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domingo, 19 de abril de 2020


Carma. Reencarnação. Vida. Morte. Pós vida. Temas recorrentes dos meandros da espiritualidade. Motivo de crença e esperança para uns e descrença e indiferença para outros, há milênios os registros humanos apontam para esta estranha relação que o homem sempre estabelecera com o além. Interessantemente, os métodos de comunicação com os espíritos parecem terem se desenvolvido junto a própria evolução tecnológica material, e a psicografia, um de seus métodos mais conhecidos, tem atraído a curiosidade de muitos daqueles que esperam por uma mensagem de conforto vinda de seus entes queridos que já partiram. Entretanto, tal prática não tem se limitado apenas a cartas específicas para pessoas específicas, e são muitas as obras psicografadas que dissertam sobre os mais variados temas. E esta, que é uma obra psicografada, trata de um romance. Da história de um homem que viveu há cerca de trezentos anos atrás...



O GUARDIÃO DA MEIA-NOITE é um livro escrito por Rubens Saraceni, com 197 páginas, divididas em 14 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Madras editora.

Este homem, doravante o Barão, fora muito rico e já estava com seus 40 anos de idade quando começara a pensar em se casar. Ao expor publicamente suas intenções, passara a ser assediado publicamente por mulheres dos mais variados tipos as quais sempre desconfiava, pois supunha, estavam apenas interessadas em seu dinheiro. Sendo um homem de seu tempo, carregava em si as características machistas que comandavam aquela sociedade e se aproveitava da situação também como um teste: se qualquer pretendente fosse para cama com ele antes do casamento, então, não lhe serviria como esposa. E assim fizera até finalmente desistir das suas opções neste país e resolver buscar sua noiva em Portugal. Uma mulher bem mais jovem, que ainda desfrutava de sua inocência aos 15 anos, casara-se então com aquele senhor a contragosto. Em sua fixação por seus próprios conceitos de pureza, o Barão manteve-se atento ao ato na noite de núpcias, e por não perceber nenhuma gota de sangue após a consumação, concluíra que mais uma vez fora enganado e que sua jovem esposa não podia mesmo ser virgem. Decidido a vingar-se pela traição imaginada, armou uma cilada contra a própria esposa: mandara um de seus escravos para seu quarto enquanto a jovem dormia, chamou uns amigos como testemunhas e fingiu um flagrante, afinal de contas, se uma mulher estivesse a sós com um escravo em seu quarto, não importava o que estivessem fazendo naquele momento, aquilo só podia significar traição. O escravo que nada tinha feito de errado fora assassinado, e a esposa, assustada com toda a situação, fugira. 

Decidido a devolvê-la pessoalmente para seus pais de modo a limpar sua honra, saiu em campanha pela selva, junto a capitães do mato, disposto a tê-la de volta, custe o que custasse. Ouvindo rumores de que estava morando em alguma aldeia, o Barão passou a matar e torturar todas os índios que encontrara em seu caminho, até finalmente encontrá-la grávida e assustada numa destas tribos. Tomou-a e partiram de volta para Portugal, levando consigo o remorso pelo assassinato de tantas almas inocentes, ceifadas em nome de seu próprio preconceito. Decidido a não mais lidar com o peso de toda aquela situação sem revelá-la, contou toda a verdade para sua mulher, que não o perdoara. Anos se passaram e a Lei da vida cobrou seu preço...

Esta é uma obra inspirada pelo espírito do Pai Benedito de Aruanda. Um livro psicografado que lida com conceitos umbandistas sobre a espiritualidade. A trama se passa no período do século XVIII no eixo Brasil-Portugal, e no campo espiritual, expõe os reinos dos exus, suas leis, conceitos e classes. Um romance simples sem muitas reviravoltas e previsível na maior parte do tempo, mas nem por isso enfadonho ou ruim. Foca sua moral sobre o conceito de que nossas ações e vícios podem nos gerar consequências terríveis no post mortem, muitas vezes reversíveis apenas através de serviço espiritual e reencarnação.


por Allan Trindade


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terça-feira, 17 de julho de 2018

Eu era criança quando a irmã do meu pai tinha um terreiro próximo a nossa casa. Minha mãe me avisou cedo que naquela tarde iriamos lá pois era dia de festa. Ao chegarmos tudo já tinha começado. Lembro-me de achar muito estranho o comportamento daqueles adultos vestidos de branco, mas ela me explicara que era gira de erê, e eles estavam com espíritos de crianças mortas no corpo.

