sexta-feira, 27 de março de 2020

... Equilíbrio é a base da Obra. Se tu mesmo não tiveres uma fundação estável, sobre o que ficarás
para dirigir as forças da Natureza?
...Estabeleça a ti mesmo em um equilíbrio de forças, no centro da Cruz dos Elementos, aquela Cruz de cujo centro o Verbo Criador foi emitido no amanhecer do Universo.
Sê, portanto, rápido e ativo como os Silfos, contudo evita a frivolidade e extravagância; sê enérgico e forte como as Salamandras, mas evita irritabilidade e ferocidade; sê flexível e atencioso com as imagens como as Ondinas, todavia evita indolência e volubilidade; sê aplicado e paciente como os Gnomos, porém evita grosseria e avareza.
Desse modo, gradualmente desenvolverás os poderes de tua alma, e te habilitarás a controlar os Espíritos dos elementos. ...

- Liber Librae



O RITUAL MENOR DO PENTAGRAMA é um livro escrito pelo Oásis Quetzalcoatl, corpo local da Ordo Templi Orientis, com 52 páginas, divididas em 8 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pelo Clube de Autores.


O pentagrama. Figura de uma estrela de cinco pontas com traçados que conectam todos seus lados. Um símbolo universal, porém, de diferentes significados. Taxado como sendo o selo do próprio demônio por alguns, este gráfico tão facilmente encontrável nos mais diversos contextos mágicos costuma significar principalmente uma coisa em síntese e de acordo com a Tradição: o homem em seu mais perfeito equilíbrio. Os mais associativos não cometerão erro se ao virem o relacionarem ao Homem Vitruviano de Da Vinci. 

Se para alguns tal explicação faz-se suficiente, para tantos outros, de natureza mais investigativa, e por que não dizer, esotérica, não se darão por satisfeitos e quererão saber mais. E para seu acalanto, o ocultismo nos oferece mais. Segundo a Filosofia Mágica, o pentagrama não representa apenas o homem pleno, pura e simplesmente por uma capacidade associativa com a figura humana, mas, essencialmente porque cada uma de suas pontas representam um elemento, a saber: terra, fogo, água e ar, encimados pelo quinto elemento, o espírito. Tais componentes são correspondentes a diversos aspectos não materiais da existência humana, como a relação que se faz da água com os sentimentos, ou do ar com o intelecto, por exemplo, e é o espírito que não apenas reúne sob si todos os outros, como os equilibra e controla. 

Através desta lógica, muitos são os rituais que possuem em sua estrutura este símbolo tão cheio de sabedoria e poder, e não diferente, fora assim também criado o ritual que dá nome a este livro. O Ritual Menor do Pentagrama nos foi legado a partir da criação da Ordem Hermética da Aurora Dourada, ou como também é deveras conhecida, Golden Dawn. Estruturado de modo a cumprir diversos usos, como a invocação das energias elementais, é praticado costumeiramente como uma ferramenta de banimento de energias indesejáveis, precedendo qualquer ritualística de caráter mágico, divinatório ou religioso. Mas não apenas. Levando em consideração o fato de símbolos esotéricos serem por princípio imagens que resumem e facilitam o acesso imediato de seus adeptos aqueles conceitos complexos que já tenham sido absorvidos previamente, espera-se que o praticante realize este rito ao menos uma vez ao dia, de modo a tornar-se aquilo que o símbolo representa: um homem em seu perfeito equilíbrio. Ao rodear-se de pentagramas, o homem torna-se o pentagrama e o pentagrama torna-se o homem.

Esta publicação faz parte de uma série de ensaios escritos pelos membros do Oásis Quetzalcoatl, um corpo local da Ordo Templi Orientis, que visa facilitar, em sua brevidade de 50 páginas, o acesso a todos aqueles interessados em compreender um pouco mais as origens deste ritual tão comumente falado. Em sua estrutura, o livro nos apresenta capítulos que dissertam sobre O Que é o RMP e de Onde Provém, Correspondências Cabalísticas, Os Usos do RMP, A Cruz Cabalística, O Exercício da Cruz Cabalística, além é claro, de todas as instruções sobre como praticá-lo, tanto a maneira tradicional, quanto sobre os modos de adaptá-lo a seu próprio universo.

Um livro simples para quem busca explicações simples.

por Allan Trindade



domingo, 22 de março de 2020

Magia divina e sagrada revelada por Deus a Moisés, Aarão e Davi, Salomão e outros santos, patriarcas e profetas para ensinar-lhes a verdadeira Sapiência Divina, que foi transmitida por Abraham, filho de Simão, ao seu filho Lamek, e cujo texto original em hebreu foi traduzido em Veneza, no ano de 1458.

pg. 9

A MAGIA SAGRADA DE ABRAMELIN é um livro escrito por Abraão, o Judeu, com 215 páginas, divididas em três livros internos e foi publicado no ano de 2007 pela Madras Editora.


