los como sendo genuínos. Perceba que não queremos dizer com isso que há qualquer tipo de proibição para adaptações pessoais, mas, que adaptações pessoais devem ser frisadas como adaptações pessoais.

Embora muitos thelemitas torçam o nariz para explicações públicas sobre os rituais da A.’. A.’., e o próprio Crowley tenha demostrado não gostar da ideia como exposto, por exemplo, em The Book of Lies, pensamos que livros como A Magia de Aleister Crowley, organizado e apresentado de forma honesta, distinguindo de forma clara opinião de escrito original, tem uma legítima função de existir.

por Allan Trindade

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Em 1910 fui admitido na Ordo Templi Orientis. Dois anos depois sou Baphomet, o Rei Santo e Supremo da Irlanda, Iona e todas as Bretanhas no santuário da gnose...sou o chefe da Ordem inglesa. Começo a preparar rituais novos e melhores, incorporando o Livro da Lei nos ensinamentos da OTO. É 1915 e, tendo capturado, adorado, sacrificado e consumido um sapo sagrado, eu alcanço o grau de Magus... To Mega Therion. Em 1923 sou nomeado chefe internacional da Ordem. Título que levarei pelo resto da vida. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, apenas a sede californiana da OTO sobrevive. As sedes europeias foram violentamente suprimidas pelos nazistas. Eles próprios não eram estranhos ao mundo do oculto. É 1937 e estou ganhando a vida vendendo pílulas do Elixir da Vida. São feitas de calcário, açúcar, goma arábica e meu sêmen. Vendem bem para mulheres ricas.

A memória se apaga - estou na escuridão...uma alma à deriva no vento solar. - Cap. V

ALEISTER CROWLEY é um livro em quadrinhos, capa dura, produzido por Martin Hayes e RH Stewart com 157 páginas, divididas em 8 capítulos e publicado no ano de 2018 pela editora Chave.


Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais. A história começa em Netherwoods, com Crowley já velho, mais precisamente em 1947, quando recebe a visita de William Keyes, um homem interessado em escrever sua biografia. Aleister aceita e a trama então começa a ser contada conforme a memória do mago. Sua infância e a relação conturbada com sua família: cristãos fundamentalistas do segmento Plymouth Brethren, que criam na volta repentina de Jesus. Sua revolta após a morte inesperada de seu pai, culpa, em partes, de suas crenças. O encontro com Julia Baker e Cecil Jones e a entrada na Golden Dawn. A amizade com Allan Benett e o uso de drogas. As práticas com Goetia. O rápido desenvolvimento mágico na Ordem e a confusão com os membros e Mathers. O casamento com Rose e o recebimento do Livro da Lei. A criação da Abadia de Thelema. Sua morte.

Como introdução, esta é uma boa obra de ficção, com um roteiro resumido complementado por alguns elementos fantasiosos.  Embora a distinção de fato e mito possam preocupar o leitor não familiarizado com sua biografia, um capítulo denominado Exegeses se destina a distinguir cada um dos elementos reais dos ficcionais. Portanto, sinta-se confortável para desligar o senso crítico por alguns minutos antes de adentrar nos aspectos factuais da vida do biografado. Entretanto, se quanto ao roteiro e explicações não temos do que reclamar, em relação a arte dos quadrinhos sentimos que deixou a desejar. As ilustrações de RH Stewart são desconexas, não seguem um padrão de traço, em muitos momentos são escuras e confusas, chegando ao ponto de serem sujas até, dando por vezes a impressão de rafe ao invés de arte final.

A cada ano a vida de Crowley parece suscitar mais e mais interesse de ocultistas e curiosos. Conturbada, fascinante, polêmica, satânica, lamentável... são alguns dos diversos adjetivos dados pela maioria quando questionados sobre. Perceba que o todo costuma ser sempre negativo. Talvez por desconhecimento. Talvez por gosto. Talvez por ignorância em saber sob quais preceitos místicos este homem guiou sua vida. Num mundo onde o sucesso costuma ser medido por quão famoso um alguém é ou por quantos zeros possui sua conta bancária, considerar que aquele menino, nascido em berço de ouro, um milionário descendente de uma família tradicional cristã, terminaria seus dias sem dinheiro e afirmando ser a Grande Besta apocalíptica, é para muitos um fim trágico.

Mas aqueles que assim o consideram ignoram toda a trajetória de vida deste homem. Do quanto suas atitudes e investimento representam a vanguarda de seu tempo. A quebra de paradigmas, os apontamentos da hipocrisia, a criação de uma nova religião que garantisse a liberdade de toda a humanidade, o reduzir-se ao mínimo para elevar-se ao máximo, o transformar a si próprio naquilo que cria como fundamento básico: que todo homem, não importa como comece, e toda mulher, não importa como termine, é sem dúvidas e sempre, uma estrela. 

por Allan Trindade


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segunda-feira, 16 de julho de 2018

A primeira impressão é a que fica. Ou ao menos assim nos diz o dito popular. Não vou discordar, já que por agir justamente desta forma, acabei por protelar a oportunidade de conhecer muitas realidades interessantes. Foi assim com a Magia do Caos. Numa época onde redes sociais basicamente se resumiam a Orkut e MSN, alguns tipos estranhos já populavam as comunidades thelêmicas e emporcalhavam os tópicos com uma série de postagens que tinham o estranho objetivo de converter, ou simplesmente, desvirtuar qualquer assunto sério que ali estivesse sendo discutido. 

Os tipos, estampados ou autodeclarados, eram dois: gnósticos e caoistas, nesta ordem de ação. Bastava um destes aparecer para eu desaparecer do assunto, afinal de contas, o diálogo era mesmo impossível com essa gente, e nossos objetivos pareciam bem distantes quando o assunto era espiritualidade.

