domingo, 3 de janeiro de 2021

A magia - enquanto ferramenta da crença humana que pensa ser possível alterar a realidade presente ou futura através do uso de entidades espirituais - possui um interessante desenvolvimento evolutivo quando vista de perto. Se antes poderíamos dizer que esta se limitava a ideia de que desencarnados, fadas, anjos, demônios e divindades ditavam o sucesso ou fracasso das operações ritualísticas, modernamente vimos surgir um novo conceito, uma nova forma de prática, mais crua, direta e independente, distante dos objetivos místicos e teúrgicos tão comumente vistos em suas correntes mais tradicionais, e que normalmente faz uso apenas da intenção e energia mental do praticante. 

Com o advento da Magia do Caos, uma nova classe de magistas faria surgir, em meio aos influxos astrais que nos circundam, sigilos e servidores mágicos criados a partir das próprias energias psíquicas e também não raras as vezes seminais. Moderna e curiosa. Vanguardista com pitadas de tradicionalismo. Excêntrica em suma. Mas será eficaz?

O GRIMÓRIO DOS QUARENTA SERVIDORES é um livro escrito por Tommie Kelly, com 256 páginas divididas em 6 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Penumbra Livros.

Todos aqueles que já ouviram falar ao menos uma vez em magia do caos, muito provavelmente já ouviram dizer que se trata de um sistema mágico que lida com sigilos. Sigilos podem ser basicamente definidos como formas gráficas aleatórias, criadas a partir de textos modificados que contém a intenção mágica do praticante ocultada em suas linhas. Estes sigilos são feitos com uma intenção única, por exemplo, conseguir uma quantia específica de dinheiro, um livro, algum sentimento que o magista não disponha naquele momento, ou quaisquer outras coisas que sua criatividade e intenção mandarem. São feitos para serem absorvidos, destruídos e esquecidos. Funcionam como disparos mágicos do praticante lançados a partir de sua mente consciente contra as barreiras de sua própria mente subconsciente, plantados ali para germinarem em meio às trevas em direção à luz da superfície de sua vida. Se comparados a uma terminologia mais tradicional, são como feitiços, sem utilizar-se, entretanto de todos os elementos naturais, tais como pedras, animais e ervas que estes costumam exigir. Para um praticante de magia do caos, um pedaço de papel, caneta e um orgasmo costumam ser suficientes.

Porém, se podemos dizer que sigilos não possuem nada além de uma função específica, limitada e que estão destinados ao esquecimento literalmente, o mesmo não pode se dizer de uma outra ferramenta mágica igualmente característica deste segmento moderno de magia: os servidores. Servidores são iguais a sigilos do caos por sua artificialidade. Não são entendidos como sendo fadas, espíritos ou mesmo divindades advindas dos processos universais da criação, mas ao contrário, são frutos da mente do próprio magista, que os produz intencionalmente com forma, nomes, selos, comportamento, áreas de atuação e meios de subsistência pré-programados, tal como robôs, porém, astrais. Agem em função de sua programação e o principal: são feitos com personalidade e para durar.

Tudo bem, talvez você esteja pensando que este conceito não é tão novo assim e já vem sendo ensinado pela Tradição há muito tempo, visto que alguns os chamariam simplesmente de elementares, mas há uma pequena diferença entre estes conceitos que preferimos não entrar em detalhes aqui para não tornar o texto desnecessariamente extenso. Neste ponto pensamos ser suficiente dizer que embora ambos os conceitos sejam conhecidos pela tradição mágica, sigilos e servidores foram adaptados e modernizados de acordo com as diretrizes da magia do caos que por sua vez, bebe fortemente de fontes advindas do Zos Kia Cultus.

Tudo isso para falarmos deste interessante livro de Tommie Kelly chamado O Grimório dos Quarenta Servidores. Por não terem uma existência prévia, servidores dependem apenas da criatividade e habilidade mágica daquele que os criou para tornarem-se vivos. E foi lançando mão de suas competências artísticas alinhadas a sua experiência com o oculto, que este magista decidiu gerar quatro dezenas de seres, cada um alinhado com um objetivo específico que lhes dá nome, desenhados com sigilos próprios e formas características que ilustram toda a obra. E que bela obra: capa dura, ótima diagramação com conteúdo em cores, e para aqueles que apoiaram a produção do projeto (pois este livro fora produzido incialmente a partir de metas de crowdfunding), ainda alguns brindes como moeda, marcadores de páginas, adesivos dentre outros.

