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sexta-feira, 12 de março de 2021

Polêmico. Este é um dos adjetivos sugeridos por Barbieri a este coletivo tão controverso chamado de Exu. 

Você pode estranhar o fato de usarmos o termo coletivo para nos referirmos a Exu, porém isto se dá de forma intencional visto que esta palavra serve para definir tanto o orixá homônimo de origem yorubá, quanto todo o grupo de entidades que pegaram Seu nome emprestado para definirem a si próprias.

EXU é um livro escrito por Alan Barbieri, com 253 páginas divididas em 25 capítulos e foi publicado no ano de 2020 pela editora Mariwô.

Segundo Alan, esta é apenas uma das características de Exu, que vive sempre em transformação e que embora seja comumente associado ao mal, é justo e até mesmo caridoso, sendo a ignorância e o sincretismo cristão os culpados por sua associação ao Diabo. Tal engano teria sido iniciado por um nigeriano cristão de nome Samuel Crowther, quando em 1843 traduziu a Bíblia para o yorubá e substitui as referências ao demônio opositor do Deus judaico cristão, a Exu. Barbieri destaca o absurdo de tal comparativo visto ser Exu a força que impulsiona os homens a ação para sua própria evolução espiritual, e não uma criatura sedenta pela desgraça humana tal como a figura de satanás.

O livro traça uma linha progressiva de explicação sobre estas figuras da espiritualidade africana e brasileira. Vindo das terras de lá, Esu, neste ponto ainda o Orixá, é apresentado como tendo uma relação próxima e controversa com Oxalá, que se recusava a lhe prestar os devidos respeitos conforme mandado por Olorun. Em seguida, o autor nos apresenta os diversos epítetos atribuído ao Orixá dos Caminhos, que quando vistos por leigos, passam a impressão de se referirem a outros seres, porém, tais epítetos apenas marcam características de Exu em suas diversas formas e campos de atuação. 

Ao chegar em terras tupinikin, Exu passaria então a integrar diversos outros cultos brasileiros, carregando qualificações positivas e negativas, e misturando-se as tradições europeias e americanas que aqui se condensavam. E é assim que Exu deixa de ser apenas um Orixá para se tornar a fonte nominal da falange de todos os espíritos desencarnados que Dele pegam o nome e recebem o grau. 

Nas encruzilhadas, onde os exus costumam ser cultuados, pratos com farofa e sacrifícios animais compõem seus ebós, mas Barbieri deixa claro que apesar de respeitar todas as formas de culto, em seu terreiro não há derramamento de ejé (sangue) e que é hipocrisia daqueles que criticam tais práticas mas consomem carne de animais fruto de matadouros que não dispensam o mínimo respeito pela vida daqueles seres.

O autor nos diz ainda que nada é por acaso, e que somos consequência de nossos atos desta ou de outras vidas, e que Exu é o aplicador da lei do merecimento, sendo o responsável por dar a cada um aquilo que merece. Os exus são vistos então como agentes da ordem, espíritos responsáveis por fiscalizar as ações do mundo e decidir quais consequências devem ser tomadas em função de cada situação. 

Os mais atentos hão de perceber que tais conceitos se aproximam muito de ideias como lei do karma e lei do retorno, e aqui faz-se necessário esclarecer um ponto. 

Alan Barbieri é umbandista, e portanto, embasa grande parte de seus conceitos sobre o que sejam os exus, sob a lei de Umbanda. Sendo assim, que o leitor saiba que embora tais conceitos sejam amplamente difundidos como verdades sobre a realidade total de exu e pomba gira, nem todas as vertentes de culto a estes seres concordam sobre tais pontos. Em outras palavras: saiba que existem vertentes de linhas de Quimbanda que não atribuem as ações de Exu valores éticos ou morais, definindo-os como seres amorais, livres e liberados para agirem da forma que bem entenderem sem que isto lhes cause qualquer choque de retorno.

Barbieri fala ainda sobre a ação das entidades na vida das pessoas, quais critérios a espiritualidade usa para elevar espíritos ao grau de exus, a relação destes seres com a sexualidade, as falanges e as relações com os Orixás, receitas de diferentes tipos de padê para diversas finalidades, explicações sobre assentamentos e ervas, e instruções sobre como fazer firmezas para seus exus pessoais e cuidar deles em sua casa.