Desenvolvi um certo preconceito. Não contra eles, pois afinal, eu os julgava por experiência, sendo assim, criara um pós conceito, um conceito com conhecimento de causa; os que se apresentavam eram sempre fanáticos ou desordeiros, se orgulhavam disso e ponto. Meu preconceito e erro foi estender as impressões que me passaram aos sistemas que diziam representar. Acreditar nisso foi o mesmo que considerar que a atitude hipócrita da maioria dos cristãos representa o que a Bíblia diz ser o Cristianismo.

Mas o estudo nos ensina que não, não necessariamente se conhece uma árvore por seus frutos, afinal de contas, maçãs podem ser fruto do pecado, envenenadas ou de ouro, sem que a macieira tenha qualquer responsabilidade nisso.

Foram anos até perceber que o Gnosticismo era muito mais rico e diverso que o comportamento que alguns coprófagos poderia limitar. O mesmo tempo até perceber que a riqueza artística e mágica de Spare e Carroll, não podia ser confundida com as sandices de gente que usava a internet para expressar seus desejos de serem malkavianos do plano virtual.

A primeira impressão pode até ser a que fica, mas é tolice se limitar a uma única impressão. A primeira impressão fica, mas é preciso permitir-se ter a experiência para ter uma segunda, terceira, ou quantas forem necessárias até perceber que os fundamentos de um sistema não são necessariamente definidos pelo comportamento de seus adeptos. Foi assim com a Magia do Caos. Que bom!

LIBER NULL E PSICONAUTA é uma publicação escrita por Peter James Carroll com 239 páginas, divididas em dois livros internos e publicado no ano de 2016 pela Penumbra Livros.


Ordem! Sim, ela existe aqui e dá a base para o curso de teorias, técnicas e rituais que o título apresenta. A IoT - Iluminados de Thanateros é uma ordem criada por Ray Sherwin e Peter Caroll, o autor desta publicação. Herdeiros mágicos do Zos Kia Cultus e da A.'. A.'., a magia da IoT é definida como prática, personalista e dedicada a experimentação. Entretanto, o autor salienta que suas práticas são destinadas a estudantes sérios, levando em consideração a potencialidade de seus rituais, e devem ser apenas praticados por aqueles que estejam em perfeitas condições de saúde.

Peter ressalta que é relativamente comum que mestres tenham inspirado adeptos a criarem Ordens e que, apesar de não ter uma história, a IoT transmite uma tradição milenar e que é constituída como território Illuminati. Sendo assim, são iluminados, mas não os mesmos da Baviera ou de qualquer outro tipo, mas de Thanateros, um amálgama dos deuses Thanatos (morte) e Eros (sexo), feito para expressar a junção de opostos para a consciência mágica como caminho, praticado por eles, e a iluminação, como finalidade de suas práticas.

Caos! Tido como sinônimo de tudo aquilo que é desordenado, sem sentido, bagunçado. Cremos ser uma interpretação possível, mas não se limite a ela, pois é certo que este entendimento pode não se adequar de todos os modos a realidade deste livro. Ou melhor, destes livros, uma vez que embora esta publicação esteja em formato único, ela comporta em si dois títulos distintos.

LIBER NULL 

é de cunho essencialmente individual e prático, sem entretanto fugir as devidas explicações didáticas. Este livro dá título para o conjunto de alguns outros libri que tem por finalidade guiar o estudante a uma série de exercícios gradativos que o tornarão apto a ingressar em outros planos de trabalho da Ordem. Há de se salientar porém, que embora o livro seja organizado para os membros ou candidatos da IoT, não há qualquer obrigação de relação com a mesma para a execução dos ritos aqui apresentados. Seus libri são:

  • Liber MMM - que discorre sobre as práticas de Controle da Mente, Magia e Sonhos.
  • Liber LUX - sobre Gnose, Evocação, Invocação, Libertação, Augoeides, Divinação e Encantamento.
  • Liber NOX - sobre Feitiçaria, O Duplo, Transmogrificação, Êxtase, Crenças Aleatórias, O Alfabeto do Desejo e O Milênio.
  • Liber AOM - sobre questões Etéricas, Transubstanciação, A Caosfera, Aeônicas e Reencarnação.


Organizado de modo a levar o estudante ao domínio de suas habilidades físicas e espirituais, seus rituais objetivam o aprimoramento e o alcance de alterações mentais induzidas, dentre elas aquele estado conhecido como Gnose, para, dentre outros, a consecução mágica de um dos elementos mais conhecidos da Magia do Caos: os Sigilos. Esta técnica, que une elementos da Magia Tradicional com aqueles desenvolvidos por Austin Osman Spare, consiste na criação de elementos gráficos que geralmente são fabricados a partir de frases com intenções mágicas. Estes desenhos tem por objetivo ocultar intentos da mente consciente, de modo a lançá-los no vácuo criado a partir destes estados alterados de consciência, tendo sua forma física destruída em seguida, para serem de todos os modos esquecidos pela mente ativa.


PSICONAUTA

Na introdução deste, Carroll salienta que apesar de todo preconceito da ciência vulgar em relação a magia, um novo olhar tem sido lançado para todo este cenário e um novo intendimento vem se dando. Interpretada como uma ferramenta de contrariedade ao materialismo, a magia aqui é pensada de modo a dar acesso aos seres humanos para aqueles aspectos inexplorados de nossa existência, sem o medo de se arriscar em experiências físicas, mentais e espirituais para objetivos específicos.

Destaca a possibilidade de aumentar o poder de rituais ao praticá-los em grupo, além de que em tais situações, as habilidades de cada um podem ser divididas e melhor exploradas de acordo com suas potencialidades. Além disso, trata ainda das interpretações que a psicologia dá para as divisões cerebrais, que considera arbitrárias, e sobre o modus operandi de ataques mágicos, seus riscos e motivos.

A partir deste ponto, elenca cinco rituais denominados os Ritos do Caos, baseados nos princípios do Xamanismo Gnóstico do Novo Aeon, destinados a tratar de situações em que os sacerdotes do Caos possam estar. Estes são: a Missa do Caos, Iniciação, Ordenação, Exorcismo e Extrema Unção.

