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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


Há cerca de um ano atrás publicamos pela primeira vez uma resenha falando sobre o Livro de São Cipriano. Nossos canais - blog e youtube - ainda tinham pouquíssimos inscritos e os acessos também não eram tão consideráveis em termos numéricos. Perfeitamente entendível uma vez que o tema ocultismo - tratado como estudo e não como entretenimento - não seja o preferido da maioria da população e que religião costume ser referida por muitos como algo que simplesmente não se discute. Entretanto, ao trazer a público as análises sobre os escritos atribuídos ao famigerado Bruxo Mais Poderoso de Todos os Tempos, vimos um exponencial e inesperado crescimento. Em poucas semanas dezenas de acessos se tornaram centenas, centenas se transformaram em milhares, e hoje já passamos da marca de oitenta mil acessos. Nos surpreendemos.

Nos surpreendemos pois não esperávamos uma aceitação positiva sobre um personagem que mexe tanto com o imaginário e religiosidade popular. Não esperávamos que uma análise crítica, uma resenha, que questiona não apenas a autoria dos livros atribuídos ao Santo Bruxo, como a própria existência de São Cipriano, fosse ser tão bem recebida pela maioria. Desde então, foram várias as mensagens com elogios e agradecimentos pelo trabalho apresentado, as quais só temos, igualmente, a agradecer. Entretanto, muitas também foram as dúvidas, como por exemplo,  sobre como confiar então nos livros existentes atribuídos a figura deste bruxo, ou ainda qual seria o livro verdadeiro, e no que, ou em quais, poderiam acreditar ?

Pensávamos não haver uma pesquisa objetiva que pudesse nos tirar do campo da especulação e que mostrasse se de fato São Cipriano fora real ou não. Pensávamos que não haveria como responder se existem fontes primárias, reunidas por algum pesquisador sério, que atestem ou contestem os textos modernos destes grimórios. Pensávamos que ninguém tinha se dedicado a apresentar ao grande público uma análise comparativa e aprofundada sobre a história e os feitiços do Bruxo mais popular do Brasil e de Portugal. Pensávamos, mas para nossa grata surpresa, estávamos enganados.

THESAURUS MAGICUS II é um livro escrito por Humberto Maggi, publicado pelo Clube de Autores no ano de 2016, com 625 páginas divididas em 10 capítulos.

Este título é uma espécie de antologia, ou seja, uma organização de diversos escritos atribuídos a figura de São Cipriano, reunidos aqui com um objetivo duplo: servir ao pesquisador que tenha interesse em analisar diferentes capítulos dos livros do Bruxo, ou ao praticante que tenha dúvidas sobre a completude estrutural de algum ritual ou texto específico.

Em seu prefácio, chamado São Cipriano, o Escrivão do Diabo, Nicholaj de Mattos Frisvold se ocupa em fazer um apanhado geral sobre a história do Feiticeiro, possíveis relações com a Quimbanda e os diversos grimórios atribuídos a ele em cerca de 500 anos de fatos e lendas. Em seguida, Felix Vicente fala sobre a figura do Santo, o surgimento dos livros e sua relação com o autor desta obra, num resumo histórico e impecável que por si só já valeria a leitura. 

Em seguida, Humberto Maggi fala dos primeiros contatos que teve com os livros de Cipriano, sua decepção com o conteúdo dos mesmos, e o reacendimento do interesse por todo este contexto em 2008, graças aos questionamentos de uma amiga. Em toda esta primeira parte do livro, o autor se dedica a explicar as razões para a existência dos diversos grimórios atribuídos ao Santo, além de apresentar exemplos comparativos com outros livros que podem ter influenciado a existência destes  e análises sobre processos inquisitórios nos quais o livro fora citado. 

Sobre sua organização, Maggi nos explica que 


As partes centrais desta edição vem da versão Portuguesa publicada pela Livraria Econômica e das versões Espanholas do Heptameron, Sufurino e das seções originais do livro de Enediel Shaiah. A essas, muitos textos, trechos, capítulos, feitiços, invocações, etc. associados na tradição mágica ao nome de São Cipriano foram adicionados. A intenção é prover o leitor com uma vasta e significativa coleção de materiais diversos diretamente relacionados à Magia Ciprianica.

Eu organizei o material de acordo com o assunto contido em cada texto. Isto significa, ao invés de simplesmente copiar os livros originais por inteiro, eu dividi seus conteúdos em seções separadas. 


Sendo assim, as seções organizadas pelo autor dividem-se em:


A Origem do Livro 
onde apresenta uma seleção de lendas diversas atribuídas ao seu surgimento.

Vita Cypriani 
onde estão incluídos os contos sobre a vida do Bruxo.

A Arte Mágica 
com instruções sobre rituais: locais mais apropriados para executá-los, qualidades essenciais para o êxito nos feitiços e Armas mágicas.

Talismãs e Amuletos 
com funções e como produzir estes objetos.

O Livro dos Espíritos 
apresentando listas de hierarquias celestes, infernais e elementais, além de conceitos filosóficos sobre estes.

As Preces de São Cipriano 
com orações para as horas, santos, doentes, incluindo aqui a Cabra Preta. 

