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segunda-feira, 13 de julho de 2020


A capa deste livro induz os incautos ao erro. Isso mesmo. 
A capa desta edição traz escrito em seu título
o nome Wicca para Homens. E qual é o problema nisso? Nenhum, não fosse o caso deste livro não ser o Wicca para Homens. A.J. Drew possui duas publicações de títulos muito semelhantes voltadas especificamente (mas não exclusivamente) para o público masculino. São elas: Wicca for Men [Wicca para Homens] e Wicca Spellcraft for Men [Wicca Feitiços para Homens], sendo a última aquela referente a presente publicação brasileira. E embora a capa esteja errada, a folha de rosto, ou seja, aquela primeira página que aparece logo que abrimos o livro e que geralmente repete o título da capa, traz o nome correto: Wicca Feitiços para Homens.

WICCA FEITIÇOS PARA HOMENS é um livro escrito por A.J.Drew com 224 páginas, divididas em 9 capítulos e foi publicado no ano de 2002 pela Madras editora.

Drew começa o livro de forma enfática e provocativa, dizendo que se você é o tipo de pessoa que acha que não existem diferenças físicas e biológicas entre homens e mulheres, o melhor que você tem a fazer é nem começar esta leitura. Isto pois, segundo o autor, homens e mulheres possuem características próprias de nascença, que fazem com que não possamos nos tratar como absolutamente iguais em todos os sentidos, sendo este livro indicado não apenas para aqueles que concordem com isso, mas também para todos que já tenham uma noção básica sobre a Wicca. Ainda sob esta perspectiva, o autor destaca que entende que mulheres tenham mais facilidade para se relacionarem com a Deusa, e os homens com Deus, e que não há nada de sexismo nesse tipo de aproximação, apenas um sentido de correlação. Atribui a culpa por toda esta divisão moderna ter-nos sido legada pela Igreja Católica, que durante muito tempo demonizara a mulher e em seguida a todos, dizendo que tudo é pecado, gerando com isso um sentimento moderno reverso, fazendo com que mulheres acreditem que não precisam de homens. Porém, segundo  A.J., nenhum sexo pode ser realmente independente do outro, nascemos como seres complementares.

Dividido em três partes, o autor inicia a teoria deste livro falando sobre sua própria experiência mágica, relatando que a eficácia de seus feitiços variava, ora sendo efetivos ora não, e que muito disso se dava por sua falta de conhecimento teórico que foi sanada após a leitura de Magick In Theory And Practice de Aleister Crowley. Segundo o autor, magia é apenas uma maneira de explicar leis ainda incompreendidas da natureza, que quando assim o forem, serão chamadas de ciência. Portanto, não deve haver oposição entre aquilo que se entende por magia ou aquilo que se sabe sobre ciência. Visto ser a mente a principal ferramenta da magia, o autor cita uma série de exemplos de doenças psicossomáticas ou mesmo curas alcançadas através do poder mental, indicando a inegável conexão entre aquilo que se crê e se tem certeza, se sente e se realiza. Levando em consideração a natureza dispersa da mente, e portanto, as dificuldades de trabalhá-la magicamente quando não a se tenha treinado, indica exercícios e métodos de observação para descobrir seus próprios padrões mentais e demais elementos que se relacionam aos sentidos, como a visão, o tato, olfato, paladar e a audição.

Drew recorda que este é um livro de feitiços, e portanto, faz-se necessário falar sobre a ética de seu uso neste campo. Para o autor, tudo isto é relativo. A Wicca ensina que todos tem o direito de fazer o que quiserem desde que não prejudiquem ninguém. Mas como considerar isso de forma absoluta, se, por exemplo, para sobreviver, animais carnívoros precisam se alimentar de outros animais? A ética deve ser então sempre uma medida pessoal, decidida por cada um a partir de seu próprio universo, convicções e emoções. 

Na segunda parte, esclarece que em você sendo um deus, sua ética também é a ética dos deuses, assim como a do próximo, idem. Entretanto, apesar de todo este panteão existente no mundo, que somos todos nós, o mundo também está infestado por demônios espalhados, escondidos e disfarçados em todos os lugares, por isso, é preciso saber lidar com eles, e os feitiços são uma ótima ferramenta. Sendo assim, a dúvida costuma ser a principal inimiga de seu sucesso. O autor alega que crianças geralmente pensam que podem fazer tudo pois poucos adultos lhes disseram que não poderiam fazer o que quisessem. Logo, sendo você um adulto que foi por tantas vezes censurado, é sua responsabilidade quebrar estas barreiras e convencer-se da certeza que é capaz.  Oferece então uma série de sugestões de rituais para serem feitos neste sentido, relacionados a sonhos e tudo mais pertinente ao astral e ao subconsciente, e até para disputas políticas, pessoais e sociais, visto que a atitude combativa deva ser praticada para a derradeira vitória.

Por fim, na terceira e última parte, o autor traz uma enorme lista de receitas de incensos e tinturas e óleos mágicos, relacionando deuses de diversas culturas, chakras, planetas e tudo mais. E esta é, sem dúvidas, umas das melhores partes deste livro. À todos aqueles que veem na magia algo para além do pensamento positivo, é neste ponto que você será levado a acender seu caldeirão.

Wicca Feitiços para Homens é um livro interessante, dividido em teoria e prática, à melhor maneira da bruxaria tradicional: com muitas receitas de óleos, ervas e incensos para tornar o bruxo e o ambiente sempre envolvido com todos os elementos naturais possíveis para a execução de seus feitiços, feitiços que aqui, são destinados para quase todos os fins. É, por vezes, também militante, considerando que o wiccan deve se envolver com questões que transcendam seu próprio microcosmo e alcance questões sócio ambientais, em defesa dos animais, florestas e de tudo que envolva a natureza em seu sentido puro. É bom, especialmente se usado como um livro de receitas.

por Allan Trindade





sábado, 13 de junho de 2020

Em um tempo onde pessoas clamam pelo retorno de sistemas 
políticos e ideológicos dignos das mentes
mais atrasadas e boçais, nunca se fez tão necessário o estudo da história. Divulgar elementos do nosso passado enquanto sociedade e seres que tendem a repetir biológica e ideologicamente ações herdadas de nossos genitores, torna-se elemento fundamental  para tentar  evitar que aqueles mais suscetíveis aos discursos inflamados dos fanáticos e idólatras, não sejam infectados por suas falácias de "nos dias de hoje" ou "na minha época não era assim", induzindo-os a falsa ideia de que somos, enquanto seres humanos, absolutamente diferentes de nossos antepassados. 

Não há dúvidas, as coisas mudam. Porém, mudanças tecnológicas tendem a ser muito mais rápidas e eficientes que mudanças fisiológicas. Se podemos dizer que nos últimos 100 anos a humanidade alcançou avanços científicos nunca antes vistos em nossa história, biologicamente mudamos pouco ou quase nada em relação a nossos ancestrais de 4.000 anos atrás. 