Um livro leve, muito bem diagramado, que apresenta história, teoria e prática num só conjunto. Útil para iniciantes que conheçam ou não seus exus de frente, mas igualmente interessante para aqueles que já tenham alguma experiência dentro das práticas e que queiram ter sempre em mãos um livro de consultas rápidas. Daqueles livros que vale a pena ler e ter.

por Allan Trindade


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terça-feira, 22 de dezembro de 2020


Na disputa eleitoral pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro no ano de 2020, o então prefeito da cidade, ao citar seu concorrente, ironizou e menosprezou o fato do mesmo usar, durante as festividades de carnaval, um chapéu atribuído a uma entidade das religiões de macumbas brasileiras. Sendo este mesmo prefeito um cristão declarado, e bispo de uma igreja protestante criada por seu tio, tal episódio discriminatório tampouco apresenta-se como uma exceção quando advindo de pessoas deste segmento religioso. 

Curioso é saber que apesar das acusações contra Zé Pelintra, os zé Pilantras de verdade costumam ser justamente aqueles que lhe apontam o dedo...e aquele que disse que exu tá amarrado, na data de hoje foi encarcerado! 

ZÉ PELINTRA é um livro psicografado por Mizael Vaz, ditado pelo espírito de José Porfírio Santiago, contém 144 páginas divididas em 3 partes e foi publicado no ano de 2016 pela Madras editora.

Este é um livro biográfico que, segundo o autor e médium, fora criado a partir de uma série de relatos reunidos nas várias sessões de incorporações e contato com o espírito citado. José Porfírio Santiago é seu nome. Nascido no século XIX no nordeste brasileiro, preto, filho de escravos alforriados, teve a sorte de ser fruto do amor verdadeiro de seus pais e afilhado de um abolicionista que sempre dera-lhe condições para trabalhar e estudar conforme a liberdade da época permitisse. Mas a bem da verdade, José Santiago, doravante Zé, não era muito dado a certas vantagens que a vida lhe proporcionara. 

Todos viviam bem até que mancomunado com sua irmã mais velha, ainda na adolescência, e contra a vontade de seu pai, passou a facilitar os encontros da jovem com um marginal das redondezas em troca de alguns doces. Tudo passou-se bem até o dia em que Maria engravidou. Seu pai jamais a perdoou pelo deslize. Foi abandonada pelo mal falado meliante e seu pai queria mesmo era expulsá-la de casa, mas graças aos pedidos da esposa, permitiu que a garota permanecesse, tratando-a com eterna indiferença a partir daquele momento. O desgosto, porém, mostrou-se um fardo pesado demais para que seu pai carregasse, e para amenizar sua dor, afundou-se no álcool. A vida de todos mudaria absolutamente a partir daquele ponto, e a família que um dia fora exemplo de amor e harmonia, transformara-se em sinônimo de raiva e desunião.

 O casal, pai e mãe de Maria e Zé, passaram a brigar diariamente. Zé sentindo-se culpado por toda aquela situação, viu-se na obrigação de defender sua mãe contra as investidas de violência de seu pai, e foi num desses episódios, depois de vê-la apanhar, que revidou atacando aquele bêbado que tinha a obrigação de chamar de respeitar. Seu genitor considerava inadmissível que um filho agisse daquela forma contra ele e jurou-o de morte. Irredutível na decisão de que o mataria, Zé fugiu para salvar sua vida. Ajudado por seu padrinho, Coronel Silva, dono da fazenda, caiu na estrada em busca de um novo lugar para viver. Zé procurava um lar porque não sabia que seu lar era o mundo!

É desta forma que começa a história deste espírito que receberia a alcunha de Zé Pelintra. O destino ainda lhe reservava uma série de eventos que o conduziriam a uma vida de jogatinas, prostituição, malandragem, roubos e assassinatos, equilibrados pela força elevada do Catimbó e sua sabedoria ancestral advinda dos espíritos e das ervas.

Se na primeira parte do livro o autor nos apresenta os elementos materiais de sua história, na segunda encontramos sua vivência nos planos espirituais após sua morte, e por fim, uma seleção de pontos cantados para Zé Pelintra, pontos riscados, receitas de beberagens, simpatias, magias e feitiços para os mais diversos fins.