Em seguida, discorre sobre a pouca influência que os astros têm sobre a Terra, à exceção do Sol e da Lua, criticando assim o destaque que a Astrologia dá para os outros planetas, considerando-a vaga e imprecisa. Sobre o uso de drogas em operações mágicas, as diferenças entre os materialistas, religiosos e magistas, o Caos e sua relação com a magia e a consciência, Deus, o Demônio e as mudanças ocorridas através das eras sobre a percepção destes conceitos, além de tratar sobre Armas Mágicas e demais definições filosóficas que discorrem sobre paradigmas e previsões futuras.

Nestas obras, todas as impressões externas que fazem com que que a Magia do Caos se pareça com apenas mais um sistema de feitiçaria, não se sustentam. Existe aqui uma percepção de que a consciência humana geral muda através das eras e que através de trabalhos mágicos específicos reside a possibilidade desta condução.

Liber Null e Psiconauta propõe uma visão de mundo e práticas novas para adeptos que buscam uma relação mais empírica e menos mistificada com a magia. Aqui tudo é essencialmente prático, sem entretanto fugir a conceitos tradicionais encontrados nos sistemas esotéricos ocidentais. Todo estudante aplicado nestas Ciências, perceberá que o novo aqui reside em grande parte na liberdade em que o sistema dá para se adaptar os conceitos fundamentais à sua própria maneira, sem estabelecer nenhum revés de ideal moral em função disso. O foco é mental e energético, e o senso de Arte e Ciência aqui são levados ao seu sentido mais radical, para que então a mágica se faça. Diagramação, arte e capa dura são belezas a parte que dispensam comentários.

 Post Scriptum: e se nada é verdadeiro, e tudo é permitido...permita-se tê-lo, você não vai se arrepender.

por Allan Trindade



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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

" uma festa para a vida e uma festa ainda maior para a morte!...Ah! tua morte será adorável: quem a vir ficará feliz. Tua morte será o selo da promessa de nosso amor de eras. Vinde! "
AL II:41 - 66

1° de Dezembro de 1947. Morre  em Netherwood de bronquite crônica agravada por pleurisia e degeneração do miocárdio,  Edward Alexander Crowley, mais conhecido como Aleister Crowley. Partiu aos 72 anos de forma tranquila e destemida, como um sopro, movendo as cortinas do pequeno e humilde quarto em que estava hospedado.

A partir daquela data muitas seriam as disputas pelos direitos sobre as obras do Profeta de Thelema, desentendimentos que correriam o mundo, incluindo alguns bem conhecidos personagens brasileiros. Tempos que também que ficaram na história.

Setenta anos se passaram e com eles, o direito a exclusividade sobre os livros da Grande Besta caíram em domínio público. Uma nova etapa então se inicia. Na nossa geração, as contendas não são mais travadas por quem pode ou não traduzir suas obras, mas sobre quem faz melhor!

O LIVRO DA LEI é um livro escrito por Aleister Crowley, publicado pela editora Chave no ano de 2017, com 207 páginas divididas em 7 partes.

Antes de mais nada é preciso que o leitor interessado nesta obra saiba que esta é uma edição histórica, a primeira a ser publicada no período de domínio público dos escritos de Aleister Crowley. Publicações anteriores a esta - salvo aquelas autorizadas ou lançadas oficialmente pela O.T.O, detentora dos direitos autorais até então - são ilegais. Portanto, esta publicação é marca de uma divisão de tempos dos libri de Thelema no Brasil.

Feito em capa dura, roxa com grafismos cor de abóbora, foge ao padrão comum produzido em vermelho. Não poderíamos deixar de destacar o fator estético, que de fato, foi pensado com bom gosto. Para além disso, ressaltamos que esta não é uma publicação de objetivo estritamente religioso, mas vem acompanhada de alguns outros elementos, textos, que precedem e sucedem o Liber AL vel Legis em seu miolo.

Em seu prefácio, escrito por M.B., destaca a grande importância que Crowley teve dentro e fora do Ocultismo, servindo de influência para intelectuais dos mais variados gêneros, e ainda para a cultura pop, com seus quadrinhos, bandas, filmes, clipes, músicas e todo um universo de elementos que fazem referência direta e indireta a ele. Sem dúvidas, uma ótima fonte para pesquisas.

Na Introdução a Edição Brasileira, assinada por Marina Della Valle, a tradutora do livro, nos traz um ótimo resumo da biografia de Aleister, complementado pela história do recebimento do Livro da Lei,  seguido por suas explicações sobre os desafios de traduzi-lo. Segundo nos diz


O Livro da Lei é um texto cheio de particularidades. Há inconsistência de grafias, como o nome da deusa Nuit, que aparece também como Nuith; o fraseado muitas vezes é incomum e dá margem a obscuridades; há mudanças bruscas de "tu" para "vós" e vice-versa; há também o uso de "vós" quando o narrador obviamente se dirige a uma só pessoa; o uso de maiúsculas não segue as regras comuns do idioma original e há mesmo uma palavra que não existe no inglês, questões diligentemente mencionadas por Crowley em seu comentário sobre o livro...
pg. 22 


Esta edição respeita a exigência de que as traduções devam sempre vir acompanhadas do original, e a diagramação fez um ótimo trabalho em colocar - uma em cada página -  versão em inglês ladeada pela tradução em português.

Não entraremos aqui no mérito de questionar as convicções religio-filosóficas da tradutora para ter sido incumbida desta função, já que há uma prescrição encontrada nos libri de Thelema para que traduções do Livro da Lei sejam feitas apenas por thelemitas graduados, entretanto, e levando em consideração o comentário da autora destacado acima, e onde à continuidade do capítulo a mesma deixa claro ter ciência sobre elementos gemátricos que compõem a produção original deste livro, não podemos deixar de citar o incômodo que por vezes sentimos ao ler sua versão. Exemplificaremos :


I:7.Behold! it is revealed by Aiwass the minister of Hoor-paar-kraat.

I:7. Contemplai! [*] é revelado por Aiwass o ministro de Hoor-paar-kraat.
*O pronome ' it / isto ' foi eliminado.

