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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Entenda: nenhuma religião estruturada com rituais, dogmas, deuses, entidades ou santos, surge do nada. Todas as religiões são consequência de uma ou mais fontes que influenciam aquela nova percepção sobre a vida material e espiritual. E com o Cristianismo não é diferente.

Se você já viu a Bíblia ao menos uma vez na vida sabe que o Antigo Testamento é um livro judaico, e que é, portanto, oriundo do Judaísmo, tendo sido o próprio Jesus um judeu. Isso já seria suficiente para dizer que o Cristianismo não é uma religião totalmente original assim, correto? Mas se baseado nisso você acha que o Judaísmo é a única religião que ajudou a formar o Cristianismo tal como o conhecemos hoje, este livro vem para lhe mostrar que você está redondamente enganado.

A ORIGEM EGÍPCIA DO CRISTIANISMO é um livro escrito por Lisa Ann Bargeman contém 158 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Pensamento.

Se você é o tipo de pessoa que adora estudar história ou religião e realmente se dedica a esses assuntos, cedo ou tarde notará algo interessante: você sempre será levado para o Antigo Egito. E isso não se dá por nenhum tipo de conspiração Illuminati ou por chips implantados em nossas cabeças pelos aliens, mas por um fator histórico incontestável: o Egito foi uma das mais poderosas e importantes nações do mundo antigo, perdurando por mais de 4.000 anos como uma terra próspera que exportava conhecimento científico e religioso para grande parte do mundo. 

Localizado em uma área privilegiada do norte da África, esta terra de grandes faraós sempre atraiu o fascínio dos mais diferentes povos, e sua abundância, em todos os sentidos, fez escola entre cientistas, magistas e religiosos de todos os tempos. 

Para entender a lógica do argumento de Lisa Bargeman neste livro é antes de mais nada necessário entender o contexto e manter a cronologia em mente. Sendo assim, lembre-se que o Cristianismo, se calculado a partir do suposto nascimento de Jesus, possui pouco mais de 2.000 anos. Judeus, gregos, romanos, egípcios e uma série de outros povos viviam em constante contato muito antes deste tempo, chamado de "antes de cristo", tendo sido o Egito em seu período faraônico uma das maiores potências daquele período. 

Era coisa comum que nações menores, como da Grécia por exemplo, enviassem cidadãos gregos até aquelas terras para aprender ciência, magia e aquilo que chamamos de religião, mas que também poderia ser entendida por mitologia ou mesmo filosofia. Sem haver uma distinção clara entre tais conhecimentos naqueles tempos, também era relativamente comum que tais saberes fossem absorvidos e adaptados as novas culturas, ganhando roupagens novas de acordo com o local para onde se ia e levava tais conhecimentos. Por isso, Het-Heru poderia ser chamada de Hathor e ser sincretizada com Vênus ou mesmo Afrodite, sem que isso ofendesse a quem quer que seja. 

E por que isso funcionava? Pois em se tratando de politeísmo, o fenômeno da crença se manifesta naturalmente de forma inclusiva e não exclusiva. Se Deus é um, mas se manifesta através de diversas formas – e esta é a maneira a qual a visão religiosa egípcia interpretava tal conceito -, a forma que o outro cultua a Deus, chamando-o por outros nomes, ou considerando outras formas de Sua manifestação, não pode mesmo ser ofensiva, visto que todas são partes d’Ele mesmo.
 
Mas o que acontece quando alguém diz que só há uma forma de enxergar e cultuar a Deus?

No começo deste texto falamos sobre nenhuma religião ser totalmente original, absorvendo elementos ritualísticos e ideológicos de religiões contemporâneas ou predecessoras. Sendo o Cristianismo, herdeiro do conceito monoteísta de visão espiritual oriunda do Judaísmo, não poderia jamais admitir que sua religiosidade também fora fruto da inegável influência egípcia que possui, sendo a religião egípcia considerada pagã e, portanto, incorreta e até demoníaca para alguns. Logo, se para os politeístas antigos admitir que sua religião absorveu elementos de outras religiões politeístas era algo natural, para monoteístas como os cristãos, esse tipo de admissão pode ser uma ofensa para seu próprio conjunto de crenças, que é sempre pregado como original, oriundo e ou inspirado por seu próprio Deus único, e de nenhum outro. Mas os elementos históricos são muito mais certeiros que as crendices alheias e são incisivos para provar a realidade: o Cristianismo é inegavelmente uma religião construída a partir de uma grandessíssima influência pagã, e segundo a autora, indiscutivelmente egípcia!