Eis um dos grandes clássicos literários para o ocultismo moderno. Este livro que influenciou indivíduos importantes como Samuel Mathers - principal expoente da Golden Dawn - e Aleister Crowley - desenvolvedor da religião conhecida como Thelema - é peça fundamental para o entendimento do fundamento das doutrinas acima citadas. Mas o que há de tão importante nesse livro? Importância é um valor muito pessoal e pessoas distintas podem não necessariamente concordar sobre a utilidade do mesmo. Porém, para todo estudante sério de ocultismo, faz-se indispensável conhecer e saber o que objetiva esta obra: fornecer um método de contato do magista para com seu Sagrado Anjo Guardião. 



Diferentemente de muitos grimórios contemporâneos, como aqueles das Clavículas de Salomão, que embora tragam uma fundamentação e fórmulas até mesmo semelhantes as encontradas nesta obra, o diferencial d'A Magia Sagrada de Abramelin reside no fato de além de prescrever fórmulas mágicas para a obtenção dos mais diversos  fins, desde o enfeitiçamento de pessoas, passando por excentricidades como quadrados mágicos para destruir edificações e licantropia, todos as fórmulas aqui contidas, segundo este sistema, só são passíveis de serem conquistadas a partir do contato e liberação de seu próprio anjo. 


O livro começa com seu autor, Abraão, alertando sobre os poderes contidos neste grimório. Ele o escrevera para seu filho, chamado Lameck, e espera que o mesmo conceba que todo o conhecimento aqui disposto deva ser tratado com a máxima cautela e respeito a Deus, vide que toda sabedoria aqui é divina e não deve jamais ser permitida que caia nas mãos de feiticeiros inescrupulosos. Segundo Abraão, todo este trabalho é fruto de uma longa jornada em busca de um conhecimento verdadeiro, iniciada após seus vários anos de aprendizado de Cabala com seu pai, um rabino, aprendizado este que fora interrompido em função de sua morte. Empenhado em saber ainda mais sobre os Conhecimentos Santos, viajou por toda Europa e África junto de seu amigo, Samuel, até sua morte, dois anos após o início em 1397.

Desolado e pensando em desistir, foi no Egito que conheceu Aarão, que lhe falou sobre um ancião que vivia no deserto, chamado Abramelin. Encontrando-o falou sobre seu interesse em aprender a Magia Sagrada, ao passo que este lhe pediu 10 florins de ouro para dar como esmola, que jejuasse por três dias, recitasse os salmos e copiasse a mão dois livros, sob a promessa de fazer o bem e ser obediente a Deus. Feito isto, voltou para casa disposto a por os conhecimentos recebidos em prática. Superando as tribulações que encontrara para a consecução, desde coisas simples como contendas em seu  casamento, até elementos mais complexos como a resistência frente as tentações demoníacas, recebera, após meses de dedicação com jejuns, purificações e orações diárias, a visita de seu anjo por três dias. E foi a partir de então que alcançou a graça de curar 1413 pessoas, recebeu montantes de dinheiro e teve a possibilidade de presentear reis com espíritos familiares. 

Tudo isto nos conta Abraão, sempre envolto em uma aura de extrema advertência e reticência: " tenha consciência dos perigos desta empresa. Seja temente a Deus. Resista as tentações do demônio. Não entregue este livro para feiticeiros e pessoas sem caráter. Não acredite na tolice dos astrólogos que creem nas influências dos astros, nem tampouco em suas tabelas de horários. Seja asseado, mantenha a mente em oração durante todo o tempo, cuide de seu altar, evoque Deus e seu Anjo. "

O autor ainda nos alerta sobre a necessidade de saber distinguir a verdadeira da falsa magia perpetrada nos tempos modernos. Faz-se necessário destacar aqui que este é um grimório teúrgico, de forte influência judaico-cabalística, que considera que apenas esta fórmula é segura, verdadeira e abençoada por Deus para ser praticada. Segundo Abraão, todos os outros livros que contenham coisas como círculo de proteção, ou apelo a questões planetárias, são enganadores, diabólicos ou uma fusão de ambos.

O objetivo aqui é simples: entrar em contato com seu anjo. O método é complexo: isolar-se de tudo e todos por um período de cerca de seis meses dedicando-se exclusivamente a esta finalidade, com rituais de evocação diários, purificação e oração. A consecução consiste em: uma vez recebida a visita do anjo, o mesmo lhe instruirá sobre como proceder em relação aos demônios que vivem na Terra de modo a subjugá-los para que te sirvam em seus objetivos mágicos. 

Levando em consideração que Deus e os Anjos pertencem a escalas superiores de manifestação espiritual, cabe ao magista rogar a autorização destes para controlar os demônios que aqui já vivem. Sem este contato e autorização divina, qualquer ato mágico é considerado como sendo um ato ilusório e diabólico, que tem grandes chances de condenar o magista e aqueles que creem em seus feitiços, fazendo-os sucumbir como marionetes nas mãos destes seres infernais.

Dividido em três livros internos, A Magia Sagrada de Abramelin começa contando a autobiografia do autor, passa pela segunda parte onde argumenta quais são as formas legítimas de magia e o porque deste ser o único grimório confiável, explica os procedimentos a serem seguidos para a comunicação com o anjo, sendo finalizado então por uma série de listas de nomes e hierarquias demoníacas, além de diversos quadrados mágicos a serem usados pelo magista para os mais diversos fins.