Se podemos afirmar que o apaixonado grego ao trovar seus versos expunha e imortalizava seu amor através de suas palavras, atravessando as barreiras do tempo e encontrando correspondência no coração dos amantes dos dias de hoje, o mesmo pode se dizer daquelas também palavras milenares que propagavam o ódio contra o diferente, continuamente sendo reproduzidas através da boca de alguns cristãos, ideólogos políticos e relacionados até a presente data. 

Tal como o amor, o ódio não é uma exclusividade dos nossos tempos. Mas o despertar de flagrantes manifestações de burrice e ignorância frente a facilidade de acesso ao conhecimento tal como nunca antes vista, parece ser mesmo um fenômeno inédito e característico desta era.

Se antes poderíamos dizer que as pessoas tomavam determinadas atitudes por serem analfabetas ou não terem acesso ao conhecimento, qual será a desculpa para, nos dias de hoje, ainda existirem indivíduos que pensam e agem como neandertais, sedentos por discriminar, agredir ou matar o outro apenas por ser diferente?

LIBER QUEER é um livro escrito pelos membros do Círculo da Viada Chama Púrpura, com 213 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2019 de maneira independente.

Acredite, a homossexualidade sempre existiu em meio a humanidade. É um fenômeno tão comum quanto qualquer outro, encontrado inclusive em meio ao comportamento de animais não humanos. Você provavelmente já deve ter visto dois cachorros machos tentando fazer sexo entre si. Ou mesmo duas cadelas. Assim como os golfinhos que em sua adolescência ensaiam o sexo antes de reproduzirem com as fêmeas. Ter consciência disto não implica que você precisa fazer o mesmo. Nem tampouco que você tem o direito de impedir o outro. É simples, não?

Nada incomum. Nada anormal. Tudo devidamente evidenciado pela ciência e registrado  na história. E se por um lado temos algumas religiões que tentaram e tentam criminalizar tal comportamento, toda uma série de outros sistemas místicos sempre trataram tal fenômeno tal como ele é: uma parte intrínseca da existência humana. E para apontar tais fatos que o Círculo da Viada Chama Púrpura reuniu uma série de indivíduos LGBTQI+, para falar não apenas como membros desta comunidade, mas como graduados academicamente, e portanto, qualificados cientificamente para participarem da produção desta obra.

O objetivo aqui pode ser dividido em três aspectos:

Primeiramente objetiva apropriar-se do termo e ideal queer, traduzir e correspondê-lo a palavra que mais se aproxime do mesmo sentido em seu original. Queer em inglês representa tudo aquilo que é excêntrico, marginal, exótico, bizarro e sexualmente reprovável. Perceba que aqui dizemos que não se trata de ser excêntrico OU marginal, exótico OU bizarro, mas tudo isso amalgamado num só conceito. Isto é o queer. Refletindo sobre qual palavra em nossa língua mais se aproximaria daquela, concluíram então que 'viado' seria o mais adequada para tal, visto que tal como seus co-semelhantes estrangeiros, a apropriação do xingamento representa também uma atitude política de empoderamento frente ao constante processo de naturalização da discriminação e assassinato de homossexuais e relacionados. Tal atitude poderia ser traduzida como: " Sou viado mesmo, e daí?! ";

Em segundo lugar o livro visa elencar os elementos históricos que apresentam indivíduos LGBTQI+ sob as mais diferentes funções religiosas e correlações divinas, apresentando uma série de estudos onde tais pessoas eram não apenas conhecidas e aceitas dentro das sociedades antigas, como também e em muitos casos, adoradas como divindades encarnadas vide sua excentricidade frente a dicotomia do gênero estabelecido, a saber homem e mulher, transcendendo tal dualidade. Ou mesmo no campo da sexualidade onde homens poderiam ser adorados por outros homens com intenções místicas e sexuais, de tal modo que cidades e religiões inteiras foram criadas para este propósito. Aqui tratam ainda daqueles seres espirituais, deuses e deusas que foram capazes de mudar suas formas e sexualidade apenas pela possibilidade de contato com outros seres divinos ou mesmo seres humanos;

Como um terceiro e último elemento, a edição nos apresenta uma série de rituais, listas de correspondências, instruções para altares e até mesmo sigilos e pantáculos voltados para o fortalecimento e proteção do público LGBTQI+.

Liber Queer pode ser visto como uma espécie de manifesto. Tal publicação não tem uma intenção puramente literária, mas social e política. Tal como o queer, agrega tudo, discrimina nada. Visa preencher a lacuna sentida por muitos membros de tal comunidade que nunca puderem se ver representados nas modernas publicações religiosas ou ocultistas, sendo também e sempre relegados ao campo da indiferença, negação ou rejeição. Aqui, gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e todo o conjunto de indivíduos pertencentes a este universo contribuem, cada um a sua maneira, com um pouco de sua vivência e sugestão para que todos possam encontrar também na magia um pouco de amor e muito mais de paz.

" tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes!" - AL I:51

por Allan Trindade


domingo, 4 de novembro de 2018


Exótico. Eis uma palavra bastante conhecida e que quando usada pela maioria das pessoas, tende a expressar muito mais um sentimento que uma definição fria. Este vocábulo costuma ser evocado quando de alguma maneira sentimos que o objeto a qual nos deparamos desperta em nós uma estranheza tal, que ficamos sem saber o que exatamente dizer daquilo, uma indecisão estranha que nos deixa em cima do muro para definir se gostamos ou não, se achamos bonito ou feio, se queremos apenas olhar ou tocar, mas que indiscutivelmente nos atrai e chama a atenção. 

Segundo descrições comuns, exótico é um adjetivo a qual se atribui aquilo que não é originário do país em que ocorre, que é estrangeiro, ou ainda, que é esquisito, excêntrico, extravagante. É fato que poderíamos concordar ipsis litteris com estes termos, mas caso seja este o caso, faríamos apenas um acréscimo a esta definição: de que exótica é também, e sem dúvidas, a mitologia nórdica.




MITOLOGIA NÓRDICA é um livro escrito por Neil Gaiman, com 286 páginas, divididas em 16 capítulos e publicado no ano de 2017 pela editora Intrínseca.


Embora este seja nosso entendimento, parece que Neil Gaiman não concordaria de todo com esta opinião, já que para ele, embora seja difícil escolher uma dentre as várias mitologias, esta é sua favorita.  