I:9. Worship then the Khabs, and behold my light shed over you!

I:9. Adorai então [*] Khabs, e contemplai minha luz derramada sobre vós!
* O artigo ' the / o ' foi eliminado.


[ o destaque em negrito foi usado por nós apenas para uma melhor visualização do texto e não constitui sua forma original.]

Nos parece que estes dois exemplos sejam suficientes para indicar a razão de nossa fala, entretanto, é importante que o leitor tenha em mente que isso ocorre em vários momentos da tradução.

Fato é que a língua portuguesa permite, através de seus vocábulos, indicar artigos e pronomes sem a necessidade de tê-los ali, de forma aparente. Todavia, esta é uma possibilidade e não uma obrigatoriedade, ou seja, não entendemos como necessária a eliminação destes nesta tradução, especialmente por sua natureza de caráter profundamente esotérico, onde " pingos podem sim ser lidos como letras. "

Obviamente que não estamos considerando que seja possível uma correspondência perfeita em traduções quando o assunto é gematria, - em termos gemátricos é imprescindível a análise do texto em sua língua original - porém, pensamos que num livro desta natureza, mesmo na tradução, manter é melhor que eliminar. Respeitamos a escolha e bagagem acadêmica da tradutora mas não podemos nos furtar de deixar registrada esta opinião.

O livro vem ainda acompanhado d'O Comento, os originais escritos pela Besta, e Os Comentários de Crowley, onde fala longamente sobre o recebimento do AL e as condições em que se encontrava, sua rejeição inicial para com o mesmo e dúvidas sobre sua natureza, análises sobre determinadas passagens, dentre outros.

Por fim, David Soares nos apresenta um capítulo onde trata do encontro de Aleister com Fernando Pessoa, e o possível contra gosto deste em encontrar o mesmo. Levanta questões sobre os reais interesses de Crowley para este encontro e destaca também o famoso evento arquitetado pelos dois onde o Mago fingira sua morte na Boca do Inferno. Fechamos o livro com o poema de Crowley intitulado Hino a Pã, em sua versão original e traduzido por Pessoa para a língua portuguesa.

Pensamos que a introdução desta resenha fale per se. Ter esse livro é uma oportunidade única de participar de um momento histórico, o resto é detalhe.


por Allan Trindade



post scriptum: e para aqueles que estejam curiosos para saber qual fora a tradução dada para a máxima "Do what thou wilt shall be the whole of the Law", a forma usada aqui é "Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei."


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domingo, 24 de dezembro de 2017

Na resenha anterior falamos sobre as dúvidas comuns que os principiantes podem ter em relação a quais autores ou títulos primeiro consultar. Que a vanguarda do Esoterismo moderno, oriunda em grande parte dos séculos XIX e XX, e com uma linguagem por demais técnica ou rebuscada em alguns casos, pode não dar condições para o novato compreender todas as nuances e profundidade que os textos apresentam. 

Não pensamos ser exagero dizer que o Ocultismo seja um caminho de muito, muito mais estudo que prática. O próprio Mvtvs Liber, um dos grandes clássicos da Nossa Tradição, nos traz o axioma lege, lege, lege, relege, labora et invenies. É preciso ler, ler, ler, reler para então trabalhar. Não discordamos desta máxima, entretanto, ousamos dizer que a prática unida ao estudo pode ser igualmente proveitosa.

Muitos são aqueles que não conseguem viver tanto tempo saciando apenas os anseios do intelecto e precisam de mostras físicas de que tudo isso, todos estes textos, ideias, filosofias e sistemas não são um simples amontoado verborrágico inventado por um bando de intelectuais desocupados que, por não terem acesso a internet em sua época, viviam viajando no Plano Astral. A experiência pode, em muitos casos, preceder o estudo.

Portanto, se você ainda não leu o suficiente mas já tem dúvidas sobre o que praticar, quem sabe este livro possa te ajudar.



THE ONE YEAR MANUAL é um livro escrito por Israel Regardie, publicado pela Samuel Weiser, INC. no ano de 1992, com 71 páginas.


Sim, este é um livro curto, com poucas dezenas de páginas, mas não se deixe iludir pelo seu tamanho. Sua proposta é nada menos que objetiva e seu título e subtítulo deixam claro a que ele veio: ser um manual com duração mínima de um ano, voltado para guiar o iniciante nos caminhos místicos do esoterismo ocidental.

Aqui você não precisará de conhecimento prévio nenhum. Cada capítulo é planejado para ser praticado por pelo menos um mês, e contém explicações sobre os benefícios que tais práticas podem vir a causar no aspirante, sempre com foco no maior autoconhecimento corporal e equilíbrio espiritual. Se você conhece o mínimo de yoga, dos exercícios mágicos oriundos da Ordem Hermética da Aurora Dourada ou ainda da A.'. A.'., você poderá prever o conteúdo que este título traz, uma vez que alguns dos rituais apresentados aqui sejam adaptações daqueles de lá. 

Não espere por exigências de grandes aparatos ritualísticos, nem mesmo por explicações muito aprofundadas sobre o funcionamento metafísico de cada um dos exercícios expostos. Todo o conjunto foi pensado com foco na prática e no iniciante, que disponha ao menos de um pequeno espaço reservado para meditar, como um quarto com uma cama e uma cadeira, por exemplo, e esteja disposto a dispensar pelo menos quinze minutos diários para a busca de sua iluminação

Nesta edição, Israel salienta que fez algumas modificações, como chamar o livro de Manual do Ano ao invés de Doze Passos Para a Iluminação Espiritual - que aqui tornou-se o subtítulo - por ter considerado presunçoso demais este nome da primeira edição. Além de modificações dos textos dos próprios rituais que, segundo ele, na edição anterior, estavam com citações cristãs em excesso.

