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sábado, 4 de abril de 2020


" Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações. " 
Isaías 14:12


" Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e o resplandecente Lúcifer. " Apocalipse 22:16

ANJOS CAÍDOS é um livro escrito por Harold Bloom, com 83 páginas e foi publicado no ano de 2008 pela editora Objetiva.

Sim, talvez você tenha se impressionado com as passagens acima, especialmente no ponto onde Jesus afirma ser Lúcifer. A bem da verdade eu manipulei o texto. A fonte original se refere em Isaías a Lúcifer, mas em Apocalipse como estrela da manhã. O que eu fiz não é novidade e em outros lugares você poderá encontrar o termo lúcifer também sendo substituído por sua forma traduzida mais adequada, ou seja, estrela da manhã. E se procurar além das traduções verá que existem diversas teorias que especulam sobre lúcifer ter sido um rei déspota daqui, um príncipe de acolá, ou um planeta de outrora.  E por que tantas fontes usam tantas traduções diferentes, ou dão sentidos diversos para uma mesma sentença? Teologia!

 A  interferência teológica dentro das traduções causa este tipo de fenômeno e confunde as mentes daqueles menos entendidos do assunto. Estrela da manhã é apenas a tradução para a palavra lúcifer. Uma expressão filosófica para alguns. Um nome próprio para outros. Para aqueles que consideram lúcifer como estrela da manhã, em outras palavras, como sendo apenas uma alegoria poética para aquele que traz a luz, na maior parte do tempo serão justos em considerar que todas as vezes que esta palavra aparecer na Bíblia, deverá ser traduzida como tal. 

Porém, para aqueles tantos outros que creem que lúcifer seja na verdade um nome próprio, uma pessoa em si, ou ainda o próprio anjo caído, bem...estes provavelmente considerarão Lúcifer em Isaías mas certamente não considerarão Lúcifer como sendo Jesus no Apocalipse. Dois pesos e duas medidas? Provável que sim...

...

Harold Bloom abre sua obra destacando um fato: há no mínimo três mil anos somos apresentados a imagens e conceitos de anjos, oriundos das três principais religiões abraâmicas dominantes do mundo ocidental, e em tempos modernos, pela grande explosão do tema através de místicas alternativas que desde a década de 90 preenchem as estantes de livrarias e locadoras (quando estas ainda existiam) com os mais variados tipos de livros, kits e filmes sobre o tema. Cremos não ser exagero afirmar que não há pessoa viva nestas terras que não tenha ouvido falar nestes divinos seres alados. 

Diferentemente de seus parentes menores, os demônios, que possuem um caráter mais universal, sendo encontrados em praticamente todas as culturas ao redor do mundo, segundo o autor, os anjos parecem ter uma relação específica com aquelas origens zoroatristas, judaicas e consequentemente cristãs e islâmicas. Sempre dotados de funções divinas e por vezes rebeldes, estes seres são únicos por terem uma relação estranhamente próxima a nossa, não apenas em seu sentido pseudo histórico - vide os diversos relatos de contatos e relações encontráveis nestes textos sagrados-, mas também comportamental, sendo dotados de paixões e vontades, embora na maior parte do tempo exerçam a função de servir. 

Seria a atração dos anjos por nós e nossa por eles mero acaso?

Bloom destaca o fato de seres humanos não terem o mesmo apreço pelos demônios que possuem pelos anjos, sendo estes vistos com certo glamour mesmo quando são diabólicos. O que dizer de frases como " ...você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu, com olhos de cristal, me enfeitiçou eu nunca vi nada igual...",  apenas para citar um dentre vários casos de poemas e canções que tornam a queda destes seres interessantes ou atraentes para nós. A razão para isso? 

Segundo Harold, anjos caídos foram portadores de algo que tem o potencial de ser reavido, pois este algo é parte intrínseca de sua própria natureza. Sendo assim, toda esta atração por anjos, sendo eles caídos ou não, talvez represente um apelo íntimo e desconhecido residente dentro de cada um de nós. Uma verdade oculta em nossa próprio ser, que se manifesta através deste estranho interesse, ansiando por manifestar-se. Algo que também temos mas não sabemos. Um segredo sobre aquilo que nós somos.  A possibilidade de nós sermos anjos caídos buscando reconciliação com nossos iguais. 