Embora seja extremamente repetitivo e proselitista em proporções quase iguais, o pouco que sobra torna esta obra obrigatória em qualquer biblioteca de ocultismo que se preze, não necessariamente pelo seu conteúdo, mas certamente por seu valor histórico.

por Allan Trindade




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segunda-feira, 9 de março de 2020


Asa de morcego. Olho de boi. Pelo de búfalo. Uma pitada de veneno de escorpião. E uma criança que seja filha de um anão. 

Misturar todos os ingredientes em um caldeirão fervente. Sob a luz da lua cheia numa noite quente. Evocar os diabos de chifre de corte e beijar a bunda preta de um bode.

THE SATANIC RITUALS é um livro escrito por Anton Szandor LaVey, com 220 páginas, divididas em 11 capítulos e foi publicado no ano de 1972 pela Avon Books.

Não, este ritual não existe. Eu acabei de inventá-lo. E apesar de tê-lo criado neste momento, rituais como este preenchem os livros de contos infantis e testemunhos de vítimas da santa inquisição católica, que sob as mais diversas formas de tortura, inventavam coisas deste tipo para se livrarem o mais rápido possível da dor e tormento extremo a que eram expostos sob a acusação de bruxaria e satanismo. Se podemos afirmar que a humanidade possui facilidade para a criatividade, o que dizer sobre nossa disposição para a insanidade?

Insanidade esta que pouco ou nenhuma relação tem com a realidade. Insanidade esta que sob a justificativa de vingar o sacrifício fictício de fetos em rituais sabáticos, matou mais pessoas inocentes que nenhum satanista jamais foi capaz. Ao menos não os satanistas de Lavey, seguidores deste homem que deixa claro nas linhas de seu livro sagrado, chamado de A Bíblia Satânica, que o sacrifício de animais e crianças não faz parte das práticas satanistas vide a pureza contida nestes seres. E se podemos garantir que a Bíblia Satânica não autoriza o assassinato de crianças, fato é que não podemos dizer o mesmo da Bíblia Sagrada, aquela dos cristãos, onde o deus de israel não apenas sacrifica seu próprio filho, como autoriza o extermínio dos pequenos como visto nas passagens que contam as histórias de Eliseu, Êxodo, dentre outras. Ao que parece o infanticídio suja mais o dedo histórico daqueles que acusam, do que daqueles que são acusados. Que mundo irônico este em que vivemos, não?!

Mas tudo bem, comparar as Bíblias deve ser uma artimanha de satanás que está me fazendo pecar e desviar do caminho que é falar sobre um outro livro, aquele que foi escrito como um complemento para a Bíblia Satânica, o livro chamado Os Rituais Satânicos.

Sim, este livro é um complemento, logo, caso você não tenha lido a Bíblia Satânica, é melhor que o faça antes. Embora Lavey comece este título de uma forma bem semelhante a sua primeira publicação, mais uma vez ressaltando que o Diabo vem sendo usado de forma irrestrita pelos mais diversos tipos de abraâmicos, sempre com o intuito de acusar seus opositores ideológicos de serem seus seguidores, ou ainda sobre a passividade das modernas escolas de bruxaria que se esquivam a todo custo de qualquer acusação de que seus rituais, ou mesmo seu deus cornudo, tenham qualquer relação com satanismo, as semelhanças se encerram aí, visto que esta publicação não é filosófica ou ideológica, mas essencialmente prática. 

Lavey considera que a fantasia desempenha um papel importante em qualquer religião e que os rituais satânicos são usados não para escravizar o praticante com fantasias sobre espiritualidade, mas para que o adepto entre num estado alterado de consciência, de maneira que possa manipular de forma livre suas crenças e emoções, e assim alcançar seus próprios objetivos. Partindo do princípio de que é através da tensão que as mudanças são produzidas, concebe que a magia reproduz o movimento de retração e expansão do universo. Portanto, o praticante puxa para si aquilo que deseja e empurra de si aquilo que não quer mais, sempre motivado pela intensidade das situações. A ação mágica aqui leva em consideração o magista em si, sua energia e da vítima, e que os efeitos, em geral, afetam muito mais a psique e vontade, que um dano físico direto. É importante notar que não há a crença da interferência de espíritos ou deuses e que a energia dos envolvidos é direcionada para alterar o estado mental da vítima, de modo que ela produza as alterações físicas desejadas sobre si mesma. Se for para o bem, que ela tenha forças para conquistar, se for o mal, que ela se boicote e se destrua.

Os rituais apresentados são classificados em dois tipos: ritos para fins específicos ou cerimônias e celebrações festivas. O livro apresenta o contexto histórico do rito e em seguida, a forma de realizá-lo. Homens e mulheres podem desempenhar as mesmas funções, desde que as polaridades sejam analisadas e combinadas de modo prévio, e destaca o mesmo para grupos homossexuais.
Todos os rituais são pensados como peças de um teatro, onde atores e plateia participam ativamente, com roteiro e emoção, de modo que o grand finale seja proveitoso para todos. Portanto é importante estar conscientemente ali, querer estar ali e saber por que está ali: qualidade é mais importante que quantidade! E que o oficiante saiba distinguir os mais adequados. 