O livro é chamado de grimório pois traz em seu conteúdo os conceitos do autor sobre o que seja magia e como a mesma funciona, suas opiniões sobre o que sejam sigilos, servidores e egrégoras, divinação, feitiços e o principal: como ativá-los através de um extenso ritual sugerido, a ser praticado diariamente durante mais de quarenta dias (um para cada servidor), para que eles estejam sempre a sua disposição no momento em que você precisar. O livro ainda foi ampliado, em função do alcance das metas estendidas, com uma série de apêndices contendo entrevistas e tabelas adicionais que visam melhorar o entendimento sobre a função de cada um dos quarenta. Tudo muito bem explicado e organizado, apesar do aparente estranhamento que a palavra caos possa causar na mente de alguns...

E para aqueles que adquirem o conjunto, o grimório vem acompanhado de um deck contendo cada um dos quarentas servidores de modo que estes possam também ser usados na forma de cartas como oráculo para divinação, ou qualquer outro uso que você resolva dar, o autor faz questão de salientar. Além dos quatro diabos, quatro servidores extras incluídos no final da publicação. 

No começo desta resenha questionamos a eficácia destes métodos modernos, muito mais como uma provocação, coisa bem característica deste segmento que é essencialmente empírico. Aqui não há nenhum apelo à tradição, a antiguidade, ou sucessão de linhagens mágicas. Tudo é feito a panos claros com um objetivo preciso de resultados, sem entretanto se emocionar com a eventual falta deles. O grimório dos quarentas servidores oferece uma experiência moderna de interação com entidades artificiais que podem ter muito a lhe oferecer. Ou não, afinal de contas, isso só você, e quem sabe eles, poderão de fato dizer... 

por Allan Trindade



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terça-feira, 22 de dezembro de 2020


Na disputa eleitoral pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro no ano de 2020, o então prefeito da cidade, ao citar seu concorrente, ironizou e menosprezou o fato do mesmo usar, durante as festividades de carnaval, um chapéu atribuído a uma entidade das religiões de macumbas brasileiras. Sendo este mesmo prefeito um cristão declarado, e bispo de uma igreja protestante criada por seu tio, tal episódio discriminatório tampouco apresenta-se como uma exceção quando advindo de pessoas deste segmento religioso. 

Curioso é saber que apesar das acusações contra Zé Pelintra, os zé Pilantras de verdade costumam ser justamente aqueles que lhe apontam o dedo...e aquele que disse que exu tá amarrado, na data de hoje foi encarcerado! 

ZÉ PELINTRA é um livro psicografado por Mizael Vaz, ditado pelo espírito de José Porfírio Santiago, contém 144 páginas divididas em 3 partes e foi publicado no ano de 2016 pela Madras editora.

Este é um livro biográfico que, segundo o autor e médium, fora criado a partir de uma série de relatos reunidos nas várias sessões de incorporações e contato com o espírito citado. José Porfírio Santiago é seu nome. Nascido no século XIX no nordeste brasileiro, preto, filho de escravos alforriados, teve a sorte de ser fruto do amor verdadeiro de seus pais e afilhado de um abolicionista que sempre dera-lhe condições para trabalhar e estudar conforme a liberdade da época permitisse. Mas a bem da verdade, José Santiago, doravante Zé, não era muito dado a certas vantagens que a vida lhe proporcionara. 

Todos viviam bem até que mancomunado com sua irmã mais velha, ainda na adolescência, e contra a vontade de seu pai, passou a facilitar os encontros da jovem com um marginal das redondezas em troca de alguns doces. Tudo passou-se bem até o dia em que Maria engravidou. Seu pai jamais a perdoou pelo deslize. Foi abandonada pelo mal falado meliante e seu pai queria mesmo era expulsá-la de casa, mas graças aos pedidos da esposa, permitiu que a garota permanecesse, tratando-a com eterna indiferença a partir daquele momento. O desgosto, porém, mostrou-se um fardo pesado demais para que seu pai carregasse, e para amenizar sua dor, afundou-se no álcool. A vida de todos mudaria absolutamente a partir daquele ponto, e a família que um dia fora exemplo de amor e harmonia, transformara-se em sinônimo de raiva e desunião.

 O casal, pai e mãe de Maria e Zé, passaram a brigar diariamente. Zé sentindo-se culpado por toda aquela situação, viu-se na obrigação de defender sua mãe contra as investidas de violência de seu pai, e foi num desses episódios, depois de vê-la apanhar, que revidou atacando aquele bêbado que tinha a obrigação de chamar de respeitar. Seu genitor considerava inadmissível que um filho agisse daquela forma contra ele e jurou-o de morte. Irredutível na decisão de que o mataria, Zé fugiu para salvar sua vida. Ajudado por seu padrinho, Coronel Silva, dono da fazenda, caiu na estrada em busca de um novo lugar para viver. Zé procurava um lar porque não sabia que seu lar era o mundo!