Maria seria nada menos que uma versão cristã de Ísis, que também gerou seu filho, Hórus, de maneira independente. Osíris também fora assassinado e traído num banquete, ressuscitou, e se tornou o salvador e pastor que conduzia seu rebanho de seguidores no pós vida, tal como se diz sobre Jesus. A morte, segundo os papiros egípcios, é seguida por um Julgamento onde o indivíduo deve declarar-se inocente frente as possíveis acusações de ter roubado, matado, etc. sob risco de ser condenado, tal como na perspectiva cristã de julgamento. Múmias eram produzidas baseadas na crença da ressurreição da carne tal como dito na Bíblia. As imagens dos deuses egípcios ficavam guardadas das vistas do público dentro dos templos, saindo apenas em datas especiais quando eram carregadas e acompanhadas por uma caravana de seguidores que ali faziam suas promessas e orações e aguardavam por bênçãos, tal como católicos fazem hoje em dia em suas procissões. O faraó era um líder de Estado mas também o sumo sacerdote, tal como o Papa nos dias de hoje. 

Todos estes elementos e muitos outros são apontados durante toda esta obra que, embora curta e pouco aprofundada, é rica em conteúdo comparativo para que todos aqueles que tem o interesse pela pesquisa e que assim o façam, se sintam inegavelmente compelidos a admitir aquilo que muitos adoram negar: que não há religião superior a verdade.

por Allan Trindade

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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Conheci F. há cerca de 10 anos atrás. Desde o primeiro dia sabia que seríamos grandes amigos. Isto porque ele era até então uma das únicas pessoas que conseguia conversar comigo sobre todos os assuntos que sempre me fascinaram: magia, religião, ocultismo, psicologia, alquimia... Nos encontrávamos sempre que possível e ficávamos por horas a fio falando sobre os mais diversos temas.

Eu sempre soube que ele era gay, mesmo quando ele, por vergonha ou qualquer outro motivo, negava. Seu jeito afeminado fazia com que as pessoas especulassem coisas sobre nossa relação, que sempre foi da mais pura amizade. Eu, que desde a adolescência aprendi a não dar a mínima para a opinião alheia, especialmente a opinião de gente burra e maldosa, ria junto dele da cara destes tipos. Para mim, o cérebro de alguém inteligente sempre valeu muito mais que mil línguas de gente da família dos asininos ou dos muares. Mas nós bem sabemos que a cada dez faladores, sempre existe um que resolve tomar uma atitude.

Era madrugada e voltávamos para casa depois de mais uma dessas agradáveis noites de conversa. Ele, aquariano e um pouco desatento, caminhava pela calçada de forma despreocupada, falando e rindo alto, exibindo seus trejeitos, enquanto eu, leonino nato, compartilhava suas gargalhadas mas permanecia atento a estrada deserta. De repente, algumas quadras a frente, um carro surgiu virando a esquina. Em princípio vinha em velocidade normal mas logo reduziu. Rapidamente direcionei minha atenção para a cena. F. continuava falando como se nada estranho estivesse acontecendo.

Um homem do banco do carona pôs metade de seu corpo para fora da janela com uma coisa preta na mão, em forma de tacape. O carro repentinamente acelerou. F. se assustou com o barulho e logo percebeu que estávamos em perigo. A calçada era curta, não havia muito o que fazer. Ao se aproximarem em alta velocidade, o homem tentou acertá-lo na cara com aquilo que, imagino eu, era o tapete de borracha do carro enrolado como uma arma. F. saltou para o meu lado para se esquivar e fomos os dois direto para uma parede chapiscada, ralando nossos braços e tronco. 

Poucos segundos depois e alguns metros a frente, o homem gritou:
- VIADO, FILHO DA PUTA!

Pegamos um táxi e voltamos para casa ainda assustados com toda a situação. Nada de pior, felizmente, nos aconteceu. Mas infelizmente esta não é a realidade de muitos. 

A homofobia discrimina, machuca, mata. E ela não surge do nada, é teorizada, propagada e fundamentada na maior parte das vezes através de um livro, um livro religioso chamado Bíblia Sagrada. 

Mas afinal de contas, o que a Bíblia ensina sobre a Homossexualidade?