"Eu sou preto, sou preto todo dia. O meu nome é Zé Pelintra, Zé dos Anjos é na Bahia. Minha mãe sempre dizia que o sol é um farol, me ensinou a fazer macumba e desmanchar no meu paiol. A bananeira que eu plantei a meia noite já deu cacho. Aqui neste terreiro eu quero ver estes cabras teimosos, que riscam ponto, achando que é macumbeiro, bater de frente com despacho."

por
Allan Trindade

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domingo, 19 de abril de 2020


Carma. Reencarnação. Vida. Morte. Pós vida. Temas recorrentes dos meandros da espiritualidade. Motivo de crença e esperança para uns e descrença e indiferença para outros, há milênios os registros humanos apontam para esta estranha relação que o homem sempre estabelecera com o além. Interessantemente, os métodos de comunicação com os espíritos parecem terem se desenvolvido junto a própria evolução tecnológica material, e a psicografia, um de seus métodos mais conhecidos, tem atraído a curiosidade de muitos daqueles que esperam por uma mensagem de conforto vinda de seus entes queridos que já partiram. Entretanto, tal prática não tem se limitado apenas a cartas específicas para pessoas específicas, e são muitas as obras psicografadas que dissertam sobre os mais variados temas. E esta, que é uma obra psicografada, trata de um romance. Da história de um homem que viveu há cerca de trezentos anos atrás...



O GUARDIÃO DA MEIA-NOITE é um livro escrito por Rubens Saraceni, com 197 páginas, divididas em 14 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Madras editora.

Este homem, doravante o Barão, fora muito rico e já estava com seus 40 anos de idade quando começara a pensar em se casar. Ao expor publicamente suas intenções, passara a ser assediado publicamente por mulheres dos mais variados tipos as quais sempre desconfiava, pois supunha, estavam apenas interessadas em seu dinheiro. Sendo um homem de seu tempo, carregava em si as características machistas que comandavam aquela sociedade e se aproveitava da situação também como um teste: se qualquer pretendente fosse para cama com ele antes do casamento, então, não lhe serviria como esposa. E assim fizera até finalmente desistir das suas opções neste país e resolver buscar sua noiva em Portugal. Uma mulher bem mais jovem, que ainda desfrutava de sua inocência aos 15 anos, casara-se então com aquele senhor a contragosto. Em sua fixação por seus próprios conceitos de pureza, o Barão manteve-se atento ao ato na noite de núpcias, e por não perceber nenhuma gota de sangue após a consumação, concluíra que mais uma vez fora enganado e que sua jovem esposa não podia mesmo ser virgem. Decidido a vingar-se pela traição imaginada, armou uma cilada contra a própria esposa: mandara um de seus escravos para seu quarto enquanto a jovem dormia, chamou uns amigos como testemunhas e fingiu um flagrante, afinal de contas, se uma mulher estivesse a sós com um escravo em seu quarto, não importava o que estivessem fazendo naquele momento, aquilo só podia significar traição. O escravo que nada tinha feito de errado fora assassinado, e a esposa, assustada com toda a situação, fugira. 

Decidido a devolvê-la pessoalmente para seus pais de modo a limpar sua honra, saiu em campanha pela selva, junto a capitães do mato, disposto a tê-la de volta, custe o que custasse. Ouvindo rumores de que estava morando em alguma aldeia, o Barão passou a matar e torturar todas os índios que encontrara em seu caminho, até finalmente encontrá-la grávida e assustada numa destas tribos. Tomou-a e partiram de volta para Portugal, levando consigo o remorso pelo assassinato de tantas almas inocentes, ceifadas em nome de seu próprio preconceito. Decidido a não mais lidar com o peso de toda aquela situação sem revelá-la, contou toda a verdade para sua mulher, que não o perdoara. Anos se passaram e a Lei da vida cobrou seu preço...

Esta é uma obra inspirada pelo espírito do Pai Benedito de Aruanda. Um livro psicografado que lida com conceitos umbandistas sobre a espiritualidade. A trama se passa no período do século XVIII no eixo Brasil-Portugal, e no campo espiritual, expõe os reinos dos exus, suas leis, conceitos e classes. Um romance simples sem muitas reviravoltas e previsível na maior parte do tempo, mas nem por isso enfadonho ou ruim. Foca sua moral sobre o conceito de que nossas ações e vícios podem nos gerar consequências terríveis no post mortem, muitas vezes reversíveis apenas através de serviço espiritual e reencarnação.


por Allan Trindade


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sexta-feira, 2 de março de 2018

Ao olhar para as estantes da minha biblioteca, percebi que um título estava desalinhado para com os outros em sequência. Normalmente minha ação seria a de endireitá-lo e tornar a fazer aquilo que estava fazendo. Entretanto, resolvi pegá-lo e abrir uma página a esmo, na qual se lia:

Um círculo de crânios é colocado em volta de mim e quatro espadas são fincadas ao meu redor. Cercado estou pelos Quatro Cruzeiros Negros que regem do fundo da Terra ao Alto do Espaço e imperam o Lado Obscuro dos Quatro Elementos da Criação. Eu clamo no centro desse círculo às Sombras da Sabedoria e da Força cujas cabeças são adornadas com coroas!...Eu levanto a cruz ao Alto e a inverto mostrando ao Inimigo que seu câncer não habita em meu corpo! Coloco minha mão na Terra e que todos os Exus e Pombagiras conectados com Maioral me escutem: se uma flecha em minha direção for lançada, um milhão de flechas negras voltarão em seu lugar! 