É desta forma que começa a história deste espírito que receberia a alcunha de Zé Pelintra. O destino ainda lhe reservava uma série de eventos que o conduziriam a uma vida de jogatinas, prostituição, malandragem, roubos e assassinatos, equilibrados pela força elevada do Catimbó e sua sabedoria ancestral advinda dos espíritos e das ervas.

Se na primeira parte do livro o autor nos apresenta os elementos materiais de sua história, na segunda encontramos sua vivência nos planos espirituais após sua morte, e por fim, uma seleção de pontos cantados para Zé Pelintra, pontos riscados, receitas de beberagens, simpatias, magias e feitiços para os mais diversos fins.

"Eu sou preto, sou preto todo dia. O meu nome é Zé Pelintra, Zé dos Anjos é na Bahia. Minha mãe sempre dizia que o sol é um farol, me ensinou a fazer macumba e desmanchar no meu paiol. A bananeira que eu plantei a meia noite já deu cacho. Aqui neste terreiro eu quero ver estes cabras teimosos, que riscam ponto, achando que é macumbeiro, bater de frente com despacho."

por
Allan Trindade

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" Esta é uma Ordem perigosa, várias pessoas tiveram suas vidas destruídas depois de se envolverem com ela, teve até caso de suicídio! "

" Por que você está resenhando este livro? "

" Você não sabia que muitas pessoas que um dia estiveram envolvidas com esta Ordem não recomendam qualquer aproximação com ela? "

" Quanta irresponsabilidade! "


ORDO BAPHOMETIS é um livro escrito por Walter Jantschik, traduzido por Frater Iskuros, contém 48 páginas divididas em 6 capítulos e foi publicado no ano de 2018 pela Daemon Editora.

Todos aqueles que acompanham o Resenha Oculta já puderam notar que há um padrão para nossas publicações: primeiro a resenha escrita, depois o lançamento do vídeo. Este caso, entretanto, foi uma exceção. E não foi uma exceção porque assim o planejei mas simplesmente porque aconteceu. Quebrar padrões e rotinas é importante as vezes. E como dizem alguns que nada é por acaso, talvez tudo isso tenha tido sua razão de ser. 

Os comentários destacados acima foram extraídos de mensagens públicas e privadas que recebi após o lançamento do vídeo, advindas de algumas pessoas genuinamente preocupadas com o fato do que uma publicação deste tipo pode acarretar para a vida de outrem. Em um mundo repleto de egoísmo, é uma atitude no mínimo bonita de se ver. Porém, faz-se necessário esclarecer que o Resenha Oculta não tem por objetivo fazer julgamento sobre as decisões alheias. Não posso ser eu aquele que vai dizer se uma pessoa deve ou não enveredar-se por este ou aquele caminho, mesmo sabendo que outras pessoas possam ter tido prejuízos com isto. E isso pelo simples fato de que nossas escolhas e consequências dizem respeito as nós mesmos, e o que aconteceu para um, pode simplesmente não acontecer para outro. Tratemos do conteúdo do livro em si para exemplificar tudo isto.

Este livreto fora publicado no ano de 2018 com a introdução de que a Ordo Baphometis é uma Ordem mágica, hermética e gnóstica. Em seguida, na apresentação assinada por Frater Iskurus, encontramos uma pequena biografia sobre o início da Ordem, a qual se lê, dentre outras coisas, que este livro fora publicado originalmente em 1988, que o conteúdo nele apresentado fora escrito por Walter Jantschik (1939 - 2013), um ex Grã-Mestre da Fraternitas Saturni que migrou para a Ordo Saturni na década de 80. De acordo com a apresentação, a Ordem Baphometis fora criada em 1986, ou seja, dois anos antes deste livro, e a primeira Loja instalada em terras brasileiras ocorreu apenas 1999, ou seja, cerca de 13 anos após sua criação. 

Esta edição apresenta que os objetivos da Ordem são aqueles que buscam trabalhar em contraposição ao constante movimento polarizador perpetrados, segundo o autor, pelos mais diversos segmentos espiritualistas que intencionam desmaterializar o planeta. Esta Ordem busca, através de meios mágicos então, contrabalançar o constante apelo de sutilização da materialidade terrestre, exaltando a legitimidade física do mundo. 

Sendo dividida em 99 graus iniciáticos, a Ordem tem em Baphomet seu principal elemento de força, atribuindo a ele a origem de sua gnosis, e apresenta uma séria de rituais praticados em seu interior.