Saídos do norte da Europa e descendo para o sul junto com suas campanhas de guerra e busca por novas terras para morar, aqueles antigos homens e mulheres conhecidos popularmente como vikings, trouxeram consigo sua ciência, língua, cultura, religião e seus deuses, de modo que de tão impressivos, perpetuaram-se também através dos nomes dados aos dias da semana encontrados na língua inglesa, tais como: Tyr/Tuesday (terça-feira), Odin/Wednesday (quarta-feira), Thor/Thursday (quinta-feira) e Frigga/Friday (sexta-feira). Divididos em dois grupos distintos conhecidos como Vanir,  deuses relacionados a natureza e menos belicosos, opostos aos Aesir, aqueles de comportamento notadamente mais aguerrido, é de todo este contexto que surge também a influência para as histórias em quadrinhos e filmes de super heróis que tratam das aventuras de Thor e seus relacionados. Entretanto, embora este e muitos outros livros sobre esta conjuntura tenham sido escritos, Gaiman nos salienta que muito pouco sobrou da tradição oral dos mitos, visto que só começaram a ser registrados quando o Cristianismo já era a religião dominante.


Aqui os protagonistas das histórias costumam ser sempre o já citado Thor, Odin e seu irmão, Loki. Odin, o principal dentre todos os deuses, tem diversos nomes. Viaja pelo mundo querendo conhecer a realidade das pessoas e vive acompanhado de dois corvos: Hugin (pensamento) e Munin (memória). Contempla todo o universo de seu trono, Hlidskjalf e trouxe a guerra para o mundo. Thor forja trovões, é ruivo, não muito inteligente, mas o mais forte dos deuses. Simpático e franco, usa um cinturão, Megingjord para duplicar sua força. Sua arma é um martelo, Mjölnir. Ele é filho de Jürd, deusa da terra e tem três filhos com Sif. Thor defende Asgard e Midgard. Loki encanta por sua beleza, é sensato, convincente e diferentemente de seu sobrinho, é astuto e inteligente. Mas seu interior é cheio de ódio. Filho de Laufey com Farbaut, é irmão por jura de sangue de Odin. Dentre e acima de todos está a Yggdrasil, a mais bela e frondosa de todas as árvores. Yggdrasil cresce através dos nove mundos, finca suas raízes em três deles e se eleva acima acima dos céus. Foi nela que Odin se sacrificou para obter o conhecimento de tudo através das Runas.

Os nove mundos são: Asgard, lar dos Aesir; Álfheim, lar dos elfos da luz; Nídavellir, lar dos elfos negros; Midgard, o mundo dos homens; Jötunheim, morada dos gigantes; Vanaheim, casa dos Vanir; Niflheim, o mundo escuro e finalmente Muspell, o mundo das chamas. Há ainda um mundo extra, que carrega o nome de sua governante, Hel, o local para onde os mortos que não tiveram uma passagem honrada em batalha vão. Dados estes entendimentos básicos sobre toda a cosmogonia nórdica, e até mesmo sua gênesis, não citada nesta resenha por nós vide sua complexidade e exotismo, que pode, se exposta em poucas palavras, mais confundir que informar o leitor, mas que é devidamente tratada pelo autor em capítulo exclusivo dedicado a esta função, dá-se início aos diversos contos. Embora organizados aqui de forma mais ou menos progressiva, faz necessário destacar que os mesmos podem ser lidos de modo aleatório, sem grandes perdas no entendimento.

Num total de doze, seus títulos são: A Cabeça de Mímir e o Olho de Odin, Os Tesouros dos Deuses, O Mestre Construtor, Os Filhos de Loki, O Casamento Incomum de Freya, O Hidromel da Poesia, Thor na Terra dos Gigantes, As Maçãs da Imortalidade, A História de Gerda e Frey, A Pescaria de Hymir e Thor, A Morte de Balder, Os Últimos Dias de Loki e Ragnarök - O Destino Final dos Deuses.

Não podemos negar que há mais de uma década atrás, quando da primeira vez que tivemos contato com estas histórias através da narrativa de Thomas Bulfinch em seu Livro de Ouro da Mitologia, toda esta excentricidade sobre deuses que vivem em grandes salões em um mundo dominado pelo gelo, gigantes que se confundem com montanhas e vazios que possuem geleiras, se comparados, aqui parecem mesmo fazer bem mais sentido. A lógica, que pode ser a lógica do absurdo em muitos casos, ganha certa simpatia quando percebemos que os relatos estão quase sempre limitados aos mundos divinos, e não ao mundo dos homens, e que os deuses de lá não tem mesmo a pretensão de serem perfeitos ou mesmo éticos sob a nossa perspectiva. As histórias são repletas de brigas, traições, magia e resultados que nem sempre estarão de acordo com o entendimento daquilo que nós consideraríamos correto ou justo para os dias de hoje. Neil torna esta leitura interessante e cativante sem precisar alterá-la, como fazem muitos quadrinistas e roteiristas modernos. Sentimos que há muito de genuíno aqui.

A mitologia nórdica parece nos ensinar que devemos estar sempre prontos para a eminência da traição, da injustiça, do golpe, da guerra, da covardia, do Ragnarök, e quanto a isso, não há exotismo algum que nos separe. Que o leitor fique atento: não importa quão distante esteja o hemisfério sul do norte, Midgard de Asgard, os Aesir dos Vanir, o passado do presente, a Ponte do Arco-Íris une deuses aos homens no campo de batalha, onde todos sangram igual. Lembre-se que os únicos que serão dignos de adentrar os salões do Valhalla serão os guerreiros. Portanto, se não quer ser condenado ao Hel, lute!

por Allan Trindade



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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Quero dizer que o que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios e não a Deus, e não quero que vocês tenham comunhão com os demônios. Vocês não podem beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; não podem participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.

I Coríntios 10:20-21


THE DAEMON TAROT é um livro escrito por Ariana Osborne, com 143 páginas, 69 cartas e publicado no ano de 2013 pela Sterling Ethos.

A passagem destacada acima certamente não é a única encontrada na Bíblia que faz referência a demônios. Antigo e Novo Testamento dão indicativos diretos e indiretos sobre a existência destes seres, variando, porém, na descrição e forma como são entendidos. Se a partir de Jesus tais criaturas são descritas de maneira quase sempre genérica, agrupados sob uma mesma categoria, é nos tempos da vigência da lei de Moisés que eles costumam ter nomes mais específicos.

E talvez tenha sido sob esta perspectiva que Jacques Auguste Simon Collin de Plancy tenha se inspirado para escrever sua obra mais conhecida, Le Dictionnaire Infernal, lançada em 1818, ainda mais cristianizada em 1830 quando se convertera ao Catolicismo, e famosa por classificar uma série de demônios e atribuir-lhes diversos títulos nobilitários. Entretanto, embora tenha sido Collin o autor do Dicionário, seu grande sucesso só seria alcançado em 1863, já em sua 6° edição, através da arte de Louis Breton, o artista que imortalizaria a forma como enxergamos cada um dos seres apresentados naquela obra, que é copiada até os dias de hoje.

