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domingo, 22 de março de 2020

Magia divina e sagrada revelada por Deus a Moisés, Aarão e Davi, Salomão e outros santos, patriarcas e profetas para ensinar-lhes a verdadeira Sapiência Divina, que foi transmitida por Abraham, filho de Simão, ao seu filho Lamek, e cujo texto original em hebreu foi traduzido em Veneza, no ano de 1458.

pg. 9

A MAGIA SAGRADA DE ABRAMELIN é um livro escrito por Abraão, o Judeu, com 215 páginas, divididas em três livros internos e foi publicado no ano de 2007 pela Madras Editora.


Eis um dos grandes clássicos literários para o ocultismo moderno. Este livro que influenciou indivíduos importantes como Samuel Mathers - principal expoente da Golden Dawn - e Aleister Crowley - desenvolvedor da religião conhecida como Thelema - é peça fundamental para o entendimento do fundamento das doutrinas acima citadas. Mas o que há de tão importante nesse livro? Importância é um valor muito pessoal e pessoas distintas podem não necessariamente concordar sobre a utilidade do mesmo. Porém, para todo estudante sério de ocultismo, faz-se indispensável conhecer e saber o que objetiva esta obra: fornecer um método de contato do magista para com seu Sagrado Anjo Guardião. 



Diferentemente de muitos grimórios contemporâneos, como aqueles das Clavículas de Salomão, que embora tragam uma fundamentação e fórmulas até mesmo semelhantes as encontradas nesta obra, o diferencial d'A Magia Sagrada de Abramelin reside no fato de além de prescrever fórmulas mágicas para a obtenção dos mais diversos  fins, desde o enfeitiçamento de pessoas, passando por excentricidades como quadrados mágicos para destruir edificações e licantropia, todos as fórmulas aqui contidas, segundo este sistema, só são passíveis de serem conquistadas a partir do contato e liberação de seu próprio anjo. 


O livro começa com seu autor, Abraão, alertando sobre os poderes contidos neste grimório. Ele o escrevera para seu filho, chamado Lameck, e espera que o mesmo conceba que todo o conhecimento aqui disposto deva ser tratado com a máxima cautela e respeito a Deus, vide que toda sabedoria aqui é divina e não deve jamais ser permitida que caia nas mãos de feiticeiros inescrupulosos. Segundo Abraão, todo este trabalho é fruto de uma longa jornada em busca de um conhecimento verdadeiro, iniciada após seus vários anos de aprendizado de Cabala com seu pai, um rabino, aprendizado este que fora interrompido em função de sua morte. Empenhado em saber ainda mais sobre os Conhecimentos Santos, viajou por toda Europa e África junto de seu amigo, Samuel, até sua morte, dois anos após o início em 1397.

Desolado e pensando em desistir, foi no Egito que conheceu Aarão, que lhe falou sobre um ancião que vivia no deserto, chamado Abramelin. Encontrando-o falou sobre seu interesse em aprender a Magia Sagrada, ao passo que este lhe pediu 10 florins de ouro para dar como esmola, que jejuasse por três dias, recitasse os salmos e copiasse a mão dois livros, sob a promessa de fazer o bem e ser obediente a Deus. Feito isto, voltou para casa disposto a por os conhecimentos recebidos em prática. Superando as tribulações que encontrara para a consecução, desde coisas simples como contendas em seu  casamento, até elementos mais complexos como a resistência frente as tentações demoníacas, recebera, após meses de dedicação com jejuns, purificações e orações diárias, a visita de seu anjo por três dias. E foi a partir de então que alcançou a graça de curar 1413 pessoas, recebeu montantes de dinheiro e teve a possibilidade de presentear reis com espíritos familiares. 