Sobre suas origens, alega que são de influência esotérica advindas predominantemente da Alemanha e França, vide a riqueza do drama satânico produzido por esses países. Lembremo-nos que muitas dos contos infantis ou mesmo infanto-juvenis da Europa tinham contextos e finais dignos de filmes de terror, mas que muitos foram alterados ao caírem nas mãos de Walt Disney. As versões que conhecemos sempre tem um final feliz, mas a realidade dos livros é bem outra...

A sequência de rituais são:

THE ORIGINAL PSYCHODRAMA 
Le Messe Noir

L'AIR EPAIS
The Cerimony of the Stifling Air

THE SEVENTH SATANIC STATEMENT 
Das Tierdrama

THE LAW OF THE TRAPEZOID 
Die Elektrischen Vorspiele

NIGHT ON BALD MOUNTAIN 
Homage to Tchort

PILGRIMS OF THE AGE OF FIRE 
The Statement of Shaitan

THE METAPHYSICS OF LOVECRAFT 
The Cerimony of the Nine Angles and The Call to Cthulhu

THE SATANIC BAPTISMS 
Adult Rite and Children's Cerimony

THE UNKNOWN KNOWN


Sentimos decepcionar o leitor que tivesse a esperança de encontrar neste livro fórmulas contendo sacrifícios de animais ou crianças. Não, eles não fazem parte desta obra. Todos estes rituais transcendem a prática e são interessantes não apenas pela contextualização histórica, mas também pela ideia que apresentam, sempre focados num fundamento subversivo. Neste complemento à Bíblia Satânica, Lavey nos convida a não mais pensar Satã como o outro, como aquele que não gostamos, como símbolo de nossas desavenças, mas a incorporarmos Satã em nós mesmos visto que para nossos opositores nós já somos ele. A proposta de antes era ideológica, a proposta aqui é prática, o objetivo da literatura de Lavey é fazer de todas esses ingredientes a receita para a sua vida, com boas pitadas daqueles temperos especiais que sempre dão gosto as suas obras: a ironia e o deboche.


por Allan Trindade


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quinta-feira, 20 de junho de 2019


Embora a popularidade de Aleister pareça indicar o contrário, Crowley era essencialmente um intelectual. Educado em teologia cristã e profundo conhecedor da Bíblia, além de diversos outros assuntos, sendo também um qualificado alpinista e exímio jogador de xadrez, aproveitou-se de sua criação e herança milionária para dedicar toda sua vida ao desenvolvimento de seu intelecto, sua arte e principalmente, sua espiritualidade. Mesmo que muitos possam contestar isso, fato é que a obra e vida de Crowley, quando observadas de perto e sob uma perspectiva desprovida de preconceitos, parecem mesmo serem únicas para os padrões que até então se tinham dentro do universo do ocultismo do século XIX. 

Entretanto, o caráter deste livro não é aquele de mais uma vez tentar explorar as vivências e peripécias praticadas por este inglês tão costumeiramente difamado, mas de apresentar e buscar entender o resultado mágico delas.

A MAGIA DE ALEISTER CROWLEY é um livro escrito por Lon Milo Duquette, com 255 páginas, divididas em 13 capítulos e publicado no ano de 2007 pela editora Madras.

Crowley nos legou um conjunto que contém em si um sistema de práticas mágicas herdadas da Ordem Hermética da Aurora Dourada, adaptadas e aprimoradas a sua maneira de acordo com suas perspectivas, baseadas em sua crença da chegada de uma nova era e uma nova religião para a humanidade, conhecida como Thelema. A partir disso, criou uma série de outros rituais próprios para serem praticados por seus adeptos de modo que pudessem cumprir suas próprias vontades mágicas e espirituais, de maneira alinhada com as influências destes novos tempos, em uma nova Ordem a qual denominaria A.’. A.’. . 

Porém, o que parece muito atraente num primeiro momento, pode ser um tanto decepcionante num segundo. Isso porque, tal como destacado por nós em parágrafo anterior, toda a erudição de Crowley talvez tenha o feito esquecer-se que 'pessoas comuns' podem não possuir tempo, dinheiro, ou mesmo condições intelectuais de entender toda a gama de referências, relações e correlações a sistemas, mitologias, artes e religiões contidas em seus escritos. O mesmo pode se dizer especificamente sobre muitos de seus rituais. E a falta de textos próprios e introdutórios podem fazer o interessado pensar que Thelema é complexa demais para a vida cotidiana. Sendo assim, nada mais justo que um livro para tentar sanar este problema.