Para justificar toda esta senda por comunicação ou reconciliação, que destaca, existe desde o paganismo,  como visto nos textos de Apuleio e sua fala sobre o daemon de Sócrates, passando por Santo Agostinho e seu entendimento de como seria a vida dos anjos antes do Éden, segundo o autor, são estes os seres, e não os diabos,  que independentemente do nome ou forma que lhes sejam atribuídas, sempre estiveram no imaginário e ânsias humanas em busca do Divino. E se levarmos em consideração a etimologia da palavra, angelus, mensageiros, e portanto, intermediários, talvez essa teoria nem parece tão absurda. 

O autor disserta sobre outros temas correlacionados, como do conceito judaico sobre satã e seu entendimento amorfo, muito mais ligado a qualquer ideia ou elemento de oposição, que propriamente tratando de um ser como um diabo espiritual ou demônio sedento por maldade, considerando que esta percepção deturpada fora propagada principalmente pelo já mencionado Santo Agostinho em sua obra A Cidade de Deus. A ideia por trás do conceito reside sobre o argumento de que mesmo que os demônios tenham sua função no imaginário humano, são os anjos que desempenham os papéis mais importantes.

Anjos caídos é um livro interessante a sua maneira. Divaga, vai e volta nos temas sem muito compromisso com uma formalidade textual. Lança assuntos e ideias e deste modo exige um certo nível de conhecimento geral sobre o que trata. É curto mas levemente profundo, cheio de referências a textos e autores clássicos da literatura, como Shakespeare, John Milton, Mary Shelley, dentre outros. Tem uma proposta interessante sobre qual seja a real identidade humana e é preenchido com belas ilustrações de Liberati.

Não crie grandes expectativas. Não é indispensável. Mas até vale um tanto.


por Allan Trindade

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sexta-feira, 27 de março de 2020

... Equilíbrio é a base da Obra. Se tu mesmo não tiveres uma fundação estável, sobre o que ficarás
para dirigir as forças da Natureza?
...Estabeleça a ti mesmo em um equilíbrio de forças, no centro da Cruz dos Elementos, aquela Cruz de cujo centro o Verbo Criador foi emitido no amanhecer do Universo.
Sê, portanto, rápido e ativo como os Silfos, contudo evita a frivolidade e extravagância; sê enérgico e forte como as Salamandras, mas evita irritabilidade e ferocidade; sê flexível e atencioso com as imagens como as Ondinas, todavia evita indolência e volubilidade; sê aplicado e paciente como os Gnomos, porém evita grosseria e avareza.
Desse modo, gradualmente desenvolverás os poderes de tua alma, e te habilitarás a controlar os Espíritos dos elementos. ...

- Liber Librae



O RITUAL MENOR DO PENTAGRAMA é um livro escrito pelo Oásis Quetzalcoatl, corpo local da Ordo Templi Orientis, com 52 páginas, divididas em 8 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pelo Clube de Autores.


O pentagrama. Figura de uma estrela de cinco pontas com traçados que conectam todos seus lados. Um símbolo universal, porém, de diferentes significados. Taxado como sendo o selo do próprio demônio por alguns, este gráfico tão facilmente encontrável nos mais diversos contextos mágicos costuma significar principalmente uma coisa em síntese e de acordo com a Tradição: o homem em seu mais perfeito equilíbrio. Os mais associativos não cometerão erro se ao virem o relacionarem ao Homem Vitruviano de Da Vinci. 

Se para alguns tal explicação faz-se suficiente, para tantos outros, de natureza mais investigativa, e por que não dizer, esotérica, não se darão por satisfeitos e quererão saber mais. E para seu acalanto, o ocultismo nos oferece mais. Segundo a Filosofia Mágica, o pentagrama não representa apenas o homem pleno, pura e simplesmente por uma capacidade associativa com a figura humana, mas, essencialmente porque cada uma de suas pontas representam um elemento, a saber: terra, fogo, água e ar, encimados pelo quinto elemento, o espírito. Tais componentes são correspondentes a diversos aspectos não materiais da existência humana, como a relação que se faz da água com os sentimentos, ou do ar com o intelecto, por exemplo, e é o espírito que não apenas reúne sob si todos os outros, como os equilibra e controla. 