Uns tomavam guaraná quente. Alguns brincavam com os presentes que tinham ganhado. Outros conversavam de uma maneira enrolada com os convidados. E tinha ainda aqueles que comiam as formigas do quintal - eu gostava destes em especial. Minha tia, trajada com seus paramentos de Mãe de Santo e com seu jeitão autoritário e de pouco riso de sempre, chegou botando ordem na bagunça. Bateu suas palmas, pediu silêncio a todos e mandou que os incorporados fizessem fila única.

Fiquei na varanda observando tudo. Um dos últimos erês da linha inclinou-se um pouco em minha direção, esfregou as mãos como que as aquecendo, e com uma expressão que era um misto de deboche com um leve semblante diabólico, sussurrou dizendo: " Obaaa! Hoje vou fazer uma macumbinha! "


UMBANDA NÃO É MACUMBA é um livro escrito por Alexandre Cumino, com 155 páginas e publicado no ano de 2016 pela Madras Editora.

Macumba tem sido um termo usado de forma dúbia, tanto por adeptos de algumas religiões brasileiras para designar seus credos e práticas, quanto por aqueles detratores que se apropriaram desta palavra e usam-na de forma pejorativa para ofender os seguidores destas crenças.

A similaridade, a ignorância e o medo, sem dúvidas, contribuem para muitas das problemáticas que envolvem o uso deste vocábulo. Por similaridade destacamos aqueles elementos comuns a maior parte das religiões de influência africana que surgem em solo nacional, que possuem relações com orixás e rituais de necromancia, além de agregarem elementos da cultura e religiosidade indígena.  Por ignorância entendemos a falta de interesse em compreender as diferenças entre estes diversos credos, que é, finalmente nutrida pelo medo de que sejam usados para a prática do mal. É para desfazer o generalismo e traçar as especificidades que Alexandre Cumino nos traz esta obra então.

Esta antologia reúne parte dos textos publicados dentre os anos de 2005 a 2013 no Jornal de Umbanda Sagrada e Revista Espírita de Umbanda,  além de outros exclusivos que aqui foram organizados de modo a dar ao leitor as condições não apenas de entender sua defesa, como para explicar as origens desta religião.

Umbanda não é macumba é o que argumenta o autor. De acordo com Alexandre, Macumba é o nome do instrumento musical de percussão, um tambor, que era utilizado em cultos afro-brasileiros no Rio de Janeiro. A pessoa que tovaca macumba era chamada de macumbeiro; logo, o culto se autodenominou Macumba, assim como sua dança e práticas, como as oferendas. Em geral, eram cultos de origem africana bantu (Angola/Congo/Cabinda), que incluíam rituais realizados nas encruzilhadas, em que sempre se deixavam suas oferendas, entregas e despachos. pg 15

Cumino ressalta que não haveria problema no uso do termo, caso este fosse usado de forma natural, porém, entende que o mesmo é verbalizado, na maior parte das vezes, de forma preconceituosa. Para além disso, o autor nos traz ainda os elementos que compõem a Umbanda e fazem dela uma religião, fundamentada, com origem e doutrina, e distante até mesmo das práticas oriundas das encruzilhadas cariocas.

Nascida em Niterói por intermédio de Zélio Fernandino de Moraes, a Umbanda surgiu através do descontentamento com a forma discriminatória na qual alguns espíritos eram tratados em centros kardecistas, e foi anunciada pelo Caboclo 7 Encruzilhadas, incorporado ao médium, pelos idos de 1908. De caráter e crença cristã, a Umbanda é então declarada como uma religião destinada a prática da caridade, sincrética e arquetípica, gratuita em todos os seus aspectos, que tem como único objetivo ajudar vivos e mortos no caminho do bem.

A partir daquele ponto, sagrava-se como uma crença organizada e doutrinária, com liturgias e ritualística próprias, que indiscutivelmente se distanciava de qualquer outra forma de prática da qual fora também herdeira, ou injustamente associada.

À continuidade do livro, os textos tratam do desenvolvimento da doutrina, discute a participação dos filhos genéticos e de santo de Zélio, e as mudanças e dificuldades que a religião enfrentara no decorrer de seus mais de 100 anos de existência.