Tudo isto nos conta Abraão, sempre envolto em uma aura de extrema advertência e reticência: " tenha consciência dos perigos desta empresa. Seja temente a Deus. Resista as tentações do demônio. Não entregue este livro para feiticeiros e pessoas sem caráter. Não acredite na tolice dos astrólogos que creem nas influências dos astros, nem tampouco em suas tabelas de horários. Seja asseado, mantenha a mente em oração durante todo o tempo, cuide de seu altar, evoque Deus e seu Anjo. "

O autor ainda nos alerta sobre a necessidade de saber distinguir a verdadeira da falsa magia perpetrada nos tempos modernos. Faz-se necessário destacar aqui que este é um grimório teúrgico, de forte influência judaico-cabalística, que considera que apenas esta fórmula é segura, verdadeira e abençoada por Deus para ser praticada. Segundo Abraão, todos os outros livros que contenham coisas como círculo de proteção, ou apelo a questões planetárias, são enganadores, diabólicos ou uma fusão de ambos.

O objetivo aqui é simples: entrar em contato com seu anjo. O método é complexo: isolar-se de tudo e todos por um período de cerca de seis meses dedicando-se exclusivamente a esta finalidade, com rituais de evocação diários, purificação e oração. A consecução consiste em: uma vez recebida a visita do anjo, o mesmo lhe instruirá sobre como proceder em relação aos demônios que vivem na Terra de modo a subjugá-los para que te sirvam em seus objetivos mágicos. 

Levando em consideração que Deus e os Anjos pertencem a escalas superiores de manifestação espiritual, cabe ao magista rogar a autorização destes para controlar os demônios que aqui já vivem. Sem este contato e autorização divina, qualquer ato mágico é considerado como sendo um ato ilusório e diabólico, que tem grandes chances de condenar o magista e aqueles que creem em seus feitiços, fazendo-os sucumbir como marionetes nas mãos destes seres infernais.

Dividido em três livros internos, A Magia Sagrada de Abramelin começa contando a autobiografia do autor, passa pela segunda parte onde argumenta quais são as formas legítimas de magia e o porque deste ser o único grimório confiável, explica os procedimentos a serem seguidos para a comunicação com o anjo, sendo finalizado então por uma série de listas de nomes e hierarquias demoníacas, além de diversos quadrados mágicos a serem usados pelo magista para os mais diversos fins.

Embora seja extremamente repetitivo e proselitista em proporções quase iguais, o pouco que sobra torna esta obra obrigatória em qualquer biblioteca de ocultismo que se preze, não necessariamente pelo seu conteúdo, mas certamente por seu valor histórico.

por Allan Trindade




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sexta-feira, 23 de março de 2018

- Oi, Allan! Gostaria de tirar uma dúvida com você sobre pantáculos...
- Olá, ...! Sobre qual sistema estamos falando?
- Salomônico. É que eu fiz um pantáculo para...e não obtive resultado nenhum.
- Entendi. Fez em papel ou em metal?
- Papel mesmo.
- Exorcizou e consagrou suas Armas?
- Basicamente, do meu jeito.
- Fez no dia apropriado?
- Não.
- Na hora apropriada?
- Não sei.
- Então deixa eu ver se entendi. Você simplesmente desenhou um pantáculo num papel, com uma caneta profana, num dia qualquer, sem nem saber que horas fez, e presumo eu, sem nenhum dos exorcismos e evocações que mandam a Tradição e quer, mesmo sem ter seguido nada da forma correta, que a coisa funcione?
- Mas é que me disseram que é tudo uma questão mental, que o que vale é a intenção...
- Te disseram, você acreditou e olha que engraçado, não funcionou! Eu lhe recomendo procurar uma igreja, pois o que você está querendo com a sua "questão mental e pensamento positivo" não é magia, o que você quer na verdade é um milagre e milagre, meu caro, é uma outra jurisdição!

A CLAVÍCULA DE SALOMÃO é um livro organizado por Samuel Lidell Mathers, com 287 páginas, divididas em dois livros internos, publicado no ano de 2015 , pela editora Chave.

A tradição de grimórios mágicos oriundos da Idade Média carrega consigo uma característica comum: a falta de uma autoria precisa e exata. Embora tais títulos costumeiramente carreguem nomes de personalidades famosas em seus cabeçalhos, oriundas, de uma forma geral, de textos sagrados no qual se apoiam e definem muito das características de suas práticas internas, tais personas podem nunca terem de fato escrito tais livros, em verdade, tais indivíduos podem nunca ter existido.