Através desta lógica, muitos são os rituais que possuem em sua estrutura este símbolo tão cheio de sabedoria e poder, e não diferente, fora assim também criado o ritual que dá nome a este livro. O Ritual Menor do Pentagrama nos foi legado a partir da criação da Ordem Hermética da Aurora Dourada, ou como também é deveras conhecida, Golden Dawn. Estruturado de modo a cumprir diversos usos, como a invocação das energias elementais, é praticado costumeiramente como uma ferramenta de banimento de energias indesejáveis, precedendo qualquer ritualística de caráter mágico, divinatório ou religioso. Mas não apenas. Levando em consideração o fato de símbolos esotéricos serem por princípio imagens que resumem e facilitam o acesso imediato de seus adeptos aqueles conceitos complexos que já tenham sido absorvidos previamente, espera-se que o praticante realize este rito ao menos uma vez ao dia, de modo a tornar-se aquilo que o símbolo representa: um homem em seu perfeito equilíbrio. Ao rodear-se de pentagramas, o homem torna-se o pentagrama e o pentagrama torna-se o homem.

Esta publicação faz parte de uma série de ensaios escritos pelos membros do Oásis Quetzalcoatl, um corpo local da Ordo Templi Orientis, que visa facilitar, em sua brevidade de 50 páginas, o acesso a todos aqueles interessados em compreender um pouco mais as origens deste ritual tão comumente falado. Em sua estrutura, o livro nos apresenta capítulos que dissertam sobre O Que é o RMP e de Onde Provém, Correspondências Cabalísticas, Os Usos do RMP, A Cruz Cabalística, O Exercício da Cruz Cabalística, além é claro, de todas as instruções sobre como praticá-lo, tanto a maneira tradicional, quanto sobre os modos de adaptá-lo a seu próprio universo.

Um livro simples para quem busca explicações simples.

por Allan Trindade



domingo, 22 de março de 2020

Magia divina e sagrada revelada por Deus a Moisés, Aarão e Davi, Salomão e outros santos, patriarcas e profetas para ensinar-lhes a verdadeira Sapiência Divina, que foi transmitida por Abraham, filho de Simão, ao seu filho Lamek, e cujo texto original em hebreu foi traduzido em Veneza, no ano de 1458.

pg. 9

A MAGIA SAGRADA DE ABRAMELIN é um livro escrito por Abraão, o Judeu, com 215 páginas, divididas em três livros internos e foi publicado no ano de 2007 pela Madras Editora.


Eis um dos grandes clássicos literários para o ocultismo moderno. Este livro que influenciou indivíduos importantes como Samuel Mathers - principal expoente da Golden Dawn - e Aleister Crowley - desenvolvedor da religião conhecida como Thelema - é peça fundamental para o entendimento do fundamento das doutrinas acima citadas. Mas o que há de tão importante nesse livro? Importância é um valor muito pessoal e pessoas distintas podem não necessariamente concordar sobre a utilidade do mesmo. Porém, para todo estudante sério de ocultismo, faz-se indispensável conhecer e saber o que objetiva esta obra: fornecer um método de contato do magista para com seu Sagrado Anjo Guardião. 



Diferentemente de muitos grimórios contemporâneos, como aqueles das Clavículas de Salomão, que embora tragam uma fundamentação e fórmulas até mesmo semelhantes as encontradas nesta obra, o diferencial d'A Magia Sagrada de Abramelin reside no fato de além de prescrever fórmulas mágicas para a obtenção dos mais diversos  fins, desde o enfeitiçamento de pessoas, passando por excentricidades como quadrados mágicos para destruir edificações e licantropia, todos as fórmulas aqui contidas, segundo este sistema, só são passíveis de serem conquistadas a partir do contato e liberação de seu próprio anjo. 


