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sábado, 2 de maio de 2020

'Fique em casa' tem sido o mantra dos tempos atuais. Em consequência do novo vírus que assola a humanidade, nunca foi tão importante manter-se encerrado em sua própria habitação o máximo de tempo possível, não apenas para sua própria segurança mas também para a proteção alheia. As pessoas vem se reinventando e encontrando novas formas de continuarem suas vidas. É fato que o mundo não será mais mesmo quando tudo isso passar. E se podemos adaptar práticas comuns ao ambiente do lar, por que não integrar também a religiosidade a este novo formato?

UMBANDA EM CASA é um livro escrito por Beto Angeli, contém 158 páginas divididas em cerca de 19 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela editora Fundamentos de Axé.


Não, este livro não foi escrito em função da quarentena, porém parece parcialmente* adequado para tal. Sua proposta é inovadora para o contexto da Umbanda, embora não seja novidade para outras religiões. Aqui o autor nos pergunta: e se pudéssemos trazer parte do culto de Umbanda para dentro de nossas casas? Alguns podem considerar uma sugestão polêmica em função da natureza caritativa desta religião, visto que a Umbanda visa sempre um trabalho de incorporação de espíritos para a facilitação do contato destes para com aquelas pessoas que estejam necessitadas de algum conselho ou mesmo passe energético. O problema seria então, segundo alguns, que os locais aonde estes contatos acontecem são devidamente preparados através de fundamentos espirituais que garantem a proteção não apenas dos médiuns mas também de demais participantes.  Angeli esclarece então que a intenção não é mesmo aquela de transformar o cômodo da casa de um indivíduo em um terreiro, mas, tal como o fazem católicos, evangélicos, espíritas e membros de outras religiões, facilitar a extensão das energias praticadas na gira, para a casa dos adeptos.

A proposta é simples e parece mesmo inovadora: reunir pessoas interessadas no culto, organizar como tudo será feito antecipadamente decidindo com quais energias irá trabalhar, fornecer material escrito para que todos possam acompanhar cada etapa da ritualística, iniciar os trabalhos e pronto. Aqui não há intenção de incorporação mas de evocação das energias através de meditação, pontos e orações, de modo que cada um possa a sua maneira e intenção pedir pelo recebimento de graças. O objetivo é enfim que a Umbanda praticada em casa seja um elemento adicional a prática do terreiro e não uma substituição ao mesmo.

Surgido através de um curso oferecido por seu autor e desenvolvido com o passar dos anos até transformar-se na presente obra, o livro tem um caráter bastante didático iniciando seus capítulos com informações sobre o fundamento das religiões e do ser religioso, os diferentes aspectos interpretativos sobre a natureza do divino passando por conceitos como politeísmo, panteísmo, panenteísmo etc, esclarece as razões para que a umbanda seja incontestavelmente uma religião e sua fundação através de Zélio de Moraes, além de fornecer todas as instruções necessárias para a realização do culto em casa. 

Entretanto, embora a proposta geral do livro seja bastante interessante, há aquilo que pode soar estranho aos olhos de alguns. Segundo o autor, os responsáveis pelo ritual devem priorizar apenas os aspectos positivos referentes as entidades ou orixás. Sugerindo que os mesmos sejam brevemente estudados durante a introdução da cerimônia para que todos estejam minimamente familiarizados e assim estejam conectados também intelectualmente as forças que se farão presentes. Considera que qualquer aspecto que possa ser interpretado como negativo em relação ao mito atrelado aquela divindade, deve ser ignorado, pois pode gerar uma má impressão naqueles que ali estejam. Assim nos diz o autor:

Ao cultuarmos um pai ou mãe orixá, devemos entender plenamente seus fatores e suas formas de atuação. Nosso objetivo não é criar dogmas, e sim quebrá-los, então evite utilizar lendas dos orixás para descrever um pai ou uma mãe, pois em geral essas lendas são falhas em alguns pontos e, muitas vezes, dão a entender que os pais e as mães orixás são desequilibrados, têm sentimentos negativos, como raiva, inveja, cobiça, entre outros. Sugiro que você fale sobre as características das divindades, a não ser que encontre uma lenda que seja neutra e não cause nenhum tipo de má impressão acerca dos pais e mães orixás. pg.112

Consideramos este tipo de sugestão um tanto quanto tendenciosa sob vários aspectos. Mas pensamos ser suficiente dizer que estas histórias são frutos de anos de tradição oral, oriundas de povos que participavam experiências e culturas muito distintas das nossas, e portanto, tais mitos tem sua razão de ser. Considerá-los falhos nos parece no mínimo inadequado. Para além disso, a conexão esperada ao se ressaltar apenas os aspectos positivos de uma divindade, além de ignorar o fato de que na vida tudo tem sua polaridade, pode transformar-se justamente em algo oposto ao fim daquela mesma sessão onde um alguém, encantado quem sabe pela energia do ritual, poderia então buscar saber mais sobre aquele determinado orixá e se deparar com os diversos mitos que ressaltam as suas verdades, sejam elas agradáveis ou não. 