Salomão é apenas mais um destes exemplos. Por seu histórico literário de relação com mulheres e práticas pagãs, um dos mais famosos reis do Judaísmo tem sido usado de forma mais ou menos frequente em tempos antigos, e até os dias de hoje, para justificar e fundamentar certas práticas mágicas. Segundo o mito, Salomão teria recebido tais ensinamentos através de um anjo, os transmitira a seu filho Roboão, e a partir deste contexto, tais textos teriam chegado até as nossas mãos. Fato é que os escritos mais antigos conhecidos datam de períodos do século XIV ao XVI, data bem mais recente que aquela que teria reinado o filho de Davi, que supostamente vivera no século X a.e.c.

A este legado, e seus diversos grimórios e pergaminhos, damos o nome de Tradição Salomônica, enquanto que para sua magia, chamamo-no-nas de Magia Salomônica. Toda esta conjuntura agrega em si elementos de cunho essencialmente mágico, porém, com uma forte influência religiosa baseada no Cristianismo e Judaísmo, além de pagã e notáveis elementos oriundos da bruxaria. Coube a Samuel Mathers, proeminente magista do século XIX e uma das vanguardas da história moderna do ocultismo, a função de reunir em uma única edição os diversos manuscritos existentes no British Museum, atribuídos ao monarca judeu e oferecê-los ao grande público. Sendo esta então a referida edição deste trabalho, assinado por ele em 1888, mesma data em que junto a Woodman e Westcott fundara a Golden Dawn.

Em seu prefácio, Samuel destaca a inovação desta publicação para os padrões da época, que falhavam em apresentar uma compilação integral e corrigida de tais textos, uma vez que muitos deles continham erros nas transcrições em hebraico. Sobre o mal entendimento de algumas pessoas ao confundirem o Grimorium Verum e a Clavícula Ridolta com estas atribuídas a Salomão, e salienta que não são, uma vez que aquelas sejam magia negra. Que omitira alguns ritos em função de sua malignidade e uso de sangue, e que o Lemegeton, aquele onde se encontram os demônios da Goetia, não está aqui. Faz-se necessário lembrar que Mathers era essencialmente um teurgista, que cria na magia em sua função mística para o desenvolvimento espiritual do homem.

Dadas as devidas introduções de editores, listas de gravuras e histórias mitológicas, já comentadas por nós em parágrafos anteriores, chegamos ao Livro I. É aqui que o leitor encontrará toda uma série de instruções sobre a necessidade de se crer em Deus para a consecução, tabelas sobre os dias e horas planetárias indicadas para cada tipo de trabalho, diversas orações com exortações e referências bíblicas para que os espíritos se manifestem no ritual, imagens dos pantáculos planetários e como fazê-los, além de alguns rituais com objetivos medievais, tais como: frustrar a caça de outrem, percorrer grandes distâncias sem cansaço, encontrar tesouros enterrados e desencantá-los, dentre outros.

No Livro II traz uma nota prefacial onde sugere que é preciso ser um Mestre da Arte para obter êxito nestes experimentos e que é preciso defender este livro dos incautos. Novamente sobre dias e horas, a aparência dos espíritos, locais apropriados, jejuns, orações, exorcismos, sacrifícios animais, vestimentas, armas, banhos e companheiros para os rituais. Aqui estão reunidos os aspectos preparatórios do magista para o cumprimento dos rituais expostos no Livro I.

O livro se encerra com um apêndice, indicado como sendo um Fragmento Ancestral da Clavícula de Salomão, Traduzido do Hebraico por Eliphas Lévi, presente em seu Philosophie Occulte, serie II, onde fala sobre Cabala e relaciona as sephirot com as qliphot e seus anjos. Uma invocação cabalística de Salomão e uma tabela com alfabetos místicos.