Da nossa parte, acreditamos na importância do conhecimento da história e fundamento das religiões, especialmente para aqueles que se dizem pertencentes a algum segmento, ou para aqueles que se pretendam falar sobre. Este título nos traz todos os elementos necessários para a compreensão que de fato há uma distinção entre aquilo que a Umbanda é e aquilo que a Umbanda não é. Entretanto, num contexto onde tanto adeptos quanto escarnecedores fazem uso do mesmo termo para por vezes se referirem a toda esta conjuntura, a palavra macumba, por fim, talvez devesse ser entendida como neutra, dependendo sempre de quem e como a utiliza. 

Mas esta é a nossa opinião, e como não somos umbandistas, embora esta seja também parte da nossa origem e vivência religiosa, tanto por frequência quanto por ascendência, que as palavras finais desta resenha sejam aquelas de quem tem esta religião como prática de vida:

Dizer que Umbanda não é Macumba é muito mais que separar o joio do trigo. Para o leigo, tudo é Macumba e, mesmo para alguns de dentro, Umbanda é Macumba. No entanto, quando alguém fala: "Eu vou à Macumba", não dá para saber se a pessoa vai para o Candomblé, Catimbó, Tambor de Mina, Umbanda ou mesmo Espiritismo. E, por isso, fica muito claro que pode até ser engraçado dizer: "Eu vou à Macumba", mas em momento algum a palavra macumba define Umbanda, e por isso, podemos dizer com certeza que: Umbanda não é Macumba. pg 154/155

por Allan Trindade



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domingo, 28 de janeiro de 2018

Minha mãe sempre falou sobre esse meu estranho hábito de infância de forma intrigada. É provável que eu tivesse cerca de cinco anos e sinceramente não lembro de ter feito isso por tantas vezes quanto ela relata, mas desse dia em específico, recordo-me com certa nitidez. Segundo me disse o ritual era praticamente diário: acordava por volta das três da manhã, ia até a cozinha, pegava um saco com feijões e me despedia dizendo que ia embora para sempre. Para me convencer do contrário, meu pai tinha que dar uma volta comigo na praça escura e deserta que fica próxima a nossa casa.

Certa noite acordei como de costume e cumpri cada uma das etapas. Mas ao que me lembro, naquele dia, meus pais não se levantaram para fazer a parte deles. Como o plano de ir embora não incluía a companhia dos dois de qualquer forma, abri a janela do nosso quarto para fugir. À minha frente o quintal, com o tanque de roupas feito de cimento alguns metros de distância - que eu adorava encher para tomar banho - e uma pilastra. Tal qual um imã que mesmo sem querer suga o metal para perto de si, meu olhar foi atraído para aquela direção.

À frente daquela coluna algo incomum se destacava ao breu naquela noite iluminada apenas pelo clarão da Lua. Um homem de terno e chapéu xadrez estava lá, encostado, com a face sem olhos, nariz ou boca, tão negro quanto o negro do fundo de um poço, tão congelante quanto a sensação de estar indefeso quando se precisa de ajuda. Senti meu coração acelerar, meu corpo paralisar, meus pelos se arrepiarem, sensações estas que se repetiriam anos mais tarde em situações semelhantes outras. Não conseguia gritar ou desviar minha atenção daquela visão. Por quanto tempo fiquei naquele estado, não sei. O vulto nada fez, parecia apenas querer que eu o visse. 

O vi e nunca mais esqueci.

ATRAVÉS DOS PORTAIS DA MORTE é um livro escrito por Dion Fortune, publicado no Brasil pela editora Pensamento no ano de 1993, com 120 páginas, dividas em 15 capítulos.

Morrer é o cessar do viver. Muitas são as implicações filosóficas que podem ser atribuídas a este conceito, assim como muitos são aqueles que, até os dias de hoje, se debruçam fisicamente sobre métodos para tentar protelar a temida morte. E por que a tememos? Temos medo da dor? Mas e todos aqueles casos de pessoas que morrem em paz? E todos aqueles outros casos em que o impacto de algum acidente é tão fulminante que nem mesmo dá a possibilidade para que  a vítima se conscientize do que lhe ocorrera? E se há continuidade na vida depois da morte, então o que há de existir por lá?

Neste título, Dion nos induz a este tipo de reflexão e sugere que não tememos a morte em si, mas o desconhecido e a possibilidade deste encontro. Iniciados de várias épocas e de vários lugares do mundo, ousaram mergulhar neste mar de incertezas e trazer à superfície o conhecimento sobre este estado de mistério. Se a morte é uma etapa da vida, ela não deve ser temida, mas compreendida.