O QUE A BÍBLIA ENSINA SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE é um livro escrito por Kevin Deyoung, com 193 páginas divididas em 12 capítulos e foi publicado no ano de 2015 pela Fiel editora.

Antes de mais nada faz-se necessário criarmos um parenteses aqui: não, a Bíblia não é a única fonte para a homofobia. O ser humano é um animal que naturalmente discrimina seus pares pelos mais diversos motivos, sem com isso necessariamente precisar de qualquer justificativa lógica. Entretanto, a atitude discriminatória, quando surgida naturalmente, costuma procurar algum tipo de referência para justificar sua postura. Assim, por exemplo, se uma criança branca, que vive em meio a crianças brancas, considera estranha a presença de uma criança preta em sua sala de aula, se seus responsáveis não lhe derem a devida orientação sobre o fato da multiplicidade étnica existente no mundo, e ainda apoiar sua estranheza dizendo que crianças pretas não deveriam estar ali, as chances desta criança branca não apenas crescer como uma racista mas ainda incentivar as outras a terem a mesma atitude, é muito grande. 

Perceba então que temos uma fonte espontânea, ou seja, o sentimento de diferença sentido pela criança em sua comparação de cores, justificado e incentivado por seus pais racistas. O mesmo processo pode ser observado na questão homossexual. Vale ressaltar ainda que embora possam surgir em nós reações estranhas frente ao diferente, este sentimento pode ser induzido por outrem. Em outras palavras, uma criança que nunca tenha considerado tratar seu coleguinha de forma diferente por ser afeminado, por exemplo, pode ser incentivada por ser seus pais a discriminá-lo por acreditarem que este é um comportamento errado ou pecaminoso. Enfim, consideramos a multiplicidade de origem para um comportamento discriminatório, mas observamos que de uma forma geral, em nossa sociedade, a homofobia, ou seja, o medo e ódio contra pessoas e  atitudes consideradas homossexuais tem sempre se justificado por argumentos bíblicos.

Em sua introdução, Kevin Deyoung esclarece que embora a Bíblia não seja um livro sobre homossexualidade, a Bíblia fala explicitamente sobre este assunto. Já em seu princípio, destaca que para entender os argumentos daquele livro, faz-se necessário entender seu objetivo e método. Para tal, propõe uma volta as origens, mais especificamente em Gênesis, onde o Deus de Israel criara o homem e o jardim do Éden, e em seguida Eva, para que vivessem em paz. A queda os teria feito então sair de seu estado original e abençoado, e com isso, uma nova perspectiva se criava: o homem precisava retornar a seu estado de santidade e a única maneira para alcançar tal modo, seria mantendo-se casto. Por castidade, termo que poderíamos também definir como sinônimo de puro de objetivo, entende-se que este mesmo Deus criara uma série de regras a serem cumpridas, de modo que só através de sua observância, o homem poderia então retornar a seu estado original. No tocante ao sexo, ele poderia ser feito, desde que com o objetivo principal da procriação.

Sendo assim, o ser humano deve então: cumprir as diretrizes estabelecidas por Deus, fazer sexo para fins reprodutivos, longe das lascívia e orar para que tenha a chance de adentrar no Reino dos Céus.
Anos se passaram porém sem que o homem de fato cumprisse todas as regras estabelecidas pelo Deus, e sua degradação tornara-se cada vez maior. 

Os judeus teriam visto então surgir em seu meio um suposto messias, chamado Jesus, que teria vindo não para negar a antiga Lei, mas para afirmá-la, embora tenha feito pequenas modificações aqui e acolá, incluindo elementos interpretativos da mesma. A partir deste messias, que seria considerado pelos cristãos o próprio Deus encarnado, outros homens viriam para destacar a importância da observância de seus mandamentos. Paulo seria então uma destas figuras de maior proeminência. 

Mas o que teria toda esta história a ver com a homossexualidade? Segundo o autor, a Bíblia é um livro atemporal, cunhado como um manual de regras para que o cristão alcance a pureza estabelecida pelo Deus de Israel, transfigurado agora sob o nome de Jesus. Este livro estabelece que dentre estas regras, existem aquelas que são consideradas mais ou menos importantes, ou ainda pecados menores e maiores segundo as vistas deste Deus. Desvios como o de tocar em mulheres menstruadas diziam respeito as questões de pureza relacionadas especialmente aos sacerdotes, glutonia aos malandros e indivíduos já majoritariamente transviados que porém, ainda podem ser libertos, divórcio, que embora proibido, poderia ser então considerado em casos de adultério. Porém, seja no Antigo ou Novo Testamento, nenhum porém é garantido para a prática da homossexualidade, sendo este um pecado considerado uma abominação sob os olhos daquele Deus, um crime passível de morte dentre os judeus, e considerado um impeditivo para a entrada no Reino dos Céus pelos cristãos. 