Este é um livro histórico. Traz notas de rodapé dos vários envolvidos que enriquecem ainda mais o conteúdo apresentado e deixam claro o quão rica e complexa a Magia Salomônica em essência é. Possui um ótimo acabamento, diagramação clara, capa dura e folhas de alta qualidade que certamente tornam esta edição própria até mesmo para ser usada dentro de um ritual. Simplesmente obrigatório.

por Allan Trindade


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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


Há cerca de um ano atrás publicamos pela primeira vez uma resenha falando sobre o Livro de São Cipriano. Nossos canais - blog e youtube - ainda tinham pouquíssimos inscritos e os acessos também não eram tão consideráveis em termos numéricos. Perfeitamente entendível uma vez que o tema ocultismo - tratado como estudo e não como entretenimento - não seja o preferido da maioria da população e que religião costume ser referida por muitos como algo que simplesmente não se discute. Entretanto, ao trazer a público as análises sobre os escritos atribuídos ao famigerado Bruxo Mais Poderoso de Todos os Tempos, vimos um exponencial e inesperado crescimento. Em poucas semanas dezenas de acessos se tornaram centenas, centenas se transformaram em milhares, e hoje já passamos da marca de oitenta mil acessos. Nos surpreendemos.

Nos surpreendemos pois não esperávamos uma aceitação positiva sobre um personagem que mexe tanto com o imaginário e religiosidade popular. Não esperávamos que uma análise crítica, uma resenha, que questiona não apenas a autoria dos livros atribuídos ao Santo Bruxo, como a própria existência de São Cipriano, fosse ser tão bem recebida pela maioria. Desde então, foram várias as mensagens com elogios e agradecimentos pelo trabalho apresentado, as quais só temos, igualmente, a agradecer. Entretanto, muitas também foram as dúvidas, como por exemplo,  sobre como confiar então nos livros existentes atribuídos a figura deste bruxo, ou ainda qual seria o livro verdadeiro, e no que, ou em quais, poderiam acreditar ?

Pensávamos não haver uma pesquisa objetiva que pudesse nos tirar do campo da especulação e que mostrasse se de fato São Cipriano fora real ou não. Pensávamos que não haveria como responder se existem fontes primárias, reunidas por algum pesquisador sério, que atestem ou contestem os textos modernos destes grimórios. Pensávamos que ninguém tinha se dedicado a apresentar ao grande público uma análise comparativa e aprofundada sobre a história e os feitiços do Bruxo mais popular do Brasil e de Portugal. Pensávamos, mas para nossa grata surpresa, estávamos enganados.

THESAURUS MAGICUS II é um livro escrito por Humberto Maggi, publicado pelo Clube de Autores no ano de 2016, com 625 páginas divididas em 10 capítulos.

Este título é uma espécie de antologia, ou seja, uma organização de diversos escritos atribuídos a figura de São Cipriano, reunidos aqui com um objetivo duplo: servir ao pesquisador que tenha interesse em analisar diferentes capítulos dos livros do Bruxo, ou ao praticante que tenha dúvidas sobre a completude estrutural de algum ritual ou texto específico.

Em seu prefácio, chamado São Cipriano, o Escrivão do Diabo, Nicholaj de Mattos Frisvold se ocupa em fazer um apanhado geral sobre a história do Feiticeiro, possíveis relações com a Quimbanda e os diversos grimórios atribuídos a ele em cerca de 500 anos de fatos e lendas. Em seguida, Felix Vicente fala sobre a figura do Santo, o surgimento dos livros e sua relação com o autor desta obra, num resumo histórico e impecável que por si só já valeria a leitura. 

Em seguida, Humberto Maggi fala dos primeiros contatos que teve com os livros de Cipriano, sua decepção com o conteúdo dos mesmos, e o reacendimento do interesse por todo este contexto em 2008, graças aos questionamentos de uma amiga. Em toda esta primeira parte do livro, o autor se dedica a explicar as razões para a existência dos diversos grimórios atribuídos ao Santo, além de apresentar exemplos comparativos com outros livros que podem ter influenciado a existência destes  e análises sobre processos inquisitórios nos quais o livro fora citado. 