E foi assim que inspirada pelo Dictionnaire e as belas imagens de Breton, que Ariana nos apresenta seu título, que embora carregue o nome de tarô, em nada se relaciona com aquele livro, sendo este melhor definido como um oráculo. The Daemon Tarot vem em uma caixa resistente de papelão, com um livro e 69 cartas. Cada demônio, um para cada carta, fora explicado sob três perspectivas pela autora: annotation, inspiration e divination.


  • Em Annotation estão reunidas as informações históricas oriundas de suas pesquisas de diversas fontes - não apenas do Dicionário - que estão indicadas na bibliografia do livro.



  • Em Inspiration encontram-se suas interpretações e insights sobre cada carta, mas deixa claro que, cada um é livre para reinterpretá-las a sua própria maneira.



  • Em Divination traz o significado oracular da carta e diz que este, ao menos em sua experiência, melhor funciona com tiragens de 1 ou 6. No método de 1 carta, basta que pense em uma pergunta e consulte a resposta no livro. No método de 6, cinco cartas são dispostas em forma de cruz, uma para cada braço e uma no centro +, além de mais uma a ser posta do lado direito. Este método é destinado para questões mais complexas.


Os 69 arcanos trazem o nome no topo, a imagem no centro e a descrição do demônio em sua base. São eles: Abigor, Abraxas, Adramelech, Agares, Alastor, Alocer, Amduscias, Amon, Andras, Asmodeus, Astaroth, Azazel, Bael, Balan, Barbatos, Beelzebub, Behemoth, Belphegor, Berith, Beyrevra, Brooms, Buer, Bufonite, Caacrinolaas, Cali, Cerberus,Deumus, Eurynome, Flaga, Flavros, Forcas, Furfur, Ganga-Gramma, Garuda, Gomory, Haborym, Ipes, Lamia, Lechies, Leonard, Lucifer, Malphas, Mammon, Marchochias, Melchom, Moloch, Mycale, Nickar, Nybbas, Orobas, Paimon, Picollus, Pruflas, Rahovart, Ribesal, Ronove, Sabbat, Scox, Stolas, Tap, Torngarsuk, Ukobach, Volac, Vuall, Witch's Round, Xaphan, Yan-Gant-Y-Tan, Zaebos.


The Daemon Tarot é sem dúvidas um título primoroso, que reúne qualidade, pesquisa, divinação e história em um só conjunto. Observar cada uma das ilustrações de forma tranquila e despretensiosa é um prazer a parte, e dá mesmo a impressão de estar imerso em um museu antigo admirando as telas de um criativo artista que com sua mente inventiva, tem a capacidade de encantar pelas estranhezas de suas composições que misturam homens, bestas e objetos diversos, além de, com a devida concentração, nos dar a capacidade de nos conectar a tais seres para que possam nos auxiliar a sanar nossas dúvidas. Mas para isso, quem sabe o ideal seja que tu estejas sentado a mesa, com os 69 demônios dispostos a sua frente, degustando um ótimo cálice de vinho... e então, aceitas?



por Allan Trindade




segunda-feira, 26 de março de 2018

Era tarde da noite. Conversávamos na cozinha enquanto ela preparava uns tira-gostos para acompanhar a cerveja gelada. A conversa foi se apimentando junto aos olhares de desejo e as insinuações sexuais. Nos beijamos com a mesma intensidade da primeira vez. Ao tentar tocar seu sexo, segurou minha mão e sussurrou no meu ouvido como quem confessasse um pecado: estou menstruada!

Não esperava por isso. Esfriei. Disse e olhou-me nos olhos como que esperando que eu tomasse a decisão a partir daquele ponto, afinal de contas, fui eu quem sempre deixou claro que bandeira vermelha é sinal de impedimento. Fomos para o quarto. Pedi então que ao menos apagássemos a luz desta vez. Não saímos do básico. Gozamos.

Fui direto para o chuveiro. Por toda a extensão do meu pênis via-se o vermelho-sangue que agora pingava da ponta da minha glande e escorria pelo piso branco em direção ao ralo. Minha pressão baixou. Fiquei meio zonzo. Não, nunca foi por frescura, mas um certo nível de hematofobia. Ela, preocupada, veio ver como eu estava:

- Você está bem, Allan?
- Não exatamente, mas vou superar...

LUA VERMELHA é um livro escrito por Miranda Gray, com 294 páginas, divididas em 6 capítulos e publicado no ano de 2017 pela editora Pensamento.


Os novos sistemas de magia, algumas religiões modernas, além de outros tantos movimentos políticos, ideológicos e artísticos parecem combinar em uma coisa: a mulher precisa ser vista, ouvida, compreendida e acima de tudo, respeitada nestes novos tempos. Por mais lógico que isso possa parecer para muitos de nós, acostumados com os discursos igualitários modernos, basta muito pouco para perceber que a realidade em cada um destes campos era deveras diferente para elas em tempos outros. Por isso, para muitas, ainda há muito o que mudar e melhorar.


Se as causas para grande parte das mazelas são oriundas da ignorância, é na busca do conhecimento que nos livramos das correntes que nos limitam e nos impedem de compreender a realidade do outro. Não se deveria considerar que o fato de sermos homens há de nos livrar da necessidade desta compreensão, especialmente pela inconteste realidade de sermos gerados e, de uma forma geral, criados por mulheres. Muitos de nós casam-se com elas, e são elas que dão origem a nossos filhos e perpetuam nossa existência através deles, contribuindo e cumprindo assim a função instintiva e inerente a todo ser vivo de reproduzir seus genes e imortalizar-se através de novos seres. Portanto, nos cabe levar em conta que como coautoras fundamentais para nossa vida, devemo-nas algo, e se o que querem é ser ouvidas, então que abramos nossos ouvidos de forma empática para tudo aquilo que elas tem para nos dizer. 

Este nem sempre é um exercício fácil para a maioria de nós, homens acostumados a darmos violência e indiferença como recompensa para o tratamento de cuidado e amor que muitas vezes recebemos delas, mas é preciso romper padrões caso queiramos estabelecer uma relação mais respeitosa para ambos os lados frente aos novos tempos que virão, e a literatura pode ser um ótimo começo para isso. Caso seja homem, acostume-se com a ideia dos pronomes femininos nesta leitura e com as referências a coisas que você provavelmente evita ou desconhece. Caso você seja mulher, este livro foi feito para você. 

O assunto principal aqui costuma incomodar a muitos, de ambos os sexos: menstruação. A autora inicia seu livro falando sobre a percepção de que seu trabalho - ela, uma ilustradora - variava do preciso ao mais abstrato de acordo com seu período menstrual e que frequentemente sofria com essa oscilação, uma vez que estas mudanças nem sempre estavam em acordo com suas perspectivas profissionais. Foi assim que começou então a pesquisar sobre o ciclo de sangramento, inclusive no campo religioso através de deusas e mitologias, e ao perceber conexões diversas entre estes elementos e com outras mulheres, dera início a este título.