O tempo de existência da Ordem até a criação de sua célula brasileira unida a nenhum tipo de advertência sobre os fatos vivenciados por seus membros nesta publicação, pode indicar que apesar dos efeitos sofridos por alguns, isto pode não ter sido sentido por todos a nível internacional (lembremo-nos que esta não é uma Ordem brasileira). E destacar este ponto não significa que estejamos incentivando quem quer que seja a arriscar, da mesma forma que também não significa que estejamos dizendo que não o façam.  

Por isso faz-se necessário deixar claro aqui nossa posição sobre estes elementos: a intenção do nosso trabalho no Resenha Oculta é tão e somente aquele de expor conteúdos literários e analisá-los criticamente sob o viés da coerência daquilo que é apresentado pelos autores das obras. O Resenha Oculta objetiva estimular a leitura, pertencente a qualquer linha, filosofia, sistema ou prática, desde que enquadradas nos parâmetros estabelecidos sobre o que seja religião, ocultismo, esoterismo e demais segmentos da espiritualidade.

Ter este livreto não te obriga a nenhum tipo de afiliação ou ligação com a Ordo Baphometis, mas sem dúvidas, faz com que tenhas em mãos um documento histórico de uma Ordem que, seja por sua força criativa ou destrutiva, mostrou seu poder.

por Allan Trindade


post scriptum: e segundo fontes confiáveis, mesmo que alguém o quisesse, não poderia mesmo integrar as fileiras desta Ordem, visto que até a presenta data, a Ordo Baphometis não existe mais oficialmente no Brasil e nem mesmo no mundo.


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sexta-feira, 13 de novembro de 2020


Ideias sobre demônios permeiam e sempre permearam o imaginário humano. E engana-se quem acha que tal pensamento - ou percepção - é exclusividade de uma única religião ou segmento espiritualista
. Muitas são as doutrinas que descrevem a existência de tais seres, muitas vezes nem tão maléficos como costumam ser imaginados, mas inegavelmente e comumente potencialmente nocivos a existência humana. Nossa herança cristã nos legou tal conceito e temor, mas as fontes judaicas podem explicar mais especificamente certos detalhes oriundos destas crenças.

DIALOGOS SOBRE DEMÔNIOS é um livro escrito por Rav Zadok Hakohen e Rafael Resende Daher, contém 211 páginas divididas em 8 capítulos, e foi publicado no ano de 2020 pela Mubarak editorial.

A vida de sucesso do rabino Zadok, coautor desta publicação, começou cedo. Por volta de seus 12 anos de idade já se destacava em sua comunidade através de seus escritos responsivos aos textos judaicos. Progressivamente aumentou sua dedicação, seu envolvimento e religiosidade, casando-se jovem, ainda com seus 15 anos, provando sua maturidade precoce, embora este mesmo fator possa ter sido fonte para seu pronto declínio. Divorciou-se graças as fofocas alheias que punham em pauta a fidelidade de sua esposa, e buscou em outros ares o apoio de rabinos que apoiassem sua decisão. Casou-se ainda por mais duas vezes, sem entretanto nunca gerar filhos, o que considerou como um provável castigo pela forma como tratara sua primeira mulher. 

E é assim que Rafael Daher nos introduz esta publicação bilíngue que trata das especificidades literárias da tradição hebraica voltadas para a tratativa e relação com demônios dos mais diversos tipos. Destaca que neste estudo, serão apontados as relações existentes no ideário dos grimórios componentes da Tradição Salomônica de magia, e suas origens bíblicas, cruzando conexões percebidas entre as tradições cristãs, islâmicas e judaicas, entretanto sem fazê-lo de forma diretamente comparativa. 

Daher salienta que, apesar do destaque para este ponto, este livro não se propõe a analisar de forma pormenorizada e lateral os textos encontrados em todas estas tradições, mas de outra forma, busca nas fontes hebraicas passagens e versículos que indiquem para o leitor a provável origem deste ou daquele conceito Salomônico, ou mágico, de modo que, em tendo conhecimento de ambas as tradições, o próprio legente estará habilitado para perceber suas origens e influências. Assim, ao encontrar em um grimório, por exemplo, que Salomão construíra seu templo com ajuda de demônios, apresenta quais textos originais tratam dos detalhes desta história e desenvolve seus argumentos sobre estas fontes. 