Sobre sua organização, Maggi nos explica que 


As partes centrais desta edição vem da versão Portuguesa publicada pela Livraria Econômica e das versões Espanholas do Heptameron, Sufurino e das seções originais do livro de Enediel Shaiah. A essas, muitos textos, trechos, capítulos, feitiços, invocações, etc. associados na tradição mágica ao nome de São Cipriano foram adicionados. A intenção é prover o leitor com uma vasta e significativa coleção de materiais diversos diretamente relacionados à Magia Ciprianica.

Eu organizei o material de acordo com o assunto contido em cada texto. Isto significa, ao invés de simplesmente copiar os livros originais por inteiro, eu dividi seus conteúdos em seções separadas. 


Sendo assim, as seções organizadas pelo autor dividem-se em:


A Origem do Livro 
onde apresenta uma seleção de lendas diversas atribuídas ao seu surgimento.

Vita Cypriani 
onde estão incluídos os contos sobre a vida do Bruxo.

A Arte Mágica 
com instruções sobre rituais: locais mais apropriados para executá-los, qualidades essenciais para o êxito nos feitiços e Armas mágicas.

Talismãs e Amuletos 
com funções e como produzir estes objetos.

O Livro dos Espíritos 
apresentando listas de hierarquias celestes, infernais e elementais, além de conceitos filosóficos sobre estes.

As Preces de São Cipriano 
com orações para as horas, santos, doentes, incluindo aqui a Cabra Preta. 

Os Exorcismos 
com orações e rezas dedicadas a esta prática, além de explicações e listas sobre demônios e almas e as razões para Deus permitir sua ação sobre os viventes.

Tesouros Mágicos 
sobre o uso de forquilhas e varinhas e onde reúne as listas de supostos tesouros enterrados em certos locais do contexto ibérico.

Segredos Mágicos 
onde apresenta receitas e fórmulas de feitiços, para os fins mais diversos, contendo a clássica característica existente em praticamente todas as edições destes livros: a forte presença de sacrifícios de animais.


Através desta organização, nos parece claro para o leitor interessado, que esta obra atende aos anseios de todos aqueles que justamente buscam pelo livro original. Aqui, livros de diferentes épocas e origens estão reunidos e organizados num ótimo tomo, separados por capítulos em comum, que facilitarão o estudo e responderão as clássicas perguntas sobre as verdades e as mentiras envolvendo a vida, a morte e os feitos do Bruxo. 

É leitura obrigatória sobre o tema para qualquer um verdadeiramente empenhado em saber sobre os detalhes históricos da criação deste Cipriano tão conhecido em terras latinas, já que desmistifica as crendices populares, apresentando as razões para o argumento de que muitas destas histórias não passam de lendas, e todo conteúdo possível para provar isto, sem entretanto ser um livro apenas teórico. Em sua primeira parte são apresentados os argumentos científicos, em sua segunda parte estão reunidos os textos tradicionais, atendendo tanto ao leigo, interessado apenas na prática, quanto ao pesquisador, inclinado ao conhecimento. Duvidamos que haja trabalho mais completo que este publicado até a presente data.

Este livro, Thesaurus Magicus II, grande no número de páginas e profundo em seu conteúdo, desbanca o senso comum e não deixa dúvidas de que aqui tamanho é documento!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

- Que capa bonita! Comprou? Que livro é esse?
- São Cipriano, te disse que ia comprar.
- Nossa! Não vou nem abrir!
- Por quê?
- Dizem que se abrir tem que ler até o final...

O primeiro contato que tive com esse livro foi há muitos anos atrás. Uma cópia velha e maltrapilha que uma amiga havia me emprestado. Já naquele tempo o alerta havia sido dado: "Este livro é muito perigoso! Não é bom deixar ele em casa! Estou te emprestando mas nem deveria! Cuidado com a oração da Cabra Preta!" Tantas exclamações até me impressionaram na época: eu, um adolescente recém saído das amarras do Cristianismo que ainda trazia nas costas o peso da cruz do Deus de Nazaré que a Igreja de Roma havia jogado sobre meus ombros: pecado, culpa, temor e sectarismo eram meus estigmas. E por que diabos estaria interessado em ler o livro de um santo justamente naquele momento? Não era interesse, era curiosidade. Quem sabe o grande-bruxo-são-capa-preta-Cipriano, tivesse algo de interessante a me ensinar.