O livro começa com seu autor, Abraão, alertando sobre os poderes contidos neste grimório. Ele o escrevera para seu filho, chamado Lameck, e espera que o mesmo conceba que todo o conhecimento aqui disposto deva ser tratado com a máxima cautela e respeito a Deus, vide que toda sabedoria aqui é divina e não deve jamais ser permitida que caia nas mãos de feiticeiros inescrupulosos. Segundo Abraão, todo este trabalho é fruto de uma longa jornada em busca de um conhecimento verdadeiro, iniciada após seus vários anos de aprendizado de Cabala com seu pai, um rabino, aprendizado este que fora interrompido em função de sua morte. Empenhado em saber ainda mais sobre os Conhecimentos Santos, viajou por toda Europa e África junto de seu amigo, Samuel, até sua morte, dois anos após o início em 1397.

Desolado e pensando em desistir, foi no Egito que conheceu Aarão, que lhe falou sobre um ancião que vivia no deserto, chamado Abramelin. Encontrando-o falou sobre seu interesse em aprender a Magia Sagrada, ao passo que este lhe pediu 10 florins de ouro para dar como esmola, que jejuasse por três dias, recitasse os salmos e copiasse a mão dois livros, sob a promessa de fazer o bem e ser obediente a Deus. Feito isto, voltou para casa disposto a por os conhecimentos recebidos em prática. Superando as tribulações que encontrara para a consecução, desde coisas simples como contendas em seu  casamento, até elementos mais complexos como a resistência frente as tentações demoníacas, recebera, após meses de dedicação com jejuns, purificações e orações diárias, a visita de seu anjo por três dias. E foi a partir de então que alcançou a graça de curar 1413 pessoas, recebeu montantes de dinheiro e teve a possibilidade de presentear reis com espíritos familiares. 

Tudo isto nos conta Abraão, sempre envolto em uma aura de extrema advertência e reticência: " tenha consciência dos perigos desta empresa. Seja temente a Deus. Resista as tentações do demônio. Não entregue este livro para feiticeiros e pessoas sem caráter. Não acredite na tolice dos astrólogos que creem nas influências dos astros, nem tampouco em suas tabelas de horários. Seja asseado, mantenha a mente em oração durante todo o tempo, cuide de seu altar, evoque Deus e seu Anjo. "

O autor ainda nos alerta sobre a necessidade de saber distinguir a verdadeira da falsa magia perpetrada nos tempos modernos. Faz-se necessário destacar aqui que este é um grimório teúrgico, de forte influência judaico-cabalística, que considera que apenas esta fórmula é segura, verdadeira e abençoada por Deus para ser praticada. Segundo Abraão, todos os outros livros que contenham coisas como círculo de proteção, ou apelo a questões planetárias, são enganadores, diabólicos ou uma fusão de ambos.

O objetivo aqui é simples: entrar em contato com seu anjo. O método é complexo: isolar-se de tudo e todos por um período de cerca de seis meses dedicando-se exclusivamente a esta finalidade, com rituais de evocação diários, purificação e oração. A consecução consiste em: uma vez recebida a visita do anjo, o mesmo lhe instruirá sobre como proceder em relação aos demônios que vivem na Terra de modo a subjugá-los para que te sirvam em seus objetivos mágicos. 

Levando em consideração que Deus e os Anjos pertencem a escalas superiores de manifestação espiritual, cabe ao magista rogar a autorização destes para controlar os demônios que aqui já vivem. Sem este contato e autorização divina, qualquer ato mágico é considerado como sendo um ato ilusório e diabólico, que tem grandes chances de condenar o magista e aqueles que creem em seus feitiços, fazendo-os sucumbir como marionetes nas mãos destes seres infernais.

Dividido em três livros internos, A Magia Sagrada de Abramelin começa contando a autobiografia do autor, passa pela segunda parte onde argumenta quais são as formas legítimas de magia e o porque deste ser o único grimório confiável, explica os procedimentos a serem seguidos para a comunicação com o anjo, sendo finalizado então por uma série de listas de nomes e hierarquias demoníacas, além de diversos quadrados mágicos a serem usados pelo magista para os mais diversos fins.