Consideramos ainda que aqueles que pensam que a espiritualidade é como um conto de fadas onde todos são perfeitos e só a bruxa é má, deveriam despertar para a visão do mundo real, pois as representações energéticas - se assim consideradas e denominadas, deuses ou orixás -, são o que são, perfeitos e imperfeitos, para aqueles que desejem estes termos, e isso de modo algum os torna inferiores, apenas atestam sua harmonização para com a realidade da vida. O fogo que aquece é o mesmo que queima. A chuva que refresca é a mesma que inunda. O mar que gera a vida é o mesmo que a afoga.

Embora pensemos este um ponto falho desta publicação, o todo nos parece positivo. A proposta é inovadora. A introdução é instrutiva de acordo com os conceitos estabelecidos pelas ciências das religiões. O desenvolvimento é didático. E com as devidas ressalvas, vale a pena ter a umbanda em casa.

por Allan Trindade


* parcialmente pois visa congregar amigos numa mesma casa e sabemos que isso não é adequado na presente data de 2020.



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domingo, 19 de abril de 2020


Carma. Reencarnação. Vida. Morte. Pós vida. Temas recorrentes dos meandros da espiritualidade. Motivo de crença e esperança para uns e descrença e indiferença para outros, há milênios os registros humanos apontam para esta estranha relação que o homem sempre estabelecera com o além. Interessantemente, os métodos de comunicação com os espíritos parecem terem se desenvolvido junto a própria evolução tecnológica material, e a psicografia, um de seus métodos mais conhecidos, tem atraído a curiosidade de muitos daqueles que esperam por uma mensagem de conforto vinda de seus entes queridos que já partiram. Entretanto, tal prática não tem se limitado apenas a cartas específicas para pessoas específicas, e são muitas as obras psicografadas que dissertam sobre os mais variados temas. E esta, que é uma obra psicografada, trata de um romance. Da história de um homem que viveu há cerca de trezentos anos atrás...



O GUARDIÃO DA MEIA-NOITE é um livro escrito por Rubens Saraceni, com 197 páginas, divididas em 14 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Madras editora.

Este homem, doravante o Barão, fora muito rico e já estava com seus 40 anos de idade quando começara a pensar em se casar. Ao expor publicamente suas intenções, passara a ser assediado publicamente por mulheres dos mais variados tipos as quais sempre desconfiava, pois supunha, estavam apenas interessadas em seu dinheiro. Sendo um homem de seu tempo, carregava em si as características machistas que comandavam aquela sociedade e se aproveitava da situação também como um teste: se qualquer pretendente fosse para cama com ele antes do casamento, então, não lhe serviria como esposa. E assim fizera até finalmente desistir das suas opções neste país e resolver buscar sua noiva em Portugal. Uma mulher bem mais jovem, que ainda desfrutava de sua inocência aos 15 anos, casara-se então com aquele senhor a contragosto. Em sua fixação por seus próprios conceitos de pureza, o Barão manteve-se atento ao ato na noite de núpcias, e por não perceber nenhuma gota de sangue após a consumação, concluíra que mais uma vez fora enganado e que sua jovem esposa não podia mesmo ser virgem. Decidido a vingar-se pela traição imaginada, armou uma cilada contra a própria esposa: mandara um de seus escravos para seu quarto enquanto a jovem dormia, chamou uns amigos como testemunhas e fingiu um flagrante, afinal de contas, se uma mulher estivesse a sós com um escravo em seu quarto, não importava o que estivessem fazendo naquele momento, aquilo só podia significar traição. O escravo que nada tinha feito de errado fora assassinado, e a esposa, assustada com toda a situação, fugira. 

Decidido a devolvê-la pessoalmente para seus pais de modo a limpar sua honra, saiu em campanha pela selva, junto a capitães do mato, disposto a tê-la de volta, custe o que custasse. Ouvindo rumores de que estava morando em alguma aldeia, o Barão passou a matar e torturar todas os índios que encontrara em seu caminho, até finalmente encontrá-la grávida e assustada numa destas tribos. Tomou-a e partiram de volta para Portugal, levando consigo o remorso pelo assassinato de tantas almas inocentes, ceifadas em nome de seu próprio preconceito. Decidido a não mais lidar com o peso de toda aquela situação sem revelá-la, contou toda a verdade para sua mulher, que não o perdoara. Anos se passaram e a Lei da vida cobrou seu preço...

Esta é uma obra inspirada pelo espírito do Pai Benedito de Aruanda. Um livro psicografado que lida com conceitos umbandistas sobre a espiritualidade. A trama se passa no período do século XVIII no eixo Brasil-Portugal, e no campo espiritual, expõe os reinos dos exus, suas leis, conceitos e classes. Um romance simples sem muitas reviravoltas e previsível na maior parte do tempo, mas nem por isso enfadonho ou ruim. Foca sua moral sobre o conceito de que nossas ações e vícios podem nos gerar consequências terríveis no post mortem, muitas vezes reversíveis apenas através de serviço espiritual e reencarnação.


por Allan Trindade


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