Miranda nos esclarece que Lua Vermelha fora escrito para reorientar a percepção deturpada e negativa que a mulher tem sobre seus ciclos e tem ainda uma proposta de buscar os elementos subjetivos existentes nos folclores e lendas sob a luz da interpretação positiva da menstruação. Assim, nos traz exemplos de culturas que tanto exaltaram a mulher sangrenta como divina e poderosa, como aquelas outras tantas que as sentenciaram ao isolamento, e chegavam a extremos de condenar a morte aqueles que ousassem tocá-las. Seu objetivo é claro: mulheres precisam se observar. Precisam manter diários sobre seus períodos, registrando datas, fases da lua, sonhos, sentimentos, estados de saúde, inspirações e tudo mais que puderem relacionar.

Logo em seu princípio, a autora nos traz a história de Eva, uma menina que vai para o Plano Astral e tem uma série de experiências com entidades e deidades femininas até a menstruação. Este conto é usado como base de forma mais ou menos simbólica, para indicar ideias e exercícios que serão propostos no decorrer do livro. A autora investe constantemente no argumento de que no passado as mulheres eram por muitos respeitadas em seus períodos, já que muitas culturas antigas baseavam seus calendários e mitos na Lua, e a relacionavam a mulher e suas diversas fases, tais como: a donzela, sendo aquela que nunca fora penetrada ou que ainda não alcançara a menarca; a senhora, aquela independente e que teve sua primeira menstruação ou ainda grávida;  a bruxa como aquela velha que chegou na menopausa, etc...as correlações são várias e não se limitam ao campo religioso, uma vez que reinterpretara também os contos infantis, tais como Branca de Neve e Bela Adormecida, sob o argumento de que tais contos contém alusões a estes períodos.


Como uma das propostas principais desta edição, nos é apresentada a Mandala Lunar, um painel passível de ser feito de diversas maneiras, contendo um registro detalhado dos eventos menstruais de modo que se estabeleça uma percepção consciente de todos os benefícios e reveses oriundos destas fases, para que assim, se possa ter a exata noção de aquele momento é apenas consequência da menstruação, e que no devido tempo, vai passar. 


Este livro tem um único objetivo: fazer com que a mulher observe seus ciclos e reinterprete suas consequências de modo positivo. O mesmo faz a autora sobre muitos aspectos mitológicos, religiosos e literários, reinterpretando-os sob uma perspectiva exclusiva: a da menstruação. É radical sob alguns aspectos sem ser política, como quando sugere que mulheres vivam a experiência de não usarem tampões e absorventes externos, de modo a sangrarem de forma livre e romperem certos estigmas sociais. É aqui que Gray também vai sugerir que a TPM e as dores - sentidas por algumas mulheres - fazem parte de todo o processo, e que estas sensações, ao invés de amaldiçoadas, devem ser compreendidas e dominadas. Por fim, sugere uma série de rituais, exercícios de visualização e práticas físicas relacionadas a cada uma das fases.

Lua Vermelha é em grande parte repetitivo, passando por vezes a impressão de que 'ela já disse isso antes'. Apesar das constantes referências religiosas, os rituais contidos aqui não possuem um caráter mágico, mas muito mais psicológico: são viagens guiadas, muitas delas relacionadas a história que ela criara no começo do livro. Fala para mulheres e nada ou praticamente nada da relação destas para com seus maridos ou filhos: a proposta é que a mulher dedique-se e olhe para si neste momento. 

Como homem e leitor de uma realidade completamente diferente da minha, certamente me fez refletir que é preciso olhar com mais carinho para estes momentos tão sensíveis de nossas mães, irmãs, esposas, amigas, parceiras, mulheres.

por Allan Trindade
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sexta-feira, 23 de março de 2018

- Oi, Allan! Gostaria de tirar uma dúvida com você sobre pantáculos...
- Olá, ...! Sobre qual sistema estamos falando?
- Salomônico. É que eu fiz um pantáculo para...e não obtive resultado nenhum.
- Entendi. Fez em papel ou em metal?
- Papel mesmo.
- Exorcizou e consagrou suas Armas?
- Basicamente, do meu jeito.
- Fez no dia apropriado?
- Não.
- Na hora apropriada?
- Não sei.
- Então deixa eu ver se entendi. Você simplesmente desenhou um pantáculo num papel, com uma caneta profana, num dia qualquer, sem nem saber que horas fez, e presumo eu, sem nenhum dos exorcismos e evocações que mandam a Tradição e quer, mesmo sem ter seguido nada da forma correta, que a coisa funcione?
- Mas é que me disseram que é tudo uma questão mental, que o que vale é a intenção...
- Te disseram, você acreditou e olha que engraçado, não funcionou! Eu lhe recomendo procurar uma igreja, pois o que você está querendo com a sua "questão mental e pensamento positivo" não é magia, o que você quer na verdade é um milagre e milagre, meu caro, é uma outra jurisdição!

A CLAVÍCULA DE SALOMÃO é um livro organizado por Samuel Lidell Mathers, com 287 páginas, divididas em dois livros internos, publicado no ano de 2015 , pela editora Chave.

A tradição de grimórios mágicos oriundos da Idade Média carrega consigo uma característica comum: a falta de uma autoria precisa e exata. Embora tais títulos costumeiramente carreguem nomes de personalidades famosas em seus cabeçalhos, oriundas, de uma forma geral, de textos sagrados no qual se apoiam e definem muito das características de suas práticas internas, tais personas podem nunca terem de fato escrito tais livros, em verdade, tais indivíduos podem nunca ter existido.

Salomão é apenas mais um destes exemplos. Por seu histórico literário de relação com mulheres e práticas pagãs, um dos mais famosos reis do Judaísmo tem sido usado de forma mais ou menos frequente em tempos antigos, e até os dias de hoje, para justificar e fundamentar certas práticas mágicas. Segundo o mito, Salomão teria recebido tais ensinamentos através de um anjo, os transmitira a seu filho Roboão, e a partir deste contexto, tais textos teriam chegado até as nossas mãos. Fato é que os escritos mais antigos conhecidos datam de períodos do século XIV ao XVI, data bem mais recente que aquela que teria reinado o filho de Davi, que supostamente vivera no século X a.e.c.

A este legado, e seus diversos grimórios e pergaminhos, damos o nome de Tradição Salomônica, enquanto que para sua magia, chamamo-no-nas de Magia Salomônica. Toda esta conjuntura agrega em si elementos de cunho essencialmente mágico, porém, com uma forte influência religiosa baseada no Cristianismo e Judaísmo, além de pagã e notáveis elementos oriundos da bruxaria. Coube a Samuel Mathers, proeminente magista do século XIX e uma das vanguardas da história moderna do ocultismo, a função de reunir em uma única edição os diversos manuscritos existentes no British Museum, atribuídos ao monarca judeu e oferecê-los ao grande público. Sendo esta então a referida edição deste trabalho, assinado por ele em 1888, mesma data em que junto a Woodman e Westcott fundara a Golden Dawn.