Foi suficiente, resolvi lê-lo.

QUIMBANDA Fundamentos e Práticas Ocultas VOL. 01 é um livro escrito por Danilo Coppini, com 200 páginas, publicado no ano de 2015 pela editora Cape Lobo.

Este livro surge como uma continuação aquele publicado primeiramente e já resenhado por nós, chamado Quimbanda O Culto da Chama Vermelha e Preta. Caso não tenha consultado aquela resenha ainda, recomendamos que o faça para um melhor aproveitamento desta. A proposta geral é que esta sequência será complementada ainda por mais dois livros, totalizando um total de quatro publicações, onde o enfoque será dado tanto para a filosofia quanto à prática desta religião.

Em sua introdução, Danilo mais uma vez destaca as diferenças entre a Quimbanda e a Kimbanda, e que este livro, tal qual o templo no qual ele nasce, é fruto de anos de práticas e pesquisas, e que não é destinado para mentes estagnadas uma vez que o dinamismo e a Evolução sejam forças motrizes que direcionam a ação e pensamento de seus eleitos.

Desejamos que os adeptos enxerguem na obra uma bússola que apontará a Luz de Lúcifer expandindo a mente e o espírito para novas práticas. A Quimbanda crê que a evolução individual é o caminho que prezará o que é útil, mudará segundo a necessidade e eliminará o desnecessário. Isso faz parte do fortalecimento do caráter que libertará o adepto dos entraves psíquicos e sociais. pg.6


Para os menos familiarizados com toda a conjuntura religiosa comparativa, alguns pontos expostos no primeiro livro podem ter causado certa ânsia por um maior desenvolvimento. Lá, em muitos pontos da exposição de sua filosofia, há uma constante referência, por vezes subjetiva, a ideias gnósticas que podem deixar os menos acostumados com todo este universo um tanto confusos sobre no quê afinal de contas eles acreditam. Sendo o Gnosticismo um conjunto de ideias historicamente dinâmico e heterogêneo, pensamos que um melhor desenvolvimento sobre este ponto seria bastante proveitoso para todos os interessados em saber mais sobre esta crença. 

Consciente deste ponto ou não, fato é que o autor, já no princípio desta edição, faz questão de dedicar um capítulo inteiro chamado "Exu - Entre o Cosmos e o Caos" destinado a esclarecer seus conceitos sobre estas polaridades, alegando que este último é erroneamente confundido com confusão. Ao destacar a linearidade e oscilação atreladas a cada um destes conceitos,  utiliza-se do conhecimento deixado pelos Iorubás e seus Itan e Orikis, para auxiliar na compreensão da função cósmica e caótica de Exu, assim como as diferenças de ação dos exus da Umbanda e da Quimbanda. É fato ser este capítulo de grande importância e complemento para o progresso do entendimento sobre sua cosmovisão.

Em seguida, fala que a Quimbanda Brasileira desenvolveu-se de diferentes maneiras através do trabalho daqueles que resistiram aos seus ordálios. Sobre a consciência do adepto em saber quando e porquê atacar ou recuar. E destaca a necessidade de compreender seus próprios instintos para usá-los quando necessário, já que a compreensão dos impulsos faz parte do caminho para a libertação destes.

A Natureza da Verdadeira Quimbanda, ao contrário das demais religiões e cultos, não está associada ao desenvolvimento de uma conduta moral e ética refinada e nem é influenciada pelas empenhas do período evolutivo da sociedade humana. Também não é um meio ao qual os adeptos sentirão a satisfação espiritual enquanto estiverem na matéria, pois o intuito da Quimbanda não é gerar satisfação e sim libertação, pois satisfação desprovida de libertação é ilusória. pg.29


O leitor sentirá que cada nova edição tem tornado as análises e o pensamento mais complexos. Aqui, discussões sobre o ego, ID, inconsciente, organização social e ética, e a relação de Exu com todos estes elementos, deixam claro que a evolução do saber fazem parte não apenas de seus objetivos, como serão exigidos daqueles que se pretendam compreender ou preencher suas fileiras.