Como destaques adicionais, acrescenta histórias sobre Adão e sua relação (inclusive sexual) com demônios. Lilith e sua fama distorcida no ocidente, visto que segundo a literatura, nunca fora ela símbolo de independência feminina, mas que toda esta ideia de rejeição a Adão fora criada a partir de um texto denominado Alfabeto de Ben Sirach, obra de conteúdo antissemita que traz uma série de histórias bizarras sobre sexo e flatulências, que ganhou destaque através de discursos feministas do século XX. A influência que os egípcios teriam exercido sobre os israelitas e sua adoração pagã a animais e o sacrifício dos mesmos para aqueles demônios de lá. A Torre de Babel e a transformação de alguns de seus habitantes em diabos por seu desejo de praticar idolatria. Necromantes e a enganação que praticam ou sofrem, visto serem os demônios os agentes de suas predições sobre o futuro, demônios estes que atuam sob a supervisão do Deus de modo a testar a observância de suas regras. As disputas destacadas no Sepher ha-Zohar entre a Luz e as Trevas e a punição das almas no Gehenom. As tigelas babilônicas e seus feitiços, dentre outros.

O livro se encerra com um capítulo escrito pelo próprio rabino Zadok Hakohen e suas explicações sobre Cabala, a Árvore da Vida, as sephiroth e qliphot, sendo estas últimas, segundo o autor, as cascas de proteção criadas para que a pureza e potência do poder divino emanado não destruam a criação. A existência das qliphot e sua força negativa, entretanto, seriam o motivo para a confusão exercida sobre muitos daqueles que delas se aproximam e que se sujeitam as suas más influências, tornando-os tão impuros em alguns casos, que nada mais lhes resta, nesta ou em outra vida, se não o inevitável destino de tornaram-se eles próprios demônios em si.

Todos aqueles que conheçam minimamente personagens como Moises, Salomão, Ashmodeus, Azazel,  ou mesmo itens específicos como Urim e Tumim, dentre outros elementos da tradição judaica, entenderão a proposta desta publicação. Um livro de referências que indica certas fontes da magia, religião e crenças populares que pode ser aproveitado de forma igualmente proveitosa por curiosos, pesquisadores ou esoteristas que se apoiem sobre as bases tradicionais da magia ocidental.

por Allan Trindade



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sábado, 17 de outubro de 2020

A religiosidade yorubá é essencialmente rica. Sua cosmogonia e visão espiritual nos falam sobre uma incrível diversidade de deuses e espíritos que em suas próprias existências e individualidades, se conectam entre si, a nós e aos destinos de nossas vidas. E tudo isso surge não de uma especulação supersticiosa sobre a vida e o pós vida, como costumam alegar os descrentes para justificar seus ataques contra o mundo das religiões e da espiritualidade. Mas de uma visão empírica sobre a existência, que quando observada a partir de uma perspectiva natural, faz notar, sem muito esforço inclusive, que tudo está conectado. Pare e pense sobre como as chuvas afetam o clima. Como os ventos orientam os pássaros. Como aquela abelinha acolá é responsável pela disseminação do pólen que faz com que as plantas floresçam e garantam que o apaixonado possa entregar um buquê de flores como prova de seu amor para um ente querido. O quanto você necessita de tudo aquilo que está ao seu redor para viver e sobreviver.

Sim, estas são forças naturais, físicas por assim dizer, mas que, assim como nós, também são orientadas por uma origem espiritual. Ou ao menos assim nos dizem seus adeptos.

As diversas conexões existentes entre tudo aquilo que existe nos oferecem ainda uma outra conclusão: a de que tudo possui uma origem. Esta origem explica aquilo que é, e aquilo que é tende a definir aquilo que será. Nada é por acaso. E é sobre esta certeza que se baseia Ifá. 

IFÁ é um livro escrito por Fernandez Portugal Filho com 198 páginas divididas em 24 capítulos e foi publicado no ano de 2014 pela Madras editora.

Podemos nos maravilhar sobre a beleza destas conclusões filosóficas e poéticas, mas sabemos: a vida real não é sempre tão bela assim. E é claro que se podemos observar a beleza das coisas, a oposição sempre chega, mesmo que a nosso contragosto, para nos dizer que a feiúra também existe. E assim a vida é. Se somos rodeados de seres de origem material e espiritual simpáticos a nossa existência, também o somos por seres antipáticos, e por vezes, para conseguir viver bem é preciso saber a quantas anda nossa popularidade na comunidade que nos rodeia. 

Orunmilá, o deus da sabedoria, é o orixá responsável pelo oráculo conhecido como Ifá a qual também seu nome lhe é atribuído. Segundo a tradição yorubana, Orunmilá fora enviado para a Terra por Oludamarè, o deus supremo, de modo que pudesse consertar algumas coisas que andavam estranhas por aqui. Sendo Ifá conhecedor de tudo que existe, e na companhia de Exu, responsável por fiscalizar como tudo estava se dando, desceu, cumpriu sua tarefa e deixou para nós os instrumentos necessários para que o contatássemos quando necessário, visto nossa visão ser limitada, e a dele, transcendental. 