Seu aspecto usado e sujo unido a todo aquele sensacionalismo, mexeriam com o ceticismo de quase todo ser vivente deste planeta...ou ao menos aqueles que, de uma maneira ou de outra, possuem o mínimo de fé. Resolvi encarar o desafio. Entre "hocus pocus" mirabolantes, sapos com bocas costuradas dentro de cemitérios, drinks de sangue puro de cabras brancas virgens, diabinhos criados de ovos de galinha e sêmen, rituais para invisibilidade, centenas de outros tantos para trazer a pessoa amada a seus pés, orações para Jesus, Maria e José e orgias com bodes, por fim, nem mesmo o viço da minha adolescência ele fora capaz de despertar. Vi-me quase totalmente desinteressado por tudo aquilo: não tinha a menor intenção de cozinhar um gato preto até que sua carne se desprendesse de seus ossos, nem tampouco enfiar favas no ânus de cachorros. Li e devolvi o livro maldito.

Mais de uma década se passou. Não morri. Ele reapareceu, numa forma muito mais bonita, com capa dura, intacto e aos montes na estante de uma livraria. E onde quer que fosse, o via, sempre em duas versões: Prata e Preta. Talvez fosse um sinal. Resolvi comprá-lo. Desta vez eu mesmo fui atrás dos alertas. Eles aumentaram e se tornaram ainda mais "assustadores". Pragas de maldições eternas, morte de parentes, casas incendiadas, e relatos dos mais cinematográficos, encontrados na boca de cada um que tinha no seu ouvido a pergunta: você conhece o livro de São Cipriano?

Eu, em minha arrogância, ri da maioria deles. Vide minha experiência do passado, nunca imaginei que dessa vez, algo pudesse me acontecer ao ler esse livro...mas eu estava enganado...

São Cipriano - Capa Preta é um título publicado pela editora Pallas, no ano de 2014, com 448 páginas, 13 capítulos e possui sua autoria atribuída a Cipriano, o Bruxo.

As origens deste livro se perdem nos meandros da história, e tampouco parece haver algum  estudo - interesse - realmente aprofundado sobre suas raízes, por parte daqueles que são empenhados na pesquisa exotérica ou ocultista. Uma possível explicação para isso talvez se dê pelo fato de que este grimório passou tanto tempo nas mãos de pessoas ignorantes, e foi possivelmente incluído e modificado tantas vezes, que se torna quase impossível distinguir o que lhe é original, daquilo que não passa de cultura popular.


Neste caso em específico, o mesmo é iniciado com uma introdução - não assinada - que se pretende distinguir a figura de Cipriano o santo, do bruxo. Nada que de fato vai  lhe instruir sobre tais diferenciações "históricas", mas ao menos lhe dará um direcionamento neste sentido. Tal esforço parece não ajudar muito à continuidade de sua biografia, já que logo em seguida, o livro nos traz diversos relatos que misturam a figura de um Cipriano pagão, com a de um Cipriano arrependido e convertido, por diversas vezes, em diversos momentos, por diversos motivos, ao Cristianismo, que por fim, parecem indicar que Cipriano bruxo ou santo, são um só.


O cerne da maioria destas histórias resumem-se a um motivo único: o desejo por mulheres
impossíveis, que pela força de sua fé, raramente sucumbem aos feitiços do bruxo. Em observação a
esta resistência, Cipriano sempre questiona ao "Demônio"sobre os motivos para a falha de seus
encantamentos. Este, por sua vez, explica que os poderes do Deus de Israel são muito superiores aos seus, e que a potência da crença destas mulheres as protege de qualquer mal. Proselitismo é pouco
para definir...