De forma igual e como característica comum dos escritos do autor, informações históricas são apresentadas sobre o uso de búzios em diversas culturas ao redor do mundo, seu emprego vulgar e mágico, além de ensinar um método específico destas conchas como oráculo para uso pessoal do adepto, assim como também explora o conceito do Plano Astral e os seres que lá residem. Em seu aspecto prático, traz alguns procedimentos de limpeza espiritual, discorre sobre o tema e apresenta um ritual para a libertação do vício em drogas, o significado, função, consagração e uso de Armas Mágicas e uma série de ritos para os mais diversos fins.

Pensamos que o buscador interessado em se aprofundar nesta linha de Quimbanda deva ter em mente que o dinamismo verbalizado e pleiteado por Coppini, e os demais membros deste templo, exposto frequentemente em suas diversas obras, e continuado nesta, exigirá um constante aprofundamento dos estudos não apenas desta vertente em específico, mas do conhecimento esotérico e exotérico em geral. As constantes referências a conceitos ocultos e das ciências vulgares, como aqueles da psicologia, da história, da linguística etc, deixam claro que a preguiça e a ignorância passam longe daqui.

por Allan Trindade



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017


Lembro-me claramente de quando era criança, nas rodas de conversa dos adultos, quando o assunto era religião, um tema sempre era tabu: Quimbanda! Os que nada sabiam, diziam, temiam saber, os que pouco sabiam, ficavam receosos em saber mais...e quase sempre o diálogo se encerrava com a mesma velocidade com que se iniciava, com a clássica 'é melhor não falarmos disso'.



O clima de mistério e obscurantismo imperava, e era preciso mudar o rumo da prosa para 'algo mais leve'. Criança que era não podia ser eu aquele que obrigaria os mais velhos a me dizerem as coisas que sabiam, pois era fato, curiosidade eu tinha de sobra. E tampouco poderia, naquela época, considerar de que maneiras obteria o conhecimento necessário sobre o assunto. 



A mim era legado o 'direito' de frequentar o catecismo, a missa e os batismos católicos durante o dia, e as giras de erês, caboclos e pretos-velhos de Umbanda à tarde. Mas eram os mistérios da noite que ano após ano clamavam o viço da minha juventude. As extravagâncias de vestidos, ternos, tridentes e capas, os fumos, as bebidas, o deboche e as gargalhadas, os atabaques, os pontos cantados e a sensualidade, tinham uma incrível capacidade de transformar um ambiente tranquilo e neutro, numa corrente de força e vigor, que até a mais medíocre das pessoas quando incorporada, ganhava uma aura tão grande de sensualidade e atração, medo e repulsão, que ao término de tudo aquilo, você estaria desejando entregar-se nos braços de algum Malandro ou Pomba Gira, ou estaria implorando para que o Deus de Israel te livrasse daquele inferno



Curiosamente meus familiares e amigos nunca se referiram a gira do povo de rua dentro da Umbanda, como Quimbanda...mas como festa. E que festa! Para eles, que não tinham um conhecimento profundo sobre o assunto, Quimbanda nunca foi um evento esporádico, com data e horas marcadas, mas uma outra religião, que concentrando em si o poder de Exu, deveria ser tratada com ainda mais cautela e respeito, mas jamais com indiferença!



QUIMBANDA - O Culto da Chama Vermelha e Preta é um livro escrito por Danilo Coppini, com 563 páginas, divididas em 8 capítulos, publicado no ano de 2014, pela editora Cape Lobo.



Este livro surge dentro de uma conjuntura própria, mais especificamente através do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, e é fruto da pesquisa e experiência não apenas de seu autor, mas também dos outros adeptos que comungam do mesmo credo. Originalmente vendido como tiragem única, porém em sua segunda edição até a presente data, tem a intenção de informar a todos os interessados não apenas as interpretações do culto dadas especificamente por este segmento, como também de esclarecer muitos aspectos confusos e mitificados que pairam o imaginário popular sobre esta religião. 