Os Exorcismos 
com orações e rezas dedicadas a esta prática, além de explicações e listas sobre demônios e almas e as razões para Deus permitir sua ação sobre os viventes.

Tesouros Mágicos 
sobre o uso de forquilhas e varinhas e onde reúne as listas de supostos tesouros enterrados em certos locais do contexto ibérico.

Segredos Mágicos 
onde apresenta receitas e fórmulas de feitiços, para os fins mais diversos, contendo a clássica característica existente em praticamente todas as edições destes livros: a forte presença de sacrifícios de animais.


Através desta organização, nos parece claro para o leitor interessado, que esta obra atende aos anseios de todos aqueles que justamente buscam pelo livro original. Aqui, livros de diferentes épocas e origens estão reunidos e organizados num ótimo tomo, separados por capítulos em comum, que facilitarão o estudo e responderão as clássicas perguntas sobre as verdades e as mentiras envolvendo a vida, a morte e os feitos do Bruxo. 

É leitura obrigatória sobre o tema para qualquer um verdadeiramente empenhado em saber sobre os detalhes históricos da criação deste Cipriano tão conhecido em terras latinas, já que desmistifica as crendices populares, apresentando as razões para o argumento de que muitas destas histórias não passam de lendas, e todo conteúdo possível para provar isto, sem entretanto ser um livro apenas teórico. Em sua primeira parte são apresentados os argumentos científicos, em sua segunda parte estão reunidos os textos tradicionais, atendendo tanto ao leigo, interessado apenas na prática, quanto ao pesquisador, inclinado ao conhecimento. Duvidamos que haja trabalho mais completo que este publicado até a presente data.

Este livro, Thesaurus Magicus II, grande no número de páginas e profundo em seu conteúdo, desbanca o senso comum e não deixa dúvidas de que aqui tamanho é documento!

domingo, 8 de outubro de 2017


A Maçonaria, reconhecidamente uma das Ordens mais antigas ainda em atividade nos tempos modernos, tem um longo histórico de influência no mundo ocidental. Responsável pela formação de países,  influenciadora de ideais libertários e ações revolucionárias, carrega em seu peito o orgulho de ser amada por seus membros, e em suas costas o peso de ser odiada por seus perseguidores.

Costumeiramente associada de forma autômata ao conceito de sociedade secreta, tem se apresentado ao vulgo como uma Ordem discreta, uma vez que o mundo tenha plena ciência de sua existência, e que não mais faça uso do silêncio para garantir sua sobrevivência.

Em seu contexto medieval, fora centro de formação para os construtores que, através de mãos extremamente habilidosas e espírito devocional,  edificaram prédios grandiosos e imponentes catedrais, em muitos casos, ocultando entre suas colunas os símbolos e mensagens esotéricas, responsáveis pela perpetuação do conhecimento velado adquirido em algum momento misterioso de sua história.

Entretanto, o passar dos anos e as mudanças naturais aos quais todos estamos submetidos parece ter afastado muitos de seus membros modernos à busca por todos aqueles elementos e registros fantásticos que, mesmo quando encenados através de seus rituais de iniciação, parecem não convencer grande parte de seus aprendizes.

Os tempos passam e as coisas mudam. Nos dias de hoje, muitos são os maçons que encontram em suas Lojas um espaço para confraternizar com seus iguais, e dedicar parte de sua obra e investimento a caridade, usando como ferramenta a filantropia, com o objetivo único de construir um mundo melhor. Para muitos, esta é a função que lhes cabe e lhes basta. Mas existem aqueles que não satisfeitos com o cenário atual, querem escavar fundo e descobrir os poderes invisíveis que, mesmo após tantos séculos de calúnias e intempéries, ainda fazem com que tudo permaneça justo e perfeito.

A CHAVE DE SALOMÃO é um livro escrito por Lon Milo DuQuette, publicado no Brasil pela editora Pesamento no ano de 2009, com 159 páginas, divididas em duas partes.

DuQuette ocupa-se inicialmente em relatar ao leitor sua relação com a Maçonaria e descrever um pouco de sua biografia. Segundo nos conta, desde a infância fora influenciado por seu pai - um maçom que ostentava orgulhosamente diversos títulos  - a estar próximo da Fraternidade. Por ser jovem demais para os processos de admissão, fora primeiramente encaminhado para a Ordem Demolay, local onde iniciaria e desenvolveria seu fascínio por todo este contexto. Portanto, é preciso que se entenda que este livro, apesar de não ser um título oficial da Ordem, é escrito por um alguém que pertence a ela.

Sendo assim, é importante que o leitor iniciante tenha em mente que muitas das histórias contadas sobre o que seja a Maçonaria e o que fazem seus membros, quando ditas por pessoas que não pertencem a ela, podem não estar em par com a realidade. Por um outro lado, se você busca um livro introdutório sobre o tema e que, de forma imparcial lhe dará uma visão sensata sobre o contexto maçônico, sem fantasias ou proselitismo, talvez este seja o título que você busque. Isto porque à continuidade de seus capítulos, Lon nos fala sobre as origens históricas da Maçonaria, ou seja, aquelas que de fato podem ser comprovadas através de documentos, e sobre aqueles aspectos tradicionais, que podem não ter qualquer relação com a realidade.