Vale destacar que na nossa opinião os textos continuam com muitas referências cristãs e poderiam estar bem mais neutralizados, de modo a atender um público mais abrangente, e que talvez não se sinta tão a vontade com adaptações disfarçadas de forma mais ou menos subliminar a Jesus e seu contexto. Em verdade, e para sermos justos, diremos o mesmo para o primeiro exercício, das Quatro Adorações solares, desenvolvido para ser executado durante as grandes horas do dia e da noite, e que traz orações para os deuses keméticos. Somos da opinião que referências a deuses de qualquer religião deveriam ser evitadas pois trazem consigo uma carga energética - ou de pensamento - que talvez não esteja em consonância com o período atual do iniciante. Quem sabe aqui o novato perceba que a magia é também considerada uma Arte pois nela, vez por outra, temos de mostrar o nosso talento e habilidade em adaptar e produzir nossa própria Obra.

Para além do exercício previamente citado, o livro nos traz ainda Body Awareness, Relaxation, Rhythmic Breathing, Mind Awareness, Concentration - Use of the Mantram, Developing the Will, The Rose Cross Ritual, The Middle Pillar Ritual, Symbol of Devotion, Practice of the Presence of God, Unity - All is God e Invoke Often! Inflame Thyself With Prayer.

Israel Regardie dispensa comentários pois é figura conhecida e consagrada em nosso meio - por sua experiência e dedicação de toda uma vida ao Ocultismo - e novamente  nos abrilhanta com mais uma obra digna de nota. Está voltada especificamente para aqueles que pouco ou nenhuma experiência prática possuem neste meio mas que querem, sem se prender a nenhum caminho específico, ter algum tipo de treinamento espiritual. 

A força da magia é intrínseca a natureza e não depende de conhecimento técnico para se manifestar. O que falta a maioria de nós então é compreender que somos parte desta mesma natureza, portanto e por consequência, seres potencialmente mágicos. Tomar consciência do próprio corpo e mantê-lo em equilíbrio é santificar o Templo no qual o seu espírito reside. Ler pode te fazer acordar para isso. Mas apenas o praticar te fará sentir esta Verdade.

por Allan Trindade




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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Repare. É costume ouvir o povo dizer que um bruxo ou bruxa 
muito antigo deixou como legado manuscritos, diários ou manuais contendo diversas receitas sobre suas façanhas e feitiços. Para alguns, tais livros contém inclusive um poder intrínseco e estar em posse deles significa atrair para si sempre o risco de que lhe tragam poderes surpreendentes ou maldições que podem destruir a sua vida e a dos seus. De fato, não podemos desconsiderar todo este tipo de falação, uma vez que existam uma série de pergaminhos e grimórios que chegaram até as nossas mãos graças ao registro de magistas anteriores, contendo muitas das características descritas pelo populacho.


Entretanto, oriundos de uma época onde o analfabetismo era regra, não há de se esperar que tais objetos existam por aí aos montes, que sejam tão numerosos quanto as numerosas vítimas covardemente acusadas, torturadas e queimadas por crime de bruxaria pela Santa Inquisição. Não. Escritos dessa natureza eram raridade em épocas outras. Foram os tempos modernos que popularizaram a educação e garantiram acesso a todos, de forma indiscriminada, ao aprendizado da escrita e da leitura.

Com a chegada de uma nova era para o mundo da espiritualidade, a perseguidora perdeu sua força, a liberdade tomou seu lugar nos novos séculos, a educação se fez democrática e a ciência pode respirar aliviada. Nesta nova geração, muitos dos nossos hábitos e práticas foram repensados. O proibido praticamente já não existia mais, e portanto, era preciso compensar o tempo perdido. Uma nova linhagem de magistas surgiu, preocupados com a investigação genuína do campo espiritual, destinados a eliminar de uma vez por todas as superstições e se livrar definitivamente das amarras das crenças escravistas.

Sendo assim, transcrever suas experiências não é apenas um dever pessoal, mas também científico e político. É graças a isto que as próximas gerações poderão dar continuidade ao trabalho que nós perpetramos - assim como nós bebemos das fontes daqueles que nos antecederam - para que jamais caiamos no limbo da ignorância novamente. O seu Diário é a mais poderosa de todas as suas armas mágicas. Ele é a sua fonte de Luz Inextinguível. Ele contém os ingredientes necessários para sua Transmutação. Ele é a sua garantia para uma Longa Vida.


ALEISTER CROWLEY E A PRÁTICA DO DIÁRIO MÁGICO é um livro escrito por James Wasserman, publicado pela Madras editora no ano de 2009, com 234 páginas.

Este é um livro voltado especialmente para iniciantes e que trata de uma das Armas mais importantes dentro do Arsenal mágico thelêmico. Nele, James Wassermam se ocupou em fazer uma pesquisa sobre os libri aos quais destacam a importância do Diário mágico na vida de um thelemita e sobre a especial atenção que há de ser dada para este tipo de registro, que deve ter por norte sempre o slogan da A.'. A.'.: o método da ciência e o objetivo da religião.


Crowley insistia para que todos os estudantes mantivessem um diário mágico. O diário é um requerimento formal do Colégio Externo da A.'. A.'. (ver Liber CLXXXV, em Equinox IV, 1, Commentaries on the Holy Books) e necessário para a maioria das práticas. 'One Star in Sight', o manifesto da A.'. A.'. publicado pela primeira vez em Magick in Theory and Practice, em sua descrição dos Graus de Ipsissimus a Probacionista, dá numerosos exemplos da relevância do diário mágico em todos os níveis de realização. Crowley acreditava que o diário acompanhava o magista ao longo de toda a sua carreira. Em apoio a essa opinião, poderia ser citada a descrição de Crowley para os Graus de Magus e de Mestre de Templo, presentes em 'One Star in Sight', em que ele menciona tanto os seus diários quanto os de Frater Achad. pg. 25 - 26



Nesta primeira parte,  o autor fala de forma reduzida sobre sua biografia, de Crowley e de Stansfeld Jones,  traz ainda algumas dicas sobre como lidar com seus registros, desde o seu aspecto físico, comparando diários de capa dura com aqueles virtuais, até a importância da honestidade necessária nestas transcrições, que lhe capacitarão a avaliar suas próprias experiências e conclusões daquele tempo, tanto quanto permitirão que seu instrutor faça uma avaliação mais precisa do seu progresso.