Os grandes objetivos desse livro consistem em despertar e 'quebrar grilhões'...A quebra de 'grilhões'visa retirar o poder mítico da mão de certos manipuladores que inventam coisas sem vivenciá-las. pg.9



O autor faz questão de deixar claro que a Quimbanda não é uma gira e nem mesmo uma contraparte, ou ainda a Mão Esquerda da Umbanda - religião cristã atribuída a Zélio Fernandino de Moraes, iniciada por volta do ano de 1908, e que tem na crença de muitos de seus adeptos a ideia de que os eguns evocados são espíritos errantes, que precisam trabalhar em nome da caridade para edificar uma vida espiritual pura, em função de pagar pelos pecados que cometeram em vida. Segundo Coppini, a Quimbanda Brasileira é uma outra religião, completa e independente, com sua própria cosmovisão e objetivos místicos, que em nada se assemelham a este entendimento sobre os exus:


 Que nos desculpem os Umbandistas que creem nessa falácia, mas a Quimbanda é um Culto Religioso desprovido de dupla via, ou seja, não existe divisão entre bem ou mal, direita ou esquerda, céu e inferno. A Quimbanda Brasileira é a arte de evocar ou invocar espíritos dos mortos que ascenderam através dos Conhecimentos Esotéricos Ocultos e burlaram a Lei de Reencarnação...pg.11



E que as acusações populares sobre este ser um culto de Magia Negra, não estão totalmente erradas, 

pois se partirmos do pressuposto que a Magia Negra é o conjunto de práticas imersas na ciência da corrupção, os entendimentos se alinham. Porém, a Magia da Quimbanda não consiste em apenas praticar atos nocivos, pois para nós o ato de destruir estruturas que atrapalham o desenvolvimento e a evolução dos adeptos e de todos os que procuram os feiticeiros dessa arte é fundamental. A doença, a solidão, o desespero, a violência, os acidentes, a depressão, a raiva, o desinteresse, os caminhos fechados e os problemas sentimentais são 'armadilhas' que o Sistema Vigente regido pelo Falso Deus nos impõe para que continuemos alimentando as correntes energéticas escravistas através da nossa fé e das nossas ações. Dessa forma, ao trabalharmos para retirarmos essa pressão estamos combatendo e agindo contra as barreiras impostas, como entraves desse Sistema. pg.11



O livro inicia-se dando ao leitor uma visão geral sobre toda a conjuntura da religião. Alguns elementos como palavras e até mesmo ideias, podem parecer confusos ao novato, mas o desenvolvimento do livro se dá de forma gradativa e organizada, adicionando a cada conhecimento exposto em seu princípio, novas informações, beirando o estilo acadêmico pela qualidade da pesquisa histórica e etimológica, e a imparcialidade da exposição dos temas, deixando sempre claras as diferenças entre aquilo que se tem através de fundamento científico, daquilo que se assume por opção e convicção religiosa.



Ainda em seu princípio, o autor fala da fusão étno-cultural constituinte desta nossa nação, sobre o comércio de escravos pretos e das tribos trazidas para cá, dos brancos e a interferência cristã sobre estes povos, e explana de forma incomum, a participação dos vermelhos (indígenas) não só para a construção da sociedade brasileira como consequentemente das novas formas religiosas que se desenvolviam. Destacamos aqui este tipo de informação, pois infelizmente são muitos os ignorantes que ainda acreditam que as senzalas eram ocupadas apenas por pretos, quando em verdade, vermelhos também foram escravizados e tiveram participação igual e fundamental na formação da cultura e religiosidade do Brasil.



A construção do imaginário sobre o Diabo é desenvolvida em meio a todo este contexto, e são expostas as correlações existentes entre as ideias de pecado cristãs, fundamentalmente relacionadas ao sexo, e aos cultos à sexualidade e ao pênis encontrados nas culturas pagãs africanas e americanas, dando margem então para a fusão do Inimigo cristão, para com Exu, o Orixá.

De todos os Deuses africanos (para os sacerdotes cristãos todos eram formas atrasadas), destacou-se Èsú. Esse Deus de origem Yorubá é o princípio da comunicação entre o Àiyè (astral) e o Òrum (material) dos homens e dos deuses. Simboliza o crescimento, a mudança e a força dinâmica de toda criação. ... Sangue de sacrifício, pessoas de pele negra, ambiente selvagem e por vezes hostil, nudismo, falta de concepção de pecado e um Deus fálico que regula toda essa força. Resultado: Èsú era o Príapo africano; uma das formas de Satanás e seus anjos caídos e, consequentemente, o ódio, maldade e perversidade que iam de encontro ao 'misericordioso deus cristita'. pg.19



O passar dos anos faria com que o encontro de todos estes diferentes conceitos, e a concentração de toda esta conjuntura energética, originassem as destemidas legiões daqueles espíritos revoltados que governados pela força de um líder, fariam oposição à concepção religiosa dominante, e Maioral do alto de seu trono, organizaria seus reinos.