Em seu prefácio, Hymeneaus Beta fala sobre esta obra de Duquette servir como uma introdução para aqueles que podem não ter o conhecimento necessário para entender as especificidades  da obra de Crowley, não sem antes salientar que parte do que é apresentado aqui encontra-se também no campo da interpretação pessoal do autor, e que portanto, não deve ser encarado de forma dogmática. Em seguida, Lon nos fala sobre esta ser uma edição revisada e ampliada da primeira edição de 1993 e até se propõe a tocar no assunto sobre as calúnias e difamações propagadas contra Crowley, até os dias de hoje, antes de introduzir seus comentários sobre seus rituais. Aqui ele trata sobre o conceito da vontade entendido através da perspectiva thelêmica, como aquela vontade divina distinta da vontade comum. Sobre as diferentes eras astrológicas e os aeons de Ísis, Osíris e o atual, de Hórus. Do recebimento do Livro da Lei como uma confirmação de Crowley como o profeta da nova era. Para finalmente apresentar os libri de classe D, que contém os rituais e instruções oficiais da A.’. A.’. .

Duquette então nos apresenta os Rituais do Pentagrama, como por exemplo, mas não apenas, o Ritual Menor de Banimento do Pentagrama; os Rituais do Hexagrama, como o Ritual Menor do Hexagrama; os rituais de Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, como em Liber Samekh; os Ritos Solares, como a Missa da Fênix; do misticismo thelêmico, como em Liber Nu e ainda sobre os Ritos Elêusis, tal como praticados por membros da OTO desde a década de 70. Todos esses capítulos são organizados conforme comentários pessoais do autor seguidos pela apresentação do próprio liber em si. A conclusão do livro trata sobre Ordens thelêmicas e tece comentários específicos sobre esta religião, finalizando com o Liber XV, a Missa Gnóstica, rito central da Ordo Templi Orientis.

Uma breve busca por vídeos sobre rituais da Aurora Dourada ou mesmo da A.’. A.’. na internet sempre nos impressiona pela quantidade e, não raro,  pelos absurdos. A abertura de todos os documentos da Santa Ordem parece ter tido um efeito duplo: facilitou o acesso de novos aspirantes, porém, deu a oportunidade para que indivíduos nem sempre comprometidos com a honestidade, se aproveitassem da fama de muitos rituais para adaptá-los a suas próprias maneiras, e propagá-los como sendo genuínos. Perceba que não queremos dizer com isso que há qualquer tipo de proibição para adaptações pessoais, mas, que adaptações pessoais devem ser frisadas como adaptações pessoais.

Embora muitos thelemitas torçam o nariz para explicações públicas sobre os rituais da A.’. A.’., e o próprio Crowley tenha demostrado não gostar da ideia como exposto, por exemplo, em The Book of Lies, pensamos que livros como A Magia de Aleister Crowley, organizado e apresentado de forma honesta, distinguindo de forma clara opinião de escrito original, tem uma legítima função de existir.

por Allan Trindade

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quarta-feira, 12 de junho de 2019


Há alguns anos atrás me tornei hindu, devoto de sri Ganesha. Dentro desse período não era incomum que pessoas, especialmente cristãos, ao saberem disso, me confrontassem de forma debochada.

 - Quer dizer que você acredita num deus gordo com cabeça de elefante?
 - Sim, pratico meus pujas diariamente. Algum problema?
 - Não, só acho engraçado você acreditar nisso.
 - Pois é, também acho engraçado você acreditar que cobras um dia falaram, tal qual em Gênesis. Ou que um ser humano pode viver dentro de uma baleia, tal como o relato de Jonas. Ah, a Bíblia não fala de baleia mas peixe gigante? Como queira. Ou que teu deus precisa falar através de jumentas como no caso de Balaão, ou plantas como no caso de Moisés. Ou que esse mesmo deus seja capaz de mandar duas ursas arrancarem pernas, braços e cabeças de 42 crianças simplesmente porque chamaram Eliseu de careca. Ou ainda que é normal destruir duas cidades 'por pederastia', como Sodoma e Gomorra, mas deixar que os sobreviventes, Ló e suas filhas, transem a vontade, regados a muito vinho, mesmo depois de sua esposa/mãe ter morrido, num caso no mínimo bizarro de incesto. E isso porque eu nem citei os anjos do Apocalipse e suas formas bem mais exóticas que aquela do deus que eu sigo...

Mas o melhor mesmo deve ser rir também dos ribeirinhos que dizem que o boto sai do rio para engravidar meninas, mas achar absolutamente normal que Jesus tenha nascido de uma virgem, não é mesmo?

Vamos continuar essa conversa e rir mais um pouco?

O LIVRO DOS SANTOS é um livro em capa dura, escrito por Rogério de Campos, com 366 páginas, divididas em 16 capítulos e foi publicado no ano de 2012 pela editora Veneta.