Mas calma, qual relação existe entre um oráculo que possui o nome de um orixá e o mundo dos homens e dos espíritos? Como dissemos nos parágrafos anteriores, Ifá nos abre os olhos para as coisas que não conseguimos ver, e nos explica as razões para tudo aquilo que existe e o que deve ser feito para neutralizar e positivar as situações que atravancam o nosso progresso físico e espiritual. Assim, o sacerdote de Ifá, também conhecido como babalawo, orienta o consulente sobre quais oferendas devam ser prestadas aos espíritos ou divindades, para que tudo fique normalizado na vida daquele o consulta. 

Percebe como esta lógica também se aplica a vida material? Uma pessoa isolada, de poucos amigos, antipática para com aqueles que a rodeiam, tende a ter mais dificuldades na sociedade em que vive, que uma pessoa mais extrovertida e querida por todos. Se temos a preocupação de estarmos bem com nossos pares físicos, a mesma preocupação deveria ser destinada a nossos pares espirituais, não?!

O método consiste em: o babalawo faz uso de uma série de instrumentos mágico-oraculares, sendo o principal deles conhecido como Opele, lança-os na tábua, interpreta as imagens formadas conhecidas como Odu a partir da memorização de centenas de versos que, de acordo com a tradição, relatam histórias e eventos das vidas dos orixás. De acordo com a história do verso, e o teor daquele acontecimento, o sacerdote então corresponde o evento ao que está passando na vida do consulente. A indicação de um ebó(oferenda) é então sugerida para que aquele eventual problema seja solucionado ou evitado.

Estes Odu consistem em uma sequência de dezesseis figuras binárias, contendo um ou dois pontos, em quatro linhas horizontais de formação. Da combinação destas dezesseis figuras, duzentos e cinquenta e seis pares são formados, e todas conjunções se conectam a milhares de versos a serem acessados pelo sacerdote de memória. Os ebós, enfim, também se dividem em diversos tipos para os mais diversos fins e espera-se que o consulente preencha determinados requisitos para que as coisas funcionem bem, tais como recitação de versos em yorubá e resguardos específicos para cada oferenda, que podem incluir elementos simples como mel ou ervas, até coisas mais complexas como pombos vivos e ratos secos.

Este livro de Fernandez Portugal Filho é organizado numa sequência de capítulos que primeiro introduz o leitor aos instrumentos usados pelo babalawo, passando pela mitologia de Ifá e sua relação com outros orixás, tais como Exu, Olorun e Oxalá, apresenta os dezesseis odus e toda a complexidade de relações e significados de cada um deles, incluindo alguns de seus versos, e conclui apresentando os diversos tipos de ebós e suas finalidades, além dos momentos lunares mais propícios para realizá-los. 

É um livro essencialmente introdutório, que apresenta ao leitor que nunca tenha tido contato com esta religião os elementos básicos de sua constituição, sem com isso ser excessivamente raso ou enfadonhamente específico. É completo a sua maneira: simples, instrutivo e esclarecedor.

por Allan Trindade


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sábado, 26 de setembro de 2020

 


O Livro das Mentiras, que é também falsamente chamado QUEBRA, os devaneios ou falsificações do pensamento único de Frater Perdurabo, cujo pensamento é, em si mesmo, falso.

Quebra, quebra, quebra ao pé de tuas pedras, Ó Mar! e se pudesse eu pronunciaria os pensamentos que surgem em mim!

O LIVRO DAS MENTIRAS é um livro em capa dura, escrito por Aleister Crowley, contém 224 páginas divididas em 93 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Daemon editora.

Eis uma das principais obras de Aleister Crowley, famosa por sua excentricidade e estranheza. O Livro das Mentiras, ou Liber 333 (e ser a metade de 666 aqui também não é feito por mero acaso), é constituído de 93 capítulos encabeçados por numeração, a qual, baseada em conceitos cabalísticos, direciona o sentido dos textos, que são sempre compostos por títulos exóticos, versos, rituais, expressões filosóficas ou mesmo de amor, e suas explicações na página seguinte.