O diário pode ser uma ajuda real para a pessoa que seja honesta o bastante para registrar seus verdadeiros pensamentos e sentimentos e corajosa o bastante para revê-los à luz de experiências posteriores, quando suposições iniciais provem estar erradas. ...quando discute a respeito da Memória Mágica em Magick in Theory and Practice, Crowley provê outro excelente argumento para se manter cuidadosamente o Relatório mágico. pg. 34

O grande obstáculo é o fenômeno chamado de esquecimento freudiano; isso quer dizer que, embora um evento desagradável possa ser recordado de modo suficientemente fiel pelo mecanismo do cérebro, somos incapazes de lembrar dele ou o recordamos erroneamente, por ser doloroso. (MTP, p.51)



Em seguida, o livro traz alguns libri de diferentes classes da A.'. A.'. que servem como exemplos práticos de como Crowley mantinha ou avaliava os Diários de seus pupilos. João São João, uma publicação em classe C da Santa Ordem, é o registro de treze dias da tentativa de Mestre Therion para contactar Adonai. Repleto de detalhes sobre seus afazeres mais comuns, como sobre as pessoas que encontrara, estados de saúde e refeições, até sua devoção e ritualística para alcançar a tão desejada Consecução. Este liber é tido como um modelo ideal de relatório e desmistifica muitas das calúnias perpetradas contra Crowley e seu comportamento religioso. 

Os libri que se seguem são Liber CLXV - Um Mestre de Templo, 28 Teoremas de Magia, Liber E vel Exercitiorum, Liber O vel Manus et Sagittae e alguns extratos retirados de publicações diversas.


Este não é um título indispensável, mas serve bem para aqueles iniciantes nos caminhos mágicos interessados especificamente em Thelema. A participação de James é simples e representa a menor parte desta publicação: 'metade' dela é voltada para lhe dar noção da importância do Diário, com trechos selecionados de diversos libri thelêmicos e comentados por ele. Não fosse pela inclusão destes, talvez o livro não tivesse páginas suficientes para ser chamado de livro. Para iniciantes é um ponto de partida, para intermediários ou avançados, não vale tanto o investimento.

Mas independentemente de sua sua escolha sobre esta aquisição ou não, é preciso que se lembre daquilo que é mais importante por fim: apenas o registro do conhecimento nos fez, nos faz e nos fará evoluir.


por Allan Trindade


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domingo, 16 de abril de 2017


Paulo Coelho foi um dos meus primeiros mestres. Lembro-me até hoje quando, há cerca de 15 anos atrás, fiz  pela primeira vez a leitura de seu livro Brida. Eu, um pré adolescente que vivia o desejo de ser mago através dos dados, fichas e interpretações de personagens em jogos de RPG, vi em seu romance o mundo de encanto que eu sempre esperei viver, mas sempre pensei existir apenas nos filmes de Walt Disney.


O Diário de Um Mago surgiu apenas para aumentar ainda mais minha vontade: agora, além de ter a certeza de que a magia acontece no mundo real, através dele eu descobriria que ser um magista não era um dom, mas um ofício aprendido com muito estudo e prática, através de um tutor! 



Eu era uma 'criança', e como tal, agia como todas agem quando descobrem quem é o seu super herói favorito; não me interessava pela super força de um alienígena que ironicamente era chamado de Super Homem, não queria saber das garras e do jeito tosco do Wolverine, pelo Homem Aranha e sua relação com um dos aracnídeos que mais me causa pânico nesta vida, e muito menos por um cara que quando está puto, triplica de tamanho, fica verde e sem qualquer critério sai quebrando tudo, como o Hulk. Meu herói precisava ser um indivíduo que, através da inteligência e poderes especiais, conseguisse ter o que ele quisesse nesse mundo...


Adquiri todos seus livros, e em alguns casos, comprei até mesmo exemplares repetidos, só para ter um mesmo título com capas diferentes. Numa época onde a internet praticamente não era acessível, a falta de informação unida a um forte desejo criaram a ideia de uma realidade que provavelmente só existia na minha cabeça. Sim! Ele era meu mestre, me visitava de tempos em tempos nos meus sonhos, me levava para conhecer pessoas estranhas, falava e apresentava símbolos ocultos que eu não conhecia, me dava tarefas e ressaltava a importância de ser paciente...até hoje tenho em meus diários os detalhes destes momentos.



Descobri o endereço de seu instituto, escrevi-lhe falando do meu desejo de encontrá-lo fisicamente, mas tudo que recebia eram xerox de cartas prontas em agradecimento, com mensagens de natal. Se nos comunicávamos no Astral, por que tanta dificuldade para nos encontrarmos no Plano Material?! Mas eu não desistiria tão fácil. Minha persistência e pesquisa  revelariam aquilo que o planeta inteiro sabia, menos eu. 



A realidade, que não mede tamanho ou idades, chegou sem aviso prévio e desferiu um tapa no meio da minha cara que me despertou de todo aquele sonho para uma ingrata lição: Paulo Coelho não era meu vizinho, morador da zona sul do Rio de Janeiro, que a qualquer momento poderia me chamar para tomar um suco e falar sobre ocultismo em seu apartamento; mas um cidadão do mundo, escritor milionário, internacionalmente famoso, que muito provavelmente nunca soube da minha existência. 



A partir daquele momento eu caminhava só. 



Os sonhos cessaram. Anos se passaram, descobri outros autores que inegavelmente me ensinaram muito mais que seus romances e sua presença literária foi se tornando cada vez mais distante e escondida no fundo da minha estante. Mas uma dúvida sempre permaneceu viva na minha memória: afinal de contas, quem é este homem que dividia sua carreira profissional entre músicas e livros, viaja o mundo em nome de uma Sociedade Secreta que poucas pessoas ousam afirmar ser real, flerta com bruxas e pratica magia mesmo sendo abertamente um católico que dedica muitas de suas obras a Virgem Maria?