Embora seja extremamente repetitivo e proselitista em proporções quase iguais, o pouco que sobra torna esta obra obrigatória em qualquer biblioteca de ocultismo que se preze, não necessariamente pelo seu conteúdo, mas certamente por seu valor histórico.

por Allan Trindade




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domingo, 13 de novembro de 2016

Se raros são os indivíduos nos dias atuais que possuem conhecimento sobre a existência de grimórios medievais, mais raros ainda são aqueles que cumprem o ofício de encará-los de forma crua e literal, dedicando-se na dura labuta de construir suas Armas Mágicas, investir em itens e ingredientes raros, e sacrificar sua comodidade em nome da Obra. 



Se o discurso modernista aponta para as subtrações da ritualística, com seus psicologismos e ‘positivismos’ baratos, tornando-a, em muitos casos, seca e relapsa, atraindo com sua luz artificial os olhos dos impressionáveis e efêmeros magos e bruxos de internet, são os Tradicionalistas que mantém a observância da santidade dos atos, estudos e rituais, e em Silêncio, perpetuam a Magia Cerimonial que nos é dada e herdada. 


E é neste sentimento que somos gratos àqueles que descobrem suas Coroas encapuzadas e nos presenteiam com sua experiência, através do uso consciente das tecnologias que a atualidade nos oferece, com seus livros, blogs e demais difusores de conhecimento, compartilhando instrução e inspiração para as novas gerações de magistas verdadeiramente interessadas, provando que modernização não é sinônimo de ignorância ou omissão.



[O livro a seguir é baseado no título Magus, de Francis Barrett, apresentado aqui no número anterior. Caso não tenha lido ainda esta resenha, recomendamos então que faça sua leitura antes desta.] 



GATEWAYS THROUGH STONE AND CIRCLE é um livro escrito por Ashen Chassan, no ano de 2013, com 170 páginas e publicado pela editora Nephilim Press. Com cerca de 8 capítulos, o título trata da experiência e prática do autor, a partir das instruções contidas no livro de Barrett, sobre como atrair espíritos para dentro de cristais e estabelecer comunicação com eles.



Chassan é vanguardista e nadando contra a corrente dos movimentos atuais, assumiu para si a labuta
de trabalhar não apenas de forma Tradicionalista, mas, resolveu, junto a um grupo de outros estudiosos, incorporar a seu dia a dia a prática de evocação de espíritos planetários. De uma forma geral, tais magistas reuniram-se com a intenção de criar uma egrégora em comum, para gerar saúde e prosperidade em abundância, para cada um deles, através das energias Jupiterianas. Mas este foi apenas o começo para o autor, que com vontade e dedicação, reuniu experiência e instrução sob o título que dá nome a sua obra.



A ideia central do livro está intimamente ligada não apenas ao título Magus como um todo, mas a um capítulo em específico, de conteúdo curto e nome pomposo: A Magia e a Filosofia de Trithemius de Spanheim Contendo Seu Livro de Coisas Sagradas e a Doutrina dos Espíritos Com Muitos Segredos Curiosos e Preciosos (Até Agora Desconhecidos Pela Maioria) da Arte de Atrair os Espíritos Para Dentro de Cristais, Etc. Com Muitas Experiências Nas Ciências Ocultas, Nunca Antes Publicadas Na Língua Inglesa. Traduzido de um Manuscrito Latino Valioso por Francis Barrett, Estudioso de Química, Filosofia Natural e Oculta, a Cabala, etc.



Sugerindo que a tradução do título acima, atribuído a Trithemius, foi feita para um amigo, Francis lhe explica que esta arte não é dedicada àqueles que têm por finalidade objetivos vãos e egoístas, mas que deve servir para elevar sua existência ao Mais Alto. Diferentemente de outros sistemas bem
fonte: http://bryanashen.blogspot.com/
mais complexos em seu Arsenal, a prática de Atrair Espíritos Para Dentro de Cristais exige apenas: uma bola de cristal, presa a um suporte e rodeada por um círculo de ouro com nomes divinos; um círculo mágico, não muito grande, já que o ritual não exige movimentação; dois castiçais; um turíbulo e uma varinha de ébano negro com caracteres de ouro; além dos itens pessoais comuns aos sistemas cerimoniais, exigidas para uso do magista, como seu manto, pantáculos, etc.