A consciência da continuidade e a crença na reencarnação são então o norte desta obra. Sobre esta continuidade, nos diz a autora, para alguns, há apenas um desligamento da consciência para com o corpo material, como se morrer fosse semelhante ao ato de dormir e acordar num outro local. Já para outros, psiquicamente desenvolvidos, todo este processo se dá de maneira consciente, e esta passagem ocorre sem nenhum tipo de trauma, ou necessidade de adaptação ao chegar lá, uma vez que sempre estiveram em contato com o outro lado. Em ambos os casos, e até mesmo naqueles onde a morte ocorre de forma indesejada, destaca que nossos entes queridos chegam ao nosso encontro, e para aqueles que não os tiveram em vida, são as almas semelhantes que tendem a se aproximar.

Fortune destaca que a relação de vivos e mortos não cessa com a morte, mesmo para aqueles que não creem na vida espiritual, uma vez que ateus também sofram a perda de seus amados. Esse tipo de relação emocional reflete sensações em todos os envolvidos - vivos e mortos - e se faz necessário que ambos os lados se esforcem para a compreensão e função de cada etapa da vida. O luto tem sua função de ser, entretanto, tem de ser sutilizado pela consciência da responsabilidade das energias emanadas.

A autora apresenta a crença num período purgatório para a alma, definido como um estado mental de reflexão sobre sua existência material, para só então, evoluída, estar apta para o  restabelecimento de contatos. Sendo a lamúria permanente dos vivos, e o chamamento dos falecidos, desencorajada, pois podem levar o desencarnado a ideia de que o plano terrestre é melhor que o local em que se encontram, gerando desta forma bloqueio do desenvolvimento ou incentivando o mesmo a se tornar algum tipo de obsessor.

Em seu aspecto esotérico, alega ser possível avaliar através de cálculos astrológicos, os momentos mais propícios para nossa morte, mas que esta não deveria ser a preocupação de ninguém, uma vez que até os setenta anos todos deveriam lutar e se esforçar apenas para viver. Para além disto, diz que no momento da passagem o duplo etérico ainda está em fase de transição, privado do suprimento de prana que absorve do Sol através do corpo físico, podendo vir a absorver esta energia dos presentes que tenham com ele algum tipo de laço, ou ainda dos elementos funerários do local, tais como velas e flores, traduz os benefícios de rituais para a decomposição de corpos sutis, assim como razões para a cremação.

Este é um livro curto, que traz consigo reflexões sobre a função do desencarne e é baseado na forte e comum crença que permeia os meios ocultistas e espiritualistas: a morte é apenas mais uma etapa da vida.

Sua leitura é simples e fácil, com ideias corriqueiras a qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento sobre o campo espiritual. Traz algumas referências religiosas de inclinação pessoal da autora. É introdutório sem ser leviano.

por Allan Trindade




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O mundo. É curioso notar a distinção existente entre nós, seres humanos e o resto da natureza. Se parar para pensar, a natureza com seus animais e plantas, parece seguir uma linha uniforme de vida, que nos dá a impressão de ser hoje exatamente aquilo que foi ontem. Não que esta ideia seja verdadeira, que de fato o mundo natural, distinto do hominal, seja comparável a um filme em eterno replay, repetindo nascimento, vida e morte de suas criaturas, sem qualquer pausa ou revolução. Se levarmos em consideração o argumento de alguns cientistas, é evidente que somos nós que não enxergamos as vicissitudes que nos cercam. Talvez o motivo para isto se dê pelo fato de que precisamos de impacto para perceber e recordar acontecimentos. Precisamos de mais do que aquela pseudo tranquilidade e certeza que a natureza pode nos dar. Precisamos de mais que a mera ideia de que a vida é feita de momentos pacatos e seguros...para muitos, uma vida assim, nem mesmo é vida. Precisamos de experiências fortes o suficiente que nos façam sentir que estamos vivos; precisamos de medo, prazer, cansaço, descanso, luta, revolução, vida e morte...do outro!