O Mago é um livro escrito por Fernando Morais, publicado no ano de 2008 pela editora Planeta com 632 páginas e dividido em 30 capítulos.



Antes de tudo é preciso que você mantenha em mente que esta é uma biografia autorizada por Paulo Coelho e que, portanto, as informações contidas neste título passaram pelo seu crivo. Tendo isso em vista, e antecipando alguns relatos estranhos apresentados pelo biógrafo, ao menos para nós, ocultistas, algumas questões passarão toda a leitura em aberto e te farão questionar por que um indivíduo que chama a si mesmo de Mago e empresta seu título ao livro, dá tão pouca importância a detalhes e precisões técnicas da sua relação com aquilo que chamamos e conhecemos como esoterismo.



Nascido na cidade do Rio de Janeiro, no dia 24 de agosto de 1947, foi natimorto em função da ingestão de mecônio, líquido amniótico e reanimado – segundo suas crenças - graças a ação mágica de sua mãe, que intercedeu por sua vida através de uma promessa feita a São José. De classe média, porém residente de uma vila familiar e superprotegido por pais católicos que tinham o desejo de ver o filho ingressar numa escola que fosse uma extensão das regras e duras disciplinas impostas em casa, ano após ano veriam seus planos frustrados pelo primogênito da família. 


Paulo faz uso constante do I Ching
para tomar suas decisões.

A vida em sua infância não fora tão fácil: além dele, mãe e irmã viviam em condições financeiramente limitadas graças ao sonho e investimento permanente do pai para a construção de uma mansão na Gávea, e a única exceção se dava para o estudo: Paulo tinha que estar nos melhores colégios. Entretanto o desejo de seus genitores parece não ter sido herdado pelo menino, que não apenas tinha um péssimo desempenho escolar, como já dava seus primeiros sinais de rebeldia e envolvimento com coisas ocultas: com cinco anos de idade criara sua própria sociedade secreta, a Organização Arco – junção das duas primeiras letras do sobrenome de seu primo, Araripe e do seu, Coelho. Especializada em sabotagens dentro da vila, a organização tinha documentos próprios e planos de ação; como estragar a maquiagem de suas primas, além de promover corridas de pintos que davam ao filhote vencedor a oportunidade de continuar vivendo e condenava os perdedores à morte por estrangulamento.



A compensação para a rigidez e os castigos que recebia por suas traquinagens vinha com as viagens para a casa de um tio excêntrico e abastado, morador de Araruama, que o introduziriam as primeiras experiências sexuais e fariam contraste com a culpa e a ideia de pecado fortemente marcada pelos ensinamentos e retiros católicos aos quais era submetido. Paulo descobre a poesia, que logo abandona e em seguida o teatro, onde começa a construir seu sucesso. O passar dos anos fariam ter uma certeza cada vez mais pungente e que o marcaria para sempre; a de ser escritor! 



As brigas constantes com sua família e as diferenças de objetivos contribuiriam fortemente para suas crises existenciais e depressão. Entre farras interestaduais e planos mirabolantes para impulsionar sua carreira profissional, trabalhou sem remuneração para jornais para poder ver-se livre das regras de sua casa e estar mais próximo dos intelectuais da sua época, quase foi assassinado após pegar um carro e atropelar uma criança de forma acidental, sacrificou uma cabra após evocar o Anjo da Morte e desistir do suicídio. Questionou sua própria sexualidade e foi para cama com homens sendo ativo e passivo. Apesar de constantemente referido como feio, viveu rodeado de mulheres, as quais nunca foi sexualmente fiel, mas concluiu, para alívio de sua mãe, que era apenas por elas que tinha interesse. Mergulhou nas drogas, foi internado por três anos consecutivos no Dr. Eiras por seus pais que duvidavam de sua sanidade mental e pego por duas vezes pela ditadura, primeiro por um mal entendido ocorrido numa viajem ao Paraguai e em seguida pelo envolvimento com Raul Seixas, Thelema, Sociedade Alternativa e suas músicas suspeitas.


O selo da A.'. A.'.

Neste momento, Paulo no auge de sua juventude, descobriria na magia a solução para todos os seus problemas. Após conhecer os livros de José Ramon Molinero, também conhecido como Yogakrisnanda, e tantos outros que viriam em seguida, dedicaria grande parte de seu tempo ao estudo e prática de tudo aquilo que se relacionasse com ocultismo. Dada sua imersão em tantos lugares e seu contato com os mais variados tipos de estudantes e loucos, recebeu um convite para escrever para uma revista dedicada a cultura hippie e esoterismo chamada A Pomba. Abandonou as aulas de teatro que dava em um cursinho e junto a Eduardo Prado lançaram em seguida outra publicação, de nome 2001. E foi em meio a toda esta conjuntura que conheceria aquele que se intitulava como herdeiro de Aleister Crowley no Brasil e suposto líder mundial da A.’. A.’. : Marcelo Ramos Motta.


Apesar das excentricidades, loucuras e o jeito pouco sociável de Motta, Paulo teria nele um tutor que junto a Euclydes Lacerda, o instruiria dentro do caminho do misticismo thelêmico. E a partir deste ponto os relatos relacionados a esta fase tão importante da vida de Paulo Coelho são pouco aprofundados pelo biógrafo e em muitos casos, cheios de erros. Fernando Morais, o jornalista que escreve este livro, se refere constantemente a Thelema como Satanismo. Entendemos que a falta de conhecimento sobre assuntos religiosos podem levar os menos estudados a conclusões precipitadas sobre o que um determinado grupo acredita ou pratica. Entretanto espera-se que um profissional da área de pesquisa seja imparcial em suas colocações e não haja de forma tendenciosa em seus relatos.


O selo da Sociedade Alternativa;
que praticamente nunca existiu  de fato.
Thelema é uma religião distinta mas isso não a torna satanista, a não ser para aqueles que possuem uma visão cristã de mundo.  