Este livro chega assim: sem introduções ou explicações sobre sua estrutura, metendo o pé na porta da Igreja para, tal qual no dia do Apocalipse, reerguer os corpos empoeirados de santos e santas chamados a darem suas opiniões, ou relatar um pouco de suas vivências para nós. De tom cômico, irônico ou mesmo tenso em alguns momentos, cada uma de suas páginas contém um quadro onde a história é apresentada, tudo organizado por temas que vão desde o machismo característico de muitos santos conhecidos do grande público - conhecidos por sua imagem mas dificilmente por suas ideias -, perpassando pelo estranho hábito que outros tantos tinham de ficar andando por aí sem cabeça, até sua estranha adoração pelo sofrimento e pela morte. Os capítulos aqui são:


Da Perversidade Natural das Mulheres
Onde são apresentadas histórias ou falas de santos misóginos

Dos Milagres Milagrosos
Milagres diversos do tipo histórias que o povo conta e a igreja assina embaixo


Donde se Constata que Existem Algumas Mulheres que, de Tão Virtuosas, São Quase Homens
Que lista mulheres santas que em geral não queriam contatos com homens


Donde se Aprende Que, Para um Bom Cristão, a Cabeça é Algo Dispensável
Onde apresenta alguns santos cefalóforos, ou seja, que andavam por aí literalmente sem cabeça e até falavam


Da Vontade Própria: a Semente do Mal
Sobre o quanto a vontade própria é perniciosa para um cristão


Do Porque Só os Virgens Agradarem ao Senhor
Onde os santos evitam ou condenam o sexo e exaltam a virgindade como caminho para o Céu

Do Casamento: um Pecado Menor
Que trata de casamentos diversos e o quão condenável isso é para alguns santos

Do Amor Puro
Sobre os "vários tipos de amor cristão"

Da Justiça Cristã
Onde apresenta casos de amor e justiça praticados pela cristandade católica

Da Ciência Cristã
Onde apresenta o quão científica a Igreja é...só que não

Da Virtude, Conduta e Afins
Histórias diversas sobre hábitos, atos e consequências

Das Delícias da Dor
Sobre o prazer que os santos têm em praticar BDSM

Do Cemitério como Jardim Cristão
Sobre morrer quando bem entender e relíquias da morte

Da Utilidade dos Santos
Onde são indicados os santos padroeiros e do que.


Os capítulos seguintes trazem uma Nota Semibibliográfica e um Índice Onosmático.

O Livro dos Santos é leve e descontraído, mas acima de tudo divertido, embora possa ser considerado pesado ou herético por aqueles menos espirituosos. Carrega a virtude da honestidade em seu interior, porém, peca pela falta de beleza exterior: sua capa embora dura, é feia. Indicado para todos aqueles que, em sendo capazes de rir da fé dos outros, sejam igualmente capazes de rirem de suas próprias. Afinal de contas, água benta na cara dos outros é refresco.

por Allan Trindade.



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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Rio de janeiro, 12 de dezembro de 2004. Domingo

É noite. Eu fujo. Fujo de algo ao qual não sei o que é, mas sinto sua forte presença se aproximando cada vez mais rápido. Corro até que finalmente chego a um lugar que me parece seguro, um lugar com um grande gramado iluminado por numerosas velas fixadas no chão, velas que eu sei que são de oferendas. Não toco em nenhuma. No fim do caminho algo se destaca a vista: uma enorme chaminé de fábrica, daquelas com tijolos vermelhos. Minha mente permanece inquieta, talvez pelo fato de saber que estou sendo seguido, mas o pior é não saber por quem ou pelo quê.

Por um momento tento mas em vão, concluo que continuar correndo não irá me salvar do contato com a coisa... então fecho meus olhos e me concentro no meu objetivo: corro e salto. É fascinante, a gravidade simplesmente não existe pra mim! Voo pelos ares apenas com meu impulso e vontade. Vejo a chaminé se transformar em miniatura perante meus olhos. 

Minha velocidade me preocupa, subo rápido demais. Giro como um pião e num movimento súbito abro braços e pernas, e meu corpo para no ar. Estou entre as nuvens, as estrelas acima da minha cabeça e o mundo a meus pés. 

Êxtase! ...nada mais me preocupa, posso finalmente relaxar.

SONHOS LÚCIDOS é um livro escrito por Dylan Tuccillo, Jared Zeizel e Thomas Peisel, com 255 páginas, divididas em 6 capítulos e publicado no ano de 2015 pela editora Sextante.

Sonhamos todos os dias! Sim, você sonha todos dias, mesmo que não se lembre sempre de seus sonhos, eles aconteceram e acontecerão todos os dias.

Mas se sonhamos todos os dias, por que não lembramos de todos nossos sonhos? Os motivos podem ser diversos e explicados através de perspectivas científicas, ocultistas ou ainda das duas. Mas a razão principal pode ser bastante simples: você sempre sonha mas não se lembra sempre porque acredita que não sonha todos os dias, e que é normal se esquecer dos seus sonhos. Esta teoria parece mesmo plausível se levarmos em consideração que é bastante comum ouvirmos esse tipo de fala vindo da maioria das pessoas. Mas segundo alguns especialistas devemos evitá-la. De acordo com os autores, é assim que desprogramamos este boicote mental e mudamos nossa relação com o mundo onírico.