Note que não há indicação para o uso de adagas ou espadas, uma provável sugestão para o fato de que tentar forçá-los a cumprir sua vontade não seja o caminho ideal.


Com todas as ferramentas em mãos e todo contexto pronto, dá-se então início a prática. Muito mais uma arte de comunicação que de pedidos, o sistema de Trithemius sugere que os espíritos planetários, também chamados de (Arc)Anjos, exigem dedicação e vontade pura de objetivo, e que antes de mais nada, é preciso saber a razão de se querer estar em contato com tais seres, e o que quer saber deles. Para isso é preciso, previamente, fazer uma seleção de perguntas que irão compor a sessão e que devem estar intimamente ligadas ao ofício de cada Anjo, a qual é relacionado a cada dia da semana e aos sete planetas antigos.


Tal como o fez o autor de Gateways Through Stone and Circle , não há dúvidas que as informações contidas em Magus seriam suficientes para que você iniciasse os rituais com este sistema. Porém, a exigência de conhecimentos prévios e o sobejo de proselitismo do livro de Barrett, poderiam ser empecilhos desnecessários a um praticante menos sabido, e que com a lapidação dos excessos feita por um magista mais experiente, o objetivo final da obra poderia ser melhor aproveitado. E é esse o trabalho que Ashen Chassan nos traz em sua publicação.



As palavras chaves aqui são instrução e praticidade. Seu livro não tem por objetivo grandes dissertações morais, espirituais ou históricas. É de se supor que o autor tenha deixado de lado tais componentes, típicos de textos grimóricos, pela consciência de os mesmos serem encontrados no livro a qual este título está relacionado. Não obstante, em uma página ou outra, até mesmo sugere que, se você não for uma pessoa simpática ao Cristianismo, alterações nas orações possam ser feitas desde que se respeitando o cerne da ideia.



Em seu princípio, Ashen dedica algumas páginas para comentários gerais sobre a prática mágica e alguns elementos históricos, que parecem ser de interesse de alguns, como a questão se esta arte foi de fato descrita por Trithemius, ou se foi apenas atribuída a ele por Francis. Segue tratando dos elementos psíquicos e espirituais relacionados a alguns sistemas, como a nem sempre tão objetiva indicação, encontrada em alguns livros antigos e pinturas, da parceria com um vidente para a recepção das mensagens dos Anjos, tal como o caso de John Dee e Edward Kelley, responsáveis pelo recebimento do Sistema Angélico, vulgo Enochiano. 



Traz ao leitor os nomes, sigilos, signos, características, desenhos - conforme sua própria experiência -
das formas humanoides destes seres. Segue descrevendo, item a item, a maneira como construiu e/ou adquiriu suas Armas Mágicas, e dá todas as instruções, passo a passo, de como fazê-las ou dos locais onde comprá-las. Destaca ainda a importância da mistificação da técnica mágica, desde a observância de seus estudos como santos, até a preocupação com o templo externo, um quarto ou local destinado exclusivamente para rituais, e o templo interno: seu próprio corpo. Encerra sua sequência trazendo o relato do contato com o espírito Cassiel. 



Considerar a objetividade do livro de Ashen parcial, por não se preocupar tão arraigadamente aos elementos religiosos contidos em Magus, seria o mesmo que desperdiçar a oportunidade de tomar este título não apenas como um grimório moderno para suas práticas pessoais, mas perder a chance de ter como referência seu método de estudo, prática e ensino. 



A ideia de publicar um livro baseado em um grimório antigo, respeitando os fundamentos apresentados em sua forma original, e atualizando componentes de modo a, não favorecer os baixos egos sedentos por pirotecnias e resultados fáceis, mas a contribuir para o progresso do conhecimento mágico, é uma prática que deve ser não apenas adquirida, mas reproduzida e ampliada. 