Maioral é a quintessência de muitos seres unificados que lutam para extinguir as formas de aprisionamento da psique humana dos que o buscam, como o ódio, a paixão, a ilusão, a soberba material, a cobiça desenfreada e a luxúria, todavia, alimenta as fornalhas qliphóticas que incendeiam a alma dos moribundos cegos e limitados...Maioral são todos os antigos deuses fundidos na chama de Lúcifer! pg 63


Sincretizado a imagem de Baphomet eternizada pelas mãos de Eliphas Levi em seu Dogma e Ritual de Alta Magia, Maioral ou o Grande Dragão Negro, como também é por vezes referido, é o Ser Supremo para os adeptos da Quimbanda Brasileira, e aqui, Orixás não são cultuados.

Quando V.S. desejou, começou separar esses espíritos por afinidade. Maioral enxergou na ancestralidade africana a força apropriada para edificar um culto próprio. Dessa forma, aproveitando-se de todo contexto histórico e político que essa terra vivia, nasceu, de um nome incompreendido, uma das religiões mais temidas da Terra: A Quimbanda. pg33

Como “Reinos”, nos explica o autor, definem-se aqueles locais presentes no Plano Astral, subordinados a um imperador. Sendo assim, os exus destacados por seu poder de persuasão, guerra, domínio e força, são considerados reis destes locais que são divididos em número de sete: o Reino das Encruzilhadas, dos Cruzeiros, das Matas, dos Cemitérios, das Almas, da Lira e da Praia.



Os espíritos dos mortos reúnem-se e dividem-se por afinidade nestes ambientes. Desta forma, entende-se que toda a pluralidade de nomes de exus e pombagiras não se dá de maneira arbitrária, sem qualquer critério ou por escolha pessoal, mas por fundamento esotérico. Com histórias, características, personalidades, gostos e pontos próprios, o livro estende-se longamente na explanação de cada um destes elementos, sobre cada um destes seres. Neste segundo conjunto de capítulos, de característica mais prática, você aprenderá não apenas como agradar algum exu, como saberá qual ponto cantar, quais rituais praticar. Como jogar búzios para situações específicas, feitiços, pontos riscados, banhos, orações e rezas para fins diversos. 



A história do Brasil, a formação do povo brasileiro, e a progressão religio-cultural se fundem de forma absolutamente harmoniosa à história da Quimbanda exposta pelo autor. Não apenas pelos ingredientes que compõem esta mistura, mas também pela maneira com que tudo se dá. Há uma insistência recorrente nas palavras de Danilo para que não haja dúvidas de que esta não é uma religião estagnada. Aqui tudo se move, e tudo precisa estar em constante movimento. A energia dinâmica de Exu encontra livre correspondência com as entidades que receberam seu nome, e não por menos, pois mesmo que não necessariamente tenham as mesmas atribuições que este Deus-Orixá possua em sua completude, aqui todos são respeitados sem qualquer demérito ou depreciação.



Coppini é excepcional em sua abordagem histórica e no curso de seu título para expor todos aqueles elementos que compõem esta religião. Porém, o conhecimento esotérico do autor, visível para qualquer ocultista mais experiente, pode não ser tão aparente e confundir em alguns momentos os novatos. A referência a conceitos gnósticos, vias atuais expressas através de suas “correntes numéricas”, e a falta de comparativos sobre o que dizem as outras linhas de Quimbanda sobre as ideias expostas neste título e vice versa, podem deixar os recém-chegados com certas questões em aberto, mas, uma vez que haja a promessa de que outros livros sobre o tema sejam publicados em breve, talvez tais dúvidas sejam futuramente sanadas.



Recordando-me dos meus tempos de infância, penso ter valido a pena a espera para minhas questões sobre esta religião. Não por considerar que as exposições neste título sejam definitivas e absolutistas sobre o que seja a Quimbanda, mas pela satisfação de ter em mãos uma obra com alta qualidade didática, produzida por quem sem proselitismo - e independentemente do que os outros digam sobre seus próprios cultos - entende daquilo que pratica e fala.



por Allan Trindade


terça-feira, 28 de julho de 2015

Como prêmio por ter ido bem na escola, tio conta a seu sobrinho, a história de um pobre menino chamado Ojesed. Com uma forte sede por conhecimento, e sem condições financeiras de ter seus sonhos realizados, Ojesed se sente injustiçado pelo destino por não ter recursos para estudar. Considerando o fato de não ter tido uma madrinha para lhe abençoar no dia de seu batismo, como um dos motivos para seu triste destino, ignora os argumentos de sua mãe de que fora entregue as bençãos de "Nossa Senhora", sendo desta forma tão ou mais abençoado que os outros. Convicto de que isso não passa de uma desculpa, esbraveja a esmo sua infeliz condição, quando, neste momento, é surpreendido por uma fada, a Estrela D'Alva, enviada por sua então madrinha, para lhe ensinar sobre os reinos elementais...