Para o autor, este é um fato inconteste: embora possam haver crimes de igual nível abominável, nenhum pecado é maior que um homem se deitar com outro homem. E destaca ainda que se a Bíblia quase não fala sobre a questão homossexual, isso se dá pelo simples fato de que todos daquela época estavam plenamente cientes que esta prática não era aceitável.

 Segundo ele, este livro fora escrito então para um destes três tipos de pessoas:

convictos: que sabem que a homossexualidade é um pecado;
contenciosos: que espera que se os elementos textuais, exegéticos e lógicos expostos aqui não forem suficientes, que saibam que estão recorrendo a argumentos não bíblicos;
confusos: para os quais espera poder elucidar todas as questões sob a luz das Escrituras.

O Que a Bíblia Ensina Sobre a Homossexualidade é um livro bastante completo a sua maneira. Responde de forma lógica as principais questões levantadas por liberais cristãos ou defensores da causa gay, sempre fundamentando seus argumentos com versículos daquele livro sagrado. Sua exposição faz uma viagem desde a criação em Gênesis, passando por Sodoma e Gomorra, Romanos e Coríntios, incluindo uma observação sobre a suposta natureza amorosa daquela Deus. Traz ainda três apêndices que tratam sobre o casamento homossexual dentro da sociedade contemporânea, a atração homossexual, e a igreja: seus compromissos e a homossexualidade.

Kevin Deyoung é acima de tudo respeitoso em sua exposição, deixando claro que a declaração de sua fé, e seus dogmas, visto que é um cristão, de modo algum justificam qualquer tipo de agressão ou violência contra quem quer que seja. Embora seja opinativo em seus apêndices, e até levemente tendencioso neste ponto, é majoritariamente teológico em seu conteúdo. Não deixa dúvidas de que a Bíblia de fato condena enfaticamente, e sobre a maioria dos outros pecados, a prática da homossexualidade, e qualquer indivíduo coerente se sentirá impelido a concordar com suas conclusões.

Entretanto, concordar que um determinado texto afirme tal coisa, não significa considerar que tais afirmações devam ser aplicadas e praticadas por não cristãos, que sejam legalmente cabíveis para uma sociedade laica, ou mesmo que sejam lógicas para os nossos tempos.

"Dai a César o que é de César." Mt 22:21


por Allan Trindade


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sábado, 4 de abril de 2020


" Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações. " 
Isaías 14:12


" Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e o resplandecente Lúcifer. " Apocalipse 22:16

ANJOS CAÍDOS é um livro escrito por Harold Bloom, com 83 páginas e foi publicado no ano de 2008 pela editora Objetiva.

Sim, talvez você tenha se impressionado com as passagens acima, especialmente no ponto onde Jesus afirma ser Lúcifer. A bem da verdade eu manipulei o texto. A fonte original se refere em Isaías a Lúcifer, mas em Apocalipse como estrela da manhã. O que eu fiz não é novidade e em outros lugares você poderá encontrar o termo lúcifer também sendo substituído por sua forma traduzida mais adequada, ou seja, estrela da manhã. E se procurar além das traduções verá que existem diversas teorias que especulam sobre lúcifer ter sido um rei déspota daqui, um príncipe de acolá, ou um planeta de outrora.  E por que tantas fontes usam tantas traduções diferentes, ou dão sentidos diversos para uma mesma sentença? Teologia!

 A  interferência teológica dentro das traduções causa este tipo de fenômeno e confunde as mentes daqueles menos entendidos do assunto. Estrela da manhã é apenas a tradução para a palavra lúcifer. Uma expressão filosófica para alguns. Um nome próprio para outros. Para aqueles que consideram lúcifer como estrela da manhã, em outras palavras, como sendo apenas uma alegoria poética para aquele que traz a luz, na maior parte do tempo serão justos em considerar que todas as vezes que esta palavra aparecer na Bíblia, deverá ser traduzida como tal. 