Se Magus pode ser considerado a ferramenta mágica para a prática de Atrair Espíritos para Dentro de Cristais, Gateways Through Stone and Circle é, sem dúvidas, seu manual de instruções. 


por Allan Trindade


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ao observarmos a evolução das religiões no mundo, percebemos uma grande divisão histórica nos registros modernos: saímos do plural para o singular. No período anterior ao advento do Cristianismo, há cerca de 2016 anos atrás, o mundo religioso, em sua grande maioria, era povoado por uma infinidade tão grande de Deuses e divindades menores, que seria impossível classificar a todos, fosse qual fosse nosso esforço. Panteísmo, animismo, politeísmo, monolatria, são termos recentes, desconhecidos para povos que estavam conectados as suas crenças, não por uma questão de escolha, mas por uma ligação étnica. Nascer sob a égide de uma determinada religião, receber de seus pais e sociedade os ensinamentos daquela crença, era automaticamente ser e considerar-se pertencente a ela.

Tal visualização pode parecer difícil num primeiro momento, num contexto onde a mística exerce um papel social secundário, neste mundo atual onde as pessoas trocam de religião com a mesma facilidade com que bebem um copo d'água. Mas basta pensar que ainda confundimos árabes com muçulmanos, que ignorantemente chamamos de racista todo aquele que diz não gostar do Judaísmo, para perceber que ainda temos muito que aprender sobre esta matéria.

Estas três religiões são então nossa principal referência para o assunto que se segue. É o Judaísmo o precursor do pensamento moderno, disseminado pelo Cristianismo, e tão ferrenhamente defendido pelo Islamismo de que "Deus é um só!". Todo este reducionismo, obviamente, encontra seus fundamentos numa colcha de retalhos histórica tão distante dos métodos modernos de classificação e verificação científica, que somos obrigados a usar deste argumento, de que são eles os "inventores" desta ideia, de modo a não cairmos num relativismo sem fim, que nos distancia da pluralidade de Deus(es) mas nos lança no "polihistoricismo" teórico. Deixemos que os cientistas da religião e exegetas nos digam se o monoteísmo existe de fato ou se toda esta ideia não passa de puro marketing espiritual.


E por qual razão consideramos essa possibilidade? Pois basta que você recorra ao principal elemento de perpetuação, usado principalmente pelas religiões monoteístas - seus livros sagrados -, para que sem esforço se depare com uma infinidade de seres espirituais imbuídos de funções sob o comando do tal "Deus Único", que em muitos casos, são tão poderosas, e descritas como tão mais próximas de nós, e tantas outras tão próximas d'Ele, que mais justo seria também considerá-las divindades dignas dos mesmos preletores. E não era esse o argumento daqueles antigos religiosos a que modernamente nos referimos como pagãos? Não é recorrente no paganismo, o conceito de que, apesar da pluralidade, apesar de um panteão com diferentes Deuses, todos eles, e as criaturas sob seus comandos, eram advindos de uma fonte única?


 Em todo mundo moderno, o esforço exercido pelas religiões monoteístas para desvincular o povo de seus mitos e crenças, foi em certo nível falho e vão. Pessoas e religiões se viram na obrigação de adaptar sua magia, fé e seres espirituais a nova linguagem imposta, daqueles que teimavam em lhes dizer que "basta pedir para Deus". Não bastou! Deuses viraram santos, semi-deuses foram travestidos como super heróis, rituais transmutaram-se em festas, espíritos reinterpretados como assombrações ou guias, elementais como folclore, anjos e demônios como serviçais de Deus para a manutenção da vida do homem... todos, tão antigos quanto o antigo, mais fortes que o tempo, venceram a força da abstração ignorante e minimalista, e superaram, mesmo que reconfigurados, as invasões, fogueiras e bombas do tempo que tanto insistiram e insistem, na tentativa de lhes expulsar do contato para com cada um de nós, e lhes apagar dos registros da nossa história e memória.