A morte do outro nos dá certo conforto, nos faz sentir vivos, nos causa o impacto que tanto necessitamos e nos faz aprender sobre métodos que nos distanciem cada vez mais da morte. A morte do outro tem então uma dupla função: nos ensina a viver e nos conforta. Os noticiários que mais dão audiência são aqueles das desgraças alheias. Os horários são então estratégicos: almoço e janta, para garantir que grande parte da família esteja reunida. Enquanto comemos a morte daquela natureza tão distinta de nós, nos tranquilizamos com a morte alheia tão aparentemente distante de nós. Aqui, neste mundo, é muito importante que não se tenha dúvidas: a morte deve pertencer ao outro, tão e somente! Nossa indiferença dá-se apenas àqueles que não são capazes de nos dar nada além da visão da morte e a ideia da continuidade desta vida. Se alguém que nos é caro morre, se alguém a quem estimamos nos deixa sem todos os outros tantos sentimentos que necessitamos, que apenas nós seres humanos carentes e famintos julgamo-nos merecedores de receber, isso não pode ser justo...e a única solução para esta injustiça é que a vida continue após a morte...e que além de tudo, nós possamos nos comunicar com ela!

Talking to the Dead é um livro escrito por Barbara Weisberg, dividido em cinco partes, com 19 capítulos e 324 páginas, publicado pela editora Harper One. Este é um título biográfico que nos conta sobre a vida das irmãs Fox e o nascimento do espiritualismo, conforme movimento religioso, dentro dos Estados Unidos. Advindas de uma família pobre, e de pais com problemas de relacionamento, as três irmãs: Maggie, Kate e Leah , viveram uma vida repleta de fama, problemas e controversas depois de seu primeiro contato com o "mundo espiritual".

Tudo começou em 1848, em Nova York, num período onde o rigor moral imperava num país ainda em processo de formação, e o dogmatismo cristão vigorava como único método de conduta e fé religiosa. Um escândalo para os fundamentalistas e uma piada de mau gosto para os céticos, as irmãs alegavam serem capazes de se comunicar com os espíritos e que estes podiam responder perguntas sobre o passado, o presente e o futuro e haviam lhes dado a incumbência de trazer a verdade de um mundo espiritual atuante, para o mundo material. A ideia era simples: os espíritos das pessoas não adormeciam junto de seus corpos mortos conforme era então ensinado por algumas linhas cristãs, continuavam vivos e conscientes em uma realidade paralela a nossa, e portanto passível de comunicação. Essa comunicação, no entanto, era um tanto deficiente, limitando-se a batidas que se ouviam por móveis e paredes, e sugeriam certa falha de contato dos então ditos espíritos para conosco e vice versa. Para a solução desta problemática, vivos e mortos estabeleceram um código baseado na quantidade de batidas, o que fazia com que, estas perguntas devessem ser feitas de forma clara, onde suas respostas se limitassem a um objetivo "sim" ou "não".

Décadas se passaram desde o primeiro contato e as irmãs conquistaram o amor, a indiferença e o ódio de muitos. Muitos daqueles que lhes eram simpáticos, e crentes nas manifestações que presenciavam, inclusive de forma pública e coletiva, não apenas lhes seguiam, como partiram, eles próprios, na tentativa deste contato com o outro mundo. A partir daí surgiriam médiuns por todo o país e continentes, alegando contatos cada vez mais íntimos e pirotécnicos com os espíritos; mesas que giravam, levitavam e batiam, espíritos que se materializavam e traziam mensagens de consolo para parentes e amigos, e outros tantos que exibiam luzes e fogos que flutuavam no ar.

Daqueles que duvidavam de seus feitos, e tantos outros que viam em toda esta histeria um perigo para sua própria fé, não mediram esforços para tentar desmascarar todas estas manifestações, que segundo eles, não passavam de charlatanismo e truques de prestidigitação. Dentro de seu principal argumento, diziam que as batidas ouvidas deviam-se a uma incrível e incomum capacidade, desenvolvida a partir de muito treino, de estalar as juntas dos ossos produzindo assim os sons ouvidos. Curioso é pensar sobre como, como quando nas exibições públicas em teatros, por exemplo, poderiam dezenas de pessoas ouvir o estalido da fricção de juntas ósseas de uma única pessoa...quem sabe a acústica explique...

A autora nos leva a vivenciar cada detalhe da vida das meninas e esta é, sem dúvida, uma biografia imparcial com uma impressionante pesquisa bibliográfica, digna de servir como exemplo para todos aqueles que se pretendem escrever um dia. Porém, toda este detalhismo é também seu ponto negativo, pois o livro é bastante extenso e muitas vezes lê-lo se torna um pouco cansativo.  Barbara Weisberg é sem dúvidas uma perfeccionista, e vai tão a fundo em sua pesquisa, que não se limita a tratar apenas de espiritualismo ou da vida desta controversa família. Nos traz dados históricos que nos projetam para um Estados Unidos do século XIX e não deixa brechas para que seus leitores se percam na ambientação de sua narrativa.