Porém, para aqueles tantos outros que creem que lúcifer seja na verdade um nome próprio, uma pessoa em si, ou ainda o próprio anjo caído, bem...estes provavelmente considerarão Lúcifer em Isaías mas certamente não considerarão Lúcifer como sendo Jesus no Apocalipse. Dois pesos e duas medidas? Provável que sim...

...

Harold Bloom abre sua obra destacando um fato: há no mínimo três mil anos somos apresentados a imagens e conceitos de anjos, oriundos das três principais religiões abraâmicas dominantes do mundo ocidental, e em tempos modernos, pela grande explosão do tema através de místicas alternativas que desde a década de 90 preenchem as estantes de livrarias e locadoras (quando estas ainda existiam) com os mais variados tipos de livros, kits e filmes sobre o tema. Cremos não ser exagero afirmar que não há pessoa viva nestas terras que não tenha ouvido falar nestes divinos seres alados. 

Diferentemente de seus parentes menores, os demônios, que possuem um caráter mais universal, sendo encontrados em praticamente todas as culturas ao redor do mundo, segundo o autor, os anjos parecem ter uma relação específica com aquelas origens zoroatristas, judaicas e consequentemente cristãs e islâmicas. Sempre dotados de funções divinas e por vezes rebeldes, estes seres são únicos por terem uma relação estranhamente próxima a nossa, não apenas em seu sentido pseudo histórico - vide os diversos relatos de contatos e relações encontráveis nestes textos sagrados-, mas também comportamental, sendo dotados de paixões e vontades, embora na maior parte do tempo exerçam a função de servir. 

Seria a atração dos anjos por nós e nossa por eles mero acaso?

Bloom destaca o fato de seres humanos não terem o mesmo apreço pelos demônios que possuem pelos anjos, sendo estes vistos com certo glamour mesmo quando são diabólicos. O que dizer de frases como " ...você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu, com olhos de cristal, me enfeitiçou eu nunca vi nada igual...",  apenas para citar um dentre vários casos de poemas e canções que tornam a queda destes seres interessantes ou atraentes para nós. A razão para isso? 

Segundo Harold, anjos caídos foram portadores de algo que tem o potencial de ser reavido, pois este algo é parte intrínseca de sua própria natureza. Sendo assim, toda esta atração por anjos, sendo eles caídos ou não, talvez represente um apelo íntimo e desconhecido residente dentro de cada um de nós. Uma verdade oculta em nossa próprio ser, que se manifesta através deste estranho interesse, ansiando por manifestar-se. Algo que também temos mas não sabemos. Um segredo sobre aquilo que nós somos.  A possibilidade de nós sermos anjos caídos buscando reconciliação com nossos iguais. 

Para justificar toda esta senda por comunicação ou reconciliação, que destaca, existe desde o paganismo,  como visto nos textos de Apuleio e sua fala sobre o daemon de Sócrates, passando por Santo Agostinho e seu entendimento de como seria a vida dos anjos antes do Éden, segundo o autor, são estes os seres, e não os diabos,  que independentemente do nome ou forma que lhes sejam atribuídas, sempre estiveram no imaginário e ânsias humanas em busca do Divino. E se levarmos em consideração a etimologia da palavra, angelus, mensageiros, e portanto, intermediários, talvez essa teoria nem parece tão absurda. 

O autor disserta sobre outros temas correlacionados, como do conceito judaico sobre satã e seu entendimento amorfo, muito mais ligado a qualquer ideia ou elemento de oposição, que propriamente tratando de um ser como um diabo espiritual ou demônio sedento por maldade, considerando que esta percepção deturpada fora propagada principalmente pelo já mencionado Santo Agostinho em sua obra A Cidade de Deus. A ideia por trás do conceito reside sobre o argumento de que mesmo que os demônios tenham sua função no imaginário humano, são os anjos que desempenham os papéis mais importantes.

Anjos caídos é um livro interessante a sua maneira. Divaga, vai e volta nos temas sem muito compromisso com uma formalidade textual. Lança assuntos e ideias e deste modo exige um certo nível de conhecimento geral sobre o que trata. É curto mas levemente profundo, cheio de referências a textos e autores clássicos da literatura, como Shakespeare, John Milton, Mary Shelley, dentre outros. Tem uma proposta interessante sobre qual seja a real identidade humana e é preenchido com belas ilustrações de Liberati.

Não crie grandes expectativas. Não é indispensável. Mas até vale um tanto.


por Allan Trindade

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