Em seu prefácio, Samuel destaca a inovação desta publicação para os padrões da época, que falhavam em apresentar uma compilação integral e corrigida de tais textos, uma vez que muitos deles continham erros nas transcrições em hebraico. Sobre o mal entendimento de algumas pessoas ao confundirem o Grimorium Verum e a Clavícula Ridolta com estas atribuídas a Salomão, e salienta que não são, uma vez que aquelas sejam magia negra. Que omitira alguns ritos em função de sua malignidade e uso de sangue, e que o Lemegeton, aquele onde se encontram os demônios da Goetia, não está aqui. Faz-se necessário lembrar que Mathers era essencialmente um teurgista, que cria na magia em sua função mística para o desenvolvimento espiritual do homem.

Dadas as devidas introduções de editores, listas de gravuras e histórias mitológicas, já comentadas por nós em parágrafos anteriores, chegamos ao Livro I. É aqui que o leitor encontrará toda uma série de instruções sobre a necessidade de se crer em Deus para a consecução, tabelas sobre os dias e horas planetárias indicadas para cada tipo de trabalho, diversas orações com exortações e referências bíblicas para que os espíritos se manifestem no ritual, imagens dos pantáculos planetários e como fazê-los, além de alguns rituais com objetivos medievais, tais como: frustrar a caça de outrem, percorrer grandes distâncias sem cansaço, encontrar tesouros enterrados e desencantá-los, dentre outros.

No Livro II traz uma nota prefacial onde sugere que é preciso ser um Mestre da Arte para obter êxito nestes experimentos e que é preciso defender este livro dos incautos. Novamente sobre dias e horas, a aparência dos espíritos, locais apropriados, jejuns, orações, exorcismos, sacrifícios animais, vestimentas, armas, banhos e companheiros para os rituais. Aqui estão reunidos os aspectos preparatórios do magista para o cumprimento dos rituais expostos no Livro I.

O livro se encerra com um apêndice, indicado como sendo um Fragmento Ancestral da Clavícula de Salomão, Traduzido do Hebraico por Eliphas Lévi, presente em seu Philosophie Occulte, serie II, onde fala sobre Cabala e relaciona as sephirot com as qliphot e seus anjos. Uma invocação cabalística de Salomão e uma tabela com alfabetos místicos.

Este é um livro histórico. Traz notas de rodapé dos vários envolvidos que enriquecem ainda mais o conteúdo apresentado e deixam claro o quão rica e complexa a Magia Salomônica em essência é. Possui um ótimo acabamento, diagramação clara, capa dura e folhas de alta qualidade que certamente tornam esta edição própria até mesmo para ser usada dentro de um ritual. Simplesmente obrigatório.

por Allan Trindade


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quarta-feira, 14 de março de 2018

De todos os moradores da minha rua, uma velha senhora chamava atenção por seu jeito exótico de se vestir. Com seus prováveis um metro e sessenta de altura, andar lento, vestida permanentemente de preto e com um guarda-chuva de cor igual para protegê-la do sol, destacava-se ao longe a visão de qualquer um que direcionasse o olhar na direção em que estivesse. Seu marido, um velho de aparência absolutamente normal, costumava ficar sentado no portão daquela casinha estranha, e ao me ver, criança que eu era, passava a mão na minha cabeça e dizia com certo sotaque: Olá, Trindade!

Conhecia-os de perto, vez por outra minha mãe me levava lá para rezar a tal da espinhela caída. A casa era pobre, com uma sala repleta de santos católicos, velas, ramos de arruda e uma aura constante de religiosidade. É fato que eu tinha certo medo daquele lugar. Mas a tensão inicial era sempre compensada pelas boas energias de reza que aquela exótica velha cristã humildemente oferecia a todos de graça, se você não pudesse pagar, ou pelo valor que pudesse doar.

O tempo levou um a um. A casa, abandonada e sob escombros, está pouco a pouco sendo tomada pelas plantas. A memória um dia também vai se esvair. Mas a impressão permanece; de que já não se fazem mais bruxas como antigamente...


ARADIA O EVANGELHO DAS BRUXAS é um livro escrito por Charles Godfrey Leland, com 119 páginas, divididas em 15 capítulos, publicado no ano de 2016 pela Madras editora.

Embora esta seja uma edição recente, faz-se necessário posicionar o leitor em sua data original: 1899. Charles Leland, um inveterado pesquisador do tema de Bruxaria, autor de mais de 50 livros, empenhou-se em registrar nesta publicação parte daquela antiga tradição italiana de feitiços e adorações a deuses pagãos.

Stregheria, vocábulo utilizado para referir-se a bruxaria italiana enquanto exercício da feitiçaria ou ofício religioso, define a prática das strege, ou feiticeiras, que segundo o autor, fazem jus a realidade e devaneio atribuídos popularmente ao imaginário da magia, com suas produções e comércio de adivinhações, amuletos, feitiços, que podem ser apontadas como herdeiras de tradições familiares deste contexto.

Segundo Leland, parte da responsabilidade da existência destes homens e mulheres alinhados para com estas artes, seria a própria Igreja Católica, que ao atacá-los, produz um sentimento de atração nas mentes daquelas pessoas mais curiosas, aumentando, desta forma, o número de seus adeptos. Mas deixa claro que não é otimista sobre o futuro de nenhum destes lados, e prediz que tanto a bruxa quanto o padre correm o risco de desaparecer em um futuro próximo.

Baseado nesta perspectiva pessimista, ao conhecer uma senhora adepta de tais práticas, a incumbiu de recolher informações em meio a suas iguais, e usou este conhecimento para a formação deste livro, sob o preço, quem sabe, de nunca mais tê-la visto novamente.

Em poucas palavras, pode-se dizer que a bruxaria é conhecida como la vecchia religione, ou antiga religião, sendo Diana a Deusa e sua filha Aradia (ou Herodias) o Messias feminino, seu nascimento, como desceu à terra e instituiu as bruxas e a bruxaria, retornando então aos céus, são temas apresentados nessa pequena obra. Também fazem parte as cerimônias e invocações ou encantamentos a Diana e Aradia, o exorcismo de Caim e os feitiços da pedra sagrada, da arruda e da verbena que, segundo afirma o texto, integram o que se pode considerar uma celebração religiosa regular, para entoar ou recitar em encontros de bruxas. Além disso, também se incluem os singulares encantamentos ou bênçãos do mel, do trigo ou pão e sal, ou os bolos da refeição das bruxas, curiosamente clássicos, e um nítido vestígio dos Mistérios Romanos.
pg. 9


O parágrafo em destaque resume grande parte do conteúdo, e como complemento podemos dizer que este título parte do princípio que Diana, irmã de Lúcifer, deus do Sol e da Lua, e que fora expulso do Paraíso pelo orgulho de sua beleza, juntou-se a ele e deu a luz a Aradia (Heródias). Todo este ocorrido teria acontecido num tempo onde ricos humilhavam e escravizavam os pobres, e que estes, comumente tinham que fugir para poder garantirem sua sobrevivência. Assim, Diana instruiu Aradia para que descesse a Terra e ensinasse a estes oprimidos as técnicas de bruxaria e envenenamento para serem usadas contra ciganos, judeus e cristãos, seus principais opressores. A partir deste ponto, os capítulos incluem receitas de alimentos, histórias, fetiches e feitiços para os mais diversos fins e são, em grande parte, escritos em formas de versos bilíngues, em italiano e português.