"... [nele] Existem 93 capítulos: nós contamos como capítulos as duas páginas preenchidas respectivamente com um ponto de interrogação e exclamação. Os outros capítulos contém as vezes uma única palavra, frequentemente de meia dúzia a vinte frases, ocasionalmente algo em torno de doze a vinte parágrafos. O assunto de cada capítulo é determinado mais ou menos em função da importância cabalística de seu número. Assim o capítulo 25 fornece uma versão revisada do Ritual Menor do Pentagrama; 72 é um rondel com o refrão "Shemamphorash" , o Divino nome de 72 letras; 77 Laylah, cujo nome acrescenta aquele número, e 80, o número da letra Pé, referenciado a Marte, um panegírico sobre Guerra. Algumas vezes o texto é sério e vai direto ao ponto, outras  seus oráculos obscuros demandam conhecimento profundo da Cabala para sua interpretação, outros contém alusões obscuras, jogo de palavras, segredos expressos em criptogramas, duplos ou triplos sentidos que podem ser combinados com o objetivo de apreciar seu sabor total; outros novamente são sutilmente irônicos ou cínicos. A primeira vista o livro é um poço de falta de noção criado para ofender o leitor. Ele exige estudo infinito, simpatia, intuição e iniciação. Dado estes fatos eu não hesitaria em dizer que nenhum dos meus outros escritos eu ofereci tão profunda e compreensiva exposição da minha filosofia em todos os sentidos..."
Confessions

Ter um conhecimento mínimo sobre Cabala e o diagrama da Árvore da Vida faz-se mister aqui, vide a constante referência a este sistema esotérico. O livro começa com um poema onde Frater Perdurado - um dos nomes iniciáticos de Crowley - traça o plano de existência e manifestação do Universo: Ain, Ain Soph, Ain Soph Aur, que classifica como " A Tríade Anterior Primordial Que é NÃO-DEUS "; Kether, Chokmah e Binah como " A Primeira Tríade Que é DEUS EU SOU "; Daath como " O Abismo ", e assim sucessivamente até a conclusão de todas as esferas. Sobre este capítulo diz que "...pode, então, ser considerado como o mais completo tratado sobre a existência já escrito. " 

Exagero? Talvez. Errado? Está. Correto? Também!

Tudo isso pois o livro fora escrito sob a perspectiva de um alguém que, segundo a estrutura de seu próprio sistema mágico, religioso e filosófico - mas não apenas -, transcendeu o plano intelectual da dualidade, e alcançou uma visão e perspectiva sobre cada elemento da existência como conectado a fatores transcendentais à dicotomia vista a partir das perspectivas daquelas que não alcançaram tal posto. Logo, todo e qualquer binarismo é unido, afirmado, separado, negado, em um intercruzamento não linear de ideias e transcendido pela perspectiva da não divisão. Em outras palavras, o livro é assim chamado por conter em si ideias que são tão verdadeiras, e, ou, falsas, como tudo aquilo que é pertencente e percebido através da visão de quem ainda enxerga a vida a partir da perspectiva da Terra. 

O Livro das Mentiras é também o Livro das Verdades.

" O número do livro, 333, implica dispersão, de modo a corresponder ao título 'Quebra' e 'Mentiras'. Entretanto,  'o pensamento único é, em si mesmo, falso' e, portanto, suas falsificações são relativamente verdadeiras. Logo, este livro consiste em declarações tão verdadeiras quanto possível para a linguagem humana. "
Comentário

Mas não pense que toda esta aparente complexidade torna sua leitura impossível de ser compreendida por leigos. Alguns textos são absolutamente simples e não carregam nada além de uma mensagem direta para o leitor, como a indicação para não negligenciar as meditações diárias e matinais, por exemplo. Assim como alguns rituais, como a Missa da Fênix, que é exposta em sua completude nesta publicação, sem qualquer elemento misterioso sobre sua execução. Para além disto, dispormos desta edição em língua portuguesa e traduzida por thelemitas torna tudo ainda mais interessante, vide o cuidado e atenção para com o uso das palavras - que sabemos que os mesmos tiveram inclusive pela adição das notas de rodapé - , de modo que a essência de texto tão complexo não seja totalmente perdida. 

Liber 333 é essencial para todo thelemita e todo aquele interessado na obra de Crowley. Fora a partir da publicação deste livro que, segundo assim nos conta seu autor, o Outer Head of the Order da Ordo Templi Orientis teria entrado em contato com Aleister, alegando que o mesmo havia publicado os segredos de sua Ordem para-maçônica, tendo conferido a ele assim, o Grau IX da referida Sociedade. 