Tanta confusão não deve impressionar aos leitores com maior nível cultural e senso crítico mais apurado; não há dúvidas, nenhum dos relatos sobre sua existência e atuação são confiáveis e verossímeis. Contradições, histórias repetidas contadas por diferentes motivos e com diversos finais são uma constante neste livro. E ele vai além. O título contém uma série de imagens que supostamente ilustram cenas de sua vida, e signos diversos, atribuídos de forma direta e indireta ao Bruxo. E não é difícil encontrar descrições absurdas sobre certos símbolos e até mesmo erros primários da posição de selos.


A nível ilustrativo, encontramos na página 223 um pantáculo de Vênus, apresentado de ponta cabeça, e descrito como sendo de uso comum de feiticeiros egípcios, que "não realizam trabalhos sem o traçado mágico que o desenho mostra."

Em minhas pesquisas sobre o que as pessoas dizem sobre o Capa Preta, encontrei uma forte crença não só em poderes pseudo emanados do livro, como a ideia de que o título fora escrito de próprio punho pelo feiticeiro. Não se iluda. Cipriano é dito como tendo vivido no século III e na página 186, descrições sobre o que fazer em caso de ser pego praticando magia pela Inquisição Católica, sugerem então uma data que giraria em torno da Idade Média, mas que ainda assim não seria contemporânea a pseudo existência do bruxo, ou do santo. Desta forma, como poderia ter sido ele o escritor da obra?

A edição ainda traz alusões contemporâneas. Um desses casos é dada ao livro "Magus" na página 243, de Francis Barrett publicado no ano de 1801; a Eliphas Levi, famoso ocultista francês também do século XIX na página 187; e não obstante, ao LSD, substância química isolada apenas no século
XX, na página 231. Se muito, o título não passa de uma antologia, que pratica os moldes dos antigos métodos de publicação de livros; o uso do nome de alguma figura de forte apelo popular, para dar credibilidade a obra e alavancar vendas.

O título é essencialmente cristão e brinca com um forte apelo a conversão ao Deus de Israel na mesma medida que ensina como fazer pactos com o Demônio. Magia negra e rituais de ataque e amarração são uma constante, e a não ser que você esteja realmente disposto a sujar suas mãos com sangue - em muitos casos literalmente - o livro não lhe será muito útil.  Seus rituais simples por sua estrutura, e complexos por seus ingredientes, são sem dúvidas um diferencial se comparados a sistemas e grimórios mais Tradicionais, usados por ocultistas com uma tendência mais teúrgica. Entretanto, todo este cenário parece preencher exatamente as descrições cinematográficas de bruxos e bruxas que supostamente se reuniam em sabás para adorar bodes, praticar orgias e assassinar crianças.

A nível prático, nele você encontrará três perspectivas possíveis: a de usar este grimório apenas para um fim exclusivo, como para amarrar uma pessoa amada, por exemplo; a de se tornar um feiticeiro seguindo um guia prático de feitiços, para fins diversos; ou conforme ensinado em seu apêndice, poderá iniciar e ser iniciado em rituais de magia negra, para se tornar um bruxo e em seguida, alto sacerdote, conforme descrito em seu conteúdo.

São Cipriano - Capa Preta une histórias à feitiços, exorcismos em latim à receitas diversas de poções e magias, além de sugerir que o feiticeiro, além de santo era também alquimista e cartomante. É recomendado para todos aqueles que tem interesse por ocultismo, não apenas pelo seu aspecto prático, mas também "histórico". Possui um ótimo acabamento editorial e é digno de fazer parte da biblioteca de qualquer estudioso sério.

Mas não espere por nada além de uma bela edição de capa dura e letras douradas: sua casa não vai pegar fogo, você não vai morrer por ter comprado este livro, e nem tampouco a cabra preta vai puxar seu pé a noite...mas é possível que o conteúdo do livro tenha o poder de fazer com você o mesmo que fez comigo: me deu sono!


                                                                                                                             por
Allan Trindade
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