Em outro momento, numa tentativa frustrada de falar sobre Crowley e o Livro da Lei, confunde o mesmo com o Liber Oz:

Aleister Crowley tinha 23 anos quando diz ter recebido, na cidade do Cairo, uma entidade que lhe transmitiu o Liber Al vel Legis – ‘ O Livro da Lei de Thelema ‘ – ou apenas Liber Oz, como passaria a ser conhecida sua primeira e mais importante obra de cunho místico.

Ressaltamos para os menos esclarecidos que Liber AL e Liber Oz são livros distintos dentro da bibliografia thelêmica, sendo o primeiro o mais sagrado dividido em três capítulos atribuídos a três Deuses egípcios: Nuit, Hadit e Ra-Hoor-Khuit e o segundo sendo um livro de apenas uma página, destinado a falar sobre os parâmetros de liberdade absoluta oferecida ao ser humano, frequentemente lido por Raul Seixas quando em execução da música Sociedade Alternativa.

Ainda na página 285, e também em outros trechos, refere-se a OTO como seita, termo pejorativo usado frequentemente por adeptos do cristianismo para denegrir instituições outras que não pertençam a seu corpo doutrinário:

Em 1912 Crowley ingressa na seita Ordo Templi Orientis, uma organização de cunho maçônico, místico e mágico, da qual logo se tornaria o cabeça e principal teórico.  

E afirma que Paulo teria entrado na OTO quando o que nos é apresentado, é a carta de juramento do grau de Probacionista da A.’. A.’., datada de 19 de maio de 1974 da Era Comum, assinada com o moto de Frater Luz Eterna, ou simplesmente 313. Confusão típica de principiantes que acham que OTO e A.’. A.’. são uma mesma Ordem.

De sua parte, Coelho não fica pra trás, e apresenta um estranhíssimo ritual com Espada de São Jorge que atribui a Thelema, onde de ‘arma’ em punho, traçava os quadrantes com evocações específicas, partia a planta em onze pedaços, fervia e tomava um banho a meia noite com o líquido extraído, e após quase duas horas de ritual, conclui em seu diário que 'alguma coisa me leva a crer que o Demônio realmente existe.' 299

Não obstante, fala sobre o Ritual Menor do Pentagrama a que o autor se refere erroneamente como Ritual do Pentagrama Menor, numa versão inexistente tanto na A.’. A.’. quanto na Golden Dawn, Ordem na qual este ritual foi primeiramente apresentado, onde em sua bizarrice diz que o mesmo é uma

mandinga que consistia em estender no chão um lençol branco, sobre o qual pintava em verde uma estrela de cinco pontas. O desenho era cercado por um fio de barbante embebido em enxofre, com o qual Paulo desenhava o símbolo de Marte. Apagadas as luzes, uma única lâmpada era pendurada no teto, bem no centro do pentagrama, de forma a simular uma coluna de luz. Com uma espada na mão, inteiramente nu e voltado para o sul, ele pisava no centro do lençol, fazia o ‘asana do Dragão’ – posição, na ioga, em que a pessoa se acocora no chão – e passava a dar saltos para cima, como um sapo, enquanto repetia em voz alta invocações ao Demônio. 299

A terminologia tendenciosa, as confusões sobre as Ordens, e os rituais sem fundamento chocam os minimamente entendidos em assuntos ocultistas, mas em especial a Thelemitas e conhecedores desta fé. 
O selo da Ordo Templi Orientis,
ou simplesmente O.T.O


Sendo assim, nos resta a questão sobre quem afinal de contas culpar? O biógrafo que por sua notável ignorância em assuntos esotéricos se utiliza de um linguajar limitado e maniqueísta ao confundir a Ordo Templi Orientis com a A.’. A.’., ou associar Thelema com Satanismo, o que inegavelmente denuncia algumas falhas técnicas em seu trabalho de pesquisa e imparcialidade esperada em sua função jornalística. Motta e Euclydes que talvez tenham instruído pessimamente ao Frater Luz Eterna. Ou o próprio Paulo Coelho, que de forma ignorante, tendenciosa e ingrata permitiu que todos estes erros e incongruências fossem publicados sem as devidas correções, comentários ou notas de rodapé. O livro infelizmente não nos dá informações suficientes para responder estas perguntas.

Sua passagem pela religião de Aleister Crowley seria efêmera e contrastaria com a ideia de seu moto; após um ordálio onde se viu totalmente impotente, quando encontrava-se em sua casa e sentiu o cheiro de velas, tonturas, barulhos assustadores e ver seu apartamento tomado por uma bruma escura, no ápice de seu desespero e covardia, renunciou as suas ligações com aquilo que ele acreditava ser Thelema e bandeou-se de volta para o Cristianismo...religião a qual dedicaria sua fé de forma permanente. Anos passariam, tantas outras coisas aconteceriam, e após muito tempo de súplicas e promessas, finalmente veria conquistado o seu sonho de se tornar um dos escritores mais importantes do mundo.


Apesar do grande número de páginas, este é sem dúvidas um título cativante, que provavelmente te fará lê-lo de forma rápida e interessada. A história deste escritor contada por Morais é sem dúvidas proveitosa, a tal ponto que apesar de tantos relatos e vivências, a impressão que nos dá é que um tanto de outras deixaram de ser contadas. Longe de este ser um aspecto negativo desta biografia, é bem provável que apesar de terminar por duvidar do caráter de Paulo para conquistar seus objetivos, e da aparente ignorância de biógrafo e biografado sobre muitos aspectos apresentados que deveriam ser considerados importantes para um magista, para si uma conclusão é certa: o sucesso foi sua prova! 


Despidas as ilusões do 'super herói' ético e sábio, para nós talvez fosse melhor que o título se chamasse o Mágico, pois tal qual um exímio prestidigitador que com suas mãos habilidosas ilude o grande público com truques disfarçados de magia, aqui é o Coelho quem faz o mago sair da cartola.

por Allan Trindade


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