Envolvidas em toda esta trama estavam três irmãs que, no decorrer de todo este tempo e repletas de amores, fama, tristeza, dinheiro, drogas, elogios e acusações, viram no mundo espiritual uma chance de tornar as suas vidas, e a de tantos outros, muito mais vivas, mesmo que seja falando com os mortos.

por Allan Trindade



[ ATENÇÃO: este livro possui uma versão em português publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira sob o título de " Falando com os Mortos ".  Infelizmente não tomei conhecimento desta informação a tempo e por este motivo esta resenha é baseada em sua versão estrangeira. Levando em consideração a possibilidade da qualidade idêntica a esta versão, e pela valorização de editoras que se dedicam ao trabalho de tradução de livros espiritualistas e ocultistas no Brasil, recomendo a compra de sua versão nacional.]

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Uma das palavras que mais despertam a curiosidade das pessoas é sem dúvidas Ouija! Seja por conhecer seu significado, ou não, após uma pequena explicação, qualquer um terá algo para dizer sobre a brincadeira do copo, do compasso, ou o jogo dos espíritos...

Desde que me interessei mais pelo tema, percebi a carência de material escrito sobre tal item em língua portuguesa...que certamente não padece do mesmo problema em inglês. E foi nesta busca que sem muito esforço encontrei Ouija: The Most Dangerous Game de Stoker Hunt. Eu estava procurando por um livro introdutório sobre o assunto, que me desse uma noção didática tanto da história, quanto dos aspectos práticos para a utilização do tabuleiro. De fato, o título parece ter se encaixado bem em minhas expectativas iniciais...


Com um total de 156 páginas, Ouija é escrito em estilo jornalístico; investigativo e imparcial. 
Dividido em 5 capítulos, o autor cita casos históricos e famosos e ainda vai em busca de adeptos de diversas religiões, e de não religiosos, para saber o que praticantes e estudiosos de diferentes vertentes tem a dizer sobre " o jogo mais perigoso ". Cristãos, wiccas, espiritualistas, ateus, parapsicólogos... cada um em seu tempo, dissertam sobre as vantagens, desvantagens, ambas, ou nenhuma das duas, de "brincar" com este famoso e curioso tabuleiro.

É um livro introdutório, que desperta sua curiosidade em saber o que as pessoas que se dedicam, ou se dedicaram a testar tais evocações, tem a dizer de acordo com suas próprias experiências. É muito mais informativo que prático, porém, com isso não quero dizer que não há instruções sobre como iniciar uma sessão. Tais instruções são deixadas para o final, e se resumem a basicamente aquilo que todos nós já sabemos: bastam alguns pedaços de papel com letras escritas, uma mesa,  um copo e uma pequena prece...sem muito mistério ou complicação.

Contudo, talvez haja uma razão para o subtítulo do livro ser "The Most Dangerous Game"...é fato que, de acordo com os relatos, sejam eles de cunho espiritualista ou psicológico, iniciar uma sessão de Ouija sempre resultará algum efeito. Dois casos merecem destaque e valem a pena serem citados aqui para justificar tais argumentos. O primeiro surgiu a partir de um teste científico da Toronto Society of Psychical Research intitulado “The Philip Experiment”. A ideia era simples: Philip era um personagem criado a partir da mente dos cientistas que supostamente vivera em algum ponto do passado. Toda a história (inventada) de Philip foi decorada pelos voluntários na tentativa de que, mesmos conscientes de que tudo não passava de fantasia, pudessem produzir algo de real... curiosamente, resultados e efeitos dos mais diversos foram alcançados através deste experimento.


Já o segundo, conta a história de Pearl Curran, uma mulher que através de sua curiosidade, entrou em contato com um espírito de nome Patience Worth, e através dela, recebeu diversos prêmios de poesia e escrevera o equivalente a 29 livros, que segundo a análise de técnicos literários, não podiam mesmo terem sido escritos pela simples dona de casa.

Alguns dirão que tudo não passa de automatismo, ou autossugestão, outros dirão ser a Ouija um instrumento de evocação de espíritos, ou como diríamos em termos mágicos, uma verdadeira Arma necromântica. O trabalho de pesquisa executado pelo autor realmente nos deixa no meio do caminho sobre qual dos lados acreditar, mas isso é um questionamento que virá apenas após você ter a plena certeza de que se tentar, a Ouija vai funcionar!

por Allan Trindade

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