Falando assim parece fácil, mas se estamos tratando de vícios, não é de uma hora pra outra que conseguimos mudá-los, correto? Sendo assim, é por isso que precisamos substituir os hábitos que nos levam a apagar da memória nossos sonhos, por aquelas práticas que nos farão não apenas lembrar de cada um deles, mas ter consciência e fazermos lá todas as coisas que por um motivo ou outro não fazemos aqui. Mas como fazer isso então? É através deste livro que você aprenderá!

Talvez você ainda esteja se questionando sobre os benefícios de desenvolver a habilidade de lembrar e controlar seus sonhos, mas se teve a experiência de lucidez ao sonhar ao menos uma vez na vida, sabe o quão maravilhosa é esta sensação. A liberdade é praticamente absoluta e as limitações estão quase sempre restritas a sua capacidade imaginativa. Voar costuma ser um dos feitos mais marcantes para a maioria dos onironautas. Mas nem só de sensações vivem aqueles que desafiam as águas do esquecimento e muitos são aqueles que através do sonhar conquistaram coisas novas, como o caso de Paul Mcartney que sonhou com a melodia de Yesterday, Elias Howe que criou a máquina de costura, Dmitri Mendeleev e a tabela periódica, assim como muitos outros casos onde pessoas encontram seus entes queridos já desencarnados e podem com isso superar os traumas da separação, ou ainda os clássicos exemplos do Xamanismo onde indígenas tratam das questões pertinentes a tribo e seu futuro com seus guias espirituais.

Mas para entender melhor sobre quando as técnicas de controle dos sonhos deixaram os muros das religiões e sociedades secretas e alcançaram o mundo do vulgo, vamos partir do começo. Tudo se iniciou em meados da década de 70, onde dois cientistas, Keith Hearne e Alan Worsley, e anos mais tarde, Stephen LaBerge, queriam provar que sonhos lúcidos eram reais. Levando em consideração a atonia do sono - estado onde o corpo fica inerte e só o diafragma e os olhos se movem - fizeram o teste: Worsley deveria movimentar os olhos oito vezes da esquerda para a direita enquanto estivesse dormindo. Aparelhos conectados, tudo pronto, Alan dormiu e voilà! Seus olhos se mexeram conforme combinado. Assim, os cientistas puderam concluir que mesmo dormindo, algumas pessoas tinham a capacidade de manter certo nível de consciência. A partir daquele experimento então, as técnicas de viagem astral se ampliariam, e se tornariam bem menos místicas e mais pragmáticas.

Este título disserta sobre uma série de questões científicas que tratam da relação do homem com o sonho e ainda os diversos questionamentos, tais como o local de sua existência e função, que tem sido feitos durante toda a história da humanidade, passando pelos sumérios, egípcios, gregos, romanos, hindus, cristãos, até dúvidas e definições mais modernas como aqueles de Freud, Jung, Aserinsky, Kleitman dentre outros. E embora o livro tenha um caráter bastante materialista se comparado aqueles de origem ocultista, uma coisa parece ainda conectar os dois mundos: a vontade. E aqui, saímos de seu aspecto teórico, e partimos para seu aspecto prático.

Segundo os autores, é muito importante que o pretendente a viajar conscientemente pelo mundo dos sonhos queira realmente fazê-lo, e por isso deve afirmar esta intenção no presente: estou sempre lúcido nos sonhos! Para além disso, um ambiente tranquilo é importante, além de hábitos alimentares que não favoreçam tanto os estágios absolutamente profundos de sono, tais como o consumo de cigarros, maconha e café. Ter um caderno específico para anotá-los também será fundamental. Dada esta preparação básica a técnica é apresentada, uma técnica que propõe a interrupção do sono após seis horas dormidas, contendo instruções de sensações auto induzidas e afirmações positivas com a intenção da lucidez.

O livro dá dicas sobre como treinar sua consciência para viajar por lá de forma tranquila e proveitosa, sempre respeitando seu tempo. Uma vez que tenha alcançado a lucidez, aproveite! Se você não acha que pode voar por si mesmo, crie asas. Se precisa ir para um outro país, use uma máquina de teletransporte. Se quer explorar o fundo dos mares, vire um peixe. Sua imaginação é o seu limite. Os autores tratam ainda de pesadelos, curas, incubação de sonhos, predição do futuro e dos seres - humanos e não humanos - que podemos encontrar por lá, o nível de consciência deles e de que forma esta relação pode lhe ser proveitosa, mas ressaltam que deve se tratar seus habitantes com educação, afinal de contas você não sabe quem ou o que são eles de fato...

Sonhos Lúcidos é um daqueles livros que dá prazer de ler e ver. É ricamente ilustrado e tem uma diagramação em estilo de revista, com caixas de relatos independentes espalhadas aqui e acolá, e capítulos que sempre são finalizados com um resumo. É feito tanto para aqueles que nunca ouviram falar em viagem astral, como para aqueles já familiarizados com este universo, uma vez que sua neutralidade não apele nem para o campo científico ou esotérico, estando mais preocupado em apresentar técnicas leves, descontraídas e efetivas a todos os interessados. Prático e ideal.

por Allan Trindade



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domingo, 2 de dezembro de 2018

Sempre pensei sobre o absurdo que era uma figura tão famosa quanto Baphomet não ter uma publicação inteira dedicada a seu nome e sua história. Eu mesmo, em um lapso de ousadia, pensei em assumir a responsabilidade de fazer esta pesquisa e, quem sabe, publicar o livro que gostaria de ler. Mas as contas não se pagam sozinhas e as responsabilidades do mundo real acabaram por me fazerem dar prioridade a outros projetos. Mas tudo bem, pensei, alguém há de preencher esta lacuna um dia.