Ojesed é desta forma levado para o primeiro destes reinos, o reino dos pigmeus, ou, como o autor passará a chamar doravante, o reino dos gnomos!...

No Mundo dos Elementais é um livro escrito por Vasariah S. I. , publicado no ano 2000 , com 248 páginas, pela editora Vasariah . O livro conta o início da saga de Ojesed e tem uma intenção didática, disfarçada pelo romance literário. Dividido em 15 capítulos, sempre introduzidos por breve diálogos entre tio e sobrinho, é repleto de lições ocultistas, que se dão entre a Fada e o menino em sua viagem.  Com uma intenção clara de expor conceitos esotéricos e mágicos em suas linhas, o autor nos fornece orações, pantáculos, rituais e até mesmo receitas de plantas e ervas, tanto para uso cerimonial, quanto para a labuta medicinal. É um livro introdutório para os conceitos da Alta Magia, que tem por objetivo trazer ao leitor um entendimento geral sobre práticas, ideias, e fórmulas esotéricas.

Vasariah assina seu nome com as siglas S. I. , provável referência para seu grau dentro de alguma Ordem martinista, uma vez que estas sejam as iniciais de Superior Incógnito usado por estas Sociedades. Sendo assim, não nos impressiona o teor proselitista encontrado em seu romance, onde não mede esforços para deixar claro o fundo religioso do livro, profundamente cristão em suas orações e conceitos. Levando em consideração que o autor se coloca apenas como narrador de sua história, e não como um dos presentes, poderíamos considerar que toda esta conceitualização tendenciosa faz parte apenas da personalidade dos personagens apresentados, entretanto, pelo teor didático que o livro possui, além dos motivos de Ordem já citados, não nos resta dúvidas sobre as intenções evangelistas de Vasariah apresentadas neste romance.

O primeiro conceito exposto é o da Viagem Astral, seguido pelo uso de paramentos, ensinado pela fada ao menino, para que possam transitar com segurança por outros planos. Introduz o leitor a diferença entre elemental e elementar, e ao fabrico e uso de pantáculos e inclui ainda um curioso cálculo que mede o raio de atuação de um pantáculo em relação a seu tamanho. Faz referências a Cabala, apresentando classificações de anjos e suas hierarquias, à Astrologia, à Botânica Oculta, fala longamente sobre a Alquimia Espagírica, e até sobre Macumba, na tentativa de fazer uma distinção entre Umbanda e Quimbanda, elevando a primeira e denegrindo a segunda.

No campo filosófico, não bastasse o excesso de cristianismo contido no livro, o título ainda nos leva a reflexões curiosas sobre alguns conceitos apresentados. Em um dos primeiros casos observados pela dupla, um dos gnomos, fala longamente sobre os "por ques" que eles, elementais, devem atender aos chamados de nós, seres humanos, que, segundo a apresentação do autor; estamos para servir a deus assim como os elementais estão para servir a nós. Porém, a estranheza nos surge quando, dentre grande parte da narrativa, além dos elementais apresentados serem profundamente organizados em sua sociedade, possuindo inclusive um código penal, e demonstrar tão ou mais equilibrada  a relação que que eles possuem com a natureza em comparação a relação humana para esta, dizem eles almejarem acima de tudo a possibilidade de um dia encarnarem como membros da nossa raça! Que superioridade há de ser esta humana então?...resta saber!

No campo esotérico e literário, além das matérias citadas, o autor se utiliza de algumas técnicas básicas de ocultamento para dar nome a alguns de seus personagens. Ojesed é nada mais que a palavra Desejo lida de trás para frente. Ramak, um gnomo que obsedia um menino, é um jogo de letras para Karma, assim como seu defensor no julgamento, Sacpuldes, é Desculpas.

No Mundo dos Elementais é fraco em sua história e só vale a leitura caso você consiga separar romance, de proselitismo, de ensino didático!

por Allan Trindade