Quando o nobre e o padre disserem que deves crer no Pai, no Filho e em Maria, tua resposta há de ser sempre: Vosso Deus, o Pai e Maria são três demônios...Pois o verdadeiro Deus-Pai não é o vosso: vim para destruir os maus e os destruirei...Vós que sois pobres e de fome sofreis, em miséria labutais e, muitas vezes, sofreis ainda a prisão, tendes também uma alma, e por vossos sofrimentos felizes sereis no outro mundo, e mau destino terão todos os que vos fizerem mal!
pg. 13

Este é um livro de caráter histórico, mas nem por isso menos empírico. Registra práticas de bruxaria italianas oriundas do século XIX, que possivelmente antecedem em muito esta data. É simples e direto. Cumpre de forma objetiva e satisfatória aquilo que propõe.

por Allan Trindade


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domingo, 2 de julho de 2017

Pouco tempo após o nascimento, batismo. Alguns anos depois, catecismo. Aos domingos, missa. Na fase adulta, terno, véu e grinalda; casamento. Esta foi a rotina vivida por milhões de pessoas ao redor de todo mundo durante algumas centenas de anos. Entretanto, todos estes rituais estão se tornando cada vez mais opacos e algumas mudanças vem sendo sentidas.

Pelas ruas de muitos países europeus a ocorrência é rotineira: mulheres trajando hijabs, olhando para o chão, sempre muito apressadas para fugir o mais rápido possível dos olhares dos outros, aparentemente vivendo sob uma aura de constante ameaça e medo. Pelas televisões brasileiras outro fenômeno é facilmente percebido: a qualquer momento em que se zapeie pelos canais, homens de paletó em cima de púlpitos e timbre falseado exorcizam demônios, denigrem as religiões alheias e pedem contribuições em dinheiro em troca de promessas de recompensas materiais para os muitos desesperados que preenchem as fileiras de suas igrejas imponentes. O crescimento do Islã está para o mundo assim como do evangelismo está para o Brasil. Os tempos estão mudando. E com ele os hábitos e tradições.

 Ao observar tais mudanças muitos são aqueles que se estremecem de medo frente a possibilidade de terem seus mundos de vãs certezas - frequentemente fundamentadas sobre aquilo que se ouve, e não sobre aquilo que se estuda - abalado. Mas se é através do presente que podemos especular sobre o futuro, é no passado que encontramos os fundamentos sólidos para rascunhar algum tipo de argumento que tente explicar aquilo que se tem. 

Jesus, o deus moldado e explorado pelos cristãos mais tradicionais, redentor e inspirador das falas e rituais de nossos pais e avós, vem sendo pouco a pouco substituído por dois novos deuses: um de fala árabe sedento por saciar-se com todas as formas de moralidade, que vez por outra considera justo que monumentos históricos e pessoas sejam reduzidas a pó, e um outro que, não raras as vezes, fala em línguas estranhas, tem certa ojeriza por homossexuais e vive com fome de grana.

Em meio a toda esta mixórdia de novidades teológicas, indagações diversas pululam em nossa mente, mas um pensamento em específico se destaca e nos leva a questionar, se afinal de contas, você sabe...

O Que Jesus Disse? O Que Jesus não disse? é um livro escrito por Bart D. Ehrman, publicado no ano de 2006, pela Prestígio Editorial, com 245 páginas, divididas 7 em capítulos.

Antes de darmos continuação a esta resenha, devemos nos desculpar com nossos leitores. Sim, pois não resistimos ao impulso de jogar com as palavras e ideias nesta introdução. Isto porque todo o desenvolvimento do texto até aqui pode lhe dar uma falsa impressão sobre o conteúdo apresentado neste livro, impressão esta que nós mesmos tivemos. Este título não tem como foco as falas de Jesus dentro dos evangelhos, comparando-as com as ideias populares que os laicos tem sobre esta figura divinizada. A verdade é que o livro não trata exclusivamente disto, mas é muito mais amplo em sua abordagem.

O Que Jesus Disse... faz parte de um conjunto de outros títulos do mesmo autor, que tem por objetivo desmitificar uma série de questões relativas ao contexto cristão, que rondam o imaginário dos fieis desta crença. Porém aqui, Ehrman foca sua abordagem em um ponto específico da história e talvez o subtítulo  Quem Mudou a Bíblia e Por Quê  explique melhor os objetivos desta obra.

Bart nos leva a uma viagem ao passado, há cerca de 2000 anos atrás, período em que a Europa mudaria radicalmente sua maneira de lidar e enxergar a vida. As boas novas vinham sendo espalhadas rapidamente por todo o continente e davam início a um abalo nas estruturas pagãs do Velho Mundo. Motivados pela crença de um salvador, escravos e miseráveis deixavam-se levar pela ideia de que todo seu sofrimento em vida, seria finalmente compensando em algum momento da volta de um ser que não sabiam bem se era meio homem meio divino, totalmente humano ou absolutamente Deus. Seu nome era Jesus, que segundo a tradição, escolheu doze seguidores, algumas poucas mulheres, falou em parábolas, morreu, ressuscitou, e voltaria algum dia para julgar os ímpios e salvar os justos. Esta parte da  história, bem sabemos,  não é novidade para ninguém. Entretanto , existem alguns aspectos não ditos, alguns elementos intencionalmente deixados de lado, e um roteiro escrito e reescrito de modo a fazer com que toda esta narrativa ganhe ares próximos de um perfeccionismo digno das telas cinematográficas.

Os quatro primeiros séculos do Cristianismo seriam marcados por uma grande confusão de grupos e ideias descentralizadas, onde cada um tinha sua própria interpretação para o significado do messias. A não existência de um líder e um certo nível de despreocupação com as coisas deste mundo, eram senso comum dentre os adeptos primitivos...e isso era, em muitos casos, um problema. Tal qual as muitas religiões pagãs dos tempos antigos, a religião cristã dava seus primeiros passos através da tradição oral, e quando muito, fazia uso dos livros daqueles a quem pegaram emprestado a ideia de um deus único: os judeus. Popularmente conhecidos como o povo do livro, seriam eles também a inspiração para esta nova ideia, e é sobre ela que Bart desenvolve seus argumentos.