A partir desta publicação muitas coisas mudariam especialmente no contexto mágico e religioso de Thelema, mas isso já é assunto para uma outra história...

por Allan Trindade


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sábado, 22 de agosto de 2020


- VADE RETRO SATANA! Me diga seu nome! - ordenou o padre à jovem que, possuída e fragilizada pelas forças demoníacas que ocupavam seu corpo, naquele instante se debatia e mostrava os dentes como uma fera aprisionada e raivosa.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis! - disse enquanto tentava arrancar com as unhas a pele do sacerdote da Igreja de Roma.

- Demônio! Liberte esta serva de Cristo e me diga seu nome! 

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis!

- Satã, inimigo da fé! Me diga seu nome, serpente das trevas!

- NOMES! NOOOOOMES! Nosso nome é Legião, pois nós somos muitos!

RITUAL ROMANO: EXORCISMO é um livro em quadrinhos criado por El Torres com 119 páginas, divididas em 4 capítulos e foi publicado no ano de 2019 pela Darkside Books.

Possessão: o domínio de um corpo humano praticado contra um alguém que ainda esteja vivo, por alguma força de origem espiritual de um ser desencarnado ou ainda por alguma entidade præter-humana. Sem dúvidas um dos assuntos mais intrigantes pertencentes ao mundo da religião, especialmente explorado pela literatura e cinema através do viés cristão católico, e deveras banalizado pelas denominações pentecostais e neo pentecostais do protestantismo moderno. Quem nunca assistiu O Exorcista ou O Exorcismo de Emily Rose   está perdendo a oportunidade de conhecer dois grandes clássicos sobre o tema. Embora muitos desses filmes possam parecer pura ficção, eles sempre contém algo de realidade que fora usada para o desenvolvimento do roteiro. Não raras as vezes, esta parte de realidade costuma ser justamente aquilo que muitos gostariam que não fosse real...

Foi todo esse ar sinistro que permeia muito destas histórias que atraiu, desde a infância, a atenção de Paco Plaza, roteirista e diretor da série [REC] e Jogo Sobrenatural, que escreve no prólogo desta edição. Plaza considera carregar uma maldição: a maldição de sentir um forte desejo pelo sobrenatural, pelo monstruoso, pelo aterrorizante. É fato, como ele, existem muitos. E foi assim, e com essa sensação de que temos o mesmo gosto, que um dia encontrou os quadrinhos de El Torres, responsável pela produção da presente obra, junto de Jaime Martinez e Sandra Molina. E que bela obra esses três produziram! E que ótima edição essa da Darkside, não? Capa dura, diagramação impecável e ainda alguns mimos para envolver ainda mais o leitor com o clima da história: um marcador de páginas grande com o desenho de uma caveira, símbolo da editora feito para encaixar bem nesse livrão, uma base para apoiar copos inspirada nas hóstias católicas e uma cruz de madeira para você se proteger e não ficar com medo de dormir sozinho a noite.

Agora que já falamos sobre o que trata este livro e sobre a qualidade de seu conteúdo e forma, faz-se necessário deixarmos algo claro antes que você continue esta leitura. A partir daqui falaremos sobre a história em si - que sim, como o título sugere, trata de possessão e exorcismo -, e portanto teremos que dar um pequeno spoiler sobre qual o enredo se desenvolve. Nada que vá estregar a experiência da leitura, mas vale a pena te avisar. Portanto, se você é do tipo que não gosta de saber absolutamente nada sobre algo que está prestes a ler, melhor parar por aqui.

Tudo começa com um padre tendo sua cabeça decepada em meio aos corredores da Basílica de Pedro, no Vaticano. O sacerdote implorara por sua vida clamando a Deus que tivesse misericórdia, mas seu algoz não se importara com seu desespero, alegando que Deus simplesmente não está naquele lugar. 
Em outra parte do mundo, padre John, um jovem e problemático exorcista atende um caso de possessão: uma jovem que vivia amarrada a uma cama por ter seu corpo dominado por demônios. John, um dos melhores em seu cargo, cumpre a contento sua função. A jovem fora salva, mas ao retomar sua consciência, lhe diz: - Eles te enganaram, padre! Minha possessão fora apenas um plano para te despistar para que eles ganhassem tempo para seu plano maior!

Imediatamente um enviado da Santa Sé chega ao local com uma carta e uma convocação para que John voltasse imediatamente para lá. Ao chegar, em meio a aprovação de alguns e reprovação de muitos outros por sua escolha e histórico, um grande segredo lhe é confiado: o mais alto sacerdote da Igreja, o Papa, está possuído pelo demônio, e sua função é resolver esse problema!

Para todos aqueles interessados em uma história em quadrinhos de qualidade em todos os sentidos, Ritual Romano: Exorcismo, será um ótimo investimento.

por Allan Trindade


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