 O LIVRO DE BAPHOMET é um livro com capa dura, escrito por Julian Vayne e Nikki Wyrd, com 223 páginas, divididas em 36 capítulos e foi publicado no ano de 2017 pela editora Penumbra.


O universo e sua origem é uma incógnita. Fruto de teorias das mais diversas, tanto no campo da ciência e especialmente no campo da religião, este lugar tão vasto e desconhecido por nós, não se permite desbravar de maneira fácil. Talvez porque, tal como o mar, seja profundo. Assim como também o é nossa mente. Tudo aquilo que é profundo, parece nos dizer a natureza, é difícil, labiríntico, inacessível pelos meios convencionais. Porém, complexo não é sinônimo de impossível e o ser humano sempre se arrisca. Neste livro tudo começa assim, bilhões de anos atrás, a gênesis das estrelas, planetas, da Terra e nós, como consequência de tudo isso. Por um segundo até pensamos que esta seria uma publicação científica ao invés de ocultista. Mas calma, há uma razão para isso.

Aqui tudo pretende mostrar-se interligado. Que a impressão de separação dentre coisas, teorias, tempo, ou o que quer que seja, são ilusões e que este próprio livro é uma teia que entrelaça as mentes dos autores e a 'terceira mente' - com seus muitos nomes genéricos e por vezes antropomorfizados -tão amalgamados aqui, que não há mais como distinguir o que é autoria de quem se não dos três.

Todo este obscurantismo característico dos fundamentos da criação, chamados por alguns de Deus, por outros de Deusa e por outros tantos de Deuses, aqui é tratado como Baphomet, mistério dos Cavaleiros do Templo, símbolo de Lévi, elemento da OTO, ferramenta da IOT e precursor da Maçonaria. Sob seu aspecto histórico, o destrinchamento começa com os Templários e as conspirações efetuadas por Filipe, o Belo, o Papa Clemente V e a condenação dos Cavaleiros a fogueira tendo como líder e maior mártir, Jacques Demolay.

A partir disso os autores nos apresentam Ordens e filosofias esotéricas que herdariam para si a tradição do uso e interpretação deste ser com cabeça de bode e corpo humano, para explicar suas próprias teorias acerca do universo e a existência. Num tempo onde ocultistas e cientistas se confundiam como sendo um mesmo, Vayne e Wyrd, tratam dos elementos históricos envolvendo figuras como Roger e Francis Bacon, Giordano Bruno, Elias Ashmole, William Harvey, Isaac Newton, o surgimento do conceito de ciência tal qual conhecemos hoje e a formação da Sociedade Real, além de outros. Com o desenvolvimento e a diferenciação dos campos, os autores passam a abordar de forma mais específica os contextos que a partir de Eliphas Levi começariam a tratar Baphomet sob diversas interpretações ocultas possíveis, sempre destacando sua relação com o obscurantismo, a associação feita com deuses pagãos antigos, a natureza e o entendimento deste signo-ser-ideia como anima mundi.

Para além dos pontos históricos, desenvolvidos e espalhados ao longo dos capítulos, alguns textos tem um caráter poético e até mesmo ético que levam o leitor a refletir sobre sua própria participação e interferência neste mundo que vivemos, as responsabilidades que temos para com todos os outros seres que nos circundam e que esta consciência de universalidade e responsabilidade ambiental está intimamente ligada ao conceito de Baphomet. Em seus últimos capítulos, a Magia do Caos é introduzida, e uma série de outras questões são abordadas. Aqui as definições de Carrol são apresentadas, o uso da Missa do Caos B, de sexo e drogas como o DMT, 5-MeO-DMT, e uma série de relatos de experiências e rituais, além de indicações de práticas de alguns deles, tais como o Ritual Gnóstico da Caosfera dentre outros.

O livro fala pouco sobre o Baphomet histórico, muito provavelmente em função do material disponível ser extremamente escasso, sendo mais especulativo que factual na maior parte dos casos. Trata com certa profundidade das possíveis origens dos Templários e toda a relação histórica que se desenvolveu a partir dali, não só em relação a ocultistas como a cientistas, dando especial ênfase a certos aspectos da ciência materialista. É uma publicação de caráter poético, filosófico, com uma inclinação a um certo senso de responsabilidade ética, tendo Baphomet como símbolo do conceito ecológico, e que em seu aspecto mágico, é voltada para praticantes da Magia do Caos. No mais, os autores escrevem muito bem. Cativam e tornam a experiência da leitura, independentemente ao assunto, bastante agradável.


por Allan Trindade





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