Sim, muitas são as sociedades secretas que se apoiam em mitologias religiosas para fundamentarem seus ritos, e a Maçonaria não foge a esta regra. Segundo o autor, as diversas referências e representações ritualísticas, que de uma forma geral ilustram histórias bíblicas, são uma mostra de que o espírito religioso - mais contemplativo - em oposição ao espírito esotérico - mais investigativo - ainda preenche e dita o comportamento da maioria dos homens de avental. A argumentação de DuQuette reside portanto sobre dois pontos: primeiro, que os maçons tem demonstrado pouco interesse na investigação científica e as verdadeiras origens de suas cerimônias, e que com isso, naturalmente, podem desconhecer muito do sentido de seus próprios ensinamentos; e segundo, que talvez muitos de seus segredos recaiam, mesmo que de forma subliminar, sobre os recônditos misteriosos da magia.

Para explorar e aprofundar suas especulações, Lon conduz o leitor a uma série de questionamentos com base em elementos bíblicos e históricos. De acordo com ele, a Maçonaria apoia sua divisão de graus sobre o mito de Salomão, filho do rei Davi, e a construção de seu suntuoso templo. Faz comparativos com os relatos destas histórias contidas no Antigo Testamento e n'As Mil e Uma Noites, destacando o quanto Salomão é, neste caso,  retratado como um poderoso mago que lançara mão de sortilégios e espíritos diversos para erigir seu santuário, em oposição aquele Salomão descrito na Bíblia, retratado de forma mais modesta em seus feitos. Mas deixa claro que estas histórias são pura mitologia, uma vez que não hajam provas arqueológicas de nenhum dos elementos citados.

Saltando para um cotexto mais recente, destaca a existência dos Templários,  seu fascínio por sua história e possíveis lendas atribuídas a eles. E também alega que, apesar das diversas especulações, não existem fatos reais que liguem a Maçonaria com a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo.

DuQuette é ousado e sua bagunça argumentativa sugere, dentre outras coisas, que: se muitos dos personagens contidos na Bíblia forem fruto da invencionice e criatividade humana, e ainda que, se a Ordem Templária fora criada para encontrar um suposto tesouro de um Templo de Salomão que nunca existiu, tudo então não passaria de uma grande mentira mantida em silêncio para evitar um cataclisma no mundo medieval. Sendo assim, talvez os conflitos existentes entre os Cavaleiros do Templo e a Igreja Católica, sejam fruto da necessidade do encobrimento desta verdade;  a posse deste segredo faria com que os Templários fossem uma ameaça para a Igreja, pondo-a em risco de perder sua credibilidade histórica, não deixando alternativa se não a de ter de destruí-los completamente. 

Nesta primeira parte do livro, seu autor faz com que seus capítulos oscilem entre os tempos modernos e o passado, comparando comportamentos e ideias que se tem hoje, com prováveis ou improváveis elementos que se tinham em outras eras, fazendo com que o leitor use de seu senso crítico, mais do que a crença, para acompanhá-lo nesta viajem.

Em sua segunda parte, chamada A Magia de Salomão, trata exclusivamente de Goétia e diz que apesar da aparente incongruência desta seção para com aquela que a antecede, espera que o legente entenda as razões para tratar deste assunto aqui, ou terá falhado em seus objetivos de 'despertar o Salomão arquetípico na mente do leitor.'.

Lon é por vezes subjetivo e parece querer que aquele que o lê chegue as suas próprias conclusões baseados em suas sugestões. Ao que nos parece, a condução de toda a primeira parte serve para dizer que apesar dos mistérios e das lendas envolvendo grande parte destes elementos históricos, a influência mental que eles ativam na psique dos envolvidos é forte o suficiente para causar transformações. Ora, se a religião e o mito tem o poder de mover pessoas, Ordens e nações através de suas sugestões psicológicas, o que dizer da mágicka? Sendo assim, não há que se duvidar da eficácia da magia e portanto, por que não fazer uso dela?

Baseado nesta ideia, elenca sete perguntas que um alguém cético, ou ainda que nunca tivera envolvimento com a magia cerimonial, poderia fazer. Faz-se importante frisar aqui que DuQuette preocupa-se em dar explicações psicologistas, e não tradicionais, que poderiam ser toscamente resumidas por: faça, se der certo, maravilha, se não, você não tem nada a perder! Por fim, traz todos os elementos necessários para a prática da Goetia e sua lista de 72 demônios com seus selos e descrições.

Este é um livro básico, que oscila entre especulações sobre  Templários, segredos, magia, filosofia, história e o discurso maçônico, atrelados as lendas, crenças religiosas e populares. Seu amarrado é um tanto confuso e muitas das promessas de revelações de segredos feitas, são respondidas com o clássico 'é preciso ter olhos para ver.'.

É especialmente voltado para aqueles que já saíram do jardim de infância das teorias conspiracionistas mas que ainda não chegaram as escadarias acadêmicas. De qualquer forma, vale a leitura.

por Allan Trindade

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