O estudioso e crítico textual traz uma análise histórica sobre os primeiros textos cristãos e a forma de seu surgimento. O contexto era de um analfabetismo quase absoluto para a população pobre e desvalida - grupo social onde o Cristianismo conquistou seus primeiros adeptos - e os minimamente capacitados na técnica da escrita ou da leitura, ganhavam destaque. A tradição oral começava a ser transcrita e líderes relevantes, como Paulo, teriam importância fundamental neste período uma vez que suas cartas seriam usadas como base doutrinária para as diversas igrejas que se formavam. Aqui uma divisão temporal se evidencia dentre os primeiros copistas, ou seja, aquelas pessoas imbuídas da função de grafar os relatos, que em muitos casos eram analfabetas, e os copistas posteriores, monges ou cidadãos letrados que tinham a escrita como ofício.

Esta transição, entretanto, teria uma consequência dúbia: daria fundamento tangível para a doutrina ao mesmo tempo que realça as diferenças de pensamentos teológicos concernentes a cada grupo em cada tempo. E Bart nos traz comparativos não apenas de diversas passagens diferentes em estilo e relato, que como no caso dos evangelhos de Marcos e Lucas, se lidos de forma separada, demonstram um Jesus por vezes irado e no segundo caso, um Nazareno por vezes compassivo e muito mais sereno. Mas também dos nichos que compunham toda aquela conjuntura, como judeus, pagãos e os diversos tipos cristãos como adocionistas, docetas e separacionistas.

O fundamento argumentativo de Bart está na concepção de que a disputa entre estes diferentes grupos - cristãos e não cristãos - interferia intimamente nas alterações textuais de modo a justificar uma linha de pensamento teológica. Veja que com isso não queremos dizer que os não adeptos da fé cristã alteravam os textos como em um boicote, mas que os próprios cristãos moldavam sua literatura para usá-la como prova para suas ideias, que além de não serem unificadas, tinham pouca resistência para a mudança e adaptação que lhes favorecesse. Para além disso, nos traz exemplos de acidentes e danificações nos escritos originais que interferiram em sua reprodução posterior.


Muitos são aqueles que, ainda atualmente, pensam que a Bíblia foi um livro escrito em um momento único, quiçá por um único autor. Este talvez seja um dos maiores erros que se possa cometer quando o assunto é Cristianismo. Ehrman nos fala não apenas da história das mãos que cunharam os primeiros textos que dariam origem a este livro sagrado, mas também nos dá os fundamentos e comparativos de diversas passagens de pergaminhos antigos que evidenciam perdas, alterações, má interpretações e traduções dos textos do Novo Testamento. Dizer que "A Bíblia foi escrita por homens!" no plural e para justificar seus absurdos, contradições e erros nunca fez tanto sentido.

O andamento d'O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? é em alguns momentos repetitivo mas essencialmente argumentativo. Os capítulos começam de forma marcada por introdução, desenvolvimento e conclusão.  É acessível, mas como é de se esperar, vide a formação de seu autor, beira o estilo acadêmico. Não fala sobre a estruturação da Bíblia Sagrada em si, mas foca na influência que os copistas exerceram na formação dos livros que viriam a compô-la posteriormente.

E para um melhor aproveitamento, consideramos indicado que os leitores tenham lido-a inteira, ou ao menos, os Quatro Evangelhos.

Quando olhamos para o passado e nos deparamos com tantas questões ocultas que fundamentam a nossa história, percebemos o quanto certas mentiras, contadas por mil vezes, mil anos, ou mais, de fato, se tornam verdade...mas a história se reescreve, e nós, no presente, somos o passado do futuro, que como dizem os populares: a Deus pertence! Só nos resta saber que Deus será esse...

por Allan Trindade



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domingo, 15 de março de 2015


Brida.
Este livro marcou minha pré-adolescência e por isso decidi que ele deveria ser o primeiro título deste blog...

 Já não me lembrava mais exatamente o contexto da história, apenas que tratava de bruxaria e algo descrito no livro como a "Tradição do Sol"...sentei-me para iniciar a releitura e para minha estranha surpresa, o livro se passa na Irlanda, país a qual passei quase um ano da minha vida morando. Coincidência? Talvez... mas para mim, estes eram motivos mais que suficientes para continuar a leitura...


Com 190 páginas, o livro conta a história de uma jovem adulta, que intrigada pelas questões existenciais características da idade, direciona seu foco para o aprendizado da magia. Com uma introdução que nos leva a crer que aquela seja a história real de uma Irlandesa dentre os meandros da bruxaria, o livro possui um desenvolvimento leve, bastante carente na descrição de cenários que compõem a paisagem Irlandesa, e clichê, já que foca sua narrativa sobre a temática da busca de uma pós-adolescente pelo amor de sua vida. O título contém passagens interessantes, como aquelas máximas de efeito que muitas vezes nos levam a refletir sobre algo que tenha passado despercebido, mas estas são exceções no livro.

Brida, que mora em Dublin, parte de sua cidade em busca de um famoso mago que vive como um eremita, no meio de uma floresta em uma cidade afastada. Ele é um mago da "Tradição do Sol" que - sem dar a entender exatamente do que se trata tal denominação - lhe explica que, para aprender sobre os Mistérios, terá de descobrir se seu caminho será o mesmo que o dele, ou seu exato oposto: "A Tradição da Lua".

Dentre idas e vindas, e uma busca sem muito esforço, após quase ter desistido de tudo já na primeira experiência, a jovem conhece aquela que seria sua mestra; "Wicca"...seu nome é Wicca. E é neste ponto que as imagens se tornam um pouco distorcidas...


Como dito anteriormente, já no prólogo, o autor nos leva a entender que aquela é uma história real. Sendo assim, partimos do princípio de que nomes, rituais e sistemas citados terão suas correlações minimamente respeitadas quando mencionadas de forma direta no livro. Qual sentido haveria de ter em uma personagem, descrita como uma bruxa, mestra de uma Tradição, se chamar Wicca se não para insinuar que aquela seja exatamente a Tradição a que ela pertença? E se é este o caso, não faz o menor sentido que rituais sejam rituais pagãos com orações e citações cristãs! (O que faz a "Virgem Maria" no meio de um Sabbat?!...estou até agora tentando entender...)


A tentativa constante do autor em sincretizar sistemas religiosos absolutamente opostos desce goela abaixo causando estranheza ao paladar e torções involuntárias aos músculos da face. Para os laicos e sincréticos, como era o meu caso há 13 anos atrás, tais detalhes podem até ser ignorados, mas para aqueles que já viveram e conviveram com bruxas e magistas, e que possuem histórias reais para compartilhar, Brida não passa de um livro de auto ajuda para adolescentes carentes...

por Allan Trindade

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