Os Espíritos da Natureza é um livro publicado pela editora ISIS, no ano de 2004, com 94 páginas, 16 capítulos, e foi escrito por Charles Webster Leadbeater, famoso teosofista e clarividente do século XIX.


Entendendo-se que Leadbeater chama de fadas, todos os espíritos da natureza ligados ao plano telúrico, de forma etérica ou astral, o autor reuniu através de capítulos uma coletânea de descrições sobre o mundo dos elementais, com foco em seu comportamento e forma.


A ideia básica por trás de seu conteúdo reside no conceito de que estes seres são formas sutis de energia, nascidas através de anjos e devas, com sua própria trajetória evolutiva no mundo espiritual. Sua proximidade conosco então se dá, pois são os elementais os responsáveis pela criação e manutenção de grande parte de todo o ciclo de vida da natureza, em seu sentido mais natural, sendo eles os administradores de flores e suas colorações, plantas e suas formas, insetos e toda a infinidade de coisas que se possa imaginar.

Sendo o homem um ser dotado de inteligência e individualização, e tendo em si caracteres revolucionários e ignorantes que o distanciam deste contato, está, por conseguinte, em grande parte, se afastando da relação com estes seres, todas as vezes que substitui florestas por cidades, rios por esgotos, despertando assim a ojeriza das fadas. Isso explicaria então o por que de no passado termos tido tantos relatos de seres fantásticos, e nos dias de hoje, tudo soar para nós como lendas de contos de fadas, aos quais, apesar de nosso anseio, só temos conhecimento através de reproduções cinematográficas.

Ainda segundo o autor, quanto mais distante do contato com a civilização humana, mais simpáticos eles são para conosco, traçando assim uma distinção entre os elementais que residem em rios e florestas, que por exemplo, são mais avessos e arredios a nossa presença já que conhecem e veem com frequência nossos atos destrutivos em seus reinos, e sendo aqueles residentes das superfícies do alto mar muito mais simpáticos a nós, uma vez que nossa aparição por lá seja muito mais rara.

As descrições de Leabeater são sempre generalistas e nada tem de realmente profundas: cada capítulo, quando muito, não chega ao número de quatro páginas. Entretanto, o título também não nos
traz promessa alguma: não há nele qualquer indicação sobre como o autor chegou aquelas verificações e nem tampouco, como elas poderiam então ser reproduzidas por outrem. Obviamente que aqui não estamos ignorando a fama do referido ser um clarividente, apenas consideramos que o livro carece de uma introdução explicativa neste sentido, para aqueles que não conhecem sua história. Se você está procurando um livro prático de magia elemental este título certamente não é para você.

Os Espíritos da Natureza ainda exige um certo conhecimento prévio, por incrível que pareça, para entender algumas ideias apresentadas pelo autor. Talvez seja interessante que você esteja familiarizado com tipos de pensamento relacionados a metempsicose, hierarquia celeste, hinduísmo e teosofia. Nada que você realmente precise, mas que pode evitar, principalmente em seus primeiros capítulos, questionamentos sobre "O quê ele quer dizer com isso?!".

Além disso, a editora incluiu nesta edição tantas imagens de fadas, que acredite, caso não fossem elas, o livro teria ainda bem menos páginas. Não obstante, não consta em sua ficha técnica seu nome original. Como seus leitores saberão de onde vocês tiraram estes escritos, Editora ISIS? Isso nos leva a pensar sobre a possibilidade desta publicação ser uma antologia destacada de algum outro contexto, onde originalmente os pontos falhos citados acima - como uma introdução para o assunto e explicações sobre métodos - talvez estivessem incluídos. Deixamos aqui o espaço aberto para uma possível explicação.

Este título dificilmente lhe trará algo de realmente significativo, seja a nível intelectual ou prático. Não espere por grandes revelações, métodos ou exercícios: nada disso você encontrará lá. Mas, com um certo esforço, tal qual o que eu fiz aqui, você poderá usá-lo como um gatilho para reflexões sobre o porquê da nossa relação de tanta dependência com o mundo moderno e o nosso distanciamento, cada vez mais intenso, para com os aspectos mais básicos da natureza.

por Allan Trindade


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